Sherlock Holmes e o homem moderno

Condensado de O Globo, 08/03/2014
Por Alexandre Dines e Arnaldo Bloch

 

Personagem criado há 126 anos ressurge como ídolo pop e como um novo herói alinhado com a tradição e a vanguarda.

Personagem criado há 126 anos ressurge como ídolo pop e como um novo herói alinhado com a tradição e a vanguarda.

Se, por mágica, Sherlock Holmes, o homem, não o mito, saísse, 126 anos após sua criação, das páginas originais das histórias de Sir Conan Doyle em plena segunda década do novo milênio, o que pensaria ao constatar que se transformou num ídolo pop contemporâneo espelhado num mosaico polimidiático formado por livros, rádio, teatro, filmes e séries de TV? Como explicaria o fato de a sombra do detetive com o cachimbo se moldar aos mais variados formatos e gostos, fazendo surgir um novo herói, um explicador universal (im)perfeitamente alinhado com a tradição e a vanguarda?

Seria este Holmes materializado de carne e osso e liberto das páginas, teletransportado para 2014, ano que se iniciou com uma apoteose holmiana que parou a Inglaterra — aproximadamente 10 milhões de ingleses acompanharam a estreia da terceira temporada de “Sherlock”, na BBC —, capaz de decifrar o motivo de se ter tornado o modelo consumado não apenas do detetive, mas do homem moderno ao qual todos aspiram e a que todos inspira?

Talvez, num primeiro momento, o narcisismo e a vaidade que lhe são tão caros o fizessem inferir que seu método dedutivo praticamente infalível e sua poderosa inteligência proseada em diálogos fleumáticos; e uma certa energia sexual oculta numa máscara misógina — enfim, o charme do cara do cachimbo, superaram a truculência, a coerção e o abuso de detetives trogloditas, pelo poder da razão temperada de elegância, com a emoção vacinada contra transbordamentos que embotem a verdade. Utopia na veia.

Mas logo se confrontaria com um novo enigma: por que suas características são replicadas não apenas em versões do personagem original, com Watson e Moriarty a tiracolo, mas também em tipos completamente dissociados da cartilha de Sir Doyle? Por exemplo, um genial médico cético aético com transtorno de personalidade (“House”), um nerd afeminado (“Sheldon”, de “Big Bang Theory”), ou mesmo, de forma mais indireta, em um top da scifi como Spock e seu sucessor, o androide Data?

Ao refletir, esse Sherlock ectoplasmático perdido no terceiro milênio trataria de minimizar, com frieza, a hipótese de um charme “pessoal” gerado pelo texto e apropriado pelo espelho polimídia e lembraria que, em sua origem, é frio, pouco dado a simpatias, essencialmente antipático, portanto. Além disso é um workaholic que cai em profunda depressão quando não está fazendo deduções lógicas em um novo caso e usa cocaína para descansar a cuca, já “diagnosticado” por estudiosos de seu perfil como maníaco-depressivo, com possíveis traços de Síndrome de Asperger (um tipo de autismo de alto desempenho funcional).

Atento a esta análise, Sherlock redivivo possivelmente encontraria uma primeira pista perturbadora: nessa era em que só se fala dele, e na qual tanto se o copia e se o adapta, os transtornos em profusão foram enfim classificados de forma a, simultaneamente, medicalizar e “normalizar” todo tipo de comportamento, num paradoxo em que o estigma é democratizado e a especificidade se perde. Ele logo abandonaria essa hipótese como mera e forçosa digressão, e atentaria para o fato de que esse novo herói nascido do cânone holmiano, este homus logicus, atende a uma angústia ansiosa do homem moderno de encontrar explicações definitivas para tudo, como se a ciência se tivesse convertido num novo gerador de mitos e o Olimpo fosse uma mesa de especialistas, a maioria sem vulto, meros explicadores sem requinte ou berço humanista que batem cabeça entre os dogmas e o ceticismo.

Nesse mundo, Sherlock, o original, as imitações ou as transfigurações funcionam como um farol que explica com um sonhado total conhecimento de causa na arte de entender a causalidade, e é vacinado contra as armadilhas que a superstição, a crendice e a emoção interpõem à limpidez de uma razão pura combinada a um empirismo radical, a inteligência feita “ciência em si”.

Ao alcançar este ponto da investigação, Sherlock, contudo, teria um sobressalto: mesmo na ficção, ele não é um androide. Teme as emoções, mas as tem, em profusão, o que explica seu conflito com sentimentos como amor, compaixão, empatia. Todos os personagens baseados nele têm esse traço, e na série “Elementary”, por exemplo, o famoso antagonista Moriarty, o criminoso que é seu arqui-inimigo intelectual, é também o seu grande amor, o que colocaria em cena o binômio inimigo/amor: amar é um crime contra a razão?

Enfim, concluiria que é esse conflito entre a razão e a emoção, amor e sua negação, altamente popular, gerador do conceito de “inteligência emocional” e grande fornecedor de material à indústria da autoajuda, a maior motivação para a gênese de si na pele de um novo herói no panorama da arte.

Um herói que, como o vulcano Spock, faz parte de uma espécie que dominou as emoções e sacralizou a lógica mas, meio humano, digladia-se com a primazia da emoção que atrapalha a marcha rumo à verdade. Aí é que o enigma dá a volta e se torna insolúvel: prescindir do amor (ilógico, amorfo, absurdo) é uma solução temporária: não há uma mente capaz de dissolver todos os mistérios, do contrário, os enigmas estariam destinados à extinção.

Por isso, em Sherlock, ferve o decantado conflito entre a razão e a emoção, e por mais que a primeira prevaleça, seu personagem sabe que lida com seres imperfeitos e, no fundo, tem consciência de ser um deles. É através da sua humanidade, e não dos dogmas científicos, que ele sempre resvala, enfim, em alguma verdade. Jamais absoluta, isso sim o detalhe que o tortura, e sempre torturará, como a todos nós, que sofremos junto com ele, e com seus clones, espelhos da angústia humana. Mas Sherlock está lá, aqui, em toda parte, como um Houdini multiplicado em hologramas variados, espalhando a essência do herói que, em algum momento, fará a mágica da dedução, libertando a audiência, ilusoriamente, do inferno de seus limites, inevitáveis.

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