A novela que inventou o gênero policial

Por Gonçalo Junior
Condensado de Valor Econômico, 09/03/2012

E.T.A. Hoffmann (1776-1822)

E.T.A. Hoffmann (1776-1822)

No século mais prodigioso da literatura mundial, o XIX, E.T.A. Hoffmann (1776-1822) talvez tenha sido o que mais influenciou seu tempo. E ele estava bem acompanhado: Charles Dickens, Mary Shelley, Edgar Allan Poe, Robert Louis Stevenson, Herman Melville, Joseph Conrad e Fiódor Dostoiévski, só para citar alguns. E continua a ser uma referência quase 200 anos depois de sua morte. Hoffmann é um dos pais do chamado terror gótico. Sua novela “The Sandman” impressionou tanto Sigmund Freud que este lhe dedicou um ensaio famoso, “O Sinistro”, em 1919. Na década de 1980, sua literatura levou o inglês Neil Gaiman a reinventar o mito do personagem nas histórias em quadrinhos na série mais cultuada desde então.

O romance policial “Senhorita de Scuderi”, publicado em 1820 e agora lançado no Brasil, é mais um atestado de sua capacidade inventiva. Não se sabe por que esse texto seja apenas considerado o primeiro livro policial da Alemanha e não do mundo, como é o correto. Embora enciclopédias afirmem que Poe começou tudo, ao publicar, em 1841, nas colunas do “Graham’s Magazine”, da Filadélfia, o quase conto “Os Crimes da Rua Morgue”, o pioneirismo deve ser atribuído a Hoffmann. E de modo incontestável, apesar de seu nome nem sequer constar das listas conhecidas dos autores mais importantes do gênero, com seus respectivos personagens detetives. Daí a relevância histórica de “Senhorita de Scuderi”.

O escritor alemão concebeu a trama com detetive. No caso, uma aristocrática senhora de 73 anos, escritora solteirona, que se vê desafiada pelo assassinato de um artesão de joias em 1680, quando Paris foi tomada por uma série de assaltos e assassinatos misteriosos. Para ajudar o filho de uma antiga amiga que já morreu, ela usa de todos os meios possíveis para investigar o caso, até recorrer à amizade do rei. Estão na trama todos os aspectos que virariam clichês do gênero: estrutura narrativa folhetinesca, assassinato, herói detetive com espírito aventureiro e avesso a certas regras sociais, investigação paralela e a revelação e punição do malfeitor, além de oposições claras entre o bem e o mal e informação jornalística – laudo de perícia, decisão judicial etc.

Por tudo isso, Hoffmann estabeleceu a fórmula completa que influenciou principalmente sir Arthur Conan Doyle e suas aventuras de Sherlock Holmes. As passagens com longas descrições e lembranças, em especial, mostram isso. Mas seus méritos vão além. O livro é exemplar em seu propósito de divertir, antecipa o subgênero noir ao explorar uma Paris sombria e enevoada, sufocante, onde todos os fatos decisivos acontecem de madrugada ou em noites desertas e de frio, em meio a castelos, carruagens, fraques, cartolas etc.

A capacidade do autor de envolver o leitor se deve ao fascínio que provocam os personagens, que têm a vida revelada ou devassada em flashbacks. A revelação do assassino e a motivação do crime são antecipadas para um desfecho em que é preciso correr contra o tempo para evitar que um provável inocente seja condenado à morte.

Hoffmann morreu precocemente, aos 46 anos, depois de uma vida intensa. Nasceu na Prússia (hoje Rússia), mas cresceu na Alemanha, onde chegou a ocupar o cargo de juiz da Corte de Apelação em Berlim, onde morreu. Foi nessa experiência real com o mundo do crime que buscou inspiração para fazer uma história tão marcante como “A Senhorita de Scuderi”, de qualidade superior até a muitos grandes romances policiais, que finalmente pode ser lida, com prazer, em português.

“A Senhorita de Scuderi”
E.T.A. Hoffmann. Trad.: Marcelo Backes Civilização Brasileira 144 págs., R$ 29,90

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