O detetive inglês que sabia de tudo

Condensado de O Estado de São Paulo, 05/09/1999

Especialista em charutos, tatuagens, orelhas humanas, ele era friamente racional

A fama de Sherlock Holmes continua viva e é uma pena que Daniel Stashower não tenha feito uma pausa em Teller of Tales para analisar esse fenômeno literário. Holmes é um herói estranho, distante, com o qual o leitor dificilmente consegue se identificar. Como diz o dr. Watson em Escândalo na Boêmia, “Holmes é a mais perfeita máquina racional e observadora que o mundo já viu”. Ou, nas palavras do próprio Holmes: “Sou um cérebro, Watson, o resto de mim é mero apêndice.” E não há mente como a de Holmes, que se dispôs a aprender tudo o que diz respeito a sua profissão e sabe até que existem 140 tipos de cinzas de charutos (“Era um charuto indiano, da variedade que é enrolada em Roterdã”), é especialista em tatuagens (“Esse método de colorir as escamas do peixe com um delicado tom de rosa é característico da China”), orelhas humanas (“No Anthropological Journal do ano passado você vai encontrar duas monografias minhas sobre o tema”), perfumes, pegadas e como o trabalho afeta o formato da mão de um homem.

Ainda assim, o que Holmes desconhece é tão impressionante quanto seus conhecimentos. Em Um Estudo em Vermelho, Watson fica surpreso ao descobrir que Holmes nunca ouviu falar de Copérnico. Depois que o amigo lhe explica tudo sobre o movimento dos planetas em torno do Sol, Holmes anuncia feliz que vai esquecer tudo: o cérebro não tem espaço para tanta coisa e ele só se lembra daquilo que precisa em sua profissão.

Em histórias posteriores, porém, ele desfia sua erudição, com informações que nada têm a ver com seu trabalho. Fala sobre cerâmica medieval, violinos Stradivarius, budismo e sobre os navios de guerra do futuro. Em uma de suas aventuras ele discorre com fluência sobre a arqueologia da Cornualha.

O gênio de Sherlock Holmes é ao mesmo tempo fascinante e repugnante. Trata o próprio corpo com extrema indiferença, trabalha à exaustão e às vezes fica sem comer durante dias. “As faculdades mentais ficam mais aguçadas quando você não as alimenta”, diz. E suas faculdades mentais passam por cima das questões morais.

A despeito desses poderes, Holmes tem suas fraquezas. É dado a períodos de tédio e, quando isso ocorre, injeta-se uma solução de cocaína. Watson deplora o hábito do amigo, mas entende sua necessidade. O uso que Holmes faz da droga é “um protesto contra a monotonia da existência, quando os casos são escassos e os jornais, pouco interessantes”. Coisas que atraem a maioria das pessoas não interessam a Holmes: não se sabe de uma única aventura sexual do detetive. No fim de O Signo dos Quatro, quando Watson conta que vai casar-se com sua cliente, Mary Morstan, Holmes não consegue esconder seu desagrado. “O amor é uma coisa emocional e tudo o que é emocional se opõe à razão fria, que coloco acima de tudo o mais”, justifica o detetive.

“De uma forma modesta, combati o mal”, diz Holmes. O grande problema de Doyle era encontrar temas grandes o bastante para seu personagem. O Cão dos Baskervilles é seu maior triunfo, com sua descoberta de que o mal, sob uma forma aparentemente sobrenatural, é uma emanação humana, levantando a dúvida de se isso torna o mundo mais ou menos ameaçador. Talvez seja a experiência de Holmes com o mal que o transformou.

Quando Watson e Holmes se conhecem, o médico observa que o detetive nunca leu nada sobre filosofia e não tem conhecimentos práticos de jardinagem. Quando Holmes se aposenta e vai viver numa pequena casa em Sussex, “seu tempo é dividido entre a filosofia e a jardinagem”. Se Watson tivesse lembrado de perguntar ao amigo no que pensava no seu tempo livre talvez tivesse uma boa história para contar.

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