Conan Doyle morre de ataque cardíaco

Condensado de The New York Times, 08/07/1930
Tradução: Mundo Sherlock

Espírita, Novelista e Criador do Famoso Detetive Fictíco sofria há dois meses -Tinha 71 anos
Família Aguarda ‘Mensagem’
Filho confia que o Pai confirmará a existência de espíritos, na qual ele acreditava

LONDRES, 7 de julho. Sir Arthur Conan Doyle, criador de Sherlock Holmes e conhecido espírita, morreu hoje em sua casa, Windlesham, em Crowborough, Sussex.

Sir Arthur estava com problemas no coração há dois meses e fazia progressos contra a doença até que no último sábado um novo ataque cardíaco o fulminou.

Quando morreu, estavam ao seu lado Lady Doyle, seus dois filhos e sua filha. A indisposição de Sir Arthur foi atibuída ao seu trabalho na Escandinávia em outubro último, quando fez uma série de conferências sobre o espiritismo.

Embora Sir Arthur estivesse com a saúde debilitada há algum tempo, o fato não influenciou em seu trabalho. Até o fim, seu entusiasmo com a investigação psíquica era incansável. Em março último ele causou sensação ao renunciar da Society for Psychical Research, do qual ele havia sido um dos principais membros durante trinta e seis anos. Sua carta de renúncia foi escrita de seu leito, enquanto estava doente.

Conversas com Espíritos

Sir Arthur afirmou ter mantido conversações com espíritos de muitos grandes homens, inclusive Cecil Rhodes, Conde Haig, Joseph Conrad e outros. Adrian Conan Doyle, filho do novelista, disse hoje que a família inteira acredita que Sir Arthur continuaria mantendo contato com eles.

“Sei perfeitamente que terei conversas com meu pai”, disse ele.

Em seus últimos anos Sir Arthur expressou várias vezes que tinha em mente o desejo de se dedicar ao trabalho psíquico em detrimento de suas novelas. Quando ele celebrou seu septuagésimo-primeiro aniversário, no dia 22 de maio, que ele confessou ele estava cansado de ouvir falar de sua maior criação, Sherlock Holmes.

“Holmes está morto,” ele disse. “Eu fiz isso com ele”. Dez dos sessenta livros de Sir Arthur são sobre espiritismo.

Durante anos Lady Doyle foi sua companheira constante, o acompanhando em todas suas viagens. Foi à ela que o novelista falou suas últimas palavras:

“Você é maravilhosa”, disse ele com um sorriso.

Ele morreu tranqüilamente. Lady Doyle o acompanhou durante a doença até o fim.

Família aguarda mensagem

LONDRES, 7 de julho (AP)

Arthur Conan Doyle

Arthur Conan Doyle

A família de Sir Arthur Conan Doyle expressou hoje a convicção de que ele se comunicaria com eles do mundo dos espíritos, como ele havia prometido.

Adrian Conan Doyle, um dos filhos do novelista e espírita, perguntado se seu pai falou em se comunicar com a família depois de sua morte, disse:

“É claro, porque meu pai acreditava piamente que quando ele partisse continuaria mantendo contato conosco. Assim, toda sua família também acredita.

“Há uma pergunta que meu pai fará freqüentemente conosco, da mesma maneira que ele fez antes de partir. Nós sempre saberemos quando ele está falando, mas devemos ter cuidado porque existem ativos brincalhões no outro lado, como aqui.

“É muito possível que estes brincalhões possam tentar personificá-lo. Mas há testes que minha mãe conhece, como pequenos maneirismos de fala que não podem ser personificadas e que vai indicar se é meu pai que está falando”.

Adrian pagou tributo ao pai célebre. Disse ele: “Ele foi um grande homem e um pai esplêndido e ele foi amado – e estava feliz porque sabia disto – por todos nós.

A devoção que minha mãe e meu pai devotaram um ao outro foi uma das coisas mais belas que já conheci. Ela cuidou bem dele durante toda sua doença, até o fim”.

Sorrindo em seu sofrimento

“Suas últimas palavras foram para ela, e isso mostra o quanto ele pensava nela. Ele simplesmente sorriu para ela e disse, ‘ Você é maravilhosa’. Ele estava com muita dor para dizer muito. Sua respiração era muito ruim, e o que ele disse foi durante um breve flash de consciência. Eu nunca vi qualquer um enfrentar algo com maior bravura em toda minha vida. Até mesmo quando todos nós soubemos que ele estava sofrendo grande dor, que ele sempre administrou durante tempos, quando ele estava consciente, mantinha um sorriso no rosto para nós”.

