Arthur Conan Doyle, o homem que odiava Sherlock Holmes

Por ALGIS VALIUNAS, The Weekly Standard
Condensado de O Estado de São Paulo, 05/09/1999

Artistas, mulheres bonitas e autores de best seller sofrem da mesma aflição: querem porque querem ser levados a sério. Esse era o sonho de sir Arthur Conan Doyle, criador de Sherlock Holmes, o filho que todos adoram, menos seu pai literário. “Acho que se eu não tivesse tocado Sherlock Holmes, que tende a obscurecer meus trabalhos mais elaborados, minha posição na literatura seria muito melhor.” Escritores sérios – aqueles que Doyle invejava – achavam Holmes extraordinário. Em Ulysses, James Joyce transformou-o num verbo, usando a expressão “sherlockholmesing” no texto. George Bernard Shaw incluiu-o entre os três homens mais famosos de todos os tempos, ao lado de Jesus Cristo e Houdini. “Talvez, o maior de todos os mistérios de Sherlock Holmes seja o fato de que toda vez que falamos nele caímos na fantasia de sua existência”, escreveu T.S. Eliot.

Perto da casa em que Doyle nasceu, em Edimburgo, em 1859, há uma estátua de Holmes. Há mais de 20 peças sobre o detetive, um musical da Broadway, um balé e mais de cem filmes (entre eles, ‘O Cão dos Baskervilles‘, atração das 20 horas na CNT; o detetive também está em ação no Multishow, às 16h45). O rosto de Holmes apareceu em selos ingleses e ilustrações de seus casos decoram a Estação de Baker Street no metrô de Londres. Desde a morte de Doyle, em 1930, mais de 50 autores dedicaram-se a criar novas aventuras para o detetive, como se Doyle fosse mero acessório na história toda.

Daniel Stashower, o mais recente biógrafo de Conan Doyle, fica bem perto de retratar o escritor como o homem que odiava Sherlock Holmes e deixa claro o menosprezo que o criador sentia por sua criatura no livro Teller of Tales – The Life of sir Arthur Conan Doyle (Henry Holt Company, 512 págs., US$ 32,50).

Livros e medicina – Nascido numa família ilustre de origem irlandesa, Arthur Conan Doyle teve uma infância difícil, com um pai alcoólatra, que levou a família à pobreza e morreu num hospício. Os tios ricos custearam sua educação em escolas de jesuítas e, mais tarde, se formou em medicina em Edimburgo. Foi lá que conheceu Joseph Bell, o cirurgião que seria o modelo para Holmes, impressionando seus alunos com seu talento para a observação e dedução. A necessidade de dinheiro levou-o a trabalhar como médico a bordo de um baleeiro no Ártico, onde quase morreu durante uma caçada a focas. A experiência mudou sua vida.

Doyle foi para outro navio, desta vez com destino à África. Três meses depois, após um ataque de malária, uma caçada a crocodilos, um encontro com um tubarão e um incêndio no navio, ele voltou para casa e montou consultório.

Entre uma consulta e outra, Doyle começou a escrever. Eram histórias sobre o Ártico e a África; sobre um estudante de medicina de Edimburgo, The Firm of Girdlestone; o primeiro romance de Sherlock Holmes, Um Estudo em Vermelho (1887); um romance de cavalaria, The White Company (1891); outro Holmes, O Signo dos Quatro, escrito em apenas um mês. Foi em 1891 que Doyle teve a idéia de escrever uma série de contos sobre o detetive, que vendeu para a revista The Strand. O sucesso permitiu que abandonasse a medicina e se dedicasse apenas à literatura, mas não a Holmes. Ele escreveu um romance histórico sobre os huguenotes e outro sobre Napoleão, mas nenhum fez tanto sucesso quanto as aventuras de Sherlock Holmes. Em 1893, a Strand ofereceu-lhe mil libras por mais doze histórias de detetive e Doyle aceitou. Na última, porém, Doyle matou seu detetive, o que revoltou o público a ponto de uma leitora agredi-lo com a bolsa na rua.

Doyle dizia que fora um homicídio justificado. Em 1902, porém, Holmes voltou em O Cão dos Baskervilles – que se passa antes de sua morte. A popularidade da história fez com que revistas oferecessem fortunas por novas aventuras e o detetive, então, ressuscitou. Até enterrar seu detetive de vez, em 1927, Doyle escreveu quatro romances e 46 contos com o personagem.

Guerra e política – Doyle tentou alistar-se para a Guerra dos Bôers, mas foi considerado inapto para o Exército, participando apenas como médico. Escreveu um romance sobre o conflito e defendeu ferozmente a posição britânica. Em 1902 recebeu o título de cavaleiro, que só aceitou por insistência da mãe.

No mesmo ano, lançou The Crime of the Congo, denunciando os horrores do governo do rei Leopoldo II da Bélgica na colônia africana. Foi o início de sua amizade com o diplomata Roger Casement, que servira no Congo por 20 anos. Em 1916, porém, Casement, também de origem irlandesa, foi condenado à morte por traição, acusado de ter pedido apoio da Alemanha para o levante irlandês. A defesa que Doyle fez do amigo custou-lhe uma vaga no Parlamento e Casement acabou enforcado.

Doyle envolveu-se na defesa de uma série de causas – da reforma da lei do divórcio à construção de um túnel sob o Canal da Mancha -, mas ficou mais conhecido por sua defesa do espiritismo. Doyle assistia a sessões e acreditava que os mortos podem comunicar-se com os vivos, mas só em 1917 tornou pública sua convicção. A época é crucial, um período em que todos tinham perdido um ente querido na 1ª Guerra: Doyle perdeu um sobrinho, o irmão de sua mulher, o marido de sua irmã e seu filho, Kingsley, que, enfraquecido pelos ferimentos, morreu de influenza.

“Ao testemunhar as perdas e a dor, percebi que esse assunto que me atrai há tanto tempo não era apenas o estudo de uma força além dos domínios da ciência, mas algo realmente poderoso, a queda das barreiras entre dois mundos, uma mensagem direta e indiscutível do além, um chamado de esperança para a humanidade na hora de sua maior aflição”, escreveu. Nenhuma comprovação de fraude ou charlatanismo foi capaz de demover Doyle de sua crença no mundo dos espíritos. Stashower faz o possível para tratar do tema com respeito, mas não consegue resistir à tentação de dizer que as crenças do escritor foram coloridas pela credulidade, que chegava a ser constrangedora…

Em 1922, Doyle escreveu The Coming of Fairies, em que reconta a história de duas meninas de Yorkshire que alegavam ter descoberto algumas fadas perto de sua casa e fizeram “fotos” para comprovar sua descoberta. Uma delas foi reproduzida no livro de Stashower – e serve para mostrar a quantas andavam as fantasias de Doyle. A história foi transformada em filme em 1997, O Encanto das Fadas. Já adultas, as duas admitiram a fraude em 1982, dizendo que só não haviam contado tudo na época porque sentiam pena de Doyle, que era velho, tinha perdido um filho e parecia confortar-se com sua crença nas fadas. Dias antes de sua morte, de insuficiência cardíaca, em 1930, Doyle escreveu: “O leitor poderá ver que vivi muitas aventuras, mas a maior de todas elas está à minha espera.

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