O filão Sherlock

Por Rodrigo Fonseca
Condensado de Jornal do Brasil, 20/09/2001

Clássico ou caricato, como no filme ‘O xangô de Baker Street’, o detetive inglês
é o personagem mais adaptado no cinema

É entre os muitos heróis da literatura universal que ganharam vida no cinema, só um foi capaz de atiçar a ambição dos produtores a ponto de figurar em 211 versões no século 20 e ainda estrelar 12 séries de TV. Esqueça as dezenas de filmes com Tarzan, de Edgar Rice Burroughs, Drácula, de Bram Stoker, ou o superespião James Bond, de Ian Fleming, no papel principal. O campeão de adaptações é Sherlock Holmes. Desde sua primeira aparição nas telonas, em 1900, o detetive criado pelo médico escocês sir Arthur Conan Doyle (1859-1930), se tornou o personagem mais adaptado dos livros para as telas, chegando a ganhar uma citação no Guinness Book, o livro dos recordes. Depois de pegar emprestada a fleuma de atores como Michael Caine e Christopher Plummer, virar um cachorro falante em um desenho japonês e até ganhar uma versão juvenil produzida por Steven Spielberg, Sherlock confirma sua longevidade cinematográfica voltando às telas brasileiras no próximo dia 27, ostentando um perfeito sotaque português, na adaptação homônima do romance O xangô de Baker Street, de Jô Soares.

Festival – Encarnado pelo ator lusitano Joaquim de Almeida (A balada do pistoleiro e Capitães de abril), Holmes vai abrir a edição 2001 do Festival do Rio BR, que acontece na cidade até 8 de outubro. O filme entra em circuito no dia 19 do mesmo mês. Mas em sua estréia no cinema brasileiro, dirigida por Miguel Faria, o personagem deixa de lado a postura asséptica e formal de histórias de Conan Doyle como o famoso O cão dos Baskerville.

Cena de O Xangô de Baker Street

Joaquim de Almeida encarna um Sherlock Holmes destrambelhado, que aprendeu a falar português em Macau, no filme O Xangô de Baker Street, de Miguel Faria, inspirado no romance homônimo de Jô Soares

Fiel à descrição feita por Jô, Sherlock ganha um ar burlesco e resolve descobrir todas as delícias que o Brasil pode oferecer. ”Ele não é o Sherlock de Doyle. A partir do texto de Jô, ele virou o Sherlock Joaquim de Almeida. Talvez o mais louco de todos, já que ele surge com a idéia absurda de ter aprendido a falar português em Macau”, afirma o ator Joaquim de Almeida, em entrevista de Lisboa.

DescerebradoO xangô de Baker Street não é a primeira releitura cômica do detetive inglês. Em 1970, Billy Wilder resolveu encaixá-lo em uma investigação sobre o monstro de Loch Ness em A vida íntima de Sherlock Holmes, com Robert Stephens. Pouco depois, em 1975, Gene Wilder viveu um parente desastrado dele em O irmão mais esperto de Sherlock Holmes. Já nos anos 80, Sherlock e eu (Without a clue), de 1988, debochou da criação de Doyle, então vivida por Michael Caine, mostrando que o cérebro por trás da solução dos crimes era seu fiel parceiro, Watson (Ben Kingsley).

Entretanto, nenhum deles teve que encarar situações tão inusitadas como o protagonista de O xangô de Baker Street, que Jô desenvolveu como uma espécie de prólogo para os romances de Doyle. ”Quis contar uma história que antecedesse as aventuras narradas pelo doutor Watson. Mas o meu Sherlock é quase uma sátira ao original, já que ele é totalmente destrambelhado”, define Jô Soares.

Na trama do filme, Holmes vem ao Rio à convite de sua amiga, a atriz francesa Sarah Bernhardt (Maria de Medeiros), e de D. Pedro II (Cláudio Marzo), para solucionar uma série de assassinatos. Acaba tendo que mergulhar na vida boêmia carioca e pedir conselhos aos santos em um terreiro para encontrar o culpado.

Clichês – Ao longo da investigação, ainda sofre os efeitos da dieta local e de uma noite de farra regada a álcool e cannabis sativa. ”Quis mostrar as transformações do detetive quando chega ao Brasil, onde acaba se apaixonando por todos os clichês que caracterizam o país no exterior, como a caipirinha, a feijoada, a mulata”, afirma o diretor Miguel Faria.

As recentes versões bem-humoradas do detetive, somadas ao adolescente O enigma da pirâmide (1985), contrastam com a figura de intelecto imbatível eternizada em uma série de filmes dos anos 40 onde o ator sul-africano Basil Rathbone (1892-1967) compôs um Sherlock sério e galante. Nos anos 50 e 60, o investigador ganhou o rosto de dois ícones do cinema de horror: os ingleses Christopher Lee (Sherlock Holmes e o colar da morte, 1962) e Peter Cushing, estrela de um seriado baseado no detetive, exibido em 1964.

Tais produções reproduziam com perfeição o minucioso método dedutivo de Holmes, que atraiu uma legião de leitores desde sua estréia em Um estudo em vermelho (A study in scarlet, de 1887) e o transformou no símbolo do detetive. ”Quando se pensa em um investigador clássico, a grande referência é Sherlock Holmes. Tanto que os detetives que vieram depois, como os da ficção noir, passaram a ser variações cada vez mais distanciadas dele em função da violência urbana”, explica o escritor Marçal Aquino, 43 anos, fã de literatura detetivesca.

O carisma de Holmes funcionava tão bem que Conan Doyle resolveu matá-lo em uma historieta de 1893. O público protestou obrigando o autor a ressuscitá-lo. Marçal Aquino aposta que, hoje, a fama de Holmes ultrapassa os limites da literatura policial e do cinema que tantas vezes o acolheu. ”A maior homenagem que se prestou ao talento de Doyle foi o fato do bordão de Holmes, Elementar, meu caro Watson, estar na boca da povo.”

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