Em ‘Nuvem da morte’, recém-lançado no Brasil, escritor britânico recria a adolescência de Sherlock Holmes

Por Lívia Brandão
Condensado de O Globo, 16/08/2011

RIO – Os X-Men tiveram sua juventude retratada em “Primeira classe” e até a “Turma da Mônica” de Maurício de Sousa ganhou uma versão jovem. Era elementar, meus caros, que mais cedo ou mais tarde os anos dourados de um personagem emblemático como Sherlock Holmes iriam ganhar as prateleiras das livrarias em uma versão talhada para o público teen. O detetive mais charmoso da ficção inspirou a série “O jovem Sherlock Holmes”, cujo primeiro volume, “Nuvem da morte” (Intrínseca), acaba de ser lançado no Brasil. Mais de oitenta anos após o falecimento de Arthur Conan Doyle, quem assume o papel de contar o início da trajetória do personagem criado pelo autor britânico é o jornalista – e conterrâneo – Andrew Lane.

Entre o desafio de emular seu autor favorito, as críticas dos fãs puristas e a pesquisa para retratar uma época não contemplada pelas histórias originais, Lane faz questão de deixar uma coisa clara: em comum com “O enigma da pirâmide”, clássico da “Sessão da tarde”, só o nome original (“Young Sherlock Holmes)”. Apesar de ter deixado uma legião de fãs pelo mundo, o filme dirigido por Barry Levinson e produzido por Steven Spielberg na década de 80 não agrada muito o escritor de 48 anos.

– Não gostei do filme quando saiu e o tempo não mudou minha opinião. Acho que o filme tem dois grandes problemas: introduz John Watson e o professor Moriarty anos antes de eles poderem cruzar o caminho de Sherlock e trata o jovem Sherlock exatamente como o velho Sherlock. Não há espaço para o desenvolvimento do personagem – explica Lane em entrevista ao GLOBO por e-mail, ressaltando o aspecto que mais o preocupou na hora de desenvolver sua série best-seller, que pode chegar a até 12 volumes: o “desenvolvimento do personagem”. Em “Nuvem da morte”, Sherlock tem apenas 14 anos e é obrigado a passar as férias de verão na casa de tios desconhecidos em uma cidade distante. É lá que o jovem tropeça em duas mortes misteriosas que se tornarão seus primeiros casos.
Para traçar o perfil do jovem detetive e contar sua história, Lane foi além das centenas de livros sobre Sherlock Holmes de sua biblioteca particular e mergulhou numa extensa pesquisa sobre a longínqua década de 1860 – que incluía a busca sobre meios de transporte e armas utilizados na época – para tornar todo o cenário mais verossímil. As parcas dicas deixadas por Conan Doyle sobre a adolescência de sua criatura serviram de ponto de partida para Lane inventar sua própria trama. E ele não se prende a tradições: a linguagem empolada, de ares vitorianos, foi deixada de lado em prol do público-alvo juvenil (“mas uso algumas palavras antiquadas de vez em quando, só para lembrar que esta não é uma série contemporânea”).

– Tentei desesperadamente não contradizer Conan Doyle, ressaltando os instintos solitários de Sherlock, as dificuldades para fazer amigos e a tendência a analisar as coisas em excesso. O que tento esclarecer é como Sherlock desenvolveu todas aquelas habilidades que o autor nos disse que ele tinha: o boxe, a esgrima, as artes marciais, a química, o violino… Também tento explicar como um garoto relativamente normal se transformou no adulto disfuncional que nos é tão familiar.

Para Lane, o jeitinho obsessivo-compulsivo, maníaco depressivo e dependente químico de Sherlock Holmes seria consequência de uma infância conturbada.

– Eu não podia, naturalmente, mostrar o Sherlock Holmes de 14 anos tomando drogas por vontade própria, mas ele acaba sendo dopado por outras pessoas com láudano (um opiáceo de efeito sedativo). Minha teoria é que o vício dele tem raízes em suas primeiras experiências com tóxicos.

Com quatro livros prontos até o momento, Lane pretende levar Sherlock através dos anos de colégio até chegar à universidade no exato ponto em que encontra John H. Watson pela primeira vez. No segundo livro (com previsão de lançamento no Brasil no primeiro semestre de 2012), Sherlock viaja até Nova York, no terceiro ele vai até a Rússia e, no quarto, volta para perto de casa, na Escócia.

