Mistérios do mais genial detetive

Condensado de O Estado de São Paulo, 12/01/2008
Por Sérgio Augusto

Sai em português edição luxuosa da Sherlokiana, com todas as investidas do inglês
Conan Doyle

Nem todo mundo começou, como eu, por aqui: “O sr. Sherlock Holmes, que costumava se levantar muito tarde, a não ser nas raras ocasiões em que passava a noite toda acordado, estava sentado à mesa do café.” De modo geral, foi por aqui: ”Em 1878 formei-me em medicina pela Universidade de Londres e fui para Netley, a fim de fazer o curso indicado para os cirurgiões do Exército.”

O certo era ter começado pelo parágrafo acima. Pois foi com ele que o dr. John Watson, após recapitular sua vida de estudante e suas desditas militares no Afeganistão, apresentou ao mundo Sherlock Holmes, na primeira história (Um Estudo em Vermelho) que Arthur Conan Doyle (1859-1930) escreveu sobre o mais famoso detetive de todos os tempos.

O outro parágrafo abria um clássico da Sherlockiana, O Cão dos Baskervilles, minha introdução a um dos universos literários (ou subliterários, na avaliação de muitos críticos) mais fascinantes e cultuados da prosa universal. Até então os relatos de Conan Doyle – ou, mais precisamente, do dr. Watson, narrador de todos eles – costumavam ser saboreados separadamente e fora de ordem.

Um Estudo em Vermelho foi o presente natalino de um anuário, o Beeton’s Christmas Annual de 1887. Holmes demorava uns bons parágrafos para dar o ar de sua perspicácia. E, por entender de medicina, como o dr. Watson, a primeira conversa entre os dois versava sobre os atributos conhecidos e desconhecidos da hemoglobina.

Já nesse encontro, o primeiro espanto de Watson com a privilegiada acuidade de Holmes, que, só de olhar seu futuro cupincha, sacou que ele estivera no Afeganistão e levara um tiro (na batalha de Maiwand). Gênio dedutivo como ele jamais existiu. Frio, calculista, o coração sempre dominado pela mente, para Holmes, as emoções obliteram a razão e a clareza de raciocínio. Arrogante e irônico (ele próprio dizia que seu negócio era saber o que as outras pessoas não sabem), teria sido o dr. Gregory House do seu tempo, se este se dedicasse aos mesmos afazeres de Adrian Monk, sem os transtornos obsessivos-compulsivos deste.

Ficou fácil ler a Sherlockiana completa como se deve, ou seja, em ordem cronológica e de cabo a rabo. Até em português, graças à Agir, que acaba de lançar uma edição de luxo, de capa dura, por R$ 129,90. Projeto gráfico de Victor Burton, é um mimo de 936 páginas, pesando em torno de dois quilos, o que na certa dificultará sua leitura na cama. Console-se: mais pesadinho seria se lhe tivessem acrescentado as soturnas ilustrações que Sidney Paget desenhou para as cerebrais aventuras de Holmes.

Soturnas, portanto, expressivas da Londres do final do século 19, sempre envolta em brumas, como convinha a malfeitores do naipe de Jack, o Estripador, e quejandos. “Talvez em parte nenhuma se respire a atmosfera da Londres vitoriana como num volume qualquer dos contos… de Conan Doyle”, concedeu Carpeaux, um dos críticos que os consideravam ”subliterários” (reponha o adjetivo no lugar das reticências, please).

Por desconhecer as investidas de Conan Doyle em esferas ‘mais elevadas’ da prosa – como sua história não ficcional da cavalaria (A Companhia Branca, 1891, ambientada no século 14), da guerra dos Boers e do expansionismo napoleônico (As Façanhas do Brigadeiro Gerard, 1896) – só posso julgá-lo, como a maioria dos mortais, por sua ficção detetivesca. Embora feita meio a contragosto e até com certo desleixo, para ganhar dinheiro e saciar a voracidade dos editores – “Virei um prisioneiro do sucesso”, queixou-se o autor inúmeras vezes -, continha todos os ingredientes indispensáveis à sedução ecumênica. Fora da esfera pop encontrou admiradores inimagináveis, como os poetas T.S. Eliot e W.H. Auden, Jorge Luis Borges, e o crítico Edmund Wilson.

