Tudo o que você precisa saber sobre Sherlock Holmes

Condensado de Gazeta do Povo, 30/10/10

Tarefa desagradável a de pinçar no texto de sir Arthur Conan Doyle (1859-1930) as qualidades que fazem de Sherlock Holmes a figura fictícia que muitos preferem acreditar ter existido também fora do papel – como um homem de carne, osso e deduções.

Basil Rathbone - Ator, ficou imortalizado pela sua interpretação de Sherlock Holmes na tevê e no cinema

Basil Rathbone – Ator, ficou imortalizado pela sua interpretação de Sherlock Holmes na tevê e no cinema

Não existe um fragmento de texto, uma proeza estilística ou apenas um elemento que responda o interesse suscitado pelo detetive que, depois de morto, obrigou seu criador a revivê-lo tamanha a comoção que causou nos leitores. É provável que Doyle temesse pela própria vida e preferiu tolerar sua cria mais um tanto a contrariar os seguidores de Holmes (ou ficar sem dinheiro).

O segredo para a longevidade dos 56 contos e 4 romances do detetive cocainômano está no que pode ser chamado de “A Linguagem de Conan Doyle”, com letras maiúsculas assim. Essa é uma expressão que aparece nos estudos da obra de William Shakespeare (1564-1616), a exemplo do que fez o pesquisador Frank Kermode, usada para se entender a força de peças teatrais como Rei Lear e Hamlet, valiosas mais de quatro séculos depois de terem sido escritas. Especialistas apreciam adaptações que colocam as peças do bardo em ambientes inusitados – na Nova York do século 20, em meio às gangues de Los Angeles ou num morro carioca – quando elas não alteram o texto. Pouco importa o cenário, Shakespeare é Shakespeare por causa da linguagem.

As histórias mais antigas de Sherlock Holmes têm 123 anos – Um Estudo em Vermelho saiu na forma de folhetim pela primeira vez em 1887, na Beeton’s Christmas Annual. Quatro anos depois, quando Conan Doyle começou a produzir contos, a fama de Holmes transformou o autor numa estrela – seu nome numa capa de revista garantia a venda de pelo menos 100 mil exemplares. O número impressiona nos dias de hoje e não era diferente na Londres do fim do século 19.

A influência do dr. Bell

O escritor vencedor do prêmio Pulitzer Michael Chabon, num ensaio de Maps and Legends (McSweeney’s, sem tradução no Brasil) sobre a origem do fanatismo que faz a indústria cultural faturar os tubos com leitores obcecados por livros e filmes na linha de Harry Potter ou da cinessérie Star Wars, aponta Conan Doyle como o inventor das histórias de detetive. Pedindo perdão a Edgar Allan Poe.

A afirmação de Chabon se baseia na técnica do escritor escocês que enveredou para a literatura porque não se deu bem na medicina. Ficou no curso tempo o bastante para ter aulas com um certo dr. Joseph Bell em 1876, professor de “diagnóstico narrativo”, ou o que ele chamava também de “ciência da detecção”.

Bell atuava na Enfermaria Real e levava seus alunos para a sala de recepção para exibir uma capacidade embasbacante de decifrar os problemas dos pacientes sem ter de falar com eles. Usava apenas a observação.

House, o protagonista da série de televisão homônima, muito popular por sinal, pode vir à lembrança e isso é elementar. O personagem vivido por Hugh Laurie é um dos muitos inspirados em Sherlock Holmes. Porém, em vez de resolver crimes, soluciona casos médicos. Seus sobrenomes começam com a letra agá e seus melhores amigos têm as mesmas iniciais: John Watson e James Wilson. Provas de que os criadores do seriado não dão ponto sem nó.

O impacto de Bell sobre Conan Doyle se tornou público quando as narrativas foram reunidas em livro e o autor inseriu uma nota agradecendo o professor por tê-lo inspirado na criação de Holmes.

Antes de explicar o fascínio de Sherlock, é o caso de dizer por que a explicação é necessária e também por que, em mais de meio século de crítica literária dedicada à obra de Conan Doyle, nunca deixarão de existir estudiosos determinados a elucidar o valor dela – e também matérias de jornal tratando do assunto.

