ICAIs

Condensado de O Estado de São Paulo, 03/02/2000
Por Luis Fernando Verissimo

Sou um catador de ICAIs (Informações Curiosas Absolutamente Inúteis), como, por exemplo, a de que Whittaker Chambers, figura algo sombria que denunciou o diplomata americano Alger Hiss como espião, no caso que serviu para lançar a carreira de caça-comunistas de Richard Nixon, teve pelo menos um momento luminoso em sua vida: foi ele que traduziu Bambi para o inglês, sei lá de que língua.

Outra ICAI sem a qual você não poderia viver é que quando o diretor Otto Preminger estava procurando uma moça desconhecida para fazer o papel de Joana D’Arc no seu filme da peça Santa Joana, do Shaw, uma das desconhecidas que fizeram o teste foi Barbra Streisand. Se Barbra e não Jean Seberg tivesse conseguido o papel, o filme de Preminger, a história do showbiz americano – e talvez, retroativamente, até a história da França – teriam sido bem diferentes. A história de Jean Seberg certamente seria outra.

Sir Arthur Conan Doyle sentou-se ao lado de Oscar Wilde num jantar oferecido por um editor de revista em Londres e os dois se deram muito bem, apesar de serem espécimens extremamente opostos de inglês vitoriano. O editor aproveitou e desafiou os dois a escrever histórias para a sua revista, e foi assim que nasceu O Retrato de Dorian Gray, de Wilde, que causou um escândalo na época. Já a história escrita por Conan Doyle só é notável porque começa com uma detalhada descrição de Sherlock Holmes injetando morfina no seu braço já picado pelo vício. Ou era uma solução de cocaína?

Se Sherlock Holmes entrasse na história de Dorian Gray, procuraria uma explicação científica para o fato de o retrato envelhecer enquanto o modelo não mudava. Holmes não acreditava no sobrenatural – ao contrário do seu criador, que acabou a vida obcecado pelo ocultismo e acreditando até em fadas. Em Conan Doyle, o normal, um autor calculadamente inventando as fantasias de um personagem excêntrico, foi invertido. O personagem era racional – ficou, mesmo, como um protótipo da razão dedutiva, para o qual todas as respostas estavam no material – e o autor é que delirava.

Curiosamente (última ICAI) a única história do Sherlock Holmes em que ele tem ajuda do além é a do Jô Soares, O Xangô de Baker Street, em que os orixás intervêm no caso. Conan Doyle aprovaria, Holmes provavelmente pediria a sua seringa.

Anúncios
Esse post foi publicado em Jornais e marcado . Guardar link permanente.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s