Sherlock Holmes: um detetive amorfo para qualquer era

Condensado de Terra, 22/05/09
The New York Times

Arthur Conan Doyle veio a odiar a tal ponto o seu personagem mais conhecido, Sherlock Holmes, que em 1893 tentou matá-lo, com uma queda nas cataratas de Reichenbach. O escritor definiu a decisão como “homicídio justificado”, declarando que – se eu não o houvesse matado, ele certamente me mataria.

Caso Conan Doyle pudesse contar com os serviços dos roteiristas de Sherlock Holmes, o novo filme de Guy Ritchie, como consultores, talvez pudesse ter desenvolvido, como eles, perigos mais imaginativos e malévolos – por exemplo, uma serra elétrica que quase corta o herói ao meio em um abatedouro, ou o casco de navio que quase o esmaga em um estaleiro. Conan Doyle terminou cedendo à pressão do público e ao saldo negativo de sua conta bancária e, em 1903, depois do sucesso de O Cão dos Baskerville, relutantemente ressuscitou Holmes por mais 24 anos.

Agora, é impossível matar o detetive ¿ainda que os puristas sem dúvida devam argumentar que a forma pela qual Robert Downey Jr. o retrata no filme de Ritchie – que de vez em quando lembra uma versão vitoriana de Clube da Luta – seja um destino pior que a morte. Nem mesmo a morte de Conan Doyle, em 1930, serviu para eliminar o grande detetive.

Na verdade, ela o propeliu à mais bem sucedida e elaborada pós-vida de que um personagem de ficção já desfrutou. O detetive apareceu em incontáveis filmes, peças de teatro e séries de televisão e inspirou uma série de continuações literárias e derivativos, bem como até mesmo algumas versões em desenho animado, em uma das quais o papel de Holmes é interpretado pelo Patolino.

Será que Conan Doyle teria desaprovado o filme de Ritchie? Com certeza. E não apenas porque o personagem de Downey, frenético e exagerado, e até mesmo usando óculos escuros em determinada cena, parece mais feliz em resolver casos aos socos do que com o cérebro, mas sim porque pela maior parte do tempo ele pouco tem comum com o homem sobre o qual Conan Doyle escreveu.

Nos seus anos de velhice, o escritor se havia transformado em uma estranha combinação de velho resmungão e adepto fervoroso do espiritismo, e vivia frequentando sessões espíritas e mediúnicas, o que provavelmente o levaria a desaprovar uma trama como a do novo filme, que envolve expor as trapaças de ocultistas secretos que não passam de charlatões.

Por outro lado, as cenas de combate pugilístico entre Holmes e seus adversários no filme teriam surpreendido menos ao autor do que incomodaram alguns críticos atuais. Quando jovem, Conan Doyle foi um bom boxeador, e em pelo menos dois dos contos ele atribui a mesma qualidade a Holmes, ainda que seja provável que jamais tenha imaginado que o detetive dispunha de uma capacidade robótica, digna de um Exterminador do Futuro, para analisar as leis da Física e da resistência óssea antes de decidir como esmigalhar um adversário.

Quando Conan Doyle morreu, dezenas de filmes mudos baseados em Holmes já haviam sido realizados, bem como uma dúzia ou mais de peças, diversas das quais o autor assistiu. Em sua opinião, Holmes desviava a atenção de seus outros escritos, mais sérios, e o fato de que tenha criado um dos primeiros heróis pop, capaz de escapar à literatura barata da era vitoriana e ganhar vida mais ampla fora dos livros, não lhe propiciava qualquer satisfação.

Se Conan Doyle fosse um escritor melhor, o problema talvez jamais tivesse surgido. Holmes é tão memorável porque, como alguns dos super-heróis que surgiriam posteriormente, ele é mais uma coleção de traços fascinantes de personalidade do que um personagem completamente desenvolvido.

Raymond Chandler certa vez se queixou de que Holmes era pouco mais que algumas linhas de diálogo e atitudes inesquecíveis: o uso de drogas, o tédio, o violino, as deduções lógicas exibicionistas (que Conan Doyle sempre admitiu ter baseado em um de seus professores na escola de medicina).

