O verdadeiro Sherlock Holmes

Ilustração da matéria original, 1948Por Vicent Starret
Condensado de Seleções do Reader’s Digest, 1963

Pouca dúvida pode haver de que o verdadeiro Sherlock Holmes foi o próprio Sir Arthur Conan Doyle. De inúmeros modos, através de uma vida em que prestou extraordinários serviços, o novelista demonstrou a verdade desta assertiva. Do princípio ao fim – como estudante, médico, escritor, espiritualista e profeta – ele foi sempre o detetive particular, o investigador de verdades ocultas, o sabujo da justiça na pista da injustiça e da apatia oficial.

É verdade que ele nos declarou muitas vezes que tomara por modelo do imortal detetive o Dr. Joseph Bell, de Edimburgo, que fora seu professor de Medicina; porém o Dr. Bell apenas lhe serviu de inspiração. Latentes no próprio Conan Doyle estavam todas as qualidades que serviram para compor a figura de Sherlock Holmes.

Depois de se terem tornado conhecidas as suas histórias, era inevitável que o autor da saga de Holmes fosse chamado a representar o papel do seu personagem de ficção, e não poucas vezes aceitou o desafio implícito nos apelos. Duas vezes em sua carreira ele se dedicou a casos que exigiram muito de seu tempo e de suas energias, por acreditar que não se fizera justiça. Os casos de George Edalji e Oscar Slater alcançaram notoriedade no seu tempo; e em ambos ressoou o trovão da denúncia de Conan Doyle.

No primeiro desses casos Sir Arthur conseguiu por em liberdade um jovem que fora condenado a sete anos de prisão por ter estropiado um cavalo. Demonstrando, numa série de artigos baseados no estudo que fez dos autos do processo, que a polícia, “embaralhando tudo e deturpando os fatos até o fim”, concluíra pela culpabilidade de Edalji com base em provas incrivelmente precárias, Sir Arthur conseguiu que o governo nomeasse uma comissão, que reviu o caso e devolveu a liberdade ao condenado.

No caso Slater, de maior celebridade, figurava como vítima uma tal Miss Marion Gilchrist, uma solteirona idosa que vivia em Glasgow. Ela foi assassinada em seu apartamento no dia 21 de dezembro de 1908. Helen Lambie, a criada, saíra no momento para comprar um jornal, e foi durante os dez minutos da sua ausência que o crime se consumou. Ao voltar da rua, a criada encontrou um jovem chamado Adams à porta do apartamento de Gilchrist tocando a campainha. O rapaz morava no apartamento de baixo. Ele e as irmãs tinham ouvido um barulho no de cima e uma queda violenta, e Adams subira para saber o que acontecera. A criada abriu a porta com a própria chave. Nesse momento, enquanto ela e o rapaz hesitavam na soleira da porta, de dentro veio um homem, que se aproximou deles com toda a naturalidade, chegando a parecer que ia falar-lhes, mas que, ao invés disso, passou por eles e se precipitou escada abaixo. Na sala de jantar encontraram o corpo de Miss Gilchrist, a cabeça brutalmente machucada e coberta com um tapete.

Apesar de Miss Gilchrist possuir uma valiosa coleção de jóias, o roubo parecia não ter sido o móvel do crime, porque a única jóia que faltava era um broche de brilhantes que poderia valer umas 50 libras. Uma caixa de papéis fora arrombada e seu conteúdo espalhado. A descrição do homem visto por Adams e Helen Lambie não era propriamente boa; divergiam em alguns pontos; e ele absolutamente não correspondia ao tipo de Oscar Slater, um judeu alemão, que acabou sendo preso e condenado pelo crime.

A detenção de Slater se deu porque ele empenhara um broche de brilhantes pouco antes de partir para a América. Foi preso em Nova York e recambiado para Glasgow, onde se comprovou, sem margem a qualquer dúvida, que o broche por ele empenhado era seu havia anos e jamais pertencera a Miss Gilchrist.

O público, porém, tinha perdido a cabeça, e a polícia estava nas mesmas condições. Slater era um homem pobre e sem amigos. Seus padrões morais, ao que se apurou, não eram dos melhores, e a virtude escocesa escandalizou-se. A descrição do homem visto por Adams e Lambie foi corrigida, para adaptar-se ao tipo de Slater. O acusado apresentou um álibi insuspeito, porém, tendo arrolado como testemunhas a própria amante e uma criada, não foi aceito. Jamais se tentou de modo algum demonstrar qualquer ligação entre Slater e alguém que freqüentasse a casa ocupada por Miss Gilchrist. No julgamento, foi mal defendido, e a Coroa terminou por conseguir a condenação – em face das leis escocesas – por uma votação de nove a seis. Slater foi condenado à morte, ergueu-se o cadafalso e, dois dias antes da data marcada para a execução, a pena foi comutada em prisão perpétua. Cumpria ele a pena quando Arthur Conan Doyle se interessou pela sua sorte.

