Gênese do mestre da dedução

Condensado de O Estado de São Paulo, 02/09/03

Arthur Conan Doyle faz uma descrição bastante precisa de Sherlock Holmes em “Um Estudo em Vermelho“. Ele começa observando que sua figura chamava a atenção do observador mais casual. A altura passava de 1m80 e ele era tão magro que parecia ainda mais alto. Tinha olhos agudos e penetrantes, salvo nos momentos de estupor provocados pela droga e o nariz agudo de águia dava a toda sua expressão um ar de vivacidade e decisão. Robert Downey Jr. não se encaixa muito bem nesta descrição, mas não é por aí que se devem buscar as qualidades do Sherlock Holmes de Guy Ritchie.

Pela fidelidade física, o Sherlock mais perfeito do cinema foi Basil Rathbone, que sucedeu a Clive Brook e Reginald Owen no papel, nos primórdios do cinema sonoro. Você pode rever alguns de seus filmes, lançados em DVD, mas não o melhor deles – a versão de 1939 de “O Cão dos Baskervilles“, de Sidney Lanfield, que se assiste como a um filme de horror e o mesmo se pode dizer da adaptação que Terence Fisher fez 20 anos mais tarde, na Hammer, com Peter Cushing como o mestre da dedução. Esta você encontra. Por seus Dráculas e Frankensteins, Fisher já era um mestre do horror e o que ele fez foi radicalizar o conceito de Lanfield.

Por mais interessantes que sejam Rathbone e Cushing, os melhores Sherlocks da tela surgiram em filmes que foram se afastando do espírito original. O “Sherlock Jr.” de Buster Keaton não é bem sobre o personagem de Conan Doyle, mas é uma das grandes comédias do cinema. “A Vida Íntima de Sherlock Holmes”, de Billy Wilder, é inconformista, mais do que iconoclasta. E “O Enigma da Pirâmide”, de Barry Levinson, com roteiro de Chris Columbus, propõe uma boa gênese para o mito.

Conan Doyle era médico e a primeira história de Sherlock, “Um Estudo em Vermelho“, foi difícil de vender. O sucesso foi apenas relativo quando surgiu no “Beeton’s Christmas Annual”, em 1887. “Sherlock” só estourou três anos mais tarde quando “O Signo dos Quatro” foi publicado nos EUA, no “Lippincott’s Magazine”. A edição definitiva – comentada e ilustrada – de “Um Estudo em Vermelho” saiu pela Jorge Zahar. Se você nunca leu, não sabe o que está perdendo. (Luiz Carlos Merten – AE)

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