Sherlock Holmes: dissipando mitos

Condensado de The Guardian, 11/10/2014
Por Sam Leith
Tradução: Mundo Sherlock
original

Achamos que sabemos tudo sobre o imortal detetive de Conan Doyle, com seus cachimbos, roupão e cocaína – mas, será mesmo?, pergunta Sam Leith

 

Em algum momento de 1885 ou 1886, Arthur Conan Doyle rabiscava em uma folha de papel. Ele teve a idéia – inspirado por Auguste Dupin, o detetive que tinha solucionado “Os Assassinatos da Rua Morgue”, de Edgar Allan Poe – de um “detetive consultor”, que usaria “as Regras da Evidência“ para capturar seu suspeito. Mas, como chamá-lo? “Ormond Sacker”? “Sherrinford Holmes”?

Se Doyle tivesse escolhido qualquer destas alternativas, os atuais fanclubs  para o bisavô dos detetives agora poderiam denominar-se “Sherrinfordians”, “Sackerians” ou “Ormondians”. Ao invés disso, eles são “Sherlockians” nos EUA e “Holmesians” no Reino Unido, e, em uma exposição iniciada no Museu de Londres na sexta-feira, eles serão capazes de observar através de suas lentes de aumento esse histórico pedaço de papel.

Sherlock Holmes: The Man Who Never Lived And Will Never Die é a primeira ampla exposição dedicada ao grande detetive desde que ele foi agraciado no Festival of Britain, em 1951. É um título bobo: há um número infinito de homens que nunca viveram e jamais morrerão, e um grande número de criações ficcionais das quais se pode dizer o mesmo. Mas você pode ver que as pessoas estão chegando.

Sherlock Holmes: o homem que nunca viveu e jamais morrerá

Sherlock Holmes: o homem que nunca viveu e jamais morrerá

A exposição ocorrerá no Museu de Londres. Holmes talvez ocupe o endereço imaginário mais famoso de Londres – 221B Baker Street – e o Dr. Watson escreveu que seu “conhecimento dos atalhos de Londres era extraordinário”. Com os “Baker Street Irregulars”, ele desenvolveu uma rede de espionagem com garotos indigentes. Londres é muitas vezes descrita como uma das personagens nas histórias.

No entanto, como ressalta o historiador David Cannadine em um sóbrio e cético ensaio, parte de um novo livro que acompanha a exposição, a Londres de Holmes é na verdade apenas um esboço imaginário nas histórias. Conan Doyle cresceu em Edimburgo, foi educado em Lancashire e Áustria, viveu no centro de Londres por menos de um ano antes de se mudar, primeiro, para South Norwood e, pouco  tempo depois para Hindhead, em Surrey e, finalmente, para Sussex. Para mover Holmes ao redor da capital, Conan Doyle usou mapas de ruas e o London Post Office Directory – que era o que de mais parecido poderia existir com o Google Maps naquele momento. E ele cometeu todos tipos de equívocos.

É bem verdade que, quando pensamos em Holmes – chapéus engraçados, vestuário, cachimbos, violinos, cães assustadores e “uma solução de 7% da cocaína” – pensamos em pouca luz e crepúsculo, nevoeiro, a batida impaciente de uma bengala nos paralelepípedos, cavalos relinchando e coches barulhentos. Mas isso deve-se mais ao figurino de Basil Rathbone e prosa de Charles Dickens do que da própria prosa de Conan Doyle. Mas isso é o gênio das histórias. E não é apenas em relação a Londres que a criação de Conan Doyle se mostrou influente para a imaginação dos outros.

Esse tipo de influência é a característica definidora do mito – e Holmes, de fato, tornou-se quase que instantaneamente um mito. Ele superou os limites de suas histórias, assim como superou a tentativa de seu criador de matá-lo. Na verdade, muitos de seus mais conhecidos utensílios estão completamente ausentes das histórias. Como qualquer um sabe, Holmes jamais disse “Elementar, meu caro Watson”. A lupa é de Conan Doyle, mas o chapéu de caça foi criação do ilustrador da revista Strand, Sidney Paget. Como foi observado pelo diretor de cinema Michael Powell, eram os desenhos de Paget, “tanto quanto o texto”, que “criaram a figura folclórica imortal”. Holmes ainda vive – o que é sinal verdadeiro de alcance cultural – em piadas como “Alimentary, my dear Watson“, “Sedimentary, my dear Watson” e “Lemon-entry, my dear Watson“. As paródias – com títulos como “Detective Stories Gone Wrong: The Adventure of Sherlaw Kombs” – começaram a aparecer quase imediatamente.