No empolgante panfleto de Sir Arthur, intitulado O Caso de Oscar Slater, encontra-se todo o fascínio de uma história de Sherlock Holmes. Sir Arthur indaga se, afinal, estaria mesmo o criminoso interessado nas jóias.

“Quando ele chegou ao quarto de dormir, não se apoderou imediatamente do relógio de pulso e dos anéis, que estavam perfeitamente visíveis sobre a mesa de cabeceira. Sua atenção se dirigiu para uma caixa de madeira. Não seriam os papéis contidos nela o seu verdadeiro objetivo, e a subtração de um broche de brilhantes mero despistamento?” Conan Doyle observa o fato de o homicida estar bastante informado para se dirigir diretamente a um modesto quarto de dormir onde se guardava as jóias e os papéis, e aponta um rumo para as investigações: “Que outros homens teriam estado já naquela casa? Seu número deveria ser muito pequeno. Que amigos da moradora? Que comerciantes? Que bombeiros?”

Tudo isso é, sem dúvida, do mais puro Sherlock Holmes, como também – e ainda mais brilhante – isto: “Como pôde entrar o criminoso, se Lambie não se engana na sua afirmação de que deixou as portas fechadas? É-me impossível não chegar a conclusão de que ele possuía duplicatas das chaves. E, sendo assim, tudo se torna compreensível, porque a idosa senhora – que estava no pleno gozo das suas faculdades – teria ouvido a porta abrir-se sem se alarmar, pensando que Lambie estivesse de volta antes do tempo. Assim, só teria percebido o perigo em que se achava quando o criminoso irrompera no aposento, e mal teria tido tempo de levantar-se, receber o primeiro golpe, e cair ao lado da poltrona em que estivera sentada, onde foi encontrada. Porém, se ele não tivesse as chaves, quais não teriam sido as suas dificuldades? Se a senhora houvesse aberto a porta do apartamento, seu cadáver teria sido encontrado no corredor de entrada. Portanto, a polícia foi levada a formular a hipótese de que a senhora ouvira o toque da campainha, abrira a porta da rua do seu própria apartamento (como se pode fazer com todos os apartamentos da Escócia), abrira depois a porta do apartamento, sem olhar jamais para a escada iluminada a fim de ver quem por ela vinha subindo, tornando à sua poltrona e à sua revista, e deixando a porta aberta, com livre acesso para o homicida. Isso é possível, mas não será absolutamente improvável? Miss Gilchrist temia ser assaltada, e não deixaria de tomar precauções”.

Da primeira à última palavra se percebem no documento as atitudes do próprio Holmes. Apesar disso, não produziu efeito imediato. A campanha jornalística de Doyle sacudiu a Inglaterra, e levou o governo a criar outra comissão para examinar o caso; mas esta nada conseguiu, e Slater continuou definhando na prisão.

E nisso ficou, durante anos, o lastimável caso. De vez em quando, enquanto se prolongava o encarceramento de Slater, se faziam esforços para reabrir o caso, e o próprio Sir Arthur foi incansável, no que dele dependia, mas só 19 anos depois da condenação conseguiu alcançar o seu intento. Então, finalmente, após uma longa espera, em julho de 1928 Slater foi posto em liberdade. Segundo notícias dos jornais, ele aceitou do governo uma oferta de 6 000 libras como compensação pelo que sofrera; e depois, num gesto de incompreensível ingratidão, se recusou a pagar determinada soma – 300 libras – oferecida em depósito por Conan Doyle antes da revisão do processo que resultou no reconhecimento de sua inocência. Tirando baforadas de um grande charuto, Slater limitou-se a dar de ombros, ao lhe ser pedido o reembolso, dizendo:

– Eu não posso pagar. Empreguei todo o meu dinheiro, e embora tenha ganho 2 000 libras em artigos de jornais, após minha libertação, Doyle ganhou outro tanto.

Casos de menor importância era freqüentemente submetidos a Sir Arthur, e não raro ele empregava com prazer o seu talento nesses casos, via de regra com sucesso. Algumas vezes, entretanto, foi mal sucedido. Ele realça em sua autobiografia, como, por ocasião de um roubo praticado a pouca distância da sua residência, a autoridade policial – sem nenhum conhecimento teórico – pôs a mão no culpado, enquanto ele (Sir Arthur) ainda não havia ido além da conclusão de que o homem era canhoto e usava sapatos ferrados.

Até mesmo nas suas investigações espiritualistas, de que se ocupou nos últimos anos de sua vida, Sir Arthur foi sempre o detetive, aplicando os métodos do seu personagem fictício aos fenômenos psíquicos. Conan Doyle foi até ao fim um notável exemplo do investigador científico animado da curiosidade e da credulidade de uma criança.

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Uma resposta para O verdadeiro Sherlock Holmes

  1. mundosherlock disse:

    O artigo não menciona o mês de sua publicação, apenas o ano. Em vista disso, o artigo foi postado em 01/01/1963.

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