Nos passos de Sherlock, em Londres e na Suíça

Por Roberto Muggiati
Condensado de Gazeta do Povo, 30/10/10

Rio de Janeiro – Londres, julho de 1986. Aluguei fraque e cartola para cobrir o casamento do Príncipe Andrew na Abadia de Westminster. Perto da locadora de trajes ficava o pub Sherlock Holmes. Fui correndo visitá-lo. O endereço, Northumberland Street, é próximo da antiga Scotland Yard e dos banhos turcos frequentados por Holmes e seu fiel escudeiro, o dr. Watson. O pub ocupa o local do antigo Northumberland Hotel, mencionado nas histórias do detetive, com ênfase especial no clássico O Cão dos Baskervilles. Uma de suas principais atrações é uma reconstituição “fiel” da sala principal do apartamento de Baker Street 221B, com objetos de Holmes: a lupa, o cachimbo, a capa de tweed, o chapéu com abas de perdigueiro, o violino Stradivarius, a parafernália do seu laboratório e todo um bricabraque vitoriano, incluindo as cartas não respondidas transfixadas por um canivete na cornija da lareira. Inspirado pela atmosfera — e ainda, naquele ano o famoso personagem de Arthur Conan Doyle completava 100 anos — decidi fazer, com minha mulher-fotógrafa, Lena, uma reportagem para a revista Manchete, sobre “A Londres de Sherlock Holmes”. Em dois dias e uma manhã, fotografamos a região do Covent Garden; o Hyde Park, por onde o herói e o dr. Watson caminhavam de dia e visitavam o Royal Albert Hall à noite; o Big Ben e o Tâmisa, cenário da empolgante perseguição em O Sinal dos Quatro; a loja em New Row, onde Sherlock comprava seus instrumentos de pesquisa; e a região de Baker Street, é claro.

Ilustração de Sidnet Paget (1893) para a Collier´s com Sherlock e Moriarty engalfinhados no abraço mortal na cachoeira de Reichenbach

Ilustração de Sidnet Paget (1893) para a Collier´s com Sherlock e Moriarty engalfinhados no abraço mortal na cachoeira de Reichenbach

Por mais caseiro que fosse, Sherlock nem sempre ficava em Londres: ia aonde seus casos o chamavam. Além de incursões pelo interior da Inglaterra, aventurou-se até a Suíça numa caça sem trégua ao professor Moriarty, o Napoleão do Crime. Como em todo casamento, Conan Doyle também teve sua crise do sétimo ano com Sherlock, Escreveu à mãe: “Estou pensando em assassinar Holmes … acabar com ele de uma vez por todas.” A velha, forrada de bom senso, respondeu: “Faça o que achar melhor, meu filho, mas a multidão não vai aceitar isso de bom grado.” Doyle sentia-se um escravo da criatura que inventara e que o desviava de projetos literários mais “nobres”. Seguiu em frente com seu plano e exterminou Holmes. No conto de 1893, “O Problema Final”, o detetive e seu arqui-inimigo Moriarty travam uma luta na cachoeira de Reichenbach e caem para a morte. (A mãe de Conan Doyle tinha razão: em 1903, não suportando a pressão do público, o escritor ressuscitou Sherlock numa nova série de aventuras, A Volta de Sherlock Holmes.)

As cataratas de Reichenbach tornaram-se local de peregrinação para fãs de Sherlock do mundo inteiro. Em julho de 1988, enquanto cobríamos o Festival de Jazz de Montreux, Lena e eu fizemos, para a Revista Geográfica Universal, a reportagem “Sherlock Holmes Está Vivo e Mora na Suíça”. Não foi fácil. Engana-se quem pensa que tudo fica perto na Suíça. De Montreux a Meiringen tivemos de pegar quatro trens, uma viagem de quatro horas, com baldeações rápidas comandadas em alemão e íngremes trechos de montanha. Na estação de Meiringen, um velho micro-ônibus de antes da Guerra (Primeira ou Segunda, tanto faz…) levou-nos ao funicular que sobe até as cataratas. Ainda foi preciso cobrir a pé um bom pedaço de montanha por uma trilha escorregadia — por pouco Lena e eu não seguimos Sherlock e Moriarty em sua queda fatal. Em “O Problema Final”, o dr. Watson encontra à beira do abismo uma picareta alpina encostada na rocha e, sobre esta, uma cigarreira de prata debaixo da qual está um bilhete escrito às pressas por Holmes, dando conta de que aguardava ali o supervilão Moriarty para “as discussão final das questões que nos separam”. Para reproduzir a cena, comprei uma cigarreira de prata num brechó de Montreux e um piolet (picareta alpina) numa loja de artigos esportivos. Muitos suíços, em seu passeio domingueiro, correram sério risco de serem espetados pela picareta que eu carregava orgulhoso sobre o ombro. Na cachoeira, aproveitei para aprisionar em duas garrafinhas o saibro e a água sacrossantos do local, que trouxe para meu amigo, sherlockófilo e sherlockólogo, George Gurjan.

Outro ponto obrigatório no roteiro suíço de Sherlock Holmes é o Château de Lucens, na cidadezinha do mesmo nome, a uma hora de trem de Lausanne. O castelo foi propriedade do filho de Conan Doyle, Adrian, que ali morou até morrer em 1970, pedindo que suas cinzas fossem enterradas na propriedade. Adrian fez do castelo um museu dedicado ao pai. Também ali existe uma réplica da sala de Sherlock em Baker Street 221B, um pouco diferente daquela do pub de Londres. O próprio castelo é cercado de mistério. Construção medieval (partes dos séculos 11 a 13, partes do século 16), viu o fim violento de muitos de seus ocupantes. Um deles, o Bispo Guillaume de Menthonay, foi morto por seu barbeiro em 1406, um dia depois de ter feito seu testamento. Abriga instrumentos de tortura, entre eles a lendária Donzela de Ferro de Nurembergue, de que é prova viva o único exemplar do mundo, exposto em Lucens. Há ainda o único guizo de bufão preservado em museu, do bobo-da-corte dos Médici. Vocês sabiam que foi o escocês Conan Doyle quem introduziu o esqui no cantão dos Grisões em 1892? Prova disso é o par de esquis pioneiro, exposto no castelo.

Uma nota de humor (negro) no Museu de Lucens é a placa ao lado de uma trombeta tibetana feita de tíbia humana: “Não é verdade que Sherlock tenha feito esta trombeta com a tíbia de Moriarty. Ele jamais seria capaz disso. Sherlock Holmes tocava violino…”

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