O enigma da casa de Sherlock Holmes

Condensado de O Globo, 30/08/2014
Por Vivian Oswald / Correspondente

Endereço na Baker Street é um dos milhares em Londres com proprietários misteriosos e suspeitas de lavagem de dinheiro

Mistério. Turistas fazem fila para ir a museu de Sherlock Holmes, em Londres: enteado do presidente do Cazaquistão seria proprietário - Vivian Oswald

Mistério. Turistas fazem fila para ir a museu de Sherlock Holmes, em Londres: enteado do presidente do Cazaquistão seria proprietário – Vivian Oswald

LONDRES — Sherlock Holmes nunca existiu. Mas, coincidência ou não, é exatamente no endereço onde estaria a casa deste personagem britânico por excelência que está um dos maiores mistérios recentes de Londres. Se o detetive que desde 1897 ocupa lugar de destaque no imaginário coletivo é pura ficção, e, portanto, não tem como ter deixado herdeiros, a quem pertenceria o quarteirão onde supostamente estaria Baker Street, 221B, o célebre QG de Holmes nas histórias do escritor inglês Sir Arthur Conan Doyle?

O certo é que ninguém sabe dizer exatamente quem é o proprietário do bloco que vale 174 milhões de libras (ou algo em torno de R$ 795 milhões) e inclui vários imóveis, entre eles a loja dos Beatles e Elvis. De acordo com denúncia realizada pela Global Witness em um longo relatório entregue ao gabinete do primeiro-ministro David Cameron, os imóveis pertenceriam, por caminhos tortuosos, a Rakhat Aliyev, ex-chefe da polícia secreta do Cazaquistão e enteado do presidente daquele país.

O vínculo foi levantado pela ONG durante as investigações para saber quem são os verdadeiros donos de três mil imóveis em áreas de luxo da capital britânica.

— As leis acabam protegendo as identidades dessas pessoas, que adquirem imóveis por meio de participações em fundos de investimentos ou empresas baseadas em paraísos fiscais, e encobrem dinheiro de origem duvidosa. Hoje, Londres é uma das capitais da lavagem de dinheiro no mundo — disse ao GLOBO uma das coordenadoras do estudo da Global Witness, Chido Dunn.

Segundo a ativista, 80% dos imóveis que estão sendo investigados pela ONG têm seus proprietários baseados em paraísos fiscais. A estimativa, disse Dunn, é que propriedades na Inglaterra e no País de Gales, no valor de 122 bilhões de libras, ou R$ 660 bilhões, pertençam a companhias registradas em paraísos fiscais.

Em discurso recente em Cingapura, Cameron garantiu que apertaria as leis para evitar que dinheiro sujo entrasse no país por meio de investimentos em imóveis. Para a Global Witness, esses recursos bilionários não apenas se escondem no país, como têm inflado o mercado imobiliário de tal maneira que vem expulsando os londrinos para algumas áreas mais afastadas.

Dunn afirmou que o governo já está debruçado sobre os dados do relatório da ONG, citada nominalmente pelo premier, e promete apurar as irregularidades. Foi criada uma força-tarefa com a organização para encontrar formas de se instituir mais transparência neste mercado tão caro ao Reino Unido. Até o final do ano, deve entrar em vigor uma lei que prevê quem são os proprietários britânicos por trás dos imóveis no país. A ideia é estender a abrangência aos grupos estrangeiros.

— Há muitos nomes da Rússia, Nigéria e África em geral, além da Ásia Central. É claro que nem todos os imóveis estão envolvidos com problemas de lavagem de dinheiro, ou foram comprados com dinheiro de corrupção. Mas fica difícil saber quem está e quem não está. O governo deu o primeiro passo. Mas ainda há muito a ser feito — explica.

FÃS POUCO INTERESSADOS

A ONG não encontrou nomes de brasileiros nesta lista inicial. Segundo Dunn, estes últimos podem procurar os mercados de Miami e Nova York, por exemplo, até pela proximidade com o país.

Estrangeiros endinheirados têm ocupado espaços (cada vez mais) preciosos da capital. Há ruas inteiras em bairros nobres da cidade, como Chelsea e Mayfair, onde a escuridão vinda das janelas dos apartamentos no final do dia evidencia que os imóveis estão desocupados e têm sido alvo de especulação. Mantêm-se vazios até que os proprietários ou investidores decidam aproveitá-los por alguns dias de férias ou colocá-los para alugar, se julgarem necessário. Muitos simplesmente deixam os imóveis fechados se valorizando em meio a um mercado que explodiu na última década.

A Global Witness está certa de que Rakhat Aliyev era o verdadeiro dono dos imóveis de Baker Street. Os advogados das empresas proprietárias negam qualquer ligação com o cazaque, segundo a mídia britânica. Ele foi encontrado morto em fevereiro deste ano em uma prisão na Áustria, onde aguardava julgamento. Era acusado pelo assassinato de dois banqueiros em seu país. Aliyev também era investigado por tortura, assassinato e lavagem de dinheiro, acusações que os advogados também negam, segundo os jornais britânicos.

Na verdade, o número da casa de Holmes tampouco existe na vida real. Mas convencionou-se instalá-lo em uma das portas do bloco tipicamente londrino, onde funciona hoje o museu do detetive. Este por acaso tem dono conhecido. A dúvida é se 221 B ficara ali de fato. Ao que tudo indica, entretanto, a legião de fãs de Sherlock não está muito interessada nestes detalhes. Elementar.

— Essa é a casa dele. Não há outra — diverte-se o turista enquanto fotografa o filho com o recepcionista do museu, vestido de oficial da Scotland Yard.

Em frente ao bloco da Baker Street, faça chuva ou sol, não há dia em que o endereço desta área nobre da cidade, reconhecido a distância, não esteja ocupado por filas de visitantes que dobram o quarteirão atrás de qualquer vestígio que seja da existência de Sherlock Holmes. Já na entrada, onde o acesso é permitido por pequenas levas, há um chapéu, como o detetive, e um cachimbo para que os turistas possam posar para fotos e se distrair enquanto aguardam que a demorada fila ande.

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