Sherlock Holmes: detetive imortal

Por James Stewart-Gordon
Condensado de Seleções do Reader’s Digest, 1965

Representação de Sherlock Holmes, na ilustração original da matéria

Representação de Sherlock Holmes, na ilustração original da matéria

Nestes tempos de jatos é espantoso que o Sr. Sherlock Holmes, o detetive de nariz de papagaio, fumador de cachimbo, com residência no n.º 221-B de Baker Street, em Londres, e que se locomove em carruagens puxadas por cavalos, continue bem vivo. Eis as mais recentes provas da sua vigorosa saúde: um musical de meio milhão de dólares na Broadway e o fato de ter a BBC filmado para a televisão 12 das suas memoráveis aventuras.

A primeira vitória dedutiva da Holmes foi registrada por Sir Arthur Conan Doyle em 1887. Desde então, as aventuras de Holmes, narradas em cinco livros compostos por 56 contos e quatro novelas, foram traduzidas para 45 línguas. Calcula-se que no mundo inteiro a venda total desses livros ultrapassou há muito a casa dos 100 milhões de exemplares. Os direitos autorais, vigentes até 1980, se vêm constituindo no maior legado literário da História. Holmes já foi o imperturbável herói de 121 filmes, cerca de 500 scripts de rádio, meia centena de espetáculos de televisão e mais de 20 peças. Grupos de admiradores de Sherlock Holmes, entre os quais se contam professores, médicos, escritores e artistas, continuam a reunir-se regularmente no mundo inteiro a fim de examinar aspectos obscuros da sherlocklogia.

Ainda hoje são de uso comum as variações dos métodos científicos de investigação criminal apresentadas ao público há quase 80 anos por Sherlock Holmes. Empregava ele moldes de gesso para proteger indícios delicados e para fixar marcas de rodas e pegadas, o exame microscópico da poeira das roupas para descobrir a profissão de uma vítima e para confirmar ou destruir o álibi de um sujeito, e o minucioso e detalhado exame das adjacências do local de um crime à procura de indícios materiais que ligassem o suspeito ao local.

Traduzido para o árabe, Sherlock Holmes é utilizado como livro de estudo pela polícia egípcia. A Sûreté Francesa homenageou Conan Doyle, criador do personagem, dando o nome dele a um de seus grandes laboratórios criminais em Lion.

Arthur Conan Doyle nasceu numa família de posses modestas em Edimburgo, na Escócia. Começou a cursar a escola médica daquela cidade aos 17 anos e trabalhou para continuar os estudos. Atraiu a atenção do Dr. Joseph Bell. Conhecido cirurgião e diagnosticista, de quem foi assistente. Bell tinha uma aptidão altamente desenvolvida para a observação e os processos lógicos de pensamento. Divertia os alunos durante as suas aulas práticas nas clínicas, identificando não apenas os males dos doentes, mas também a sua origem racial, profissão e proveniência geográfica. “O senhor”, dizia ele a um doente, “é oficial subalterno que teve baixa há pouco e acaba de chegar de Barbados. E está sofrendo de elefantíase”.

Depois de doente e estudantes manifestarem a sua surpresa, Bell explicava: “Esse cavalheiro é evidentemente um soldado pelo aprumo. O fato de não ter tirado o chapéu mostra que deixou há pouco as fileiras. Tem um ar de autoridade tal que só poderia ser encontrado num oficial subalterno. A pele queimada e a doença de que sofre mostram que vem dos trópicos – e acrescentei que veio de Barbados porque a incidência da doença é muito grande ali”.

Conan Doyle sonhava ser um cirurgião e um diagnosticista como Bell, mas a falta de dinheiro forçou-o a aceitar o lugar de médico de bordo num navio baleeiro. Quando voltou dessa viagem, começou a clinicar numa casa alugada em Southsea, subúrbio de Portsmouth. Os clientes eram raros e ele começou a escrever na esperança de conseguir um pouco de dinheiro até a clientela aparecer. Escreveu vários contos de aventuras para revistas juvenis, mas a remuneração era pequena. Escreveu um romance, mas não encontrou quem o editasse. Desalentado, lembrou-se dos truques de diagnóstico do Dr. Bell e resolveu fazer uso deles numa história de detetive. Pegou da pena e traçou um título, Um Estudo em Escarlate. Acredita-se que se inspirou para o nome do seu herói num jogador de críquete muito conhecido e no sobrenome do escritor e médico norte-americano Oliver Wendell Holmes. E foi assim que Sherlock Holmes nasceu.

Nesse primeiro conto, um tal Dr. Watson, ferido a bala nas guerras do Afeganistão, chega a Londres e, depois de apresentado por um amigo, vai morar com Sherlock Holmes no n.º 221-B de Baker Street. Holmes é descrito como um homem alto, de nariz de papagaio e olhos muito juntos (uma descrição parecida com a do próprio Dr. Bell).

Watson tomou conhecimento dos poderes do seu companheiro de casa quando, vendo um homem que examinava interessadamente os números das casas da rua, murmurou:

– Que será que aquele homem está procurando?

-Quem? O sargento de fuzileiros reformado? – replicou Holmes.

(Havia notado que o homem tinha porte militar, as suíças prescritas pelo regulamento, um ar de quem está habituado a comandar e uma âncora tatuada nas costas da mão). Essas deduções, que se inspiravam nas do Dr. Bell incorporadas a uma história policial deram a fórmula exata para o imortal Sherlock Holmes.

Um Estudo em Escarlate, a primeira história de Holmes passou quase despercebida na Inglaterra. Obteve algum sucesso fora daquele país, especialmente nos Estados Unidos e no Brasil, onde foi publicada em tradução na revista O Malho, no Rio de Janeiro. A segunda, intitulada A Marca dos Quatro, deu fama a Holmes dos dois lados do Atlântico. Conan Doyle assinou um contrato para escrever 12 histórias de Sherlock Holmes para a revista Strand. A cada novo conto publicado, Holmes e Watson empolgavam mais o público.

