Detetive real

Por Jerônimo Teixeira
Condensado de VEJA, 21 de março de 2007

Um romance histórico recria um caso
investigado pelo criador de Sherlock Holmes

O inglês Julian Barnes é um devoto do culto profano ao francês Gustave Flaubert. O autor de Madame Bovary já foi tema de um dos melhores romances de Barnes, O Papagaio de Flaubert. “Ele é o escritor para escritores por excelência”, disse Barnes a VEJA. Arthur & George (tradução de Léa Viveiros de Castro; Rocco; 448 páginas; 53,50 reais), o mais recente livro de Barnes, centra-se em um personagem que quase poderia ser considerado um antípoda de Flaubert: Arthur Conan Doyle (1859-1930). Criador do ainda hoje popularíssimo detetive Sherlock Holmes, o autor escocês estava longe de ser um refinado artesão da palavra. Era antes um escritor para as massas, um pop star da era vitoriana. No romance de Barnes, porém, o homem público importa mais do que o escritor. Arthur & George centra-se em um episódio no qual Conan Doyle teve a oportunidade de bancar o detetive na vida real: sua campanha para inocentar o advogado George Edalji, inglês de origem indiana injustamente condenado pelo crime de mutilar um cavalo na aldeia de Great Wyrley, no início do século XX. A obra de Barnes é uma reconstituição ficcional minuciosa e envolvente dessa história verídica.

Aos 61 anos – um pouco mais velho e menos badalado do que seus compatriotas Ian McEwan e Martin Amis –, Barnes diz que não tinha o menor desejo de escrever outro livro sobre um escritor. Seu interesse inicial recaiu sobre o calvário jurídico de Edalji. Mas não havia como tratar do tema sem incluir também o empenho justiceiro de Conan Doyle. “Teria preferido que ele fosse um dentista ou um mecânico de carros, não um escritor”, diz Barnes – que, no entanto, acabou descobrindo uma até então insuspeita admiração pelo autor de O Cão dos Baskerville. Arthur & George é um retrato às vezes até demasiadamente lisonjeiro de Conan Doyle e seus ecléticos interesses – que iam do críquete à mediunidade (sim, o criador de Sherlock Holmes professava um esquisito irracionalismo no terreno espiritual). Mas, da dupla de personagens anunciada no título, George é o mais fascinante. Filho de uma escocesa e de um parse convertido em pastor anglicano, Edalji não tinha a mínima inclinação ao que hoje se chamaria “multiculturalismo”. Desejava ser visto como o cidadão inglês que era por nascimento. Míope, tímido, o jovem advogado mantinha uma fé inabalável na infalibilidade da lei até que, em 1903, o preconceito da polícia e a obtusidade do tribunal o jogaram na cadeia por um crime que não cometeu. O caso Edalji, aliás, tem importância fundamental na história jurídica da Inglaterra, que se viu obrigada a instituir tribunais de apelação para prevenir que escândalos do gênero voltassem a acontecer.

Contra todas as evidências, Edalji recusava-se a crer que a perseguição policial de que caiu vítima fora motivada por questões raciais. Sua dramática história, porém, levanta um problema antigo (e atual) de todas as nações liberais: como acolher o “outro” sem comprometer a identidade nacional? Barnes às vezes cai nas armadilhas do romance histórico, recheando a narrativa de referências a acontecimentos e personagens de época para compor um cenário mais colorido (o elenco de figurantes literários, aliás, é extenso: inclui Oscar Wilde, J.M. Barrie, Rudyard Kipling e H.G. Wells). Mas Arthur & George consegue um feito raro: dá corpo ao espírito de uma era passada – o final do longo reinado da rainha Vitória e o início do breve reinado de Edward VII – e ao mesmo tempo tem o que dizer ao leitor de hoje.

Trecho de Arthur & George, de Julian Barnes

Um começo

Arthur
Uma criança quer ver. Sempre começa assim, e foi assim que começou. Uma criança queria ver. Ele sabia andar e conseguia alcançar a maçaneta de uma porta. Ele fez isto sem nada que se pudesse chamar de um objetivo, meramente o turismo instintivo da infância. Havia uma porta ali para ser aberta; ele entrou, parou, olhou. Não havia ninguém para observálo; ele deu meia-volta e foi embora, fechando cuidadosamente a porta atrás de si.

