Autor dá continuidade à obra de Arthur Conan Doyle

Condensado de Folha de SP
da Livraria da Folha, 17/05/12

Apesar de muitos títulos levaram o nome de Sherlock Holmes, “A Casa da Seda” é o primeiro romance que recebe autorização da entidade que administra e protege a obra de Arthur Conan Doyle (1859-1930).

A casa da seda, de Anthony Horowitz

A casa da seda, de Anthony Horowitz

Holmes ficou conhecido como um dos maiores investigadores por sua habilidade em observar detalhes. O seu método baseava-se em três princípios: observação, dedução e conhecimento.

O escritor Anthony Horowitz –que recebeu a honraria de causar inveja aos amantes da literatura policial– é autor das séries “Alex Rider” e “O Poder dos Cinco”, entre outros.

Abaixo, leia um trecho do exemplar.

*

Prefácio

Refleti muitas vezes sobre a estranha série de circunstâncias que levou à minha longa associação com uma das mais singulares e extraordinárias figuras de meu tempo. Tivesse eu inclinações filosóficas, perguntaria a mim mesmo em que medida qualquer um de nós controla o próprio destino, ou se alguma vez podemos de fato prever as consequências a longo prazo de ações que, na época, pareceram inteiramente triviais.

Por exemplo, foi meu primo, Arthur, quem me recomendou como cirurgião-assistente ao 5o Regimento de Fuzileiros de Northumberland, porque pensava que seria uma experiência útil para mim, não podendo prever que um mês depois eu seria despachado para o Afeganistão. Na época, o conflito que veio a ser conhecido como a Segunda Guerra Anglo-Afegã ainda nem começara. E o que dizer sobre o ghazi que, com uma única contração do dedo, disparou uma bala contra meu ombro em Maiwand? Novecentas almas britânicas e indianas morreram naquele dia e, embora gravemente ferido, fui salvo por Jack Murray, meu leal e bondoso enfermeiro, que conseguiu me carregar de volta até as linhas britânicas por quase três quilômetros e meio de território hostil.

Murray morreu em Kandahar em setembro daquele ano e assim nunca ficaria sabendo que fui mandado de volta para casa como inválido e que depois dediquei vários meses – pequeno tributo a seus esforços em meu favor – a uma existência um tanto dissipada nas franjas da sociedade londrina. Ao fim desse tempo, passei a considerar seriamente uma mudança para a Costa Sul, necessidade a mim imposta pela dura realidade de minhas finanças, que minguavam rapidamente. Fora-me também sugerido que o ar marinho poderia ser bom para a minha saúde. Uma moradia mais barata em Londres teria sido alternativa mais desejável, e de fato quase aluguei um quarto na casa de um corretor da bolsa na Euston Road. A entrevista não foi satisfatória e não demorei a tomar minha decisão. Seria Hastings: menos alegre talvez do que Brighton, mas pela metade do preço. Meus pertences pessoais foram embalados. Eu estava pronto para partir.

Chegamos agora a Henry Stamford, não um amigo íntimo, mas um conhecido que havia sido meu assistente no hospital St. Bart’s. Não houvesse ele bebido até tarde na noite anterior, não teria acordado com dor de cabeça e, não fosse a dor de cabeça, poderia não ter optado por tirar um dia de folga do laboratório onde trabalhava então. Perambulando por Picadilly Circus, ele resolveu subir a Regent Street até a East India House de Arthur Liberty para comprar um presente para a mulher. Curioso pensar que, se tivesse andado no outro sentido, não teria dado de cara comigo quando eu saía do Criterion Bar e que, nesse caso, talvez eu nunca viesse a conhecer Sherlock Holmes.

Pois, como escrevi em outro lugar, foi Stamford quem sugeriu compartilhar aposentos com um homem que ele supunha lidar com análises químicas e que trabalhava no mesmo hospital que ele. Stamford apresentou-me a Holmes, que na ocasião fazia experimentos com um método para isolar manchas de sangue. Nosso primeiro encontro foi estranho, desconcertante, e sem dúvida memorável uma clara indicação de tudo que estava por vir.

Esse foi o momento mais decisivo de minha vida. Eu nunca tivera ambições literárias. Na verdade, se alguém me dissesse que eu viria a ser um autor publicado, eu teria rido da ideia. Mas penso poder dizer, com toda a honestidade e sem me gabar, que, de fato, ganhei certo renome pela maneira como narrei as aventuras do grande homem, e não foi pequeno o meu sentimento de honra quando fui convidado a falar em sua cerimônia fúnebre na abadia de Westminster, convite que declinei com todo o respeito. Holmes zombara muitas vezes do estilo de minha prosa, e eu não podia evitar a impressão de que, se tivesse ocupado o púlpito, eu o teria sentido sobre meus ombros, troçando sutilmente de tudo que eu pudesse dizer do lado de cá do túmulo.

Ele sempre julgara que eu exagerava seus talentos e as extraordinárias intuições de sua mente brilhante. Ria do modo como eu construía minha narrativa de maneira a deixar para o fim uma resolução que ele jurava ter deduzido nos parágrafos de abertura. Acusou-me mais de uma vez de romantismo vulgar, e não me achava nada melhor que qualquer escrevinhador de Grub Street. Mas no fundo penso que ele era injusto. Durante todo o tempo em que convivemos, nunca vi Holmes ler uma única obra de ficção – isto é, salvo os piores títulos da literatura sensacionalista -, e embora eu não possa me arrogar grandes poderes de descrição, não hesito em afirmar que eles cumpriram seu papel e que o próprio Holmes não teria sido capaz de melhor. De fato, ele quase admitiu isso quando por fim pegou da pena e descreveu, com suas palavras, o estranho caso de Godfrey Emsworth. Esse episódio foi apresentado como O rosto lívido, título que, a meu ver, fica ele próprio aquém da perfeição.

