O crime do detetive

Por Antonio Luiz M. C. Costa
Condensado de Terra Magazine, 17 de abril de 2007

Exploramos as relações entre o vampirismo e sociedade vitoriana no artigo O neoliberalismo e os neodráculas, mas a obra de Bram Stoker não foi a única a expressar na literatura popular o mal-estar e a insegurança do Império Britânico a caminho da decadência, nem a confortar os leitores com soluções de fantasia.

Se existe um personagem da literatura britânica do século XIX ainda mais popular que o conde da Transilvânia, é o detetive de Baker Street. Já em seu tempo, fazia muito sucesso: seu criador Conan Doyle, quis livrar-se dele para dedicar-se a romances históricos mais sérios e o “matou” em O Problema Final, publicado em 1893, mas os fãs indignados o pressionaram a ressuscitá-lo. Doyle publicou seu último volume das aventuras de Holmes em 1927 e talvez continuasse a escrevê-las se não viesse a falecer três anos depois.

A criatura sobreviveu ao criador. William Stuart Baring-Gould, um entusiasta que em 1962 publicou uma minuciosa biografia do personagem, com base nas narrativas de Doyle e na sua própria imaginação, afirmou que Holmes morreu em 1957, ao completar 103 anos. Foi, porém, mais um alarme falso. O próprio Baring-Gould faleceu em 1967, mas em 1974, o cineasta e escritor Nicholas Meyer, no romance Uma solução sete por cento, confiou a saúde mental do detetive, abalada pelo vício em cocaína, aos cuidados de um investigador igualmente famoso mas real, Sigmund Freud.

Holmes continua a reaparecer quando e onde menos se espera, inclusive nos trópicos, em uma das obras fantásticas do escritor José J. Veiga (O Relógio Belisário) e no primeiro romance do humorista Jô Soares (O Xangô de Baker Street), ambos de 1995. No alvorecer do século XXI, Loren D. Estleman escreveu Sherlock Holmes vs. Dracula, no qual o detetive encontra Van Helsing e impede o Conde é de conquistar a Inglaterra e o mundo. Cinco anos depois, Caleb Carr, em The Italian Secretary, envolveu Holmes em outra trama paranormal. Com bem mais de um século de idade, Sherlock Holmes continua bem vivo e muito ativo.

Ninguém diria que o primeiro livro foi quase um fracasso. A primeira aventura, o romance Um Estudo em Vermelho, de 1887, causou pouca impressão: o sucesso estrondoso veio em 1891, com a publicação dos primeiros contos na Strand Magazine. Como apontou o crítico literário Franco Moretti, entre essas duas datas veio o ano de Jack, o Estripador, 1889 – a sociedade foi angustiada por uma série de crimes não resolvidos, crimes sem um sujeito a quem culpar e punir. A ficção policial veio exorcizar, ao menos no imaginário, o medo de assassinos a circularem desconhecidos e impunes, zombando da justiça e da sociedade.

A principal finalidade da ficção policial criada por Conan Doyle, diz Moretti, é exorcizar qualquer sentimento de que a culpa possa ser impessoal, coletiva, social. “Uma máquina de escrever”, diz Holmes em Um Caso de Identidade, “tem na verdade tanta individualidade quanto a letra de um homem”. Sempre se pode encontrar o culpado e purgar a sociedade – concebida como organismo ou corpo social – de suas exceções patológicas.

Essa ficção é fascinada pelos “mistérios do quarto trancado”: a sociedade, inocente, fica do lado de fora. O assassino e a vítima se encontram do lado de dentro porque, de alguma maneira, são parecidos. Em boa parte das histórias de Conan Doyle, o criminoso foi vítima de um crime anterior e vice-versa. A vítima “pediu aquilo” ao querer manter em segredo um passado sombrio e impedir a “ajuda” da sociedade.

O porcentual de homicídios aumenta gradualmente nas histórias de Sherlock Holmes até se tornarem a norma. A morte nunca aparece como evento natural e universal: é sempre o resultado de um antagonismo e a punição de quem, querendo ou não, ultrapassou os limites da normalidade – como que garantindo ao leitor que, caso se ajuste aos estereótipos, nunca será vítima nem criminoso.

Conseqüentemente, os personagens da ficção policial são inertes, não crescem. Enquanto no romance clássico a meta da narrativa é a evolução do personagem rumo à autonomia, na ficção policial o objetivo é voltar à normalidade do status quo anterior.

