Revolta contra a essência criativa

Por Filipe Augusto Chamy Amorim Ferreira
Colaboração, 22/11/2001

É óbvio que Sherlock Holmes, na qualidade de personagem fictício de maior renome mundial, exigiu muito suor e sangue de seu célebre criador, o escocês Sir Arthur Conan Doyle. Talvez por isso Doyle pretendesse extingui-lo de vez. O tempo que Holmes e Watson lhe roubavam poderia ser aproveitado de uma forma mais erudita, como forma de transparecer seu espírito culto. Quando Doyle, por fim, decidiu assassinar Holmes, recebeu uma enxurrada de cartas malcriadas e rudemente decepcionadas. Isso fez com que ele, sob pressão, ressuscitasse o mais famoso detetive consultor de que se tem nota. Claro que, com o tempo, as histórias de Holmes sofreram notáveis mudanças, o que foi motivado pela falta de disposição por parte do autor. Doyle certamente não se sentia à vontade escrevendo sobre Holmes. Mas por quê? Suposições e hipóteses são bem-vindas.

A primeira é a de que, escrevendo histórias sherlockianas, seus leitores não o considerariam como um autor versátil, mas sim apenas como o escritor das aventuras de Sherlock Holmes. Toda sua veia literária que pretendia criar romances histórico-fictícios foi barrada, impondo-lhe a árdua tarefa de continuar com a saga de brilhantes deduções de Holmes. E isso o aborrecia. Façamos justiça: se, em 1.893, Doyle acabasse definitivamente com a carreira de Holmes, ele, logicamente, predisporia seu tempo à outro tipo de literatura, o que revelaria tesouros até mesmo tão valiosos quanto às cinqüenta e seis aventuras de seu detetive consultor da 221B Baker Street.

A segunda é a de que começassem a confundir criador e criatura. Onde começava Doyle e acabava Holmes? Prova disso são as inúmeras cartas recebidas até hoje em dia endereçadas a 221B Baker Street, endereço onde supostamente residiu o fabuloso Sherlock. Sherlock não era entendido como um personagem fictício, mas como um ser real, descoberto por Doyle. Toda quimera tem uma extensão, mas esta passava a se tornar ridícula a Doyle. Cremos que na sua opinião, tudo isso já era o suficiente para se irritar com Holmes.

A terceira é a de que Holmes teria talvez seria superior a Doyle, o que visivelmente o incomodava. Holmes tinha um porte atlético, um cérebro incomum e uma capacidade de dedução fora do contexto. É certo que tudo isso foi bolado por Doyle, mas todos esses lances dedutivos de Holmes foram apenas fruto de uma situação aparentemente trivial esquematizada por Doyle. O plano era simples: ele criava uma situação comum ou inocente e tecia situações em volta dela que viriam a complicá-la, envolvendo personagens e fatos que faziam um desafio ao cérebro de Holmes. Mas tudo planejado. Nesse quesito, a ficção vencia a realidade, supostamente, pois Doyle, por mais que se esforçasse chegaria apenas a ser tão bom quanto Holmes. Mas nunca melhor. Isso era insuportável e alimentava seu desejo de livrar-se dele.

Por fim, resta falar do respeito dos leitores às obras de Doyle. Holmes era entendido apenas como literatura de entretenimento, ninguém se aprofundava em suas complexas ramificação. Para comprovar tal teoria, todos que o liam não sabiam como aplicar seus métodos na vida real. Os que o sabiam, caminhavam errônea e tropegamente. É quase certo que, talvez fosse por isso que Doyle procurava esquivar-se de Holmes para dedicar-se à sua nova literatura. O estilo de tais obras permitiriam um maior envolvimento com seus livros, o que indicaria um maior respeito às suas narrativas. Esse era o seu grande projeto. Se desse certo, talvez Holmes não fosse nem sombra do que hoje é. Sorte nossa.

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