Durante a última parte de sua vida, Sir Arthur se apresentou como heróico e ao mesmo tempo como figura um pouco trágica. Durante seus últimos anos ele dedicou praticamente todo seu tempo à propagação do espiritismo, e foi reconhecido como um dos grandes líderes do mundo naquela convicção. Devido sua associação com esta cruzada, que ele próprio caracterizou como impopular, ele gradativamente perdeu vários de seus velhos amigos literatos que não viam nenhuma virtude no espiritismo e inclinaram-se a vê-lo como um excêntrico.

Sir Arthur sentiu-se ofendido porque seus amigos não ficavam frente à frente com ele, mas nunca vascilou na busca da causa na qual acreditava. Ele abriu uma ” livraria ” psíquica e até um museu espírita em Victoria Street, junto à Abadia de Westminster. Ali criou um centro para literatura sobre espiristismo e distribuiu muito desse material pelo mundo.

Gastos com a aventura

Sir Arthur falou certa vez que gastara milhares de dólares de seu próprio dinheiro para manter a loja e o museu abertos. Mesmo esta aventura não o preocupou. “Estou em uma condição de fazer isto”, ele disse com um sorriso. “Eu poderia me aventurar com um iate a vapor ou mesmo cavalos de raça. Eu prefiro fazer isto”.

Não havia nenhuma dúvida na mente de Sir Arthur sobre a existência de espíritos. Uma de suas provas que espíritos existem era uma enorme fotografia que exibia o rosto de seu falecido filho, que o olhava por sobre os omboros. Ele mostrou este quadro ao correspondente e observou, simplesmente:

“Eu trabalhei com minhas próprias mãos naquele quadro. Ninguém mais o tocou. Como as pessoas podem duvidar quando têm uma prova como essa?”

Não há muito tempo, Sir Arthur disse:

“Eu empenho minha honra como o espiritismo é verdade, e eu sei que espiritismo é infinitamente mais importante que literatura, arte, política ou, na realidade, qualquer coisa no mundo”.

Sherlock Holmes duas vezes ressuscitado

Sir Arthur Conan Doyle ganhou fama universal como um dos maiores escritores de histórias de detetive pelos feitos criminológicos de sua personagem Sherlock Holmes. Talvez o próprio Holmes tenha ficado mais conhecido que seu próprio criador e o endereço fictício na Baker Street, em Londres, foi procurado por inúmeras pessoas que ficavam amargamente desapontados quando eram informados que Sherlock Holmes nunca tinha existido realmente.

Duas vezes depois que sua carreira havia sido definitivamente encerrada por seu autor, Sherlock Holmes foi ressuscitado, tão ávido era o apetite do público pelas narrativas que solucionavam os crime através de um raciocínio dedutivo e minucioso. A primeira vez foi em 1904, com “O Retorno de Sherlock Holmes“, após ele ter sido aparentemente liquidado no último conto que o antecedeu; e a segunda foi com a publicação de “Histórias de Sherlock Holmes“, em 1927. Posteriormente, Sir Arthur anunciou que de modo algum o grande detetive apareceria novamente.

Embora Sherlock Holmes tenha sido a fonte da fama mundial de Sir Arthur e o nome do detetive tenha se tornado um mito através do mundo, estas histórias, em um total de sessenta e oito, nunca foram consideradas pelo autor a parte mais importante de seu trabalho. Além disso, elas não ganharam reconhecimento imediato e, embora o primeiro volume de Sherlock Holmes tenha aparecido em 1887, seria por “Micah Clarke”, um romance histórico que apareceu o ano seguinte, que ele ganharia seu primeiro reconhecimento literário.

Foram os romances históricos que Sir Arthur sempre considerou a parte mais importante de sua sua obra e ele foi autor de muitos, entre eles “Sir Nigel ” e “A Companhia Branca”, considerado posteriormente seu melhor trabalho no gênero. Ele também dedicou muita energia para o trabalho jornalístico, incluindo dois livros que explicam a posição da Inglaterra na Guerra dos Bôeres, episódio pelo qual recebeu seu título, e outros trabalhos semelhantes durante a guerra mundial. Mas de todos seus trabalhos variados, o próprio Sir Arthur considerou sua dedicação ao espiritismo, que o ocupou durante a maior parte do período pós-guerra, como o esforço mais importante de sua vida.

Sir Arthur nasceu em Edimburgo, em 1859. Seu pai, avô, e tio foram artistas e caricaturistas de talento. Ele gostava de escrever praticamente desde a infância, apesar do fato de que foi educado para ser médico e ter praticado a medicina durante vários anos.