Semelhanças com ‘House’

Para o autor da versão rejuvenescida da obra de Conan Doyle, a importância de Sherlock para a ficção ocidental fica clara em sucessos da TV e do cinema. Lane vê semelhanças até mesmo entre Holmes e o controverso doutor Gregory House, da série de TV. Mas, assim como em “O enigma da pirâmide”, ele acha que as referências não funcionam.

– “House” é obviamente baseado em Sherlock Holmes. Ele é viciado em drogas, vê através das mentiras das pessoas, seu melhor amigo é um médico e ele vive, como vemos em um episódio, no flat 221b (número da casa onde Sherlock vivia) – mas, o escritor ressalta, falta umje ne se quois ao personagem de jaleco – Parece que estou vendo sempre o mesmo episódio. Um paciente aparece com sintomas estranhos; todo mundo tenta diagnosticá-lo sem sucesso; o paciente quase morre; House ouve alguém dizendo algo que inspira um pensamento aleatório; ele aplica um tratamento inusitado contrariando as ordens de seu chefe e o paciente milagrosamente sobrevive. Continuarei esperando para que algo mais aconteça.

§

Leia um trecho de ‘Nuvem da morte’,
sobre a adolescência de Sherlock Holmes

Capítulo 1

– Você aí! venha aqui!

Sherlock Holmes virou-se para ver quem era chamado e quem estava chamando. Havia centenas de alunos sob o sol radiante do lado de fora da Escola Deepdene para Meninos naquela manhã, todos vestindo um imaculado uniforme escolar, e, aos pés de cada um deles, como se fosse um cão leal, via-se um baú de madeira com alça de couro ou um punhado de malas muito cheias. Qualquer um poderia ter sido o alvo do chamado. Os professores de Deepdene faziam questão de nunca chamar os alunos pelo nome – era sempre “Você!”, “Rapaz!” ou “Criança!”. Isso, além de dificultar a vida dos garotos, mantinha-os alerta, e provavelmente era a razão desse costume. Ou então os professores, havia muito tempo, tinham desistido de tentar lembrar o nome de seus alunos; Sherlock não sabia qual era a explicação mais provável. Talvez as duas.

Nenhum dos outros alunos prestava atenção. Ou conversavam com parentes que tinham ido buscá-los, ou olhavam ansiosos para os portões da escola, à espera de verem a carruagem que os levaria para casa. Relutante, Sherlock virou-se para ver se o maligno dedo do destino apontava em sua direção.

Apontava. O dedo em questão pertencia, nesse caso, ao Sr. Tulley, o professor de latim. Ele acabara de aparecer na esquina do prédio, onde Sherlock estava, afastado dos demais alunos. Seu terno, normalmente coberto de pó de giz, fora especialmente limpo para o fim do período e os inevitáveis encontros com os pais que pagavam pela educação dos filhos, e seu capelo permanecia reto sobre a cabeça, como se colado ali pelo diretor.

– Eu, senhor?

– Sim, senhor. Você, senhor – respondeu irritado o Sr. Tulley.

– Dirija-se à sala do diretor quam celerrime. Lembra-se o suficiente das aulas de latim para saber o que isso significa?

– Significa “imediatamente”, senhor.

– Então, mova-se.

Sherlock voltou o olhar para o portão.

– Mas, senhor… Estou esperando meu pai vir me buscar.

– Tenho certeza de que ele não irá embora sem você, rapaz.

Sherlock fez uma última e ousada tentativa.

– Minha bagagem…

O Sr. Tulley olhou com desdém para a velha arca de madeira de Sherlock – uma herança das viagens do pai quando era militar, coberta por manchas de sujeira e arranhões deixados pelo tempo.

– Não creio que alguém vá querer roubá-la, exceto, talvez, por seu valor histórico – ele disse. – Vou providenciar para que um monitor tome conta dela. Agora vá.
Relutante, Sherlock abandonou seus pertences – camisas e roupas íntimas, livros de poesia e cadernos nos quais adquirira o hábito de anotar ideias, pensamentos, especulações e alguma melodia que surgisse em sua cabeça – e dirigiu-se à galeria que, sustentada por colunas, levava à entrada do prédio da escola. Enquanto atravessava o mar de alunos, pais e irmãos, mantinha o olhar fixo no portão estreito, que vários cavalos e carruagens tentavam cruzar ao mesmo tempo.

