O imortal Sherlock Holmes

Condensado de IstoÉ, 27/02/2008

O mais famoso detetive da literatura policial faz sucesso há 120 anos – e há quem acredite que ele não foi um personagem de ficção, mas um homem de verdade

Quando Um estudo em escarlate, a primeira história policial de Sherlock Holmes, foi publicada em 1887 pela revista britânica Strand, o seu autor, o escritor inglês Arthur Conan Doyle (1859-1930), passou a receber cartas de pessoas interessadas em contratar os serviços desse incrível detetive. O realismo das tramas nas quais os mistérios eram solucionados com método científico e dedutivo reforçou a idéia de que somente um investigador profissional seria capaz de escrevê-las. Com o sucesso de outras novelas de Conan Doyle, a confusão entre autor e personagem se desfez, mas a fama e repercussão de Holmes não mais parou de crescer é como se tivesse ganho vida própria e, assim, a criatura tornou-se mais popular que o seu criador. Eis a prova em números: 120 anos após a sua estréia na literatura, uma pesquisa feita recentemente em Londres revelou que 56% dos entrevistados acreditam que o detetive Holmes foi um importante investigador criminal que existiu de verdade e não somente uma personagem inventada.

A maioria dos entrevistados disse ainda que ele circulava à noite pelas enevoadas ruas londrinas e morava na Baker Street – a rua que de fato Conan Doyle lhe deu como domicílio na ficção. Para se ter idéia do carisma de Holmes, essa mesma pesquisa constatou que, para muitos britânicos, estadistas como Winston Churchill é que não foram gente carne e osso.

A desinformação histórica não se justifica, mas a verdade é que Sherlock Holmes se tornou uma presença real e um tanto incômoda até para o seu próprio autor. Conan Doyle tinha outros interesses e queria ser reconhecido por trabalhos que ele considerava mais sérios, como seus livros sobre espiritismo, religião da qual era devoto. Deu-se o contrário. O escritor brilhou e enriqueceu com Holmes, o que lhe permitiu casar e viver numa ampla e confortável mansão nos arredores de Londres. Todo o conforto, no entanto, não lhe aplacava a inquietação de sentir que estaria eternamente aprisionado ao seu personagem menor – ou seja, o detetive. Em 1893, Conan Doyle decidiu “matá-lo” e o fez no livro O problema final. Na história, o detetive morre num embate com o seu arquiinimigo, professor Moriarty. A reação do público foi imediata, promoveram-se até cortejos fúnebres pelas ruas de Londres. Não, Holmes não podia morrer.

Conan Doyle resistiu por dez anos até que cedeu às pressões e o ressuscitou em 1903 em A casa vazia. Sentiu então um gostinho de vingança: deu ao seu personagem traços, ainda que leves, de ceticismo e rancor. O autor não se cansava de repetir que achava o seu personagem “arrogante”, e aí veio nova vingança: ele inventou que Holmes era um consumidor compulsivo de cocaína, droga legal na Inglaterra daquela época. O vício foi preservado em poucas edições e, depois, suprimido. Houve ainda um terceiro ataque ao personagem: Conan Doyle criou, a sua imagem e semelhança, um auxiliar para o detetive que é tão inteligente e perspicaz como ele próprio. Trata-se do famoso John Watson. E fez-se a célebre frase: “Elementar, meu caro Watson.” Detalhe curioso é que em nenhuma das cerca de 70 histórias criadas por Conan Doyle se encontra essa frase – ela só existe nos seriados de tevê e no cinema.

 APOSENTADO Holmes fuma o seu inseparável cachimbo em companhia de Watson

Para criar o personagem, o autor (que era médico) se inspirou em um de seus professores de medicina chamado Joseph Bell, que empregava métodos de dedução no estudo de casos clínicos. Conan Doyle, na vida real, teria sido chamado algumas vezes pela agência de inteligência britânica, a Scotland Yard, para opinar em investigações complexas – justamente por sua frieza em calcular e deduzir. Como se vê, Conan Doyle era um tanto ingrato com o seu “arrogante” personagem, porque foi ele quem lhe deu fama, dinheiro e até o status de servir ao governo de seu país. As obras completas com as histórias do detetive, agora, estão sendo publicadas pela Zahar Editora, em seis capítulos, com mais de 360 notas e cerca de 100 ilustrações da época (muitas publicadas na revista inglesa Strand). Sherlock Holmes é hoje um dos grandes personagens da literatura mundial. Assim o define o escritor Otto Maria Carpeaux em História da literatura ocidental: “Os seus contos policiais são narrados com o melhor humor inglês e eternizam um ambiente: a Londres elegante dos tempos de Oscar Wilde – teatro de crimes trágicos ou tragicômicos. Doyle criou um personagem de imortalidade tão segura como Don Juan ou Don Quixote”.

O DETETIVE EM AÇÃO

Watson e Holmes

Watson e Holmes

Existem aproximadamente 200 séries de tevê e filmes sobre Sherlock Holmes. Entre os mais famosos estão: O cão dos Baskerville (1959), protagonizado por Peter Cushing, A vida íntima de Sherlock Holmes (1970), estrelado por Cristopher Lee, e O enigma da pirâmide (1985), que conta a história do jovem detetive, interpretado por Nicholas Rowe. Uma das melhores histórias é O cão dos Baskerville: a morte misteriosa de Hugo Baskerville, atacado por um “cão diabólico”. É nesse conto que surge uma das mais famosas frases de Holmes: “Quando tudo o que é impossível for eliminado, o resto, mesmo que seja improvável, deve ser a verdade.” Em Os planos do Bruce-Partington, um dos romances mais inspirados de Doyle, o detetive desenvolve um raciocínio extremamente lógico e dedutivo.

Em Josiah Amberley (1926), Holmes está aposentado. A ilustração acima é original. Mostra a dupla reunida na casa do detetive tratando de um caso aparentemente banal que se torna um dos mais difíceis de sua vida.

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