Morre Sir Arthur Conan Doyle, criador de Sherlock Holmes

Condensado de The Guardian, 08/07/1930
Republicado em 08/07/2013
The Guardian Archive

Autor popularizou o gênero de ficção policial. Antes dele, poucas histórias de investigação criminal foram bem-sucedidas

Sir Arthur Conan Doyle

Sir Arthur Conan Doyle

Sir Arthur Conan Doyle, ontem falecido, será para sempre associado às novelas policiais. Ele criou Sherlock Holmes, e todos nós conhecemos Sherlock Holmes muito bem. O fato de que Sir Arthur Conan Doyle tenha sido ao mesmo tempo um político e, ultimamente, um espiritualista, torna-se irrelevante quando comparado com sua fama de escritor de ficção policial. Para esta, que desenvolveu-se enormemente, ele é seu pai.

Este abundante interesse pela análise criminal é algo de data relativamente recente. Nossos antepassados ​​parecem ter apreciado execuções, mas tinham pouco interesse no processo que neles resultou. Contos de criminosos bem-sucedidos eram abundantes no século XVIII, mas nunca contos de investigadores criminais de sucesso.

Moll Flanders se arrepende, é verdade, e oferece grandes reflexões sobre o mal de suas escolhas, o que não a impede, entretanto, de com óbvio entusiasmo, travar uma longa e bem sucedida batalha com os oficiais da lei. E se um magistrado pode ser tomado como algo equivalente a um detetive, então, a julgar por Fielding, o magistrado teve em sua época uma visão muito mais tolerante de crime que o próprio Sherlock, que estava sempre pronto à intolerância, ou até mesmo que o sentimental Dr. Watson.

Sequer o romance vitoriano coaduna-se com a investigação do crime. De fato, ele geralmente faz do crime algo tão óbvio como um mal necessário para a investigação. Não houve necessidade de se analisar as cinzas de tabaco de Fagin para descobrir que ele era um trapaceiro. Um olhar teria bastaria. E somente as exigências do melodrama permitiram Sweeny [sic] Todd continuar suas práticas maléficas bem sucedidas por tanto tempo, da forma que sua caracterização foi popularmente apresentada.

O primeiro escritor que percebeu as possibilidades da investigação criminal na ficção foi Edgar Allan Poe. Em histórias como “Assassinatos na Rua Morgue” e “Mistério de Marie Roget” ele aplicou com sucesso o método de raciocínio indutivo para a solução de problemas criminais. Era um filão lucrativo, e agora todos lêem histórias de detetive. O apelo de tais história é, talvez, um pouco mórbido: o mesmo tipo de apelo que leva pessoas à fila durante horas para conseguir um lugar em um julgamento por assassinato ou juntar pequenos grupos em torno de uma porta fechada atrás da qual é sabido que uma execução vai acontecer.

Mas a ficção policial também atrai porque é puramente intelectual. Ou seja, é uma ficção que não cria problemas morais: análises ocorrem desvinculadas das emoções. E assim, para a maioria das pessoas surge uma espécie de alívio que combina com o nonsense de Edward Lear: alívio que surge do fato de que não se está conectado com a vida em nenhum sentido.

Não se trata, como no drama, de purgar emoções, mas há relação. Não precisamos decidir quem é o vilão ou herói em uma história de detetive; tampouco somos levados à conclusão de que não há heróis nem vilões, mas apenas pessoas. O conflito retratado é um conflito em direto, onde o detetive deve ganhar. É uma batalha intelectual, uma linha eterna ao invés de um triângulo tediosamente eterno. Assim, qualquer matéria estranha introduzida em uma história de detetive – o interesse amoroso, por exemplo – o compromete. Uma boa história de detetive deve ser totalmente detetivesca. As personagens sequer precisam estar vivas; são apenas forças opostas que operam no plano da obra. Para histórias de detetive, como no xadrez, existem aberturas e, ao final de um bom jogo, é sempre xeque-mate. Jamais devemos simpatizar com as personagens como seres humanos, mas apenas vê-las desempenhando seus papéis tão bem quanto um carburador em um motor funcionando perfeitamente.

Assim, o ambiente detetivesco encontra-se configurado, tal qual o mundo dos fantoches e, portanto, totalmente atraente para todos aqueles que encontram-se exaustos de suas atividades no mundo real. Isso permite esquecer o sentido de desordem crescente da vida, na medida em que é mostrada uma ordem em escala diferente. Ter provido este alívio aos homens é uma conquista considerável. E isto Sir Arthur Conan Doyle fez, e merece ser honrado por isso.

Tradução: Mundo Sherlock
Versão original

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