Mas foi exatamente porque Holmes parecia tão vago e incompleto na página que ele se tornou uma figura pop tão irresistível, sobre a qual podemos projetar as interpretações que preferirmos. Muito do que sabemos, ou pensamos saber sobre ele – o chapéu de caça, as capas, o bordão “elementar, meu caro Watson” – não vem dos livros, mas de subsequentes interpretações, especialmente no cinema. Até o momento, mais de 200 filmes ou programas de TV protagonizados por Holmes já foram realizados, e os atores que interpretaram nas telas e palcos incluem John Barrymore, Raymond Massey, Ian Richardson, Jeremy Brett, George C. Scott, Stewart Granger, Charlton Heston, Roger Moore e – por mais estranho que pareça- Larry Hagman e Leonard Nimoy.

O mais influente deles, aquele cuja imagem como Holmes ainda persiste como versão oposta à de Downey, foi Basil Rathbone, que encarnou Holmes no cinema entre 1939 e 1946 e nos oferece alguns dos traços aparentemente indeléveis do detetive: a fronte ampla; o cabelo liso, escovado para trás; o porte lânguido, aristocrático; as tiradas esnobes. Essa imagem do detetive como homem imperturbável reinou sem contestação até que Nicol Williamson rompesse com o modelo ao interpretar Holmes como um sujeito frenético, sempre chapado de drogas, em The Seven-Per-Cent Solution, de 1976, uma adaptação do cineasta Herbert Ross para o romance homônimo de Nicholas Meyer.

Em 1985 surgiu O Jovem Sherlock Holmes, dirigido por Barry Levinson, no qual o Holmes adolescente parecia, em retrospecto, uma espécie de antevisão de Harry Potter. A produção do filme de Levinson coube a Steven Spielberg, cujo Indiana Jones é claramente a maior inspiração do novo filme de Ritchie.

Dizer que a nossa imagem de Holmes evoluiu de maneiras que refletem a mudança em nossa compreensão do personagem é provavelmente exagero. O mais provável é que tenha evoluído simplesmente porque o cinema evoluiu, e nossa apreciação do personagem agora abarca uma longa tradição cinematográfica. A trama do novo filme lembra tanto a de O Código Da Vinci quanto a dos filmes National Treasure.

A relação brincalhona entre Holmes e Watson (neste caso interpretado com graça, e sem maneirismos de velho, por Jude Law) tem algo de Butch Cassidy e Sundance Kid. Downey, que passa boa parte do filme tropeçando e trocou o chapéu de caça de Holmes por um chapéu-coco e outros modelos, inevitavelmente traz à memória sua interpretação de Charles Chaplin – o qual, na verdade, trabalhou em um dos primeiros filmes mudos sobre Holmes.

A Londres de Ritchie tem uma cara falsa, com o vento sobre o Tâmisa aparentemente soprando em mais de uma direção ao mesmo tempo. A cidade real jamais foi tão nevoenta, chuvosa e aparentada ao steam-punk. Mas a versão do filme também é a mais bela Londres entre todas aquelas em que Holmes viveu nas telas, e serve como lembrete de que parte do atrativo dos romances e contos era a atmosfera. Por outro lado, a coisa mais estranha sobre o filme é que Holmes, nele, é um sujeito fofo e adorável, algo que ele raramente, se alguma vez, foi, nas interpretações precedentes. Ser simpático costumava ser a característica de Watson, ao menos nos filmes; nos livros, Watson simplesmente serve de escada ao personagem principal.

Um dos personagens do filme de Ritchie afirma que existe algo de frágil por sob a lógica e raciocínio de Holmes, e é verdade. O personagem de Downey é ao mesmo tempo pretensioso e carente. Ele continua a se deliciar em exibir sua inteligência, mas menos por esnobismo do que por não conseguir evitar. Holmes vive para a platéia. O tédio, a lassidão, os indícios de uso de drogas, o violino (ainda que dedilhado apenas, porque Holmes parece ter perdido o arco durante boa parte do filme) estão presentes, mas seu problema parece ser menos mental do que físico.

Holmes requer casos não para exercitar seu formidável intelecto, mas para que possa sair de casa, correr, trocar socos, usar disfarces, terminar algemado nu a uma cama vitoriana. Não se pode evitar a sensação de que a frustração que ele exibe talvez derive do fato de que, na era vitoriana, a carreira correta para o detetive ainda não tivesse surgido: ele é o tipo de pessoa que deveria trabalhar no cinema.

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