Contador de histórias: a vida de Sir Arthur Conan Doyle

Por Allen Lane
Condensado de The Guardian, 04/03/2000
Tradução: Mundo Sherlock

Daniel Stashower começa esta biografia onde o espírito de Sir Arthur Conan Doyle poderia ter desejado, com sua vida póstuma. Cinco dias após sua morte, em 8 de julho de 1930, mais de 6,000 pessoas lotaram o Albert Hall na esperança de que o famoso autor faria um contato além-túmulo.

Na única cadeira vazia do corredor estava um cartão em que se lia “Sir Arthur Conan Doyle “. A médium Estelle Roberts, uma velha sócia de Conan Doyle, levou a fase e embarcou em um monólogo longo, inspirado. No auge de sua ‘performance’, ela chorou “Ele está aqui! Ele está aqui!”. Todos os olhos se fixaram naquela cadeira. Ela recebeu uma mensagem de Arthur, disse ela, mas, aparentemente, só para sua família. Como ela murmurou confidencialmente a eles, sua viúva sorriu serenamente.

Arthur Conan Doyle afirmou que gostaria de ser lembrado pela sua promoção do espiritismo. Às vezes, perplexamente, Stashower tenta fazer justiça às prioridades estranhas aos seus assuntos. Ele passou muito tempo “trabalhando com afinco”, como ele diz, nas copias de escritos em ectoplamas, “comunicações com espíritos” e similares de Conan Doyle.

Às vezes divertido, às vezes cheio de exasperações. Estas faltas do livro são um modo de ver a obsessão de Conan Doyle como um sintoma da sua idade. Stashower reconstitui vivamente os flertes iniciais de Conan Doyle com espiritismo em Southsea e a perda de sua fé católica; ele ainda esclarece brevemente que o Conan Doyle não é nenhum caso isolado. Realmente, a Sociedade de Pesquisas Psíquicas, da qual Conan Doyle fora membro, era um abrigo dos intelectuais vitorianos-tardios com a convicção religiosa abalada pelas reformas da ciência, razão pela qual desejavam encontrar algo além do meramente material.

Conan Doyle perguntava a si mesmo sobre o por quê qualquer leitor inteligente preferia um conto de detetive saído às pressas em poucos dias ao invés de um de seus romances históricos, que o isolavam em trabalhos de pesquisa. Stashower não apela para os méritos literários de, digamos, A Companhia Branca (as ações heróicas de arqueiro inglês do século XIV) ou Micah Clarke (a autobiografia de um soldado puritano do século XVII). Sherlock Holmes perseguiu Conan Doyle, em parte porque os contos detetivescos que ele escreveu para The Strand Magazine eram tão lucrativos que ele não os conseguia abandonar.

O grande detetive, enviado para as Quedas de Reichenbach, teve que retornar (gloriosamente, em 1901, em O Cão dos Baskervilles). Contudo, Conan Doyle também era um ativista infatigável e polemista, enquanto escrevia folhetos sobre erros judiciais e inúmeras cartas para jornais sobre melhorias para as forças armadas. Depois de viajar pela África do Sul, ele escreveu A Grande Guerra Bôer, em quinhentas páginas. Foi como apologista enérgico das ações britânicas que ele foi condecorado Sir em 1902; depois ele escreveu uma história em cinco volumes da Primeira Guerra Mundial.

Sua vida além da literatura estava cheia de realizações improváveis. Viajou em um baleeiro para o Ártico e percorreu, em um navio de carga, a costa ocidental de África. Foi sócio fundador e goleiro do Portsmouth Football Club e jogou cricket para o MCC, jogando com WG Grace e escrevendo um poema sobre o encontro. (Stashower patina em cima das realizações esportivas.) Foi um pioneiro do esqui. Praticou balonismo e aviação, e foi uma das primeiras pessoas na Inglaterra ser multado por excesso de velocidade em um carro.

Ele também era um grande amigo de outros escritores: Robert Louis Stevenson, Kipling, JM Barrie, Bram Stoker. Ele teve uma “noite dourada” com Oscar Wilde ao término da qual ele e Wilde concordaram em escrever algo para o editor que estava pagando pelo jantar. A contribuição de Wilde foi O Retrato de Dorian Gray; Conan Doyle prometeu mais aventuras para um detetive chamado Holmes que tinha aparecido em Um Estudo em Vermelho.

Stashower revela um forte senso comercial de Conan Doyle como escritor, e dos modos pelos quais este fato condicionou sua produção. Ele gastava muito de seus salários na causa do espiritismo, dedicando as últimas duas décadas de sua vida polemizando para a causa. Depois, sua credibilidade foi abalada pelo seu apoio à duas alunas de Yorkshire que produziram famosas fotografias suas com fadas: Conan Doyle não viu [as fadas] como fantasia, mas como prova de uma população “apenas separada de nós por alguma diferença de vibrações “. Ele desejou saber se ” óculos psíquicos” poderiam revelar o mundo de fadas para todos.

Há, inegavelmente, um rico material aqui, calmamente narrado por Stashower, embora, justiça seja feita, haja descuido em informar as fontes. Ainda é difícil ver no que esta nova biografia trará qualquer coisa nova para, digamos, a biografia igualmente completa e legível de Martin Booth, publicada em 1997. Os descendentes do excêntrico Conan Doyle têm há muito tempo negado o acesso em relação às pilhas de manuscritos (especialmente cartas) que eles ainda possuem. Ele parece ter sabido que todas as pessoas eram como quaisquer outras; se estes documentos ficarem disponíveis, realmente valerá a pena escrever sua biografia novamente.

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