O saguão da entrada era revestido de carvalho e adornado com bustos de mármore dos antigos diretores e patronos, cada qual em seu pedestal. Raios de sol atravessavam o espaço no sentido diagonal: entravam pelas janelas altas e incidiam sobre o piso de lajotas pretas e brancas, iluminando a poeira de giz que pairava no ar. O ambiente tinha o cheiro do ácido carbólico que as criadas usavam para limpar o piso todas as manhãs. A aglomeração no saguão dava a impressão de que a qualquer momento um daqueles bustos cairia. Alguns deles já tinham rachaduras que marcavam a superfície de mármore, e isso dava a impressão de que, a cada ano, pelo menos um deles caía e era reparado.

Sherlock andava e desviava-se das pessoas, ignorado por todos, até livrar-se da multidão e chegar a um corredor que saía do saguão. A sala do diretor ficava alguns metros adiante. Ele parou na soleira, respirou fundo, ajeitou as lapelas e bateu na porta.

– Entre! – respondeu a voz alta e teatral.

Sherlock girou a maçaneta e empurrou a porta, tentando sufocar o nervosismo que se espalhava como raios por seu corpo. Estivera naquela sala apenas duas vezes: uma com o pai, quando chegaram a Deepdene, e, um ano mais tarde, com outros alunos, todos acusados de colar em uma prova. Os três líderes do grupo tinham sido castigados com a palmatória e expulsos; quatro ou cinco seguidores foram açoitados até o traseiro sangrar, mas permaneceram na escola; Sherlock, cujos trabalhos tinham sido copiados pelo grupo, escapara da palmatória dizendo que não sabia de nada sobre o episódio. Na verdade, ele sabia de tudo, mas sempre fora um excluído na escola, e, se o fato de deixar que outros alunos copiassem seu trabalho fosse torná-lo mais tolerado, se não aceito, ele não faria objeções éticas. Por outro lado, também não iria delatar os colegas que tinham colado, porque isso certamente lhe renderia uma surra, e talvez fosse mantido à força diante de uma das fogueiras que ardiam na frente dos alojamentos, até que sua pele começasse a fazer bolhas e as roupas fumegassem. A vida escolar era assim: um eterno malabarismo entre professores e colegas. E Sherlock odiava isso.

A sala do diretor era exatamente como ele lembrava: ampla, escura e com um cheiro que combinava couro com fumo para cachimbo. O Sr. Tomblinson estava sentado atrás de uma escrivaninha grande o bastante para que se pudesse jogar boliche nela. Era um homem corpulento, que vestia um terno ligeiramente apertado, talvez com a intenção de convencer-se de que não era tão grande quanto obviamente era.

– Ah, Holmes, não é? Entre, rapaz, entre. E feche a porta.

Sherlock fez como fora instruído, mas, ao fechar a porta, viu que havia outra pessoa na sala: um homem parado diante da janela, com um cálice de xerez na mão. A luz do sol se transformava em fragmentos de arco-íris ao incidir sobre o vidro da taça.

– Mycroft? – disse Sherlock, surpreso.

Seu irmão mais velho virou-se para encará-lo, e um sorriso tremulou tão rapidamente em seus lábios, que, se Sherlock tivesse piscado no momento errado, não o veria.

– Sherlock. Você cresceu.

– Você também – respondeu Sherlock. De fato, o irmão engordara. Estava quase tão roliço quanto o diretor, mas seu terno fora feito de forma a esconder o sobrepeso, não acentuá-lo.

– Você veio na carruagem de nosso pai.

Mycroft ergueu uma sobrancelha.

– Como diabos chegou a essa conclusão, jovem?

Sherlock encolheu os ombros.

– Notei que há vincos paralelos na sua calça, onde ela foi pressionada pelo estofamento, e lembro que, no assento da carruagem, ele tem um rasgo, que foi grosseiramente remendado há alguns anos. A impressão desse conserto ficou em sua calça, perto dos vincos. – Sherlock fez uma pausa. – Mycroft, onde está nosso pai?

O diretor pigarreou para atrair a atenção do aluno.

– Seu pai está…

– Papai não virá – Mycroft o interrompeu com um tom ameno. – Seu regimento foi destacado para a Índia, a fim de reforçar a força militar atual. Há certa agitação na região da fronteira noroeste. Sabe onde fica?

