As origens e o mito de Sherlock nas telas

Por Carlos Eduardo Lourenço Jorge
Condensado de Gazeta do Povo, 14/01/10

Desde os primórdios, antes mesmo de aprender a falar, o cinema tentou retratar as aventuras do famoso detetive

Agora que Sherlock Holmes está sendo submetido a um processo de nebulização que promete enfumaçar suas linhas mais caracteristicamente notáveis (além do cachimbo, do boné, da lupa e da inteligência, ele agora é bom em artes marciais), convém repassar um pouco a sua história cinematográfica que já dura pelo menos 105 anos, e inclui mais de 70 atores.

Os filmes que relataram seus casos são inumeráveis: somente no período do cinema mudo contam-se mais de 60. Daquele que se presume inaugural, Sherlock Holmes Baffled, não restou sequer o nome do diretor e nem o do intérprete. Apenas a vaga informação de que foi rodado em abril de 1900 em um amplo terraço envidraçado em Nova York. O filme somente foi registrado em 1903, mesmo ano de sua estréia. Já naquele período se deram os primeiros encontros de Holmes com Arsene Lupin, o ladrão de luvas brancas criado pelo francês Maurice Leblanc, interpretado por famoso ator dinamarquês da época.

Com a chegada do sonoro, o personagem de Conan Doyle se afirmou como o detetive mais requisitado pelos estúdios. Ficaram famosos os atores Clive Brook (The Return of Sherlock Holmes, 1929) e Raymond Massey (The Speckled Band, 1931). Mas foi o britânico Arthur Wontner quem mais se aproximou do ideal do cavaleiro do método dedutivo, quando apareceu em Sherlock Holmes final hour, em 1931. Ele atuou ainda em cinco filmes, e no último deles, The Silver Blaze (1936), o papel de Watson ficou a cargo de um tal Ian Fleming. Com certeza nada a ver com o criador de 007.

Há uma unanimidade. O único que conseguiu traduzir primorosamente em termos cinematográficos a natureza cerebral do detetive (embora alguns entre os 14 filmes em que apareceu no papel não fossem baseados nos originais literários) foi o sempre lembrado Basil Rathbone, que teve a memorável companhia de Nigel Bruce como Watson. Depois deste indiscutível reinado, que se prolongou entre 1939 e 1946, houve um longo silêncio antes que Peter Cushing e Christopher Lee devolvessem dignidade aos personagens.

Mais recentemente, os sherlocks favoritos foram Jeremy Brett (entre 1974 e 1994, na Inglaterra), e o russo Vasily Livanov, que o interpretou entre 1979 e 1968). A lista é necessariamente incompleta, mas é preciso acrescentar que também são muitas as paródias (A vida privada de Sherlock Holmes, de Billy Wilder, entre elas). E também as muitas liberdades tomadas, como lutas contra o nazismo. Ou ainda o combate acirrado contra a toxicomania de Sherlock no consultório do Dr. Freud em A solução sete por cento. Ou ainda o encontro com Jack, o estripador. E, claro, os tempos de estudante, quando conheceu Watson e viveu aventuras do tipo Indiana Jones em O jovem Sherlock Holmes e O segredo da pirâmide. Spielberg, claro, era o produtor da fantasia…

Assim, uma vez superados tantos desvios e atalhos e atrevimentos, pode-se apostar que o herói já sobreviveu com sobras às peripécias engendradas por Guy Ritchie.

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