Sherlock Holmes e seus pastiches

Por Ricardo Bonalume Neto
Condensado de Folha de SP, 11/02/10

Puristas detestaram o “Sherlock Holmes” de Guy Ritchie, em cartaz em circuito comercial. O cerebral detetive virou um homem que distribui socos. O filme foi comparado com “O Código Da Vinci” pela trama envolvendo magia. Já o violento Holmes foi comparado a Batman e a James Bond. Um crítico afirmou que o homoerotismo que perpassa o filme era “O Segredo de Brokeback Mountain” sem sexo…

Os puristas esquecem que Holmes ganhou vida própria. É mais famoso que o criador, o escritor escocês sir Arthur Conan Doyle (1859-1930). Tanto que o detetive foi ressuscitado pelo próprio por pressão popular (e um incentivo financeiro).

Outros escritores cometeram pastiches, roubando a dupla Holmes-Watson. O francês Maurice Leblanc, por exemplo, usou o detetive como adversário do seu principal personagem, o ladrão Arsène Lupin. Deu empate, é claro.

Doyle escreveu quatro romances e 56 contos sobre Holmes e Watson. A maioria narrada pelo médico John Watson, um veterano da intervenção britânica no Afeganistão. O primeiro livro é de 1887, mas o sucesso começou com contos na revista “The Strand Magazine“, em 1891.

No centenário da primeira publicação, uma editora americana lançou um livro com contos escritos por autores atuais. Stephen King fez o impensável: uma história em que Watson descobre o culpado antes.

Cansado do personagem, Doyle quis matar o detetive em 1893. Ele teria morrido durante uma briga com seu arquirrival, professor Moriarty. Em 1901, Holmes voltou com”O Cão dos Baskerville“, uma aventura ocorrida antes da morte. O público queria mais e o detetive voltou vivo da Suíça. A última história foi publicada em 1927.

A “construção” de Holmes começava já pelas ilustrações dos contos publicados na “Strand”. O Holmes icônico passou a ser o magro e alto desenhado por Sidney Paget. Também eram importantes a capa, o boné de pano de caçador e o cachimbo -que aparecem pouco por escrito. Assim como não aparece o “elementar, meu caro Watson”.

Holmes foi interpretado por mais de 70 atores no cinema e na TV. A imagem que mais permanece é a de Basil Rathbone. Ele estrelou filmes, nas décadas de 30 e 40, com tramas mais fantasiosas que a do filme atual. Holmes combatia nazistas.

“Se a concepção original de Conan Doyle tivesse sido totalmente realizada, nós teríamos um personagem mais durão e menos intelectual”, escreveu o escritor britânico Julian Symons (1912-1994).

Holmes é lembrado por suas deduções aparentemente sobrenaturais, mas baseadas em fatos. Muitos esquecem que ele lutava boxe, saía armado e, quando voltou à vida, usou arte marcial para vencer Moriarty.

O Watson bobalhão também não está nos livros. Ele é, de fato, um colaborador efetivo. O bobão se deve mais ao ator Nigel Bruce, que fazia o papel nos filmes de Rathbone.

Ou seja, Ritchie não está tão errado em colocar Robert Downey Jr. como um Holmes meio dândi, meio boxeador, e um Jude Law como um Watson mais bonito e mais homem de ação. OK, o filme tem um excesso de explosões e socos. Cada época “constrói” seu Sherlock.

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