O que ele viu ali se transformou na sua primeira lembrança. Um menino pequeno, um quarto, uma cama, cortinas fechadas deixando vazar a luz da tarde. Quando ele a descreveu publicamente, haviam se passado sessenta anos. Quantos relatos internos haviam polido e ajustado as palavras simples que ele finalmente usou? Sem dúvida, ela ainda permanecia tão clara quanto no próprio dia. A porta, o quarto, a luz, a cama e o que estava sobre ela: uma “coisa branca, cerácea”

Um meninozinho e um cadáver: estes encontros não deviam ser tão raros assim na Edimburgo do seu tempo. Altas taxas de mortalidade e costumes rígidos favoreciam uma aprendizagem precoce. A família era católica e o corpo era da avó de Arthur, Katherine Pack. Talvez a porta tivesse sido deixada aberta de propósito. Pode ter havido o desejo de incutir na criança o horror da morte; ou, mais otimistamente, de mostrar a ele que não havia motivo para temer a morte. A alma da avó tinha voado para o céu, deixando para trás apenas a casca, o seu corpo. O menino quer ver? Então vamos deixar o menino ver.

Um encontro num quarto de cortinas fechadas. Um garotinho e um cadáver. Um neto que, pela aquisição da memória, tinha acabado de deixar de ser uma coisa, e uma avó que, ao perder aqueles atributos que a criança estava desenvolvendo, tinha retornado àquele estado. O garotinho contemplou aquele corpo, e mais de meio século depois o homem adulto ainda o estava contemplando. O que significava realmente uma “coisa” – ou, para ser mais exato, o que realmente acontecia quando a mudança extraordinária ocorria, deixan- do apenas uma “coisa” para trás – iria tornar-se algo de importância capital para Arthur.

George
George não possui uma primeira lembrança e, quando alguém sugere que deveria ser normal ter uma, é tarde demais. Ele não tem nenhuma recordação que venha antes de todas as outras – nem de ser erguido no colo, nem de ser acariciado, nem de rirem dele ou de o castigarem. Ele tem consciência de um dia ter sido filho único, e um conhecimento de que agora também existe Horace, mas nenhuma sensação primitiva e angustiante de ganhar um irmão, nenhuma expulsão do paraíso. Nem uma primeira visão, nem um primeiro cheiro: seja de uma mãe perfumada ou de uma empregada-paratodo- o-serviço cheirando a fenol.

Ele é um menino tímido e ansioso, sensível na sua percepção das expectativas dos outros. Às vezes, ele sente que está decepcionando os pais: uma criança respeitosa deveria lembrar-se dos cuidados recebidos desde o nascimento. Entretanto seus pais nunca o reprovavam por esta imperfeição. E, embora outras crianças talvez pudessem compensar esta falta – inserindo à força o rosto enlevado de uma mãe ou o braço protetor de um pai em suas lembranças -, George não faz isto. Em primeiro lugar, falta a ele imaginação. Se ele nunca teve imaginação ou se o desenvolvimento dela foi impedido por algum ato dos pais, é uma questão para um ramo da ciência psicológica que ainda não foi inventado. George é perfeitamente capaz de acompanhar as invenções dos outros – as histórias da Arca de Noé, de Davi e Golias, a Viagem dos Magi -, mas tem pouca capacidade para inventar.

Ele não se sente culpado, já que seus pais não vêem isto como um defeito nele. Quando eles dizem que uma criança da aldeia tem “excesso de imaginação”, há claramente uma crítica. Mais alto na escala estão os “contadores de casos” e os “loroteiros”, mas a pior de todas é a criança que é “uma completa mentirosa” – esta deve ser evitada a todo custo. O próprio George nunca é instado a dizer a verdade: isto significaria que ele precisa de incentivo para tal. A questão é mais simples: espera-se que ele diga a verdade, porque na casa paroquial não existe outra alternativa.

“Eu sou o caminho, a verdade e a vida”: ele irá ouvir isto muitas vezes dos lábios do pai. O caminho, a verdade e a vida. Você segue o seu caminho na vida dizendo a verdade. George sabe que isto não é exatamente o que a Bíblia está dizendo, mas, à medida que ele cresce, é assim que as palavras soam para ele.

