A guerra dos Baskervilles

Por Guy Saville
Condensado de The Independent, 11/07/2001
Tradução: Mundo Sherlock

A mais conhecida história de detetive do mundo completa 100 anos este verão. E há uma obscura controvérsia sobre sua autoria

Cem anos atrás uma longa fila se formou fora dos escritórios da Strand Magazine. Entre um ar de antecipação febril, pessoas se empurravam – e em alguns casos até mesmo pagavam – por lugares, e a fila logo se estendeu ao redor do prédio. Elas estavam lá para o evento editorial do ano: o retorno de Sherlock Holmes em uma nova história, O cão dos Baskervilles.

Oito anos antes, o detetive mais famoso da ficção tinha caído para a morte nas Quedas de Reichenbach – morto pelo seu criador, Arthur Conan Doyle, que desejava se concentrar em trabalhos mais sérios. O público leitor tinha sido devastado: havia relatórios de balconistas que iam trabalhar com faixas de luto e o próprio Conan Doyle recebeu incontáveis cartas de protesto, enquanto os acionistas na Strand – onde as aventuras de Holmes normalmente apareciam – assistiam a ação do público nervosamente.

Então, em 1901, quando foi anunciado o retorno do grande detetive, a reação foi selvagem e ardorosa. O Cão não era uma ressurreição como tal: era dito que a aventura antedatava a morte de Holmes. Mas o entusiasmo público não era menos ardoroso por isto. Tão ávido estavam os leitores pela história que poucos parecem ter notado uma incomum nota de rodapé na primeira página. “Esta história,” lia-se, “deve seu começo a meu amigo Mr Fletcher Robinson que me ajudou tanto com o enredo geral como nos detalhes locais. ACD”.

Ainda hoje, com a exceção dos aficionados, ninguém se lembra de Bertram Fletcher Robinson. Realmente, o romance sempre é impresso apenas com um nome na capa e lombada: o de Arthur Conan Doyle. É como aparece na nova coleção Penguin Classics cuja publicação é celebrada hoje à noite em uma festa na Murder One Bookshop, uma livraria de Londres. Mas, o que aconteceu a Fletcher Robinson?

Mesmo com as comemorações de centenário da obra (outros destaques incluem expedições e representações em Dartmoor, numerosos livros sobre Conan Doyle, até mesmo uma paródia de Spike Milligan), uma negra suspeita se manifesta: que sua criação envolveu um jogo sujo literário.

Inicialmente, Conan Doyle desejava dividir os créditos com Fletcher Robinson, como ele deixou claro em uma carta para a The Strand antes de publicação: “[Eu tenho] uma condição. Devo fazer isto com Fletcher Robinson e o nome dele tem que aparecer com o meu: ele me deu a idéia central e o colorido e assim eu sinto que o nome dele deve aparecer”. Por que, então, Fletcher Robinson não foi creditado como co-autor? Para resolver este mistério, temos que examinar a evidência do começo do livro, mais que um século atrás.

Em março de 1901, Conan Doyle e Fletcher Robinson, jovem jornalista do Daily Express, passaram um feriado jogando golfe em Cromer, na costa de Norfolk. Eles não ficaram lá muitos dias pois foram interrompidos por uma tempestade do Mar do Norte. Os dois homens foram para os aposentos do Royal Links Hotel e começaram a falar. Talvez impressionados pela atmosfera tempestuosa, a conversa eventualmente se virou para os mitos de Norfolk; Fletcher Robinson comentou com Conan Doyle sobre um cachorro fantasma – chamado Black Shuck – que assombrava a zona rural local. Black Shuck era uma criatura terrível: tão grande quanto um bezerro e com olhos que sangravam fogo. Qualquer um infeliz o bastante que encontrasse esta aparição teria certeza de sua morte.

Conan Doyle, cuja aversão vitalícia por cães foi comparável ao seu crescente interesse pelo mundo espiritual, foi inspirado por esta lenda. Caindo a noite, os dois homens começaram a planejar uma novela sobre o assunto.

