Arthur Conan Doyle

Detalhe da capa de 'Um estudo em vermelho', 1887

Biografia

Sir Arthur Conan Doyle

Sir Arthur Conan Doyle

Arthur Ignatius Conan Doyle nasceu em Picardy Place, bairro de Edimburgo, capital da Escócia, a 22 de maio de 1859, sendo batizado na igreja católica, religião de seus pais. Seu avô, John Doyle, foi caricaturista inovador e de grande talento, sendo “um cavalheiro que retratava cavalheiros para o deleite de outros cavalheiros, e sua sátira residia no humor do traço, e não no desfiguramento dos rostos”, como afirmou o neto. Por essa época não haviam jornais humorísticos e o cartum semanal de “H.B” – como John Doyle se fazia conhecer – era distribuído em forma de litografia. Morto em 1868, seus dotes artísticos, entretanto, se fizeram notar nos filhos. O mais velho, James Doyle, escreveu As crônicas da Inglaterra (The Chronicles of England) – que ele próprio ilustrou – e também Baronato Oficial da Inglaterra (The Official Baronage of England). Henry Doyle era grande perito em pintura antiga, vindo a ser diretor da National Gallery de Dublin; já Richard Doyle alcançou fama na Punch, graças ao seu humor excêntrico. Por último, havia Charles Doyle – existia também uma filha de “H.B”, entretanto, ACD nada comenta sobre a tia – que chega em Londres por volta 1850 e hospeda-se na casa de uma certa Katherine Pack – cuja ascendência remontava aos Plantagenetas. Sua filha, Mary Foley, logo parte para a França e quando retorna, Charles e Mary iniciam um romance, casando-se em 1855. Dessa união nascem Annette, Arthur, Lottie e Connie Doyle.

Dos sete aos nove anos ACD freqüenta a escola em Edimburgo; aos dez anos é enviado para Hodder, instituição preparatória para Stonyhurst e de “grande utilidade, pois adapta os jovens à rotina escolar antes que eles se misturem com meninos mais velhos”. Fica em Hodder dois anos e depois passa para Stonyhurst, onde o currículo geral constava de sete matérias – fundamentos, números, rudimentos, gramática, sintaxe, poesia e retórica- cada uma exigindo um ano, de modo que foram sete anos na instituição jesuíta Stonyhurst.

Foi na última etapa em Stonyhurst que ACD percebe a “existência de uma veia literária que não compartilhava com os demais“, tanto que em seu último ano foi redator da revista da escola, escrevendo “uma quantidade razoável de poemas medíocres“. Encerrado o período de Stonyhurst, ACD é enviado para Feldkirsch, escola jesuíta na província de Vorarlberg, na Áustria. Sua ida para Áustria teve por objetivo aprender alemão e também porque era ainda muito novo para iniciar os estudos profissionais. Seu progresso no alemão “foi menor que o esperado” e no caminho de volta à Inglaterra passa por Paris, para visitar seu tio-avô até então só conhecido por cartas. Michael Conan era irmão da esposa do velho “H.B”, fora editor do Jornal das Artes e “era um homem destacado, um intelectual irlandês“. Esse tio também era seu padrinho e por isso o nome Arthur Conan.

Assim, durante algumas semans de penúria, fiquei em Paris com aquele querido e vulcânico irlandês, que passava o dia em mangas de camisa, paparicado pela esposa, miúda como um passarinho. Pareço-me muito mais com ele, física e mentalmente, do que com qualquer dos Doyle. Fizemos uma sincera amizade; e depois, voltei para casa, cônscio de que a verdadeira vida estava para começar“.

Em outubro de 1876 ingressa na Universidade de Edimburgo e de lá sai em agosto de 1881, como bacharel em medicina. Seu período na Universidade, apesar da “longa e tediosa rotina de botânica, química, anatomia, fisiologia e uma série de matérias obrigatórias, muitas das quais mantém uma relação muito distante com a arte da cura“, lhe rendeu pontos decisivos para sua futura carreira literária. Havia o professor Rutherford, “com sua barba assíria, sua voz tonitroante, seu tórax imenso e seus modos peculiares. Ele nos fascinava e intimidava. Procurei reproduzir algumas de suas idiossincrasias no personagem fictício do professor Challenger“. Entretanto, a criatura que mais lhe chamou a atenção foi Joseph Bell.

Bell era um homem excepcional, tanto no intelecto quanto no físico. Era magro, rijo, moreno, com um rosto comprido e nariz reto, penetrantes olhos cinzentos, ombros angulosos e um jeito desengonçado de caminhar. Tinha uma voz aguda e dissonante. Cirurgião de grande habilidade, seu ponto forte, entretanto, era o diagnóstico – não só da doença, mas da ocupação de índole do paciente. Por algum motivo que nunca atinei, selecionou-me, num grupo de estudantes que freqüentava a sua clínica, e fez de mim o secretário da ala, o que significa que eu tinha que classificar os seus pacientes, fazer anotações simples sobre cada caso e conduzi-los, um de cada vez, para a ampla sala onde Bell ficava sentado, rodeado de enfermeiros e alunos. Tive então muitas oportunidades de estudar os seus métodos e de verificar que, com freqüência, bastavam-lhe umas poucas olhadelas para saber mais, sobre o paciente, do que eu descobria com minhas perguntas. Vez por outra, os resultados chegavam a impressionar, embora em uma ou outra ocasião ele se enganasse. Um de seus casos mais notáveis foi quando ele se dirigiu a um paciente vestido à paisana: “Quer dizer, meu amigo, que você serviu o exército?”

