Um Sherlock perdido nos mistérios tropicais

Condensado de Jornal da Tarde, 01/10/2001

O filme ‘O Xangô de Baker Street’ transporta o detetive criado por Conan Doyle para o Rio do século 19 e faz dele o garoto-propaganda do novo cinema nacional de resultados

Sherlock Holmes já foi de tudo: o mito criado por Arthur Conan Doyle em 1887, por obra de um sem-número de continuadores já foi cocainômano, homossexual, garoto prodígio, super-herói, mudou de sexo e viajou no tempo. Veio ao Brasil nas asas do livro de Jô Soares, O Xangô de Baker Street, e agora é o garoto-propaganda de um novo cinema brasileiro de resultados.

O diretor do filme homônimo e extraído do best seller de Jô Soares, Miguel Faria Jr., explicou muito bem na coletiva de lançamento do filme que, horas mais tarde, abriria, quinta-feira, o Festival do Rio BR 2001: “Eu não fiz este filme pensando em festival. Fiz pensando no público.” Sua obra é apresentada hors-concours, com honras de blockbuster.

Não deixa de ser, em termos do nosso modesto – financeiramente – cinema. Foram gastos R$ 2 milhões, conforme explicou o produtor Bruno Stroppiana, da Sky Light, a empresa que fez filmes como Tieta do Agreste e Estorvo. Ele não esconde o que o orgulha na obra de Miguel Faria Jr.: “Xangô é um filme tecnicamente impecável para ser vendido em qualquer mercado do mundo.”

Seis fígados

“Impecável” é um tanto exagerado. Mas, de uma ótica realisticamente nossa, há motivos de orgulho. O filme tem atores estrangeiros reconhecíveis, como os portugueses Joaquim de Almeida e Maria de Medeiros, tem um ator inglês, Anthony O’Donnell, com currículo shakespeariano, de BBC e filme de Mike Leigh. Ostenta dados de produção como 870 roupas completas e 30 perucas made in England, locações no Porto, seguro que permitiu mostrar pinturas de época vindas do Museu Nacional de Belas Artes e meios de transporte cedidos por colecionadores e pelo museu de Paquetá. E que filme brasileiro pode se orgulhar de ter usado seis fígados para uma cena?

Na entrevista de apresentação, Maria de Medeiros não estava, viajou mal como certos vinhos e ficou “indisposta”. A vida imita a arte, pois no filme Sherlock é vítima de preparados mortais que incluíam um prato dividido entre feijoada e vatapá. Mas Joaquim de Almeida, esbanjando simpatia e mostrando que aprendeu mesmo a falar um português que não precisa de legendas, disse aos repórteres o que eles queriam ouvir.

Ou seja, historinhas divertidas dos bastidores, como o fato da tal cena dos fígados ter sido feita num dia em que os termômetros bateram recorde no Rio e os atores, além dos mais de 40 graus reinantes, tiveram de suportar o cheiro dos tais órgãos. E arrancou risos quando contou ainda que, em se tratando de uma cena de necrotério, a morta na mesa suava. Fez os elogios de praxe ao diretor, aos atores com quem contracenou (Marco Nanini estava na mesa), falou das dificuldades de algumas cenas, como aquela em que teve de tocar violino, reclamou que a mão que aparece dedilhando as cordas era muito mais gorda que a sua.

Corcovado sem bondinho

Contou que a pedido do diretor usou sapatos muito altos, para realçar a sua altura em relação a Watson. Seu nome foi sugerido ao diretor por Jô Soares. E Miguel Faria Jr. comentou que além desta sugestão, Jô não deu um pio na elaboração do roteiro ou do filme, após o começo das filmagens. E no seu programa de TV, como faz habitualmente com produtos aos quais está ligado, iniciou uma escancarada campanha de marketing, elogiando-o e comentando a fidelidade à história que escreveu.

Joaquim ainda se referiu à co-produção luso-brasileira no filme e ao seu desejo de trabalhar com Fernanda Montenegro. Disse que faz um filme em Portugal a cada dois anos, em função de uma agenda intensa de trabalhos no Exterior.

Marco Nanini, por sua vez, disse que fazer o delegado Mello Pimenta não foi fácil, pois acertar o tipo de humor para o personagem exigiu um ajuste fino. O ator não se sai mal, porém o personagem certamente não rende tanto quanto o que fez depois, em Copacabana.

O humor no filme todo tem altos e baixos, muitas vezes por indefinição de intensidade, exatamente como o que surge no livro. Há um humor mais verbal para arrancar um sorrisinho, como na cena em que Sherlock Holmes junto ao Pão de Açúcar devidamente extirpado digitalmente de bondinhos e outros adereços, afirma: “Watson, esta é uma cidade maravilhosa…”

Porém, nada contribui para o personagem ver-se Sherlock, na entrevista com D. Pedro II, desenvolver um veio desastrado, ameaçando derrubar todas as preciosidades artísticas à vista e depois nunca mais voltar a dar um tropeçãozinho. A cena em que Watson incorpora a pomba-gira é engraçada, mas para que dar um toque gay ao personagem? A coisa já era divertida sem o exagero. E para que a ponta de Jô Soares precisou incluir uma caçada a moscas?

Um filme que cuidou de detalhes como chamar gente do porte de Edu Lobo e Chico Buarque para a música, Lauro Escorel para a fotografia, Marcos Flaksman para a direção de arte e Marília Carneiro para os figurinos, não deveria ter cuidado do seu material essencial, o fazer rir e entreter seu público-alvo?

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