Fãs batalham pelos direitos sobre Sherlock Holmes

Por Jennifer Schuessler
Condensado de Zero Hora, 16/03/201
Via The New York Times

Queixa judicial referente ao espólio de Conan Doyle provocou o caos entre os admiradores do mais famoso personagem do autor

Leslie Klinger, advogado e editor de coleção de Sherlock Holmes, em seu escritório em Los Angeles Foto: Emily Berl / NYTNS

Leslie Klinger, advogado e editor de coleção de Sherlock Holmes, em seu escritório em Los Angeles
Foto: Emily Berl / NYTNS

Os devotos de Sherlock Holmes são um grupo famoso pela obsessão e, nos 126 anos desde que Arthur Conan Doyle apresentou seu detetive imperturbável, eles certamente tiveram muitas intrigas do mundo real para refletir ao lado de ficcionais como “O Carbúnculo Azul“.

Aconteceram batalhas ferozes pelo controle do espólio de Conan Doyle e a preservação de sua antiga casa em Surrey, Inglaterra — sem mencionar as especulações frenéticas cercando a morte misteriosa, em 2004, de um estudioso proeminente de Holmes que foi encontrado enforcado com um cadarço pouco antes de um leilão controverso de papéis do autor.

Porém, quanto o Baker Street Irregulars, clube literário somente para convidados, se reuniu para o fim de semana anual em Nova York, no mês de janeiro, poucos suspeitavam que em breve estariam enredados num caso característico do século XXI que poderia muito bem ser chamado “O Debate do Copyright Motivado pela Mídia, com Comentários sobre o Machismo Sherloquiano e a Verdadeira Natureza da Devoção Literária”.

Poucas semanas depois, quando um dos principais estudiosos de Holmes e antigo membro do Irregulars entrou com uma queixa judicial contra o espólio de Conan Doyle argumentando que Sherlock Holmes e os elementos básicos de seu mundo estavam sob domínio público, explodiram vários conclaves sherloquianos pela internet.

— A ação provocou o caos — disse Betsy Rosenblatt, professora assistente da Faculdade de Direito Whittier, Califórnia, e integrante do Irregulars, que ressaltou a divulgação da hashtag “(HASHTAG)freesherlock” no Twitter.

Originada a partir da iniciativa do espólio de cobrar uma taxa de licenciamento para uma coleção planejada de novas histórias relacionadas a Holmes de Sara Paretsky, Michael Connelly e outros escritores contemporâneos, a ação apresenta um argumento aparentemente simples. Dos 60 contos e romances de Conan Doyle no “cânone”, como os sherloquianos o chamam, somente as dez primeiras histórias publicadas nos Estados Unidos depois de 1923 ainda estão sob copyright. Portanto, afirma a ação, muitas taxas pagas ao espólio pelo uso do personagem eram desnecessárias.

Entretanto, ela também está criando algo que um blogueiro chamou de “Guerra Civil sherloquiana”.

Num lado está Leslie S. Klinger, advogado proeminente de Malibu, Califórnia, e editor de “New Annotated Sherlock Holmes” (Novo Sherlock Holmes comentado, em tradução livre), com três volumes e quase três mil páginas, além de editor da nova coleção. No outro lado está Jon Lellenberg, estrategista aposentado do Departamento de Defesa dos Estados Unidos e, nos últimos 30 anos, o agente norte-americano durão do espólio de Conan Doyle.

Se nenhum dos dois lados está pronto a atribuir ao outro o papel de professor Moriarty, o arqui-inimigo de Holmes, a maré de solidariedade entre os sherloquianos corre forte a favor de Klinger.

— As pessoas ficaram sabendo como o espólio anda se portando, intimidando as pessoas — disse Darlene Cypser, advogada de Denver e autora de uma trilogia publicada às próprias custas sobre o jovem Holmes, pela qual o espólio inicialmente exigiu o pagamento de licenciamento. Ela não aceitou pagar. — Isso vem acontecendo há algum tempo. Que bom que Les decidiu enfrentá-lo.