– Sim. Estudamos a Índia nas aulas de geografia e história.

– Bom menino.

– Não sabia que os nativos estavam causando problemas outra vez – resmungou o diretor.

– Não foi divulgado pelo jornal “The Times”, certamente.

– Não são os indianos – contou Mycroft. – Quando recuperamos o território da Companhia das Índias Orientais, os soldados que ali estavam foram postos de volta sob o comando do Exército. Eles consideram o novo regime muito mais… severo… que o anterior. Tem havido muito ressentimento, e o Governo decidiu aumentar drasticamente o tamanho do contingente na Índia, para dar-lhes um exemplo de como devem ser os soldados de verdade. Já é ruim lidar com uma revolução dos nativos; um motim dentro do Exército britânico é inaceitável.

– E haverá um motim? – perguntou Sherlock, sentindo o coração apertar como se fosse uma pedra que afundasse em águas profundas. – Papai estará seguro?

Mycroft encolheu os ombros largos.

– Não sei – ele respondeu com simplicidade. Essa era uma das coisas que Sherlock respeitava no irmão. Ele sempre dava uma resposta direta a uma pergunta direta. Não enrolava. – Infelizmente, não tenho todas as informações. Ainda não, ao menos.

– Mas você trabalha para o Governo – insistiu Sherlock. – Deve ter alguma ideia do que pode acontecer. Não é possível enviar um regimento diferente? Manter nosso pai aqui na Inglaterra?

– Estou no Ministério das Relações Exteriores há apenas alguns meses – respondeu Mycroft – e, embora esteja lisonjeado por você pensar que tenho o poder de alterar coisas tão importantes, receio não tê-lo. Sou um conselheiro. Apenas um funcionário administrativo, na verdade.

– Quanto tempo nosso pai ficará fora do país? – indagou Sherlock, lembrando o homem grande vestido com o paletó de sarja vermelha e os cintos brancos cruzando o peito, a pessoa de riso fácil e que raramente perdia a calma, que era seu pai. O jovem sentiu a pressão no peito, mas controlou as emoções. Se aprendera uma lição durante seu tempo em Deepdene, era que uma pessoa nunca deveria demonstrar emoção. Caso contrário, isso seria usado contra essa pessoa.

– Seis semanas até o navio chegar ao porto, estimo que uns seis meses no país, e mais seis semanas para a viagem de volta. Nove meses, ao todo.

– Quase um ano. – Sherlock abaixou a cabeça por um momento, recompondo-se, depois assentiu. – Podemos ir para casa agora?

– Você não vai para casa – respondeu Mycroft.

Sherlock ficou parado, absorvendo as palavras, sem dizer nada.

– Ele não pode ficar aqui – avisou o diretor. – O lugar está sendo limpo.

Mycroft transferiu o olhar calmo de Sherlock para o diretor:

– Nossa mãe… não se sente bem – disse. – Sua constituição é, na melhor das hipóteses, delicada, e essa questão envolvendo nosso pai a abalou muito. Ela precisa de paz e tranquilidade, e Sherlock precisa de alguém mais velho que cuide dele.

– Mas eu tenho você! – protestou Sherlock.

Mycroft balançou a cabeça com tristeza.

– Agora vivo em Londres, e preciso trabalhar muitas horas todo dia. Receio não poder ser o guardião apropriado de um menino, especialmente um tão inquisitivo quanto você. – Ele se virou para o diretor, quase como se fosse mais fácil dizer a ele a informação seguinte que anunciá-la a Sherlock. – Embora a casa da família fique em Horsham, temos parentes em Farnham, não muito longe daqui. Um tio e uma tia. Sherlock ficará com eles durante as férias escolares.

– Não! – Sherlock explodiu.

– Sim – Mycroft anunciou calmamente. – Já está arranjado. Tio Sherrinford e tia Anna aceitaram hospedá-lo durante o verão.

– Mas eu nem os conheço!

– Mesmo assim, são da família.

