Encontro com Sherlock

Por Luís Araujo Pereira
Condensado de O Popular, 14/05/2004

“Havia um mês que a procurava”, contou-me ele, sentado à minha frente, enquanto mantinha o seu indefectível cachimbo aceso.

“Seu nome é Ingrid. Quando liguei para ela, depois de uma série de pistas falsas, ouvi uma resposta áspera.”

“Ela não está! Quer deixar recado?”

“A voz era agressiva, mas insinuava um contralto aveludado flutuando acima do rancor.”

Para acompanhar o excelente cheiro do tabaco, cada um de nós tinha diante de si uma taça de conhaque, que exalava um surpreendente aroma de madeira.

Eu estava ao lado do famoso Sherlock Holmes, que tinha ido a Paris, numa rara viagem fora do continente, para entrevistar uma mulher difícil. Nós estávamos no terraço de um café perto do Louvre. Ele me prometeu comentar um ou dois detalhes sobre o caso de que se ocupava. Eu o encontrei ali sozinho, refletindo e escrevendo, quando vinha do museu, onde tinha ido apreciar os românticos franceses.

“Esse caso é muito complexo,” continuou ele, “porque tem muitos ângulos. Acho que, entre todos, escolhi o pior, embora isso não signifique que não vá resolvê-lo. Não existem crimes sem solução – existem investigações malconduzidas”, sentenciou por fim. E debochou da teoria, ao afirmar que o ângulo é o segredo da investigação.

Pensando em provocar a sua inteligência, perguntei-lhe qual era o ângulo que, em todos os casos, trai a perspicácia sutil dos detetives.

“Sem dúvida, é aquele que parece ser o mais fácil. É nessa escolha que nos perdemos.”

Depois que disse essas frases, tomou mais um gole de conhaque, sugou o cachimbo e, quando expeliu a fumaça, resmungou alguma coisa que se perdeu no ar.

Eu gostaria de perguntar-lhe também sobre o cão dos Baskerville, mas esse assunto não me pareceu apropriado para um rápido encontro. De repente, lembrei-me de Poirot. Mas aí a legião dos gênios cutucou-me de leve: nunca pergunte ao mais vaidoso dos detetives sobre um concorrente que é belga e tem cabeça em formato de ovo.

Retomei o assunto inicial e perguntei-lhe enfim qual era esse ângulo que atrapalhava a sua investigação.

O outono em Paris era sonolento e morno, anunciando para breve dias mais frios.

Ele me encarou com um olhar meditativo e desafiador, como se estivesse escolhendo as melhores farpas, digo, as melhores palavras.

Quando começou a responder que a mulher de nome Ingrid e o ângulo que selecionara do caso envolviam uma conspiração internacional que ameaçava a estabilidade do Reino Unido, um carro parou em frente ao café e buzinou discretamente.

“Le voilà!”, exclamou.

Era o dr. Watson que chegava num táxi para buscar o maior detetive do mundo.

“Apareça um dia desses na Baker Street, e terminarei essa história.”

E lá se foi Sherlock Holmes em direção ao mistério e às incertezas de seu terrível caso.

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