Hóspede de Sherlock Holmes

Por Jorge Calmon
Condensado de A Tarde, 30/09/97

Londres – Quando a agência de viagens me enviou a lista de hotéis em Londres, para escolher aquele em que iria me hospedar, não hesitei na opção pelo Hotel Sherlock Holmes, situado precisamente em Baker Street, a rua em que ficava a residência do mais famoso dos detetives de ficção.

A permanência naquele hotel, ainda que por breves dias, pareceu-me que seria uma parte interessante dessa ida à capital inglesa. Forneceria, inclusive, assunto para uma crônica, esta que estou a fazer, primeira de uma série sobre aspectos desta região da Europa.

Gosto da boa novela policial. Não há melhor lenitivo para a astenia que se sucede a uma gripe, por exemplo, ou quando os ocasionais aborrecimentos nos levam a procurar uma maneira de passar o tempo, porque a atenção não está predisposta a leituras mais sérias.

Os livros sobre as proezas de Sherlock Holmes estiveram entre os primeiros, do gênero, que li no período da juventude. Impressionava-me a capacidade de observação do personagem, suas rápidas deduções e o emprego de meios científicos para solucionar os enigmas.

Curioso sobre as peculiaridades dessa estranha figura, criada pela imaginação de Conan Doyle, vim a saber, mais tarde, que o escritor se inspirou na pessoa de um professor de medicina de Edimburgo, o Dr. Joseph Bell, que, pelo visto, deve ter sido um indivíduo versado em experiências científicas, e talvez um tipo excêntrico, tal como Sherlock.

Tendo idealizado a figura do detetive, como elemento central da série de novelas, Conan Doyle terá partido daí para dar vida aos outros figurantes principais: o Dr. Watson (John H. Watson), como contraponto de Sherlock, no papel de sujeito ingênuo, que provoca as explicações do genial amigo, e o Professor Moriarty, a personificação do mau, cujas maquinações mantêm ocupada a mente do detetive quando não existem casos específicos a desafiá-la. Com essa fórmula, Sir Arthur Conan Doyle (que ganhou título de nobreza devido à sua contribuição à literatura) deu início à trajetória do romance policial como um ramo autônomo da ficção.

Certo que não foi o escritor inglês o inventor desse tipo de literatura. Na própria língua inglesa, a primazia cabe, como se sabe, a Edgar Allan Poe, criador de Auguste Dupin. Mas, o detetive imaginado por Poe era um homem comum, sem nada de especial, salvo a argúcia que demonstrava na caça aos criminosos. No caso de Sherlock, a singularidade está nas características do personagem, a quem o escritor dotou de predicados excepcionais, ao lado de estranhos costumes, como o de, quando em vez, fazer uso de cocaína (num tempo em que a droga ainda não era um mal social, mas um vício a que poucos se entregavam).

Conan Doyle atribuiu ao seu detetive um variado conhecimento de toxicologia e outras especialidades da medicina legal, graças ao que deslindava com extrema facilidade os mistérios em torno de crimes.

Foi com estas noções sobre Sherlock Holmes que escolhi, para alojar-me, o hotel de Londres que tem o seu nome.

Não digo que me decepcionei inteiramente. O desapontamento foi parcial. Decorreu do bisonho aproveitamento, pelos donos do hotel, da aura que cerca o nome de Sherlock. Com alguma habilidade de marketing – a moderna técnica de vender produtos, quaisquer que sejam – poderiam ter criado um ambiente capaz de suscitar a sensação de realidade, como se ali houvesse sido, de fato, a casa do personagem famoso. Mas, não souberam fazê-lo. O hotel – apesar de suas imerecidas 4 estrelas, que no Brasil se resumiriam, por muito favor, a 2 – é modesto e nenhum dos seus salões lembra o cenário tantas vezes descrito por Conan Doyle em suas novelas. Debalde se procurará o violino com que Sherlock costumava espairecer. Nem seu inseparável cachimbo. Nem a poltrona favorita, o laboratório, o chapéu e o capote característicos.

Porém, se os proprietários do hotel têm deixado de aproveitar o que seria o grande motivo de atração, a compensação está no Museu Sherlock Holmes, situado em 22lb Baker Street, próximo ao cruzamento da mesma rua com Park Road, não longe do museu de cera de Madame Tussaud. Ali é que se pode verdadeiramente encontrar o ambiente em que se movimentava o protótipo dos detetives, o primeiro dos que foram sucessivamente inventados pelos escritores de contos e romances policiais.

Bem defronte do museu – em 230 Baker Street – encontra-se uma loja em que se podem comprar souvenirs sobre o personagem, lembrado de mil maneiras, conforme a fértil imaginação da indústria que explora sua celebridade. A loja pertence a uma empresa que ostenta o pomposo nome de The Sherlock Holmes Memorabilia Company.

Não pensem, porém, que fica nisso o culto de Sherlock Holmes na cidade dos seus romances. Há muito mais. Num ponto destacado da rua Northumberland Wc 2, em Westminster, fica o “Sherlock Holmes Restaurant”, casa de comida relativamente cara e que é também bar e lounge (espaço para encontros sociais). E, entre outras atrações para os fanáticos, os folhetos de turismo oferecem um tour, dirigido por guia versado na matéria, em que se podem repetir as andanças do detetive pela cidade e conhecer os lugares em que se passaram os crimes que ele deslindou. Mas, isso só para os realmente devotos de Sherlock. Porque o tour é a pé…

A existência de tantas coisas dedicadas a uma figura imaginária, numa nação que possuiu tantos grandes homens, poucos dos quais já mereceram homenagens equivalentes, mostra como os ingleses, entretanto um povo essencialmente pragmático, veneram esse seu glorioso fantasma.

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