Mycroft despediu-se do diretor enquanto Sherlock ficava ali, parado, tentando assimilar a enormidade do que acabara de acontecer. Não iria para casa. Não veria o pai e a mãe. Não exploraria os campos e os bosques em volta da mansão que fora seu lar por catorze anos. Não dormiria em sua antiga cama no último andar da casa, no quarto onde guardava todos os seus livros. Não iria escondido até a cozinha, onde a cozinheira lhe daria uma fatia de pão com geleia se ele lhe sorrisse. Em vez disso, passaria semanas com pessoas que não conhecia, comportando-se da melhor maneira possível, em uma cidade, em uma região sobre a qual não sabia nada. Sozinho, até voltar para a escola. Como suportaria?
Sherlock saiu com Mycroft da sala do diretor e seguiu-o pelo corredor até o saguão na entrada do prédio. A carruagem fechada os aguardava do lado de fora, com as rodas cobertas de lama e as laterais empoeiradas da viagem de Mycroft até ali. O brasão da família Holmes fora pintado na porta. O baú de Sherlock já tinha sido acomodado na parte de trás. Um condutor sério que Sherlock não reconhecia ocupava o assento na frente do veículo, segurando com uma atitude relaxada as rédeas que ligavam a carruagem aos dois cavalos.

– Como ele sabia qual era minha bagagem?

Mycroft fez um gesto com as mãos que indicava que aquilo não era nada especial.
– Eu vi sua arca pela janela do diretor. Era a única que estava abandonada. Além do mais, ela pertencia a nosso pai. O diretor teve a gentileza de mandar um menino dizer a nosso condutor para trazê-la para a carruagem. – Ele abriu a porta do veículo e fez um gesto que convidava Sherlock a entrar. Em vez disso, Sherlock olhou em volta, para a escola e para os outros alunos.

– Está agindo como se achasse que nunca mais irá vê-los – disse Mycroft.

– Não é isso – respondeu Sherlock. – É que esperava sair daqui para um lugar melhor. Agora sei que estou indo para um lugar pior. Ou, na melhor das hipóteses, tão ruim quanto este lugar.

– Não será assim. Tio Sherrinford e tia Anna são boas pessoas. Sherrinford é irmão de nosso pai.

– Então, por que nunca ouvi falar deles? – perguntou Sherlock. – Por que nosso pai nunca mencionou que tinha um irmão?

Mycroft encolheu-se quase imperceptivelmente.

– Receio que tenha havido um problema na família. As relações estiveram tensas por algum tempo. Mamãe retomou o contato por cartas há alguns meses. Não sei nem se nosso pai sabe disso.

– E é para esse lugar que você vai me mandar?

Mycroft bateu no ombro de Sherlock.

– Se houvesse alternativa, eu não teria tomado essa decisão, acredite. Agora, ainda precisa se despedir de seus amigos?

Sherlock olhou à volta. Havia garotos que ele conhecia, mas será que algum deles era de fato um amigo?

– Não – o menino respondeu. – Vamos embora.

A viagem até Farnham durou várias horas. Depois de passar pela cidade de Dorking, que era a área habitada mais próxima de Deepdene, a carruagem seguiu adiante por estradas rurais, e viajou sob árvores frondosas, passando por um ou outro chalé de sapê ou casa de alvenaria, e por campos cobertos de plantações de cevada. O sol brilhava no céu sem nuvens e transformava a carruagem em um forno, apesar da brisa que soprava fora. Insetos zuniam preguiçosos nas janelas. Sherlock ficou algum tempo vendo o mundo passar do lado de fora. Eles pararam em uma hospedaria para almoçar, e lá Mycroft comprou um pouco de presunto e queijo e um pedaço de pão. Em algum estágio da jornada, Sherlock adormeceu. Quando acordou, minutos ou horas depois, a carruagem ainda se movia pelo mesmo cenário. Por algum tempo ele conversou com Mycroft sobre o que acontecia na casa da família, sobre a irmã deles, sobre a saúde frágil da mãe. Mycroft perguntou sobre os estudos de Sherlock, que contou a ele alguma coisa sobre as diversas aulas a que tinha assistido, e mais sobre os professores que as administraram. Ele reproduziu vozes e maneirismos, e fez o irmão mais velho rir da crueldade e do humor das imitações.

Depois de um tempo surgiram mais casas ao longo da estrada, e logo entravam em uma cidade grande, com os cascos dos cavalos fazendo barulho nas pedras do calçamento. Debruçado na janela do veículo, Sherlock viu o que parecia ser uma sede administrativa: um edifício de três andares, todo de reboco branco e vigas pretas, com um grande relógio que pendia de um suporte sobre a porta dupla da entrada.