Embora Conan Doyle dentro em pouco ficasse rico graças aos seus escritos, não os considerava uma carreira, mas apenas um meio de ganhar dinheiro. Na verdade, Conan Doyle cansou-se de escrever histórias de Sherlock Holmes e em 1893 matou o seu herói numa luta corpo a corpo com o Professor Moriarty nas Cascatas de Reichenbach, na Suíça. O público de Doyle ficou furioso. Choveram cartas cheias de recriminações. Mas Conan Doyle não cedeu. Achava que Sherlock Holmes o estava impedindo de fazer obra mais importante.

Depois, em 1900, o Dr. Conan Doyle apresentou-se como voluntário para servir na Guerra do Bôeres. Foi designado como médico-chefe de um hospital de sangue. Lutando com a falta de material e com as epidemias, o Dr. Doyle trabalhava noite e dia para curar ferimentos e doenças. Quando a guerra terminou, foi agraciado com o título de “Sir” pelos serviços prestados. Em 1903, Sir Arthur concordou afinal em fazer reviver Sherlock Holmes. Soube-se então que o indestrutível Sherlock não morrera de fato. A Casa Vazia explica como ele conseguiu milagrosamente escapar, foi até o Tibet para consultar o chefe dos lamas e voltou a Londres para investigar a misteriosa morte do filho de um conde. O reaparecimento de Sherlock no Strand de Londres e em Collier’s dos Estados Unidos acendeu o entusiasmo dos seus fiéis admiradores e proporcionou grandes vendas às revistas.

Conan Doyle criara, na verdade, um personagem tão cheio de vida que havia multidões firmes em não acreditar que se tratasse de um ser fictício. O escritor recebia constantemente cartas dirigidas a Sherlock Holmes em que se pedia ajuda para a solução de casos verdadeiros. Alguns deles determinaram uma demonstração da capacidade pessoal de Conan Doyle como detetive. Um deles referia-se a um homem que sacara todo o seu dinheiro do banco, alugara um quarto de hotel em Londres, fora assistir a um concerto, voltara ao seu hotel, trocara de roupa e desaparecera. A polícia não havia conseguido descobri-lo e a família receava que tivesse sido vítima de alguma violência.

Conan Doyle resolveu prontamente o problema. “Encontrarão o homem em Glasgow ou Edimburgo”, disse ele, “onde está por livre e espontânea vontade. A retirada de todo o dinheiro do banco indica premeditação de fuga. O concerto que ele assistiu terminou às 11 horas. Desde que ele trocou de roupa quando voltou ao hotel, tencionava fazer uma viagem. Os expressos escoceses partem da estação de King’s Cross à meia-noite”. O homem foi encontrado em Edimburgo.

Mas era possível colher Conan Doyle de surpresa. Em certa ocasião, viajava pelo estrangeiro e ficou espantado quando um cocheiro de carro de aluguel o tratou pelo nome.

– Como sabe meu nome?

– Está escrito na sua mala – respondeu o cocheiro calmamente.

Em 1906, pesaroso com a morte da esposa (casara-se em 1885), Conan Doyle deixou de escrever e pareceu ter perdido quase todo o interesse pela vida. Foi então que a sua preocupada secretária, na esperança de despertar-lhe o interesse, entregou-lhe uma série de recortes de jornais relativos a um tal George Edjali, condenado por haver escrito cartas de ameaça e por tratar animais com crueldade. Condenado a sete anos de prisão, Edjali fora posto em liberdade ao fim de três anos em vista de haver dúvidas quanto à sua culpa, mas o governo se negava, apesar disso, a perdoá-lo e ele perdera o direito de trabalhar como advogado.

Depois de conversar com Edjali e de examinar todas as circunstâncias do caso, Doyle chegou à conclusão de que Edjali fora vítima de provas forjadas. Disse que o homem a ser procurado era alguém que tinha viajado pelo mar – as cartas anônimas haviam chegado com intervalos que sugeriam longas viagens marítimas e continham referências à vida de bordo. Os ferimentos produzidos nos animais indicavam que o criminoso havia trabalhado como magarefe.

Todas as suposições de Conan Doyle foram confirmadas. O homem cuja existência ele havia formulado como uma hipótese foi encontrado. Fôra colega de escola de Edjali, sendo, porém, expulso aos 13 anos por ser considerado incorrigível. Fôra trabalhar como aprendiz de magarefe, sendo mandado depois para um navio de transporte de gado. O governo perdoou Edjali. E, em conseqüência do caso, foi criada uma Corte de Apelação Criminal para examinar erros judiciários.

Sir Arthur Conan Doyle morreu em 1930, aos 71 anos de idade, três anos depois de haver escrito a sua última história de Sherlock Holmes. Mais de 40 anos haviam passado desde que Sherlock Holmes e o Dr. Watson tinham iniciado a sua carreira, mas o mundo em que se moviam ainda era o de Londres nos elegantes tempos de 1880, com cabriolés de aluguel, denso nevoeiro, um revólver metido no bolso de um sobretudo com pelerine e a crepitação elétrica da voz de Sherlock dizendo a Watson: “A caça está solta”, e a ordem enérgica ao cocheiro: “Charing Cross e uma libra de gratificação se chegar lá em 10 minutos!”

A magia continua. E continuará…ainda por muito tempo.

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Uma resposta para Sherlock Holmes: detetive imortal

  1. mundosherlock disse:

    O artigo não menciona o mês de sua publicação, apenas o ano. Em vista disso, o artigo foi postado em 01/01/1965.

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