A tevê a cabo do século 19

Conan Doyle abandonou a medicina para investir na única forma de ganhar dinheiro que conhecia: escrever ficção. As revistas literárias eram a tevê a cabo da época e viraram o ganha-pão do escocês.

Robert Downey Jr. vive o detetive Holmes e Jude Law, Watson, na nova versão para o cinema do clássico de Conan Doyle, desta vez dirigido por Guy Ritchie.

Robert Downey Jr. vive o detetive Holmes e Jude Law, Watson, na nova versão para o cinema do clássico de Conan Doyle, desta vez dirigido por Guy RitchiConan Doyle abandonou a medicina para investir na única forma de ganhar dinheiro que conhecia: escrever ficção. As revistas literárias eram a tevê a cabo da época e viraram o ganha-pão do escocês.

Um tanto contrariado, ele aceitou produzir as aventuras de Sherlock Holmes em série para sobreviver, mas nunca se livrou da ambição de escrever “alta literatura”. Hoje, poucos conhecem os livros de Conan Doyle em que o detetive não aparece. O público ignorou e ainda ignora os trabalhos que o autor mais prezava e ama aqueles que ele desprezava.

“Tive uma tal overdose de Holmes que me sinto em relação a ele como em relação a um patê de foie gras, que certa vez comi demais, tanto que até hoje sinto náusea só de ouvir o nome… Censuraram-me muito por ter dado cabo desse cavalheiro, mas sustento que não foi assassinato; foi um justificável homicídio em autodefesa, porque, se eu não o tivesse matado, ele certamente teria me matado”, escreveu Conan Doyle, enfastiado do detetive.

Quase três décadas depois de falar da náusea, ele pareceu ter feito as pazes com sua cria no livro Memórias e Aventuras (1924), no qual disse: “não quero ser ingrato com Holmes”. Porém, ele o foi e dedicou apenas um capítulo da autobiografia à invenção mais importante de sua carreira, exatamente aquela que o tornou rico e famoso.

O descaso do próprio Conan Doyle alimentou a desconfiança alheia. Há informações de que ele escrevia rápido e nunca revisava as histórias. Chegou a entregar 24 contos (com 30 páginas em média) para publicação ao longo de 29 meses. O que explica as inúmeras lacunas, erros e incongruências listados obsessivamente por leitores e pesquisadores até hoje. Um dos absurdos mais célebres é o desaparecimento da mulher de Watson, Mary, sem nenhum tipo de satisfação dada. Outro fato curioso é que Mary chamava o marido de James e não de John (também sem explicação).

“Examinando os recursos literários de Conan Doyle, de início nos decepcionamos: não há belos torneios de frases, adjetivos brilhante que saltem da página, agudezas psicológicas impressionantes”, diz o romancista John Le Carré na apresentação de As Aventuras de Sherlock Holmes, a edição definitiva, ilustrada e anotada sob o encargo de Leslie S. Klinger, publicada no Brasil pela Zahar.

Simples e engenhoso

Ilustração de Sidnet Paget (1893) para a Collier´s com Sherlock e Moriarty engalfinhados no abraço mortal na cachoeira de Reichenbach

Ilustração de Sidnet Paget (1893) para a Collier´s com Sherlock e Moriarty engalfinhados no abraço mortal na cachoeira de Reichenbach

Há uma simplicidade no texto que pode passar a ideia enganosa de que é fácil o que Conan Doyle fez (para ele, é até provável que tenha sido). No entanto, usar uma estrutura descomplicada para construir um todo engenhoso é feito de mestre. No mesmo texto, Le Carré continua: “O que vemos (…) é uma espécie de perfeição narrativa: uma interação perfeita entre diálogo e descrição, caracterização perfeita e timing perfeito. (…) A modéstia da linguagem de Doyle esconde um profundo reconhecimento da complexidade humana”. Percebeu quantos “perfeitos” Le Carré usou?

A Linguagem de Conan Doyle é a soma do que ele diz com o modo que usa para dizê-lo. Como acontece com certas pinturas, você precisa de perspectiva para reconhecer e apreciar uma aventura narrada pelo médico John Watson (em 56 dos 60 episódios é o parceiro de Holmes que fala ao leitor, três foram narrados pelo próprio detetive e um, apresentado na terceira pessoa). Leia só um trecho ou uma página e não terá noção do que se passa, mas, ao terminar um conto ou um romance – como se recuasse três passos a fim de ver melhor o quadro –, o universo habitado por Holmes se torna visível, para não dizer palpável.