Diversos outros autores e editoras de obras baseadas em Holmes informaram o recebimento de versões mais amigáveis de uma carta ameaçadora citada na queixa de Klinger. Na missiva, Lellenberg sugeria que o espólio trabalhava regularmente “com Amazon, Barnes & Noble e distribuidores similares” para “extirpar usos não licenciados de Sherlock Holmes” e não hesitaria em agir da mesma forma também com o volume de Klinger.

Klinger aceitou a taxa por uma coleção parecida, de 2011, por insistência da editora anterior, mas desta vez ele disse que pagaria para ver o blefe do espólio. — É o caso definitivo do rei que está nu — afirmou Jonathan Kirsch, advogado especializado no segmento editorial que o representa. — Todos decidem pagar por uma permissão desnecessária para evitar os custos e os riscos do litígio.

O espólio, enquanto isso, permanece firme e forte. — O personagem Sherlock Holmes é protegido pelo copyright — afirmou Benjamin Allison, advogado do espólio. Ainda segundo ele, — Holmes é um personagem literário unificado que não estava plenamente desenvolvido até o autor usar sua caneta.

O processo movido por Klinger também se meteu numa discussão mais ampla entre a velha e a jovem guarda sobre quem detém Sherlock Holmes, na qual, afirmam várias pessoas, Lellenberg representa um papel divisor.

Como representante do espólio, ele ajudou a conceder suas bênçãos a projetos lucrativos como a franquia cinematográfica da Warner Bros. e versões atualizadas para a televisão, como “Sherlock”, da BBC, e “Elementary”, da CBS, que trouxeram uma infusão de dinheiro, além de novos fãs cujo gosto tem mais a ver com tumblrs com tema de Benedict Cumberbatch do que com o chapéu de Holmes.

Porém, como membro afastado do Baker Street Irregulars, de quem ele foi o historiador oficial, Lellenberg, na opinião de muitos, tem conduzido uma ação de retaguarda visando a marginalização dos novos admiradores.

A organização foi fundada em 1934, nas palavras do editor Christopher Morley, “para perpetuar o mito de que Sherlock Holmes não era um mito”, mas uma pessoal real, sendo que todas as facetas de sua existência estavam espalhadas em obras intricadamente argumentadas de “pseudoerudição”, como os membros costumam afirmar com carinho. As versões para a cultura popular do detetive — em conjunto com integrantes mulheres, somente admitidas no começo da década de 1990 — costumavam ser vistas com suspeita.

Hoje em dia, porém, muitos membros conservadores do clube (que recebe não membros na reunião anual) aplaudem o sangue novo, representado de forma mais proeminente pelo Baker Street Babes, grupo de jovens mulheres sherloquianas que mantém um podcast regular e, na reunião deste ano, organizou um jantar muito concorrido.

— Havia sherloquianos tradicionais, fãs apenas das adaptações, gente jovem, gente velha, gente muito velha — contou Rosenblatt. — Parecia algo revolucionário.

Uma ausência muito notada, no entanto, foi a de Lellenberg, que, em conjunto com um pequeno grupo de outros dissidentes, segundo a opinião de vários sherloquianos, tem evitado há anos os eventos oficiais de fim de semana, preferindo organizar “reuniões especiais” durante o jantar para poucas pessoas.

Neste ano, um panfleto contendo ataques velados e não tão velados sobre o “polvo corporativo” dos Irregulars atuais, e em particular sua adoção das Babes, circulou durante o encontro, com Lellenberg citado como um de seus editores. Lellenberg não quis comentar o assunto.

Para alguns, quando se trata de promover o Holmes não tradicional, o espólio sabe ter uma mente bastante aberta. Richard Monson-Haefel, da Noble Beast, editora multimídia por trás de “Steampunk Holmes”, “mash-up” interativo baseado na história em domínio público “Os Planos para o Submarino Bruce-Partington“, disse ter pagado ao espólio ao ficar sabendo que ele também exerce proteção à marca registrada para o personagem que, ao contrário do copyright, pode ser renovado perpetuamente.

— O espólio nos ajudou aqui e ali — disse Monson-Haefel, cuja empresa exibe o selo oficial do espólio na página do projeto na internet. — Estou muito satisfeito com a situação.

O final feliz, contudo, pode não durar muito tempo. Além da ação ligada ao copyright, Klinger também planeja se opor às reivindicações de marca registrada do espólio.

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