O cão dos Baskervilles

Por Marcelo Pen
Condensado de Folha de São Paulo, 31/08/2001

Quando Arthur Conan Doyle viajou a Devon para colher material para “O Cão dos Baskervilles“, Sherlock Holmes já tinha batido as botas. Seu criador o assassinara numa história anterior, mas a pressão de leitores e editores o obrigou a “ressuscitá-lo”. Decisão acertada, pois o novo romance logo se tornou o mais famoso da trajetória do detetive.

Doyle encontrou no condado de Devon, ao sul da Inglaterra, o cenário perfeito para fincar o solar dos Baskervilles: selvagem, desolado e cercado por charnecas, outeiros e ruínas neolíticas. A idéia de usar a lenda local do cão fantasma foi sugerida pelo amigo Bertram Fletcher Robinson.

Desta vez, o investigador, fumante inveterado e tocador de violino, é chamado para deslindar a estranha morte de sir Charles Baskerville. O homem parecia ter sido perseguido por um cão monstruoso, que, segundo a superstição, vinha assombrando a família por gerações. Mas Holmes percebe que, atrás de tudo, existia uma mente engenhosa e mortal.

Doyle mantém o herói boa parte do tempo nos bastidores, e o companheiro Dr. Watson toma a dianteira. A ausência de Holmes faz parte de um elaborado truque narrativo. Um dos vários do livro.

Em quase dois terços da história, Doyle monta um jogo de gato e rato sustentado por uma rede de olhares, de forma que quem espiona pode descobrir-se espionado. Num dado momento, um foragido da polícia está sendo observado por Watson, que está sendo observado por Holmes, que está sendo observado por outro personagem, que imagina que o detetive é o tal foragido. A ironia com que o círculo de olhares termina não escapa ao leitor atento.

Esses recursos narrativos não constituem o essencial da trama. Doyle buscava divertir os leitores. E consegue, com o suspense, reviravoltas e a atmosfera lúgubre de um conto de horror. Além, é claro, dos torneios dedutivos que fizeram a fama de Holmes.

Doyle é herdeiro de Edgar Allan Poe. Segundo boa parte da crítica especializada, o escritor americano inaugurou o gênero com “Os Crimes da Rua Morgue“. A figura de Holmes foi também inspirada em Monsieur Auguste Dupin, o excêntrico detetive de Poe.

As semelhanças são maiores em “O Cão dos Baskervilles” pelo aspecto bestial do caso. A fera de Doyle tem, no orangotango assassino de Poe, um antecedente zoológico na área criminal.

TRECHO

Um cão enorme e de pêlo negro como o carvão, mas não do tipo que olhos humanos jamais viram. O fogo jorrava de sua bocarra aberta; seus olhos fulgiam com um ardor feroz; as ventas, cernelhas e papadas eram contornadas por uma chama bruxuleante. Nunca, no sonho delirante de um cérebro desvairado, poderia ser concebido algo mais bestial, mais apavorante, mais diabólico do que aquela forma escura e a feição selvagem que irromperam na nossa frente da parede de neblina.

Trecho de “O Cão dos Baskervilles

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