A ação se inicia não porque uma pessoa vive e cresce, mas porque um indivíduo morre e isso representa uma anomalia a ser corrigida pelo ritual de identificação e sacrifício do indivíduo criminoso. Daí a ficção sherlockiana ajustar-se melhor à forma literária de conto que à do romance, ainda que sua extensão, em número de palavras, possa dar a impressão de um romance.

O culpado nem sempre é o mordomo, mas é sempre a individualidade, da vítima e do criminoso. Os “inocentes” mostram que o são comprovando que realmente são os estereótipos sem história que parecem ser e cumprem suas rotinas habituais. O criminoso, pelo contrário, é uma consciência autônoma, voltada para uma meta.

Curiosamente, porém o criminoso de Conan Doyle nunca é membro da burguesia. Ao menos na Inglaterra vitoriana, essa classe deixara de ser a encarnação do risco e da inovação para se tornar a defensora da prudência, da conservação e da estabilidade.

Na maioria dos casos, o criminoso é um nobre ou um novo-rico. No primeiro caso, tenta reagir ao desaparecimento de sua riqueza, opor-se ao curso natural do mercado e da história. No segundo, aspira a um salto social súbito. A intervenção do detetive visa garantir que a economia siga sua lógica e não seja violada pela vontade arbitrária do senhor feudal decadente, nem pela brutalidade da acumulação primitiva do passado.

Uma terceira possibilidade é que o criminoso seja o padrasto, o pai adotivo que deseja a herança – pois a ficção policial quer perpetuar a ordem existente, legítima por definição, baseada na autoridade do pai verdadeiro. Em todo caso, o móvel do crime é sempre a riqueza, mas não há nenhuma menção à maneira como ela foi produzida. Assim como a economia liberal, a ficção policial induz a procurar o segredo do lucro na circulação, onde não pode ser encontrado – embora se encontrem roubos, estelionatos e fraudes. A indignação contra a podridão e a imoralidade da economia deve concentrar-se nas anomalias da corrupção, inocentando o funcionamento normal da produção e da exploração do trabalho no campo e na fábrica.

O detetive Holmes, qual anjo imune à corrupção, vive para servir à sua arte: “ela é algo impessoal, algo além de mim mesmo”, diz em As Faias Cor de Cobre; “minha profissão é a sua própria recompensa”, em A Faixa Malhada. Sacrifica a individualidade, a fome, o sono, ao trabalho, mas não deixa de ser um diletante, um intelectual. Sua meta é cultural: o criminoso pode até fugir (e isso chega de fato a acontecer), contanto que sua culpa seja provada.

O papel da ficção policial vitoriana é pôr um problema – o crime – e declarar relevante uma única causa: o criminoso. Deixa de lado as causas sociais e as dúvidas sobre a parcialidade e subjetividade de seus pressupostos. Trata-se de reafirmar a idéia de um interesse geral da sociedade, que consiste em resolver aquele mistério e prender aquele indivíduo, mais ninguém, como solução válida para todos. A sociedade, por definição, é sempre inocente.

Sherlock Holmes é o médico da sociedade vitoriana, feito para convencer o leitor de que a sociedade é um organismo a ser conhecido e tratado de acordo com um senso comum sistematizado. Já o Dr. Watson pode ser um médico na ficção, mas age como mero espectador. Na realidade da técnica literária é, como os futuros ajudantes-de-detetive que o sucederão, um mero recurso prolongar a ação e o suspense, acumulando detalhes inúteis até que a intervenção fulminante do detetive genial não fornece as revelações realmente importantes.

Essa ficção dá a sensação de conhecimento científico e parece satisfazer a aspiração de certeza porque evita com rigor a prova da realidade externa: é a ciência transformada em mito, tornada auto-suficiente ao ter licença para pressupor tudo aquilo que deveria demonstrar.

Ao longo do século XX, bem depois de terem desaparecido a era vitoriana e o poderio britânico, alguns autores e autoras continuariam apegados ao modelo sherlockiano, explorando-o em mil variações acadêmicas e maneiristas. Como Agatha Christie – cujo primeiro livro desenvolve sua ação no ano dos piores massacres da I Guerra Mundial, mas se interessa apenas por um assassinato no segundo andar de uma elegante casa de campo inglesa. Mas essa não é a única maneira de se escrever ficção policial, como veremos no próximo artigo.

Antonio Luiz M. C. Costa formou-se em engenharia de produção e filosofia, fez pós-graduação em economia e é um entusiasta das ciências sociais e naturais. Ex-analista de investimentos, atua no jornalismo desde 1996.

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