A maratona de Sherlock Holmes

Condensado de BOL, 11/08/2012
Via EFE

Londres, 11 ago (EFE).- A maratona de Londres-2012, que fecha neste domingo o programa de atletismo dos Jogos Olímpicas, é herdeira direta, assim como todas as outras maratonas do mundo, da prova disputada na edição de 1908, também na capital britânica, em que foi estabelecida a distância oficial de 42.195 metros.

Mas aquela maratona transcendeu a história esportiva e teve eco nos livros da literatura britânica graças à condição de cronista de sir Arthur Conan Doyle, o criador de Sherlock Holmes.

Por ocasião dos Jogos de 1908, o fundador do jornal “Daily Mail”, o magnata irlandês Alfred Harmsworth, encarregou Conan Doyle como responsável pela crônica da maratona em seu jornal. O escritor conta em suas memórias que, embora não costumasse aceitar trabalhos jornalísticos, neste caso lhe agradou a possibilidade de ter um bom lugar no White City Stadium.

Conan Doyle (1859-1930) era desde jovem um grande admirador do esporte. Praticou críquete, futebol, bilhar, boliche, boxe e esqui, entre outras modalidades. Fundou, presidiu, arbitrou e jogou em diferentes clubes esportivos. A possibilidade de assistir ao vivo às provas de atletismo era muito atrativa.

Na crônica publicada em 25 de julho de 1908 no “Daily Mail”, relatou a agonia do italiano Dorando Pietri, que chegou primeiro lugar, porém exausto, ao estádio de Londres. Relatou, impressionado, de seu rosto “amarelo e delgado” e de seus olhos “vítreos e inexpressivos”. O escritor assistiu a uma luta pela vitória “terrível, mas fascinante”.

Em um dos episódios mais célebres da história da maratona olímpica, Pietri teve que ser atendido pelos médicos para chegar à linha de chegada. Caiu quatro vezes e somente graças à ajuda recebida pôde completar a prova. Posteriormente, os juízes atenderam uma reivindicação da equipe americana e consideraram que auxílio era digno de desclassificação. A vitória foi concedida a John Haynes, que tinha chegado meio minuto depois.

Durante muito tempo circulou entre os historiadores a falsa ideia de que o próprio Conan Doyle, que tinha estudado medicina, estava entre os que atenderam a Dorando Pietri. Mas sua crônica desmente o boato: “Estava a umas poucas jardas do meu assento”, diz ao descrever como pôde, como ele mesmo afirmou, “vislumbrar” da arquibancada o desmaio do corredor italiano.

Indignado pela desclassificação, o escritor propôs uma “vaquinha” para arrecadar dinheiro para Pietri e ele mesmo forneceu 5 libras. Foram recolhidas 300. Segundo anunciado no “Daily Mail”, o dinheiro seria utilizado para abrir uma padaria para que o italiano pudesse ganhar a vida em seu país.

Na realidade, o maratonista nunca se dedicou a esse trabalho porque se transformou em um profissional do atletismo e participou de várias corridas remuneradas nos Estados Unidos.

“Aquela tarde de calor no White City Stadium foi uma experiência fundamental para Conan Doyle. Ele se convenceu do significado internacional do movimento olímpico”, afirma um estudo da Sociedade Internacional dos Historiadores Olímpicos.

O Comitê Olímpico Britânico considera que o escritor foi um dos pais do movimento olímpico no país. Exemplo disso é que, aborrecido com os resultados ruins da Grã-Bretanha nas provas de atletismo de Estocolmo-1912, Doyle apresentou soluções revolucionárias que mudaram para sempre os métodos de treino. As concentrações prévias às grandes competições, a assessoria médica aos atletas e a conveniência de se construir boas instalações foram ideias que saíram da mesma cabeça que criou Sherlock Holmes e o doutor Watson.

A outra história relacionada com a maratona de 1908 é bem conhecida. Até então, as maratonas tinham ocorrido em percursos de mais ou menos 40 quilômetros, sem distância fixa. Mas a princesa Mary, neta do rei Eduardo VII, quis que a corrida começasse sob a janela de seu quarto no castelo de Windsor, para ter uma boa vista.

Já a linha de chegada se situou em frente ao camarote real do White City Stadium, em atenção à rainha Alexandra, que assistia ao vivo à competição. A separação exata entre os dois pontos era de 42.195 metros. Anos depois, em 1924, essa longitude sem nenhum significado lógico foi adotada como a distância oficial da maratona.

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