Sherlock volta ao crime

Tony Allen-Mills, de The Times
Condensado de Jornal da Tarde, 20/03/98

Socialite húngara passa a administrar
a obra de Conan Doyle e procura escritores
para novas histórias do detetive

O maior detetive da ficção inglesa, Sherlock Holmes, deverá reiniciar suas investigações – cerca de 70 anos após a morte de seu criador, Sir Arthur Conan Doyle. Autores contemporâneos deverão escrever uma nova série de casos de Holmes a partir de um dos mais impenetráveis mistérios de Conan Doyle – o caso de seus direitos autorais contestados.

Depois de uma batalha judicial de seis anos pelo controle do legado literário do escritor, o juiz Eliot Wilk, da Suprema Corte do Estado de Nova York, deu seu veredicto semana passada sobre um caso difícil, envolvendo direitos autorais, que começou com uma falência na Grã-Bretanha e foi complicado por um divórcio.

Entre os personagens do caso estão uma ex-socialite húngara que dirige um hotel nas Montanhas Catskill, em Nova York, um aristocrata dinamarquês que foi considerado inocente da acusação de tentar assassinar sua esposa e um produtor de tevê americano, que converteu as histórias de Holmes em seriado de 24 episódios, filmado com atores ingleses na Polônia.

Até Holmes teria franzido seu cenho imperioso diante dessa emaranhada batalha judicial que terminou com a entrega do controle dos direitos autorais de Conan Doyle a Andrea Plunket, hoteleira mais conhecida como ex-amante de Claus von Bulow. Na década de 80, Von Bulow foi inocentado da acusação de ter injetado uma overdose de insulina na esposa, Sunny, que a deixou em coma.

A história de como um império literário britânico se misturou a um escândalo dos EUA remonta a 1976, quando Plunket casou-se com Sheldon Reynolds, produtor de tevê. Na época, os direitos autorais estavam associados à falência de uma família e foram postos à venda pelo banco incumbido de cobrar as dívidas.

“Meu marido, na época, queria encontrar alguma coisa para fazer”, relatou Plunket. “Ele queria fazer alguns filmes com histórias de Sherlock Holmes e era mais fácil comprar os direitos autorais, na sua totalidade, que obter uma licença.” De acordo com as lei britânicas, ainda faltavam quatro anos para que as histórias de Holmes passassem a ser de domínio público. A mãe de Plunket, Etelka, Lady Duncan, forneceu o dinheiro para a aquisição dos direitos.

As sementes da discórdia foram lançadas seis anos depois, quando Plunket deixou Reynolds por Von Bulow. Ela conquistou certa notoriedade nos EUA colocando-se, desafiadoramente, do lado do amante, quando ele foi a julgamento. Mas a lealdade de Plunket não foi recompensada – Von Bulow deixou-a assim que o caso foi encerrado. Depois disso, ela se casou com Shaun Plunket, um afável ex-aluno de Eton, herdeiro de nobres irlandeses.

Como parte de seu divórcio de Reynolds, em 1990, os direitos autorais de Conan Doyle foram confiados a uma companhia de propriedade conjunta, que dividiria entre os dois o valor dos royalties futuros, mas deu o controle administrativo efetivo a Reynolds. Plunket logo começou a suspeitar que seu ex-marido estava ocultando dela uma parte da renda. Ela tinha direito a 50% dos direitos autorais relativos a os 24 episódios de tevê produzidos por Reynolds. Em 1995, a situação dos direitos autorais mudou. A proteção britânica foi prorrogada de 50 anos para 70 anos, nos termos do programa de harmonização legal da Europa.

A obra de Doyle passou para o domínio público em 1980 – o que permitiu à BBC fazer uma série com o astro Jeremy Brett sem pagar royalties. Mas o acordo europeu mudou tudo. Subitamente, Holmes obteve um novo prazo para ser explorado comercialmente no sistema de leasing.

“Passei por uma fase de Florence Nighttingale, estava cansada de ser babá de homens”, declarou Plunket. “Preferi converter-me no Zorro e lutar contra a injustiça.” Ela acusou o ex-marido de receber durante sete anos royalties não-declarados.

Semana passada, o juiz Wilk tirou o controle dos direitos autorais de Reynolds e entregou-o a Plunket. Também confirmou que Dunkan, hoje com 87 anos, vivendo no Brasil, continua a ser o proprietário legal dos direitos autorais.

A primeira medida de Plunket foi anunciar uma concorrência para novos escritores de histórias sobre Holmes. Ela também quer criar um novo franchise de Holmes antes que os direitos autorais expirem pela segunda vez, no ano 2000.

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