Se havia qualquer dúvida sobre tal colaboração, ela foi dispersada pelo próprio Conan Doyle que, em uma carta para sua mãe, escreveu: “Fletcher Robinson veio aqui [Cromer] comigo e nós vamos escrever um pequeno livro juntos. Realmente assustador!” O “realmente assustador” veio a tornar-se O Cão dos Baskervilles.

Tendo estabelecido o assunto e enredo, agora era necessário um local. À convite de Robinson, Conan Doyle viajou até sua casa na extremidade de Dartmoor, oeste da Inglaterra. Com sua paisagem primitiva, colinas rochosas e névoas rastejando, o pântano parecia o local perfeito.

Para guiá-los na região, a dupla apelou para os serviços de um certo Harry Baskerville, cocheiro de Robinson. A atual origem do nome Baskerville é um dos maiores mistérios de literatura. Harry Baskerville sempre reivindicou para si a condição de epônimo; realmente, seu maior prêmio foi a primeira edição da novela, assinada por Fletcher Robinson com a inscrição “Com desculpas por usar o nome”. Não seu nome, alguém pode ouvir Sherlock Holmes indicar: o nome. A reivindicação de Harry é posteriormente destruída pelo fato de que Conan Doyle já havia escrito metade do livro antes de se aventurar em Dartmoor e conhecer o cocheiro.

Sir Christopher Frayling, reitor da Royal College of Art e um perito em ficção policial (que editou O Cão na Penguin Classics), acredita há vários outros candidatos para o verdadeiro Baskerville. “Um dos mais prováveis é o Baskerville de Clyro Court, na fronteira entre a Inglaterra e Gales”, ele diz. “Por gerações estes Baskervilles vinham casando com seus vizinhos, os Vaughans. E aqui o enredo definitivamente engrossa – porque os Vaughans tinham uma lenda familiar sobre um cachorro enorme e preto”.

Duas outras evidências apoiam a teoria de Vaughan-Baskerville. Primeiro, Herbert Greenhough Smith, editor de The Strand, que sempre combateu aquele “Conan Doyle que foi apresentado à tradição d’O Cão em um guia de viajens galês”. Além disso, o próprio novelista havia sido convidado a Clyro Court em 1897.

Tudo isso, contudo, pouco faz para ajudar o caso de Fletcher Robinson como co-autor d’O Cão. Se o cão do romance realmente é o cão dos Vaughan-Baskervilles, e não o Blakc Shuck de Norfolk então, talvez, a afirmação de Conan Doyle de que Fletcher Robinson tenha lhe “dado a idéia central” foi meramente um gesto de amizade.

A casa de Fletcher Robinson – Park Hill House – estava na extremidade do pântano em uma aldeia pequena chamado Ipplepen, e foi dali que os dois amigos começaram uma viagem de pesquisa. Anteriormente, a casaficava solitária na gleba cultivada de Devonshire. Hoje situa-se quase que em cima do A381, oposta a uma estação de petróleo. O próprio edifício, desde então vendido pelos Fletcher Robinsons, é agora dividido em seis flats, com um telhado novo e paredes pintadas de branco recentementes. Não há nada que indique sua associação com um dos maiores romances policiais da literatura.

Cerca de 15 milhas a oeste de Ipplepen, entre um labirinto de alamedas estreitas, fica Princetown. Foi aqui que, após terem passado oito dias em Park Hill House, Conan Doyle e Fletcher Robinson continuaram sua viagem de pesquisa, fixando residência no Rowe Duchy Hotel de Princetown. O hotel há muito está fechado, mas o edifício ainda está lá e atualmente casas de um centro turístico exibem a história de Dartmoor. Olhando acima há um modelo em tamanho natural de Sherlock Holmes e atrás dele um cartão da mais famosa pessoa do edifício, Conan Doyle. Não ha sinal algum de Fletcher Robinson.

De Princetown, os dois continuaram as explorações no pântano, enquanto iam a locais como o Círculo Neolítico de Grimspound, que Fletcher Robinson descreveu como “um dos sinais mais singulares da Grã Bretanha ” e a Fox Tor Mire, estabelecendo o clima das cenas d’O Cão.

Em um brilhante dia de verão, céu azul e um pôr-do-sol morno contrastam com as descrições sinistras do livro, ficando só a melancolia, como em uma imagem de nevoeiro das adaptações de incontáveis filmes. Não obstante, até mesmo com o sol brilhante, Dartmoor tem uma qualidade desolada.