Primeiro livro aos seis anos

Seu primeiro livro foi escrito com seis anos e ele mesmo o ilustrou. Aparentemente, depois disso, não houve nenhum material escrito, mas durante os anos escolares ele ficou conhecido entre os colegas como um grande contador de histórias. Ele inventaria uma personagem no início do perído e manteria uma maravilhosa lista de aventuras que manteriam a personagem até que férias chegassem. A primeira história publicada foi durante seus anos como estudante de medicina e os três guinéus que recebeu lhe deram a convicção necessária que ele poderia escrever coisas pelas quais as pessoas pagariam.

Com tal capacidade narrativa, passou a mocidade se aperfeiçoando diretamente para aquele objetivo. Foi somente quando clinicava em Southsea que decidiu escrever com seriedade e diligência durante os intervalos que um jovem médico em início de carreira e desconhecido possuía. Mas a meia dúzia de anos anteriores tinham produzido muita experiência e ele deveria provar a si mesmo seu valor como um escritor.

Em primeiro lugar, eles o tinham colocado em contato com o homem que se tornou o protótipo de Sherlock Holmes. Era o Dr. Joseph Bell, um distinto cirurgião escocês e professor de Sir Arthur na faculdade de medicina da Universidade de Edimburgo. Dr. Bell possuia notáveis poderes de observação e dedução, pelos quais era capaz de quase realizar um diagnóstico apenas com a visão. Foram estas mesmas habilidades que, direcionadas para o crime, produziriam depois Sherlock Holmes.

A família de Sir Arthur nunca teve fundos abundantes, e o jovem estudante de medicina trabalhou como assistente durante seus verões para ajudar o custeio de sua formação médica. O trabalho nas ruas sujas das grandes cidades trouxe contatos diversificados que em tudo contribuíram para forrar a imaginação do autor. Uma viagem como cirurgião em um baleeiro durante um verão e uma viagem para a África como o cirurgião de bordo após ter colado grau como médico também contribuíram.

Começando a escrever no tempo livre

Estabelecido em Southsea, com poucos pacientes em seus primeiros dias de atividade, Sir Arthur começou a escrever seriamente. Histórias curtas publicadas anonimamente não provocaram nenhuma efeito rumo à fama literária, mas teve seu tempo de folga bem preenchido. Este período produziu a primeira das histórias de Sherlock Holmes, publicada com o título de “Um Estudo em Vermelho“, em 1887. No ano seguinte aparecia a publicação de “Micah Clarke”, que foi recusado por vários editores antes que Andrew Lang, leitor da Longmans, lesse a obra.

A carreira de um médico na qual ele estava ganhando algum sucesso, seria abandonada durante os dois anos seguintes, que foram dedicados à elaboração de “A Companhia Branca”. Depois de seu término, ele deixa a literatura pela medicina, dedicando algum tempo ao estudo para se especializar como oftalmologista, e se estabelece em Londres.

O tempo livre, porém, o achou escrevendo novamente e sua saúde começava a sofrer com o severo regime da clínica particular pela manhã, tardes de trabalho no hospital, e noites, ou uma boa parte delas, dedicadas à literatura. Desse modo, estava novamente diante do dilema de escolher entre duas carreiras promissoras, e ele abandonou definitivamente a medicina. Seu único retorno depois disso foi durante a Guerra dos Bôeres, quando ele serviu como comandante de um hospital britânico.

Em duas ocasiões Sir Arthur empenhou sua qualidades para descobrir crimes no mundo real. Em ambos os casos seu propósito era corrigir um erro judicial, e em ambos instâncias ele teve sucesso inocentando um homem que tinha sido condenado a um longo tempo de trabalhos forçados. Os beneficiários eram Adolph Beck, um sueco de nascença, cuja acusação por fraude foi resultado de um erro de identificação, e George Edalji, um jovem advogado cujo pai era um indiano oriental e cuja acusação de mutilar animais foi aparentemente provocada por evidências fabricadas, inspiradas pela impopularidade local da vítima.

Sir Arthur primeiro foi casado com Louise Hawkins, de Minsterworth, em 1885. Ela morreu em 1906, deixando um casal de filhos. Casou-se novamente com Jean Leckie, de Blackheat, em 1907 e o casal teve três filhos. Seu filho do primeiro casamento morreu na Guerra Mundial e essa tragédia foi um dos grandes fatores para que Sir Arhur dedicasse um interesse quase que exclusivo ao Espiritismo em seus últimos anos.

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