Sherlock não mora mais aqui

MARCOS STRECKER
Condensado de Folha de São Paulo, 27 de novembro de 2005

As 56 histórias e quatro livros de Sherlock Holmes, o personagem criado por Arthur Conan Doyle (1859-1930), ganha uma luxuosa reedição no Brasil, em coleção completa e comentada. O primeiro dos seis volumes já está chegando às livrarias.

As histórias serão editadas na ordem em que foram publicadas originalmente e trazem os desenhos clássicos de Sidney Paget -que ilustravam a “Strand Magazine”, no final do século 19-, além de fotos que retratam a vida cotidiana na Inglaterra vitoriana. São mais de 600 notas e 200 ilustrações. A coleção é organizada pelo norte-americano Leslie S. Klinger, especialista no personagem, que falou à Folha sobre o personagem e sua compilação.

Folha – Um detetive como Sherlock Holmes poderia ser criado hoje?

Leslie S. Klinger – Não acredito. Perdemos nossa confiança na razão e na ciência para resolver nossos problemas sociais. Holmes nunca precisou enfrentar um serial killer, uma epidemia ou a poluição. Acho que gostamos dessas histórias porque elas nos permitem continuar a acreditar que pessoas inteligentes e de boa vontade podem fazer a diferença.

Folha – Qual personagem é mais fascinante? Holmes ou Watson?

Klinger – Holmes é fascinante, mas Watson desperta o nosso interesse. Nunca poderemos ser como Sherlock Holmes, mas todos queremos ser Watson.

Folha – Sherlock Holmes existiu de verdade? E Watson?

Klinger – “Tudo aquilo em que nosso coração acredita é verdadeiro”, disse Vincent Starrett. Sim, era real! Sobre Watson, acho que Arthur Conan Doyle em pessoa esteve muito perto de ser Watson.

Folha – Qual foi o autor que mais influenciou Doyle? E quem são seus sucessores?

Klinger – Definitivamente, Edgar Allan Poe foi a influência mais importante para Conan Doyle. Ele tem muitos sucessores, mas acredito que as histórias e romances do detetive Nero Wolfe, de Rex Stout [lançado no Brasil pela Companhia das Letras], são os melhores.

Folha – Entre as 56 histórias curtas e quatro romances, quais são melhores, em sua opinião?

Klinger – Prefiro as histórias curtas. Acho que são mais imaginativas e, é claro, abrangem um período maior de tempo da carreira de Holmes. Conan Doyle tinha um talento verdadeiro para os textos curtos de ficção. Seus romances parecem estar “presos”.

Folha – Sua coleção traz ilustrações originais de Sidney Paget. Elas foram importantes para a popularização do personagem?

Klinger – É difícil subestimar a importância de Paget. Suas ilustrações tornaram Holmes uma pessoa real para muitos leitores. Numa época anterior ao cinema e à televisão, a história ilustrada tinha grande importância. Suas ilustrações foram muito importantes para o sucesso da “Strand Magazine”.

Folha – Quais são os principais grupos de estudo de Sherlock Holmes?

Klinger – Os principais grupos são: The Baker Street Irregulars, sediado em Nova York, mas de caráter internacional, com cerca de 300 membros; Sherlock Holmes Society of London, que tem entre 200 e 300 membros; e Japan Sherlock Holmes Club, com mil membros; além de grupos grandes no Canadá, na Alemanha, Suíça, França, Austrália e Espanha. Há provavelmente 6.000 membros em pequenos clubes apenas nos EUA, mas é uma estimativa.

Folha – A internet está expandindo os fã-clubes de Sherlock Holmes?

Klinger – Sem dúvida. Grupos como Hounds of the Internet e Welcome Holmes, além de sites como http://www.sherlockian.net, permitem o acesso muito fácil ao seu universo.

Folha – A academia estuda Sherlock Holmes seriamente?

Klinger – Algumas sim. A Universidade da Califórnia, em Los Angeles, tem vários cursos sobre Sherlock Holmes. E a biblioteca Elmer Anderson, da Universidade de Minnesota, tem a maior coleção relacionada a Sherlock Holmes do mundo. A biblioteca Lilly, da Universidade de Indiana, e a biblioteca Houghton, da Universidade Harvard, também têm coleções sérias.

Folha – Além da sua coleção, que agora está sendo publicada no Brasil, quais são as compilações mais importantes da obra de Conan Doyle?

Klinger – Há a “Oxford Sherlock Holmes“, uma coleção ótima destinada a acadêmicos publicada nos anos 1990, algumas edições comentadas publicadas pela Franco-Midland Hardware Company -que é um grupo sério no Reino Unido- e minha própria “Sherlock Holmes Reference Library“, publicada pela editora Gasogene.

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