Auden o considerava um gênio em estado de graça, “por ter logrado dar à curiosidade científica o status de uma paixão heróica”. Eliot não se limitou à louvação verbal: Macavity, o depravado gato de Old Possum’s Book of Practical Cats, livro de poemas que deu origem ao musical Cats, é uma homenagem ao professor Moriarty, o diabólico vilão de Holmes; no drama poético Morte na Catedral, há uma troca de palavras entre Thomas Beckett e o rei que é uma réplica de uma conversa de Holmes em O Ritual Musgrave.

Wilson, que desprezava solenemente os “escritores de mistério”, punha Conan Doyle muito acima de todos os seus supostos herdeiros (“é literatura de nível modesto, mas despretensiosa e digna”), preferindo filiar as intrigas de Holmes mais ao gênero contos de fada (de resto, divertidos: “amusing fairy-tales”) do que ao policial então representados por Agatha Christie, Raymond Chandler, Rex Stout e Dorothy Sayers.

Borges não apenas inspirou-se em Holmes na criação do detetive Isidro Parodi e no preparo do assassinato de Aaron Loewenthal por Emma Zunz, como dedicou ao “alto cavalheiro que resolve ninharias, repete epigramas, mas não sabe que é eterno” um poema assaz lisonjeiro, que, a certa altura, diz: “Dos bons costumes que nos restam um é pensar/tarde após tarde em Sherlock Holmes.”

Há mais de um século tem sido assim. De uma observação de Holmes para o coronel Ross em Silver Blaze (está na pág. 286 da edição da Agir) Mark Haddon extraiu a idéia e o título do ótimo romance O Estranho Caso do Cachorro Morto, publicado pela Record em 2004. Este foi apenas um dos exemplos recentes da perene influência de Conan Doyle e seu herói, disseminada por quase três centenas de filmes e telefilmes, seiscentas e tantas radionovelizações, dezenas de peças, balés, oratórios, pastichos (como The Seven-per-cent Solution, de Nicholas Meyer), e até paródias, como a que Spike Milligan fez de O Cão dos Baskervilles, oito anos atrás, e a chanchada carioca Sherlock de Araque, com Carequinha e Costinha, lançada em 1958.

E as caronas que Michael Chabon, Alexis Lecaye e Julian Barnes, entre outros, tomaram?

Em 1989, Chabon publicou na Paris Review uma novela, sherlockiana até no título (Final Solution), na qual Holmes, referido sempre como “the old man” (o velho), é tirado de seu remanso em Sussex, durante a 2ª Guerra Mundial, para descobrir o paradeiro do papagaio de um jovem judeu, refugiado da Alemanha. O jovem era mudo, mas o papagaio falava números sem parar. Seriam códigos nazistas ou contas em bancos suíços? Uma tarefa na medida para o velho (e aposentado) Holmes.

Em duas reinações literárias à clef, Lecaye juntou Holmes a Karl Marx e Einstein, ambas traduzidas pela Jorge Zahar Editor. Barnes contornou Holmes e foi direto ao escritor, no romance Arthur & George (traduzido em 2005 pela Rocco), montando uma nova dupla, expediente que remonta às raízes do gênero policial a que a Sherlockiana pertence. Holmes & Watson deram continuidade a uma linhagem iniciada pelo inspetor Dupin e o narrador dos crimes na Rua Morgue, criados por Edgar Allan Poe, o pai de todos.

Antes mesmo de Holmes & Watson houve Jack & Tom, dois amigos que encontravam um fantasma numa casa abandonada, no conto de horror The Haunted Grange of Goresthorpe (A Fazenda Assombrada de Goresthorpe), escrito por Conan Doyle em 1877, quando ainda um estudante de 18 anos do curso da anatomia da Universidade de Edimburgo (Escócia). Recusado pela revista Blackwood, o relato, de apenas 24 páginas, só viria a público em 2001, por iniciativa da Sociedade Conan Doyle. Jean, filha do escritor, proibira sua divulgação, por considerá-la, com razão, uma obra menor, imatura.