– Farnham? – ele conjecturou.

– Guildford – respondeu Mycroft. – Agora falta pouco para chegarmos a Farnham.

A estrada depois de Guildford percorria uma serra cercada por precipícios dos dois lados; campos e bosques se espalhavam como brinquedos, com trechos ocupados por flores amarelas.

– Esta serra é chamada de Hog’s Back – Mycroft comentou.

– Há uma estação de semáforo por aqui, em Pewley Hill; é parte da cadeia que se estende desde o Almirantado em Londres até o porto de Portsmouth. Eles já ensinaram sobre semáforos na escola?

Sherlock balançou negativamente a cabeça.

– Típico – murmurou Mycroft. – Todo latim que um menino seja capaz de enfiar na cabeça, mas nada que possa ter alguma utilidade prática… – Ele suspirou. – O semáforo é um método para transmitir mensagens rapidamente por uma longa distância, o que levaria dias para um mensageiro a cavalo. As estações de semáforos têm no topo tábuas que podem ser vistas de longe, e nelas há seis grandes buracos que podem ser abertos ou fechados por obturadores. Dependendo dos buracos que são abertos ou fechados, as tábuas formam letras diferentes. Um homem em cada estação observa com um telescópio tanto a estação anterior quanto a seguinte. Se vê uma mensagem sendo escrita, ele a anota e a repete em sua estação. Dessa forma a mensagem viaja. Esta cadeia em particular começa no Almirantado, segue por Chelsea e Kingston e acompanha o Tâmisa até aqui, e continua até o porto de Portsmouth. Existe outra cadeia até o porto de Chatham e outras para Deal, Sheerness, Great Yarmouth e Plymouth. Foram construídas para que o Almirantado pudesse transmitir mensagens rapidamente para a Marinha, no caso de uma invasão francesa ao país. Agora, diga-me: se há seis buracos e cada um deles pode estar aberto ou fechado, quantas combinações diferentes existem que representem letras, números ou outros símbolos?

Lutando contra o impulso de dizer ao irmão que ele estava de férias, Sherlock fechou os olhos e fez cálculos durante um tempo. Um buraco podia ter duas posições: aberto ou fechado. Dois buracos podiam representar quatro posições: aberto-aberto; aberto-fechado; fechado-aberto; fechado-fechado. Três buracos… Ele trabalhou rapidamente estudando as possibilidades e logo percebeu que um padrão emergia.

– Sessenta e quatro – respondeu.

– Muito bem – Mycroft aprovou. – Fico feliz por ver que sua matemática, pelo menos, está afiada. – Ele olhou pela janela à direita. – Ah, Aldershot! Lugar interessante. Há catorze anos foi designado para lar do Exército britânico pela rainha Vitória. Antes, era só um vilarejo com menos de mil habitantes. Agora são dezesseis mil, e a cidade ainda está em crescimento.

Sherlock esticou o pescoço para enxergar o que havia além da janela ao lado do irmão, mas, de onde estava, só conseguia ver um amontoado de casas e o que talvez tivesse sido uma ferrovia que corresse paralelamente à estrada ao pé da encosta. Ele voltou a acomodar-se no assento e fechou os olhos, tentando não pensar no que o esperava.
Depois de um tempo sentiu que a carruagem descia uma ladeira. Logo depois eles começaram a descrever uma série de curvas, e o som do solo sob os cascos dos cavalos mudou. O calçamento de pedra dava lugar à terra batida. Ele fechou os olhos com mais força ainda, tentando adiar o momento em que teria de aceitar o que estava acontecendo.
A carruagem parou sobre o cascalho. O som de pássaros cantando e do vento soprando por entre as folhas das árvores invadiu o veículo. Sherlock ouviu passos que se aproximavam.

– Sherlock – Mycroft chamou com um tom gentil. – Hora de encarar a realidade.

Ele abriu os olhos.

A carruagem estava diante da entrada de uma casa ampla.

