Ocidente revive histórias de Sherlock Holmes

Por Umberto Eco
Condensado de Folha de SP, 23 de dezembro de 2001

Ferido numa batalha em Candahar, em 1880, o caro Watson nunca esqueceu a guerra afegã

É óbvio que as autoridades militares britânicas e americanas não deixam chegar a público muitas notícias sobre o que ocorre no Afeganistão, mas basta ler com atenção. O caso de que falo, por exemplo, foi tratado pelo jornal “La Stampa” em 20 de setembro deste ano, muito antes de o teatro das operações se transferir para os arredores de Candahar.

A pessoa de quem falo alista-se como oficial médico na expedição inglesa no Afeganistão, naquele corpo selecionadíssimo que é o Fifth Northumberland Fusilers, mas (de uma forma ou de outra) acaba transferido para a Royal Berkshire e, nessas fileiras, acaba por combater com os ferozes afegãos a noroeste de Candahar, mais ou menos perto de Mundabad. Lá, acontece um acidente de “inteligência”. Os ingleses são informados de que os afegãos estão menos e pior armados do que se supunha. Vai-se ao ataque, e os ingleses são massacrados, pelo menos 40% deles, no desfiladeiro de Khushk-Nakhud (os desfiladeiros, naquele país, são terríveis, e, como dizem os cronistas, os afegãos não estão habituados a fazer prisioneiros).

O nosso amigo é golpeado no ombro por uma bala dos mortíferos, mesmo que antiquados, fuzis Jezail, que lhe parte o osso e corta sua artéria subclávia, e é salvo no último momento por seu valoroso auxiliar. Retorna convalescente a Londres e, por mais que aquela tragédia ainda estivesse presente para todos, ocorre-lhe um pequeno episódio. Quando encontra a pessoa com quem dividirá o apartamento, esta lhe diz: “Pelo que vejo, você esteve no Afeganistão”. Solicitada mais tarde uma explicação de como sabia aquilo, a pessoa lhe dirá que tinha pensado consigo mesma: “Esse homem tem algo de médico e algo de militar. É veterano de guerra dos trópicos, porque tem o rosto muito escuro, mas aquele não é seu colorido natural, visto que tem os pulsos claros. Sujeitou-se a privações e doenças, como demonstra seu rosto emagrecido. Além disso foi ferido no braço esquerdo. Mantém-no em uma posição rígida e pouco natural. Em qual país dos trópicos um médico do Exército britânico pode ser obrigado a suportar fadigas e privações? No Afeganistão, naturalmente”.

A conversa acontece em Baker Street, e o médico é o doutor Watson, enquanto seu interlocutor é Sherlock Holmes. Watson foi ferido na batalha que, na época, chamava-se Maiwand, em 27 de julho de 1880. Em Londres, o “The Graphic” dá a notícia em 7 de agosto (as notícias, naquele tempo, chegavam atrasadas). Sabemos disso pelos primeiros capítulos de “Um Estudo em Vermelho“.

Watson permanece marcado por essa experiência. No conto “O Mistério do Vale Boscombe” afirma que a experiência afegã o habituou a ser um viajante rápido e incansável. Mas quando, em “O Signo dos Quatro“, Holmes oferece-lhe cocaína (solução a 7%), Watson afirma que, depois da campanha afegã, seu corpo não suportava novas experiências e pouco depois recorda que amava ficar sentado cuidando do braço ferido, que sofria com qualquer mudança de temperatura. Em “O ritual Musgrave“, Watson faz algumas reflexões sobre como a campanha afegã havia deixado nele marcas profundas.

De fato, Watson gostaria de falar sempre daquela campanha, mas normalmente as pessoas não o escutam. Com esforço (em “O Enigma de Reigate“), convence Holmes a visitar um companheiro, o coronel Hayter; em “O Tratado Naval“, procura, em vão, fazer com que um certo Phelps, personagem resmungão e nervoso, se interesse por suas aventuras afegãs; em “O Signo dos Quatro“, fica aflito para contar fatos daquela guerra a Miss Mortan e consegue despertar sua curiosidade somente uma vez. Os veteranos de guerra, principalmente os feridos, são tediosos.

Mas a recordação do Afeganistão está sempre presente. Em “A Casa Vazia“, falando de Moriarty (o arquiinimigo de Holmes), aparece a ficha de um coronel Moran, “o segundo homem mais perigoso de Londres”, que serviu em Cabul. E os ecos da guerra afegã retornam em “O Corcunda“.

Finalmente, tanto em “A Caixa de Papelão” quanto em “O Paciente Internado“, Holmes realiza uma obra-prima daquilo que chama erroneamente de dedução (é abdução, veja Eco e Sebeok, “Il segno dei tre“, ed. Bompiani, 1983). Enquanto sentam-se tranquilos em seu apartamento, diz de repente: “Tem razão, Watson, parece-me o modo mais ridículo de resolver uma disputa”. Watson concorda, mas depois se pergunta como Holmes tinha adivinhado aquilo que estava pensando. É que, seguindo um simples movimento dos olhos de Watson por vários pontos do quarto, Holmes tinha conseguido reconstruir exatamente o seu percurso de pensamentos, até que, compreendendo que o amigo estava refletindo sobre vários e terríveis episódios bélicos, e vendo que tinha tocado sua antiga ferida, havia inferido que ele estava refletindo melancolicamente sobre a guerra como a maneira mais absurda de resolver as questões internacionais. Elementar, meu caro Watson.

Umberto Eco, escritor e ensaísta italiano, é autor de “O Nome da Rosa
Tradução de Gustavo Steinberg

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