O cão mais famoso e diabólico da literatura

Por Sérgio Augusto
Condensado de O Estado de São Paulo, 29/07/2001

Em agosto vai fazer cem anos que uma fila de dar volta em quarteirão amanheceu na porta da Strand, ou, como dizem os ingleses, The Strand Magazine. Londres nunca vira algo parecido: uma multidão aflita para comprar uma revista, cuja vendagem se transformaria no mais estrepitoso evento editorial da temporada. Pudera: na Strand de agosto de 1901, Sherlock Holmes voltou à ativa, após oito anos de ausência, numa aventura intitulada The Hound of the Baskervilles (O Cão dos Baskervilles). Ausência é eufemismo; Holmes, na verdade, estivera morto aquele tempo todo.

Seu criador, Sir Arthur Conan Doyle (1859-1930), o despachara para o além, fazendo-o despencar das cascatas de Reichenbach, não tanto porque dele tivesse se enfastiado, mas porque almejava comprometer-se integralmente com obras literárias “mais sérias e conseqüentes”. Inconformados com o sumiço do detetive, muitos leitores até puseram luto. Tocados pela comoção pública e, mais ainda, pela acentuada queda na circulação da revista, os acionistas da Strand pressionaram Doyle a ressuscitar o herói, e o escritor acabou cedendo. Na verdade, Holmes não ressuscitava em O Cão dos Baskervilles, pois sua intriga se desenrolava no passado, numa época em que ele ainda estava vivo. Seus aficionados, contudo, julgaram esse detalhe irrelevante. O fundamental era ter à mão mais uma inédita peripécia de Holmes, que, aliás, não estava escalado para protagonizar o mistério d’O Cão dos Baskervilles.

Como só um detetive de gênio seria capaz de solucioná-lo, Doyle preferiu recorrer aos préstimos dedutivos de sua velha cria a inventar um novo Sherlock. Resultado: ao longo de nove meses (o último capítulo saiu na edição de abril de 1902), a tiragem da revista cresceu 120 mil exemplares.

Arthur Conan Doyle

Doyle e inspirou-se em seu professor de medicina para criar o detetive

O Cão dos Baskervilles transformou-se na mais famosa intriga policial de Holmes, o que vale dizer na mais famosa intriga policial do mais famoso detetive de todos os tempos. Ambientada em Londres e Devon, mistura o trivial do gênero (morte suspeita, herança em jogo, paisagem soturna) com elementos fantásticos (o principal suspeito é um demoníaco cão negro de mandíbulas flamejantes e olhar ígneo, que há décadas assombra as charnecas do oeste da Inglaterra e atormenta o clã dos Baskervilles). Circulam entre nós pelo menos quatro traduções: a mais vendida (e barata, R$ 11,90) é a da Ediouro e a mais recente, a da Nova Fronteira, editada há oito anos. No último dia 11, a Penguin lançou em Londres uma edição comemorativa, com uma festa de arromba na livraria Murder One, a primeira de uma série de celebrações que incluem a publicação de uma paródia do livro, cometida por Spike Milligan, e de novos ensaios sobre Doyle (a mais recente biografia do escritor, Teller of Tales: The Life of Arthur Conan Doyle, de Daniel Stashower, saiu há pouco pela Henry Holt), além de excursões às charnecas de Dartmoor, guiadas por experts.

Dartmoor, Norfolk – era por ali que, segundo a superstição local, o fantasmagórico Black Shuck, o modelo do cão dos Baskervilles, fazia seus estragos. Do tamanho de um bezerro, botando fogo pelos olhos e pelas ventas, vê-lo era morte certa. Doyle familiarizou-se com a mitologia desse Cérbero saxão através de um amigo, Bertram Fletcher Robinson, jornalista do Daily Express. Em março de 1901, quando participavam de um torneio de golfe em Cromer, na costa de Norfolk, uma implacável tempestade obrigou-os a recolher-se a um hotel de aparência lúgubre, onde, sem mais o que fazer, começaram a bosquejar uma história que redundaria em The Hound of the Baskervilles, “um romance de meter medo”, conforme adiantou Doyle, numa carta à sua mãe.

As cartas de Doyle foram editadas em 1987 por R.L. Green, para a University of Iowa Press. Os americanos parecem adorar o autor tanto ou mais que os ingleses. Uma das sherlockianas mais alentadas do mundo está na biblioteca da Universidade de Minnesota. Há tempos, a Universidade de Stanford abrigou um curso sobre Holmes em seu departamento de língua inglesa. Nos arredores de Tulsa, em Oklahoma, há um Holmes Park que não recebeu este nome por causa do físico, poeta e ensaísta americano Oliver Wendell Holmes.