Foi em Princetown que muito do livro foi escrito. Só um capítulo do manuscrito original – o Capítulo 7 – sobrevive. E está completamente em mãos de Conan Doyle.

Em uma breve entrevista logo antes de sua morte em 1960, o cocheiro Harry Baskerville alegou ter visto Fletcher Robinson escrever partes significativas da novela. Porém, de acordo com Heather Owen da Sherlock Holmes Society, “não há nenhuma evidência para confirmar a história de Harry Baskerville. Além disso, é improvável esperar que um cocheiro vá espreitar o estudo de seu senhor. A verdade é que, de modo algum, ele poderia ter sabido”.

A excitação inicial em agosto de 1901 continuou ao longo de toda série de O Cão dos Baskervilles. Durante este período a circulação do The Strand aumentou para cerca de 120,000 cópias. O capítulo final foi publicado em abril de 1902.

Enquanto isso, a história desenvolvia um impulso próprio. Na sua concepção, O Cão não caracterizava Sherlock Holmes. Mas, com o desenvolvimento da história, também se fez necessário uma personalidade forte que pudesse resolver o mistério. Como Conan Doyle colocou: “Por que eu deveria inventar um tal caráter quando eu já possuía a pessoa na forma de Sherlock Holmes”?

O destino literário de Fletcher Robinson estava selado. Com Holmes em cena, Conan Doyle assumiu o escrito completamente renunciando a sua condição inicial de que o livro fosse publicado com ambos os nomes. Além disso, para cada £100 que Conan Doyle recebia por 1,000 palavras, Fletcher Robinson recebia £30; e a nota de rodapé credita sua contribuição.

Em edições posteriores, porém, o reconhecimento de Conan Doyle sobre a colaboração se tornou um agradecimento por “sugestionar a idéia”; mais posteriormente ainda, o envolvimento de Fletcher Robinson foi reduzido a uma mera “observação” que havia animado o criador de Sherlock Holmes a apanhar sua pena mais uma vez. Para ter certeza de que não havia nenhum engano, Conan Doyle acrescentou: “Eu posso atestar que o enredo e toda palavra da narrativa atual foram de minha autoria”.

Apesar disto, Frayling não sente que Fletcher Robinson foi enganado. “Na verdade, eu não acredito que ele tenha escrito uma única palavra do livro. Ele sugeriu O cão, como Conan Doyle foi o primeiro a admitir. Mas isso foi tudo. A verdade é que Fletcher Robinson era um escritor medíocre”.

Nem todos concordam com esta avaliação. Uma teoria sobre a morte intempestiva de Fletcher Robinson – em 1907, com 36 anos, supostamente de febre tifóide – diz que na realidade foi causada deliberadamente por Conan Doyle, um médico qualificado que o envenenou com láudano, que tem sintomas semelhantes. Mas o autor desta hipótese excêntrica, um escritor chamado Rodger Garrick-Steele, ainda tem que publicar o livro no qual ele expõe tal idéia.

Heather Owen, enquanto isso, permanece convencida que a criação d’O Cão foi inteiramente pessoal. “Eu não creio que o envolvimento de Fletcher Robinson foi ignorado. Ele recebeu agradecimentos e royalties, que era tudo o que era necessário naquela circunstância”.

Este ainda não é o fim da história. Cerca de três meses antes daquele feriado em Cromer, uma história de Mrs LT Meade havia aparecido em The Strand. Intitulada “Perseguida”, era sobre uma cobra tasmaniana enorme, preta, que se pensava ser sobrenatural. O final da história mostra a serpente perseguindo uma menina pela Planície de Salisbury, antes do tiro final. Conan Doyle pode ter lido história e ter a imaginação atiçada por ela.

Trata-se de um movimento inesperado ao já intricado conto O Cão dos Baskervilles. Mas não é como satisfazer a ficção de Conan Doyle, onde todos os pontos soltos geralmente são arrumados. Tudo aquilo nós podemos ter certeza é que, no futuro, o livro continuará sendo perseguido pela controvérsia.

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