Se a influência de Jack &Tom sobre Holmes & Watson ainda é motivo de controvérsia, nenhuma dúvida mais resta sobre a “paternidade” de Holmes. Seu modelo foi o carismático dr. Joseph Bell, professor universitário de Conan Doyle. Virtuoso na arte de ilações a partir de observações singulares e mestre em charadas criminais, Bell foi como um pai adotivo (ou sublimado) para o escritor, cuja deprimente relação com os pais de verdade – que até um romance (The Patient’s Eyes, de David Pirie) inspirou – levaria qualquer um ao divã de um analista. Ou à catártica criação de um detetive como Sherlock Holmes.

Quanto ao professor Moriarty, “o Napoleão do crime”, segundo Holmes, suspeita-se que tenha sido decalcado no supercriminoso Adam Worth. Essa, ao menos, é a tese defendida por Ben Macintyre em The Napoleon of Crime: The Life and Times of Adam Worth, Master Thief. Judeu alemão que se mudou para os EUA aos 5 anos de idade, em 1849, Worth foi de fato um ladrão genial. Casas, bancos, museus, nada lhe era inexpugnável. Aos 25, roubou quase US$ 1 milhão do Boylston National Bank, de Boston, cavando um túnel até sua caixa-forte a partir de uma loja contígua, que alugara para vender uma fajuta loção oriental. Qualquer semelhança com o entrecho de A Liga dos Ruivos (um dos mais saborosos mistérios desvendados por Holmes) e a comédia Trapaceiros (Small Time Crooks), de Woody Allen, não é mera coincidência.

Outra evidência: o valioso quadro que adorna uma das paredes da biblioteca de Moriarty em O Vale do Medo lembra uma pintura que Worth havia afanado e dependurado em seu gabinete.

São muitas coincidências, sem dúvida, mas Maintyre parece ter negligenciado um dado importante: que a carreira criminosa de Worth só se tornou pública, na Inglaterra, em julho de 1893, dois anos depois de Moriarty começar a infernizar a vida de Holmes e três meses depois de Moriarty morrer, com Holmes, no conto O Problema Final.

Como é sabido, Conan Doyle, tão saturado de seu herói quanto se enfastiara de patê de foie gras, resolveu um dia matá-lo. Em grande estilo, praticamente abraçado com sua nêmesis, o Napoleão do crime, nas cataratas de Reichenbach. Pressionado por todos os lados, sentiu-se na obrigação de ressuscitá-lo e inventar-lhe novos mistérios.

Raríssimas figuras do imaginário desfrutam um folclore comparável ao de Holmes, cujo prenome virou sinônimo de detetive e cujo legendário endereço (221-B Baker Street) tornou-se uma das maiores atrações turísticas de Londres, além de destino de centenas de cartas mensalmente enviadas por aficionados que se recusam a duvidar de sua existência no plano real. O endereço existe, mas apesar de ocupado por uma empresa de investimentos, no segundo andar alguém (não sei se ainda é uma ruiva chamada Sue Brown) cuida de respondê-las como se fosse o próprio detetive.

Conan Doyle morreu comprometidíssimo com mágicas e espiritismo, assunto explorado por Massimo Polidoro no livro Final Séance: The Strange Friendship Between Houdini and Conan Doyle, publicado em 2001, incutindo em alguns de seus admiradores a impressão de que sua alma vaga por aí, fazendo das suas, para o bem e para o mal. Haja vista a morte misteriosa de Lancelyn Green, quatro anos atrás. Autor de vários ensaios sobre Conan Doyle e ex-presidente da Sherlock Holmes Society lodrina, Green lutava com todas as suas forças contra o leilão de 13 caixas de manuscritos e memorabilia do escritor pela Christie’s, em março de 2004, quando o encontraram garroteado por um cordão de sapato amarrado a uma colher de pau.

Para a Scotland Yard, um caso de suicídio. Holmes não teria engolido essa.

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