Na primeira página da primeira edição de The Hound of the Baskervilles, Doyle, que por sinal detestava cães, fez questão de reconhecer Robinson como autor da idéia central e conselheiro topográfico. Robinson não só nascera e fora criado nos arredores de Dartmoor, como tinha um cocheiro chamado Harry Baskerville. Embora só o nome de Doyle figurasse na capa e na lombada do romance, Robinson tornou-se seu co-autor informal, com direito a 30% do que Doyle recebia dos editores. A cada reedição, sua presença nos agradecimentos foi diminuindo, até quase desaparecer por completo. Àquela altura, porém, ele próprio já desaparecera. Robinson morreu em 1907, com apenas 36 anos, oficialmente vitimado por uma febre tifóide. O crítico Rodger Garrick-Steele levantou, a propósito, uma sherlockiana tese de assassinato. Para ele, Doyle teria envenenado seu parceiro com doses meticulosas de láudano (medicamento à base de ópio), cujos sintomas seriam idênticos aos da febre tifóide.

Prometeu provar isso, tintim por tintim, num livro que acabou ficando na promessa.

Médico, know-how para matar alguém sem deixar traços Doyle tinha de sobra.

Mas como se certificar de seus instintos homicidas se detalhes bem menos comprometedores de sua personalidade tampouco chegaram ao conhecimento público? Até hoje, nenhum pesquisador teve acesso aos seus documentos particulares, e ninguém pode assegurar que eles não tenham sido destruídos.

Sua vida, sempre envolta em mistério, acaba de inspirar um livro de ficção, The Patient’s Eyes, de David Pirie, cujo subtítulo (The Dark Beginnings of Sherlock Holmes) promete trazer à luz segredos até então ocultos ou iluminados pela metade, não apenas sobre a maior fonte de inspiração do escritor, o carismático professor Joseph Bell, de quem foi aluno na faculdade de medicina de Edimburgo, mas também sobre o consentido e traumatizante ménage à trois, envolvendo sua mãe, seu pai e um jovem médico chamado Bryan Waller, só cinco mais velho do que Doyle. Moravam todos sob o mesmo teto, um dos muitos escândalos familiares da velha e pérfida Albion, abafados pela hipocrisia vitoriana.

Por motivos que até a concierge de Freud seria capaz de diagnosticar por telefone, Doyle transferiu todo o seu sentimento filial para o dr. Bell.

Holmes saiu, inteirinho, de sua costela. Bell também era um virtuoso na arte de fazer ilações a partir de observações singulares e matar charadas criminais. “Você é um soldado e já esteve nas Bermudas”, disse a um aluno que pela primeira vez entrava em sua sala de aula. Como descobrira? “Ora, você entrou na sala sem tirar o chapéu; logo é um soldado”, respondeu o professor. E prosseguiu: “Só nas Bermudas a gente contrai esse tipo de erupção que você tem na testa.”

Qualquer semelhança com a primeira observação de Holmes ao ser apresentado ao dr. Watson, em Um Estudo em Vermelho, a primeira obra estrelada pelo detetive, não é mera coincidência. Holmes acertou na mosca que Watson viera do Afeganistão e levara um tiro na batalha de Maiwand. A propósito, Holmes jamais disse “Elementar, meu caro Watson”, bordão tão apócrifo quanto “Me, Tarzan, you, Jane” e “Play it again, Sam.”

Pouquíssimas figuras do imaginário desfrutam de um folclore comparável ao de Holmes, cujo prenome, vale lembrar, virou sinônimo de detetive. Não me refiro às quase três centenas de filmes e telefilmes, às 600 e tantas radionovelizações e às dezenas de peças, balés, paródias e até um oratório por ele inspirados, mas às publicações exclusivas que até hoje lhe dedicam (o Baker Street Journal, lançado em 1946, continua sem rivais à altura), aos sites na Internet e aos santuários e tours londrinos que em sua homenagem inventaram. Até algum tempo atrás, cerca de 600 cartas chegavam todos os meses ao n.º 221-B de Baker Street, onde Holmes supostamente morava. O endereço existe, mas apesar de ocupado por uma empresa de investimentos, no segundo andar alguém – não sei se ainda é a mesma ruiva, chamada Sue Brown, que lá dava expediente 15 anos atrás – cuida de respondê-las como se fosse o próprio detetive.

O prestígio de Doyle atravessou as fronteiras da cultura pop, seduzindo criadores de alto coturno, alguns inimagináveis, como os poetas T.S. Eliot e W.H. Auden. Este considerava o escritor um gênio em estado de graça, “por ter logrado dar à curiosidade científica o status de uma paixão heróica”.

Eliot não ficou só na louvação verbal: Macavity, o depravado gato de Old Possum’s Book of Practical Cats, o livro de poemas que deu origem ao musical Cats, é uma homenagem explícita ao professor Moriarty, o saturnino vilão das histórias de Holmes; há uma troca de palavras entre Thomas Beckett e o rei em Morte na Catedral que é uma réplica de uma conversa de Holmes em The Musgrave Ritual.

Por que a mística sherlockiana continua viva? Por um punhado de motivos, alguns indecifráveis. Um deles, Christopher Hitchens, o herdeiro inglês de Gore Vidal, acertou na pinta: a ficção de Doyle resistiu bravamente ao tempo porque, ao contrário de similares como John Buchan e H.C. McNeile, não fez vista grossa para as mazelas do império britânico e seus preconceitos sociais e raciais.

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