Arthur Conan Doyle foi vítima de uma conspiração policial

Condensado de O Globo, 19/03/2015

Provas de que a polícia de Staffordshire fabricou cartas para o autor de ‘Sherlock Holmes’ foram descobertas em leilão

RIO — Sherlock Holmes jamais teria previsto isso: documentos recém descobertos mostram que a polícia de Staffordshire, um condado na Inglaterra, fabricou provas para tentar desacreditar as investigações de Arthur Conan Doyle no caso de George Edalji, um procurador acusado de mutilar cavalos e mandar cartas envenenadas no começo do século XX.

Um relatório impresso encontrado em uma coleção de cartas mostra que GA Anson, chefe de polícia de Staffordshire na época, admitiu a tentativa de desacreditar Doyle criando uma estratégia elaborada.

Anson fabricou uma carta para o autor de “Sherlock Holmes” assinada por “A Nark, Londres” e arrumou diversos informantes para fazê-lo acreditar que a correspondência foi enviada por Royden Sharp, o homem que o escritor acreditava ser o culpado pelos crimes.

“A carta é muito conhecida por estudiosos do assunto e esse documento prova que ela foi enviada por Anson para Doyle como uma tentativa de desacreditá-lo. A nova prova foi totalmente fabricada e plantada por Anson, parte de uma elaborada estratégia envolvendo Sharp.”, disse Sarah Lindberg of Bonhams, que colocou o relatório à venda em um leilão junto com 30 cartas sobre o caso assinadas por Doyle, 24 delas enviadas para o chefe de polícia.

Julian Barnes, cujo livro “Arthur e George” reconta a história de Edalji, disse que “sabia que Doyle tinha recebido uma carta ameaçadora em Londres e que chegou à conclusão óbvia de que era um dos bandidos que estava tentando avisá-lo”.

“A noção de que na verdade era o chefe de polícia é bastante desconcertante”, disse Barnes, cujo livro foi adaptado pela ITV em um seriado estrelado por Martin Clunes, como Doyle, e Arsher Ali, como Edalji.

As reviravoltas do caso Edalji já eram bastante complicadas antes da descoberta. Filho de pai indiano e mãe inglesa, o procurador foi condenado a sete anos de trabalhos forçados em 1903 por mutilação de animais e envio de cartas anônimas. Quando ele foi solto, depois de cumprir três anos da sua sentença, pediu ajuda à Doyle para provar sua inocência.

O escritor acreditou em Edalji e estava convencido de que “questões raciais estavam envolvidas (na condenação)”, disse Barnes, acrescentando ainda que “hoje nós usaríamos ‘racismo institucionalizado’ como forma de descrever a polícia de Staffordshire”.

Doyle bombardeou Anson com cartas quase diariamente entre agosto e outubro de 1907. As correspondências forneciam novas provas judiciais e ofereciam outros suspeitos, petições ao Ministério do Interior. Ele também falava publicamente sobre a condenação, o que não era pouca coisa, vinda do criador do detetive mais famoso do mundo.

“Você pode ver que (Anson) ficou extremamente irritado com esse caso, que fora resolvido há muito tempo. Mas chegar a fabricar provas… Ele obviamente era um homem muito confiante, o que parcialmente justifica porque ele e Doyle se davam tão mal. Apesar de serem dois cavalheiros ingleses, os dois acabaram brigando como dois loucos”, disse Barnes.

O criador de Sherlock Holmes sempre acreditou na inocência de Edalji, assim como Barnes atualmente. Em 1934, um operário, Enoch Knowles, confessou o envio das cartas e foi preso. Porém o mutilador de cavalos se manteve desconhecido.

Barnes não tem planos de rever a história de “Arthur e George” com as novas descobertas, mas deve incluir as provas em um epílogo para a nova edição.

“Eu não acho que isso muda o desfecho do caso, mas é um detalhe interessante que nos mostra bastante sobre Anson. Eu teria colocado no livro se soubesse disso. É mais uma prova do quanto ele estava entranhado no cargo e me faz imaginar o que mais ele fez que não colocou no relatório.”, disse o escritor.

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