Arthur
Para Arthur, havia uma distância normal entre a casa e a igreja, mas cada lugar estava cheio de presenças, histórias e regras. Na pedra fria da igreja aonde ele ia uma vez por semana para se ajoelhar e rezar havia Deus e Jesus Cristo e os Doze Apóstolos e os Dez Mandamentos e os Sete Pecados Capitais. Tudo era muito organizado, sempre listado e numerado, como os hinos e as orações e os versículos da Bíblia.

Ele compreendia que o que aprendia ali era a verdade, mas sua imaginação preferia a versão diferente, paralela, que lhe ensinavam em casa. As histórias de sua mãe também eram sobre tempos muito antigos e também tinham o objetivo de ensinar-lhe a diferença entre o certo e o errado. Ela ficava parada em frente ao fogão na cozinha, mexendo o mingau, prendendo o cabelo atrás das orelhas, enquanto mexia; e ele ficava esperando pelo momento em que ela iria bater com a colher de pau na beirada da panela, fazer uma pausa e virar o seu rosto redondo e sorridente para ele. Então seus olhos cinzentos o fitariam, enquanto sua voz faria uma curva no ar, subindo e descendo, depois quase parando quando ela chegasse à parte da história que ele mal podia suportar, a parte em que um tormento ou uma alegria extraordinária aguardava não apenas o herói ou a heroína, mas o próprio ouvinte.

“E então o cavaleiro foi pendurado sobre o poço de serpentes venenosas, que assobiavam e cuspiam veneno enquanto se arrastavam por cima dos ossos de suas vítimas anteriores…”

“E então o vilão malvado, com uma imprecação terrível, tirou um punhal escondido na bota e avançou na direção do indefeso…

“E então a donzela tirou um grampo do cabelo, e as tranças douradas caíram pela janela, descendo, descendo, acariciando as paredes do castelo até quase alcançarem o gramado verdejante onde ele estava…”

Arthur era um menino ativo e voluntarioso que não ficava facilmente sentado quieto, mas, quando a mãe erguia sua colher de mexer o mingau, ele ficava num estado de encantamento silencioso – como se um vilão de uma de suas histórias tivesse colocado uma erva secreta na comida dele. Cavaleiros e suas damas movimentavam- se pela pequena cozinha; desafios eram lançados, missões milagrosamente executadas; armaduras retiniam, malhas de ferro rugiam e a honra era sempre defendida.

Estas histórias estavam ligadas, de uma forma que a princípio ele não entendia, a um velho baú de madeira que ficava ao lado da cama dos pais e que guardava os papéis relativos às origens da família. Ali havia diferentes tipos de histórias, que mais pareciam dever de casa, sobre a casa ducal da Bretanha, e o ramo irlandês dos Percy de Northumberland, e alguém que havia conduzido a brigada do general Pack em Waterloo e era tio da coisa branca como cera que ele nunca esquecera. E ligadas a tudo isto estavam as aulas particulares de heráldica que sua mãe lhe dava. Do armário da cozinha, a mãe tirava grandes pedaços de cartolina, pintados e coloridos por um de seus tios de Londres. Ela explicava os brasões, depois dizia para ele: “Descreva-me este escudo!” E ele tinha de responder, como fazia com a tabuada de multiplicação: chaveirões, estrelas, moletas, rosáceas, crescentes prateadas e brilhos semelhantes.

Em casa ele aprendia mandamentos extras além dos dez que conhecia da igreja. “Destemido para os fortes, humilde para os fracos” era um deles, e “Cavalheiro com as mulheres, de classe alta ou baixa”. Ele achava que estes eram mais importantes, porque vinham diretamente da mãe; eles também exigiam uma aplicação prática. Arthur não olhava além das suas circunstâncias imediatas. O apartamento era pequeno, o dinheiro, curto, sua mãe, estafada, seu pai, erradio. Mais cedo ele tinha feito uma promessa, e promessas, ele sabia, nunca deviam ser esquecidas: “Quando você for velha, mamãe, você vai ter um vestido de veludo e óculos de ouro, e vai se sentar confortavelmente ao lado do fogo.” Arthur podia ver o começo da história – onde ele estava agora – e o seu final feliz; só estava faltando o meio por enquanto.