Obtive, como disse, certo renome por meus esforços literários, mas esse nunca foi, é claro, o meu objetivo. Através dos vários caprichos do destino que resumi, fui o escolhido para trazer à luz as façanhas do maior detetive consultor do mundo e apresentei nada menos que sessenta aventuras a um público entusiasta. Mais valiosa para mim, porém, foi minha longa amizade com o homem em carne e osso.

Faz um ano que Holmes foi encontrado em sua casa nos Downs, teso e imóvel, aquela prodigiosa inteligência silenciada para sempre. Quando soube da notícia, dei-me conta de que perdera não só meu companheiro e amigo mais chegado, como, sob inúmeros aspectos, a própria razão de minha existência. Dois casamentos, três filhos, sete netos, uma carreira de sucesso na medicina e a Ordem do Mérito concedida por sua majestade o rei Eduardo VII em 1908 podem ser considerados realização suficiente para qualquer um. Mas não para mim. Sinto falta dele até hoje, e por vezes, ao despertar, imagino ainda ouvir aquelas palavras familiares: “A caça já foi levantada, Watson!” Elas servem apenas para me lembrar que nunca mais voltarei a mergulhar na escuridão e no nevoeiro turbilhonante de Baker Street, empunhando meu infalível revólver de serviço. Volta e meia imagino Holmes esperando por mim do outro lado daquela grande sombra que deve chegar para todos nós, e na verdade anseio por encontrá-lo. Estou sozinho. Meu velho ferimento me atormenta até o fim, e, enquanto uma guerra terrível e sem sentido grassa no continente, descubro que não compreendo mais o mundo em que vivo.

Por que então pego da pena uma última vez para remoer lembranças que seria melhor esquecer? Talvez meus motivos sejam egoístas. É possível que, como tantos velhos com suas vidas atrás de si, eu esteja em busca de algum tipo de conforto. Os enfermeiros que cuidam de mim asseguram-me que escrever é terapêutico e evitará que eu caia no mau humor a que sou às vezes propenso. Mas há um outro motivo, também.

Embora O homem da boina e A Casa da Seda tenham sido, sob alguns aspectos, as aventuras mais sensacionais da carreira de Sherlock Holmes, ao mesmo tempo foi-me impossível narrá-las, por razões que ficarão sobejamente claras. O fato de elas terem se entrelaçado inextricavelmente mostrou que não era possível separá-las. No entanto, sempre foi meu desejo registrá-las, para completar o cânone de Holmes. Nisto, sou como um químico à procura de uma fórmula, ou talvez um colecionador de selos raros que não pode se orgulhar plenamente de seu catálogo sabendo haver dois ou três itens que escaparam a seu alcance. Não posso me impedir. Isto deve ser feito.

Foi impossível antes – e não me refiro apenas à conhecida aversão de Holmes por publicidade. Não, os eventos que estou prestes a descrever foram simplesmente monstruosos demais, chocantes demais, para aparecer em letra de forma. Ainda são. Não é exagero sugerir que eles conspurcariam todo o tecido da sociedade, e, em particular num tempo de guerra, isso é algo que não posso arriscar. Quando eu terminar, supondo que tenha a força que a tarefa exige, farei com que este manuscrito seja empacotado e enviado para os cofres da Cox and Co. em Charing Cross, onde alguns outros de meus papéis pessoais estão guardados. Darei instruções no sentido de impedir que o pacote seja aberto nos próximos cem anos. Impossível imaginar como o mundo será então, que avanços a humanidade terá feito, mas talvez leitores futuros estejam mais acostumados ao escândalo e à corrupção do que os meus próprios. A eles lego um último retrato de Sherlock Holmes, e de uma perspectiva nunca antes vislumbrada.

Mas já despendi energia suficiente com minhas próprias preocupações. Já deveria ter aberto a porta do número 221B de Baker Street e adentrado a sala onde tantas aventuras começaram. Vejo-a agora, o fulgor da lâmpada atrás do vidro e os dezessete degraus que me convidam da rua. Como parecem distantes, quanto tempo faz que estive ali! Sim. Lá está ele, seu cachimbo na mão. Vira-se para mim. Sorri. “A caça já foi levantada”

*

“A Casa da Seda”
Autor: Anthony Horowitz
Editora: Zahar
Páginas: 272
Quanto: R$ 33 (preço promocional*)
Onde comprar: pelo telefone 0800-140090 ou pelo site da Livraria da Folha

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5 respostas para Autor dá continuidade à obra de Arthur Conan Doyle

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  2. Pingback: Elementar, meu caro Watson! | Mundo Sherlock

  3. Adélia Ribeiro disse:

    Pq será q tem essa lágrima no meu olho, rsrs ? Esse livro parece ser incrível! E é algo inédito, ele conseguiu autorização! Lindo, lindo <3 Quero ler esse livro, onde posso compra-lo? Vcs podem me responder, equipe Mundo Sherlock?
    Grata :)

    • mundosherlock disse:

      Olá Adélia! Obrigado pela visita e comentário !

      Os livro está disponível nas livrarias. Com certeza poderá comprá-lo online, inclusive a versão digital, que geralmente é um pouco mais em conta.

      • Adélia Ribeiro disse:

        Já achei e comecei a lê-lo hoje. Estou gostando mt e percebendo porquê a familia Doyle autorizou essa publicação. :)
        Mas gostaria de saber sobre o outro livro de Sherlock Holmes publicado pelo Horowitz,”Moriarty”. Já chegou ao Brasil? Porque eu ainda não o achei em lugar nenhum.
        Grata :)

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