Sherlock Holmes é a origem do fãs aficionados

Condensado Revista Galileu, 25/02/2016

Histórias do detetive inglês foram as primeiras a criar uma vasta e poderosa base de fãs, capaz de convencer o criador do personagem a ressuscitá-lo

Em 1893, no conto “O Problema Final“, publicado nas páginas da revista britânica Strand, o detetive Sherlock Holmes se envolvia em uma luta mortal com seu arqui-inimigo, o professor Moriarty, na beirada de um precipício nas Cataratas de Reichenbach, na Suíça. Os dois rivais caíram e desapareceram na queda d’água. Sobre a morte do melhor amigo, o doutor John Watson, que também era cronista do detetive, escreveu: “É com o coração pesado que pego a pena para escrever estas últimas e poucas palavras, com que registrarei os dotes singulares que sempre distinguiram meu amigo Sherlock Holmes”.

Já Arthur Conan Doyle, o criador de Sherlock Holmes, não pareceu tão triste assim em matar o personagem que catapultou sua carreira como escritor. “Matei Holmes”, ele se limitou a escrever em seu diário. Mas o inocente Conan Doyle não conhecia o poder que podem ter os fãs.

Aqueles que estudam literatura consideram a morte do detetive um importante marco na história das artes. Até aquele momento, os leitores costumavam se conformar com os falecimentos, amores malsucedidos e finais trágicos impressos nas páginas de revistas ou livros. Conan Doyle é apontado como um dos principais responsáveis pela mudança dessa atitude passiva do público.

#devolvameudetetive

Quando perceberam que Sherlock Holmes havia mesmo morrido e não voltaria nas próximas edições da Strand, cerca de 20 mil pessoas cancelaram a assinatura da revista. Reza a lenda que jovens ingleses ficaram de luto no mês em que a edição com a morte de Holmes foi publicada. Os homens teriam usado broches pretos nos paletós ou faixas negras amarradas ao braço e as mulheres, vestido véus negros. Quem contava esta história era Adrian Conan Doyle, filho do próprio escritor.

A direção da Strand insistiu diversas vezes para que o autor voltasse a escrever sobre Holmes, mas ele se recusava. Em seu diário, explicou: “Tive uma overdose muito grande de Holmes, como quando eu estava com bastante vontade de comer um foie gras, comi muito e até hoje me sinto enjoado”.

Como o autor se recusou a reviver Holmes por bem, o público resolveu a questão por mal. Conan Doyle passou a ser hostilizado pelos leitores (e ex-leitores) da Strand nas ruas e dois jovens chegaram a invadir a casa do escritor, obrigando uma equipe policial a ir à residência conter os fãs acalorados. O autor disse à esposa que até um dos oficiais pediu, este com mais gentileza, que Holmes fosse ressuscitado.

A volta do que não foi

Por fim, nove anos depois, sem recursos para continuar trabalhando em seus livros, aqueles que realmente apreciava escrever, Conan Doyle precisou se render à sua criação máxima e voltou a criar histórias sobre o detetive. Em 1901, a Strand publicou em capítulos o romance “O Cão dos Baskervilles”, uma aventura anterior à morte do autor. Depois de mais dois anos de insistência, devido ao sucesso das edições com a nova história de Holmes, o escritor concebeu “A Aventura da Casa Vazia”, em que revelava que o detetive não havia morrido nas cataratas, agarrando-se às bordas do precipício, e voltara para desmantelar o que restava da quadrilha do professor Moriarty. Nesta época, a quantidade de assinantes da Strand superou os números de quando Holmes estrelava suas aventuras antes de morrer.

As novas publicações continuaram até 1905. Desta vez, o criador do detetive foi mais cauteloso. Em vez de matar seu personagem, foi escrevendo aventuras em que o investigador e seu fiel companheiro Watson ficavam cada vez mais velhos, até que, por fim, os dois se aposentaram da vida agitada e se recolheram, o doutor à sua clínica e à sua esposa, Holmes à sua criação de abelhas no interior da Inglaterra. Os fãs se conformaram e aceitaram o final dos personagens.

Ao todo, Conan Doyle escreveu quatro romances e 56 contos sobre Sherlock Holmes. O autor publicou outros 18 livros e dezenas de contos, mas nenhum deles obteve o sucesso que o detetive alcançou. Soa como 2016, mas tudo isso aconteceu entre o fim do século XIX e o início do século XX.

O sucesso do personagem é tão grande que, ainda hoje, faz sucesso no mundo todo. Prova disso são os seriados “Sherlock”, que ganhará sua quarta temporada e é uma das séries mais bem avaliadas da história da televisão britânica, e “Elementary”, também em sua quarta temporada, ambos baseados nos personagens criados pelo autor britânico.

Além das séries, dois filmes baseados na obra de Conan Doyle e protagonizados por Robert Downey Jr. (Sherlock Holmes) e Jude Law (Dr. Watson) foram lançados em 2009 e 2011, com uma terceira adaptação já em produção.

Anúncios
Esse post foi publicado em Revistas. Bookmark o link permanente.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s