Ele procurava pistas no seu autor favorito, capitão Mayne Reid. Ele buscava em The Rifle Rangers: or Adventures of an Officer in Southern Mexico. Ele leu The Young Voyageurs e The War Trail e The Headless Horseman. Búfalos e peles-vermelhas estavam misturados em sua cabeça com cavaleiros com cotas de malha e a infantaria da briga- da do general Pack. Seu livro favorito de Mayne Reid era The Scalp- Hunters: or Romantic Adventures in Southern Mexico. Arthur ainda não sabia como os óculos de ouro e o vestido de veludo seriam obtidos, mas achava que isto exigiria uma viagem perigosa ao México.

George
Sua mãe o leva uma vez por semana para visitar o tio-avô Compson. Ele mora não muito longe, atrás de um parapeito baixo de granito que George não tem permissão para cruzar. Toda semana eles renovam as flores do seu vaso. Great Wyrley foi a paróquia do tio Compson por vinte e seis anos; agora sua alma está no céu, enquanto o seu corpo permanece no cemitério. Mamãe explica isto quando retira as flores murchas, joga fora a água fedorenta e coloca flores frescas. Às vezes, George tem licença para ajudá-la a derramar água limpa. Ela diz a ele que luto excessivo não é cristão, mas George não entende isto.

Após a partida do tio-avô para o céu, papai tomou o lugar dele. Num ano, ele se casou com mamãe, no outro ganhou sua paróquia, e no ano seguinte George nasceu. Esta foi a história que contaram para ele, e ela é clara, verdadeira e feliz, como tudo deve ser. Existe mamãe, que está sempre presente em sua vida, ensinando-lhe as letras, beijando-o na hora de dormir, e papai, que está quase sempre ausente, visitando os idosos e doentes, ou escrevendo seus sermões, ou pregando. Existe a casa paroquial, a igreja, o prédio onde mamãe ensina na escola dominical, o jardim, o gato, as galinhas, a faixa de grama que eles atravessam entre a casa paroquial e a igreja, e o cemitério. Este é o mundo de George e ele o conhece bem.

Dentro da casa paroquial, tudo é sossegado. Há orações, livros, bordados. Você não grita, não corre, não se suja. O fogo, às vezes, é barulhento, assim como os garfos e facas, quando você não os segura direito; assim como seu irmão Horace, quando ele chega. Mas estas são exceções num mundo que é calmo e seguro. Para George, o mundo fora da casa paroquial parece cheio de ruídos e acontecimentos inesperados. Aos quatro anos, ele é levado para um passeio e apresentado a uma vaca. Não é o tamanho do animal que o assusta, nem as tetas inchadas balançando na altura dos seus olhos, mas o mugido súbito que o animal solta sem motivo. Ele deve estar muito mal-humorado. George começa a chorar, enquanto seu pai castiga a vaca batendo nela com uma vara. Então o animal vira de lado, ergue o rabo e se suja. George fica pasmo com este jato, com o barulho estranho que ele faz quando cai na grama, com o modo como as coisas de repente fugiram ao controle. Mas sua mãe leva-o embora pela mão, antes que ele possa refletir mais a respeito.

Não é só a vaca – ou os diversos amigos da vaca, como o cavalo, a ovelha e o porco – que deixa George desconfiado do mundo fora dos muros da casa paroquial. A maior parte do que ouve a respeito dele o deixa nervoso. Ele é cheio de gente velha e doente, e pobre, e tudo isso é muito ruim, julgando pela atitude do pai e pelo tom baixo da voz dele quando volta; e pessoas denominadas viúvas das minas, coisa que George não compreende. Existem meninos do outro lado do muro que são loroteiros e, pior do que isto, completos mentirosos. Existe também uma coisa chamada mina de carvão ali perto, que é de onde vem o carvão da lareira. Ele não tem certeza se gosta de carvão. Ele é fedorento e empoeirado e barulhento quando mexido, e você não pode chegar perto de sua chama; além disso, ele é trazido por homens grandes e zangados com capacetes de couro que o carregam nas costas. Quando o mundo exterior bate na porta, George geralmente dá um salto. Pensando bem, ele preferiria ficar aqui, dentro de casa, com mamãe, com seu irmão Horace e sua irmã Maud, até chegar a hora de ir para o céu e encontrar o tio-avô Compson. Mas ele desconfia que isto não será permitido.

Anúncios
Esse post foi publicado em Livros, Revistas e marcado , , , , . Guardar link permanente.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s