Construída com tijolos vermelhos, ela se erguia muito imponente com seus três andares, além do que parecia ser um conjunto de cômodos no sótão, a julgar pelas pequenas janelas no telhado de placas cinzentas. Um criado preparava-se para abrir a porta do lado de Mycroft. Sherlock se deslocou pelo banco e seguiu o irmão para fora do veículo.
Uma mulher os esperava no alto da escada de três largos degraus de pedra, no pórtico sombrio diante da porta de entrada. Estava vestida inteiramente de preto. O rosto era magro e contraído; os lábios eram apertados, e os olhos, estreitos, como se naquela manhã alguém tivesse trocado sua xícara de chá por vinagre.

– Bem-vindos à mansão Holmes; eu sou a Sra. Eglantine – ela disse com voz seca, áspera. – Sou a governanta. – E olhou para Mycroft. – O Sr. Holmes o receberá na biblioteca quando você puder. – Seu olhar deslizou para Sherlock. – E o criado vai levar sua… bagagem… para o seu quarto, Sr. Holmes. O chá da tarde será servido às três horas. Por favor, tenha a bondade de permanecer em seu quarto até lá.

– Não ficarei para o chá – informou Mycroft com sua voz suave. – Infelizmente, preciso retornar a Londres. – Ele se voltou para Sherlock, e em seus olhos havia uma expressão que era parte solidariedade, parte amor fraternal, parte advertência.

– Cuide-se, Sherlock – disse ele. – Virei buscá-lo para levá-lo de volta à escola no fim das férias, e se puder virei visitá-lo antes disso. Seja bom, e aproveite a oportunidade para conhecer o lugar. Acredito que tio Sherrinford tenha uma excelente biblioteca. Peça-lhe permissão para tirar proveito da sabedoria acumulada nesses livros. Vou deixar meus contatos com a Sra. Eglantine; se precisar de mim, mande um telegrama ou escreva uma carta. – Ele tocou o ombro de Sherlock para confortá-lo. – Essas pessoas são boas – disse, com a voz baixa o bastante para que a Sra. Eglantine não pudesse ouvi-lo -, mas, como todos da família Holmes, têm suas excentricidades. Fique atento e tome cuidado para não chateá-las. Escreva-me quando tiver tempo. E lembre-se: não é para o resto da vida. Serão apenas dois meses. Coragem. – Ele apertou o ombro do irmão.

Sherlock sentiu uma bolha de raiva e frustração subir pela garganta e a suprimiu. Não queria que Mycroft visse sua reação, e também não queria começar mal esse período de hospedagem na mansão Holmes. Suas atitudes nos próximos minutos determinariam o tom do restante da estada. Ele estendeu a mão. Mycroft soltou o ombro de Sherlock e apertou a mão do irmão, sorrindo com afeto.

– Adeus – Sherlock disse com o tom mais neutro que conseguiu empregar. – Diga à mamãe que a amo. E à Charlotte, também. E se tiver alguma notícia de nosso pai, por favor, avise-me. Mycroft virou-se e começou a subir a escada que levava à porta de entrada. A Sra. Eglantine, com seu rosto inexpressivo, e Sherlock olharam-se por um momento, e então ela se virou e conduziu Mycroft ao interior da casa. Sherlock olhou para trás e viu o criado lutando para equilibrar o baú sobre o ombro. Quando conseguiu equilibrá-lo, subiu cambaleante a escada atrás de Sherlock, que, cabisbaixo, o acompanhou.
O piso do saguão era de ladrilhos pretos e brancos; o revestimento das paredes era de mogno; uma escada de mármore ornamentada descia dos andares superiores como uma cachoeira congelada, e quadros de cenas religiosas, paisagens e animais cobriam as paredes. Mycroft entrou, por uma porta à esquerda da escada, em um quarto que, pelo pouco que Sherlock conseguiu ver, era cheio de coleções de livros encapadas com couro verde. Um homem magro, idoso, num terno preto antiquado, levantou-se de uma cadeira estofada com um tom de couro exatamente igual ao das capas dos livros atrás dela. O homem tinha barba, o rosto era enrugado e pálido, e havia manchas amareladas em seu couro cabeludo.

A porta foi fechada enquanto eles se cumprimentavam com um aperto de mão. O criado seguiu em frente até o pé da escada, ainda equilibrando o baú sobre os ombros. Sherlock seguiu-o. A Sra. Eglantine estava ao pé da escada, na frente da biblioteca. Olhava, por cima da cabeça de Sherlock, para a porta fechada.

– Criança, tenha certeza de que não é bem-vinda aqui – a governanta sibilou quando Sherlock passou por ela.

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