Mesmo antes de fan fiction como nós pensarmos nessas coisas, as histórias de Holmes geraram uma estranha versão acadêmica de fanfic: Holmesianos criando um interesse acadêmico nos textos quase na presunção de que Holmes e Watson foram personagens históricos reais. Um dos meus esforços literários favoritos é a edição acadêmica das histórias elaboradas por Leslie Klinger para a Norton, em 2005. The New Annotated Sherlock Holmes vai até cerca de 2.000 páginas e tem uma bibliografia com 70 páginas de “fontes selecionadas” (por exemplo, “Guy, Patricia: ‘Baco na Baker Street: Observações sobre as preferências etílicas do Sr. Sherlock Holmes e seus contemporâneos”).

Deve-se notar que o próprio Conan Doyle não detalhava as coisas. Tudo, desde a localização da guerra de Watson, sua situação conjugal e o endereço do seu consultório era claramente irregular. Os nomes das personagens são eventualmente considerados a fim de mudar em meio de uma história. Aqui, Holmes é um brincalhão notório; lá, ele é identificado como desprovido de senso de humor. Aqui, somos informados que ele é um madrugador; lá, um bastardo preguiçoso. As histórias são analisadas ao extremo – o que, curiosamente, as tornam mais e não menos divertido objeto de um obsessivo escrutínio forense. Debates sobre as inconsistências fornecem o espaço para elaboradas e engenhosas teorias – do mesmo modo como quando os fãs foram incentivados a especular sobre como Sherlock da BBC forjou sua própria morte em uma queda no final da segunda temporada.

Utensílios forenses de Sherlock Holmes (Cortesia: Museu de Londres)

Utensílios forenses de Sherlock Holmes (Cortesia: Museu de Londres)

Deste modo, a exposição procura dar um sentido não só de origem a Holmes, mas do mundo real em que Conan Doyle o colocou e de sua disseminação mimética através da cultura. Bem como as páginas manuscritas de Poe em ”Os Assassinatos da Rua Morgue” e o manuscrito completo de A casa vazia de Conan Doyle – a história que “ressuscitou” Holmes após sua queda fatal no Reichenbach Falls – há ilustrações Paget (incluindo um retrato a óleo de Conan Doyle jamais exposto no Reino Unido), cartazes e adereços teatrais e de cinema, uma quantidade considerável de parafernálias londrinas do final do século XIX (mapas, gravuras, estampas de gelatina de locais a partir das histórias), autômatos vitorianos, instâncias de tecnologia de ponta do século XIX, a pintura de Reichenbach Falls, um violino de Jeremy Bentham e um casaco que foi realmente usado por Benedict Cumberbatch.

É possível ser enganado por essa irradiação cultural – por descendentes literários de Holmes, o grande cânone de histórias de detetive, que não teria sido possível sem ele – confundindo algumas das características essenciais das próprias histórias. Em 1928, o escritor S. S. Van Dine publicou seus influentes 20 “mandamentos” para escrever histórias de detetive. O primeiro deles estipulava que “O leitor deve ter a mesma oportunidade que o detetive para resolver o mistério.” Isso é corroborado nos “mandamentos” de Ronald Knox, que proíbe coincidências, “naturais ou sobrenaturais”, assim como o detetive que tem uma “inexplicável intuição que faz com que ele sempre esteja certo”, “venenos até então desconhecidos”, o uso sorrateiro de gêmeos idênticos e (mais estranhamente) ”chineses”.

A idéia básica de que a história deve ser um desafio para o leitor constitui o motor pelo qual a maioria das histórias clássicas de detetive se desenvolve – e está ausente das histórias de Sherlock Holmes. “The Adventure of the Speckled Band“, por exemplo, não dá ao leitor qualquer possibilidade de resolução; que depende, aliás, de um veneno até então desconhecido e de uma cobra inexistente chamada “víbora do pântano”. As “deduções” de Holmes são raramente disponíveis para que o leitor chegue à sua frente. Holmes é, ou pode muito bem ser visto como um mágico. Quanto a isso, as atual adaptação da BBC – cujos saltos de prestidigitação pude testemunhar – estão de acordo com os originais de Conan Doyle.

Isso também contribui para o mito. Holmes não é o produto, não mais, de um único autor. E ele jamais estará ao nível do leitor – nem de seu amigo Dr. Watson (que, como John le Carré observou, “não escreve para você”, mas “fala com você, com cortesia Eduardiana, através de uma bola de cristal”). O detetive consultor de Conan Doyle é re-hidratado pela imaginação dos outros, num tipo frio de deus. E como todos os melhores deuses, ele é – como o título da nova exposição indica – tanto imaginário quanto imortal.

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