O valor da Biblioteca Sherlock Holmes está, exatamente, nos textos. Quem vê um filme no cinema ou uma série de tevê arranha apenas a superfície da obra. As produções audiovisuais emprestam o nome e algumas características indefectíveis do personagem célebre, mas fazem com eles o que bem entendem. Mesmo um bom filme como a nova versão para o cinema, de 2009, com Robert Downey Jr. no papel de Holmes e Jude Law no de Watson, está muito, muito distante da obra original.

O mesmo vale para a série de tevê Sherlock, recém-lançada pelo canal britânico BBC, ainda inédita na tevê brasileira. Holmes rejuvenesceu uns 30 anos, largou a cocaína e o cigarro, virou adepto de adesivos de nicotina, é obcecado por mensagens de texto enviadas por celular e tem uma aparência meio andrógina. Ainda faz deduções, mas tem muito pouco a ver com seu correspondente literário. A única forma de saber por que Sherlock ainda vive é, afinal, por meio da leitura.

Perpetuidade

No mesmo ensaio sobre “Ficção de fã”, Michael Chabon aborda as qualidades da obra de Conan Doyle e tenta enumerar quais delas explicam sua perpetuidade: “enredo competente e esperto, ou a sede burguesa de aventura, ou a nostalgia de uma era que não existe mais (vitoriana ou adolescente), ou a dinâmica Holmes-Watson (analisadas talvez em termos junguianos ou segundo uma teoria gay), ou o sutil mas ainda palpável cavalheirismo de sir Arthur Conan Doyle, ou ainda, acima de tudo, pela qualidade da escrita, tão melhor do que o esperado”.

Dizem à boca miúda que o autor recebeu o título de sir depois de “ressuscitar” Holmes, supostamente morto pelo arqui-inimigo Moriarty em 1893. O desmentido da morte veio em 1903, com “A Casa Vazia”. Contudo, dois anos antes, ele retomou o personagem em “O Cão dos Baskerville“, “o mais magnífico policial de todos os tempos”. O romance é uma boa síntese do universo sherlockiano e serve também como porta de entrada. Embora os contos sejam absolutamente sedutores.

Para Chabon, um conhecido defensor da “baixa literatura” (as aspas ficam por conta da divisão absurda entre o que seria mais e menos digno de respeito quando a única divisão que deveria interessar é a má e a boa literatura), Conan Doyle teve três sacadas sensacionais ao criar o investigador.

O gênio de Conan Doyle

Número um diz respeito à técnica inovadora. Nunca antes um escritor manipulou tão bem a estrutura em que uma história se insere dentro de outra e esta, numa terceira. Há a versão do crime apresentada pelo cliente, depois ocorre a investigação da dupla Holmes e Watson e, por fim, há o desfecho, quando descobrem o que de fato ocorreu.

Número dois é ambientar as narrativas num mundo conhecido, seja em Londres ou em seus arredores. Até então as aventuras eram em terras bizarras, desconhecidas e distantes.

Três: embora não fosse novidade, o jogo proposto ao leitor de que tudo no livro era fato e não ficção acabou detonando um tipo de culto em torno da obra. Conan Doyle assumiu o papel de agente literário do médico Watson que, por sua vez, descrevia as peripécias do amigo Holmes.

Mesmo hoje, para um fã, aceitar o jogo é parte da diversão. Prova disso é a edição definitiva de Leslie S. Klinger. Num prefácio cuidadoso, feito em 2003, o organizador explica a Era Vitoriana (fundamental para se entender o contexto da obra), dá a biografia de Conan Doyle e, em seguida, apresenta Holmes e Watson como figuras históricas, com data de nascimento, morte e tudo mais. “Eu perpetuo a agradável ficção de que Holmes e Watson realmente existiram”, diz Klinger no prefácio.

Na realidade, eles existem. Abra um livro e veja.

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(Texto publicado no “Caderno G Ideias”, na versão impressa da Gazeta do Povo de 30 de outubro.)

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