“Sim, senhor.”

“E não faz muito tempo que deu baixa? “

“Não senhor.”

“Um regimento de Highlands?”

“Sim, senhor.”

“Acantonado em Barbados?”

“Sim, senhor.”

“Como podem ver, cavalheiros”, explicou-nos, “embora se trate de um homem respeitador…ele não tirou o chapéu. Não se tira, no exército. Entretanto, se ele tivesse dado baixa há muito tempo, teria assimilado hábitos de civil. Ele tem um ar de autoridade, e é, evidentemente, um escocês. Quanto a Barbados, o problema dele é elefantíase – doença das Índias Ocidentais, e nem um pouco britânica”. Para sua platéia de Watsons, tudo pareceu milagroso, até a explicação, quando então tornou-se muito simples. Não é de admirar que, após ter observado um personagem desses, eu tenha usado e ampliado seus métodos mais tarde, quando me propus a criar um detetive científico, que resolvia os casos devido ao seu mérito próprio, e não à estupidez do criminoso. Bell interessava-se vivamente por essas histórias de detetive, e até dava sugestões – as quais devo dizer, não eram muito práticas. Mantive contato com ele durante muitos anos, e ele sempre subia no palanque comigo, para me dar apoio, quando fui candidato por Edimburgo, em 1901“.

Sabendo da renda modesta em casa, ACD tratou de “comprimir as matérias de um ano em um único semestre“, para dispor de alguns meses livres nos quais pudesse ganhar algum dinheiro como assistente médico. Sua primeira tentativa foi no verão de 78, junto com um certo dr. Richardson, com o qual trabalhou apenas três semanas. Seguiu depois para Londres, publicando seus anúncios em jornais de medicina e hospedando-se na casa de parentes. Após um período de ócio, um certo dr. Elliott, morador de uma cidadezinha no Shropshire, respondeu ao anúncio, de modo que durante quatro meses ACD trabalhou como assistente em um clínica interiorana.

Após um inverno cursando a Universidade, meu seguinte cargo como assistente rendeu-me dinheiro de verdade, chegando a 2 libras por mês“. ACD trabalhava agora com o dr. Hoare, um conhecido médico de Birmingham, aviando receitas e também fazendo sua própria ronda junto aos mais pobres e convalescentes. No seu segundo estágio junto ao dr. Hoare, como os conhecimentos médicos de ACD haviam se ampliado, fez alguns partos e tratou de casos mais graves de clínica geral, além de aviar receitas.

Foi por essa época que, devido ao comentário de um amigo, afirmando suas cartas serem “muito vívidas” e que certamente poderia vender alguns escritos, ACD descobre que poderia garantir alguns shillings a mais com a literatura. Assim, “tratei de me sentar para escrever uma pequena história de aventura, que intitulei O Mistério do Vale Sassassa (The Mystery of the Sassassa Valley). Para minha imensa alegria e surpresa, ela foi aceita pelo Chamber’s Journal, e recebi 3 guinéus. Pouco me importou o fracasso de outras tentativas. Eu havia vencido uma vez, e consolava-me pensar que venceria de novo. Anos se passaram até que eu chegasse de novo ao Chamber’s, mas em 1879 publiquei um conto, A História do Americano (The American’s Tale), na London Society, recebendo por ele módico cheque. Contudo, longe de mim, ainda, pensar no verdadeiro sucesso…“.

Nesse meio tempo seu pai vem a falecer e ACD, aos vinte anos, fica a frente de uma família numerosa e em situação financeira delicada. A morte do pai muito contribui para o “desabrochar espiritual” de ACD, levando-o inicialmente a rejeitar a fé cristã, passando pelo agnosticismo, “que nunca, por um só instante, degenerou um ateísmo“, até seu encontro com o espiritismo, do qual veio a ser um pesquisador e divulgador incansável, escrevendo, inclusive, livros sobre o tema.

Em 1880, enquanto estudava “para uma dessas provas que arruína a vida do acadêmico de medicina“, ACD foi procurado por um colega que lhe propôs partir numa viajem de pesca à baleia, já que um imprevisto de última hora o impedia de zarpar. Em instantes tudo ficou decidido e cerca de uma semana depois, ACD estava em Peterhead, a bordo do “valente navio Hope“, na qualidade de médico de bordo, tendo em mente as duas libras e dez que ganharia por mês e mais três shillings por tonelada de óleo. Partiram em 28 de fevereiro rumo ao ártico na busca de baleias brancas e focas. Da expedição, que não foi das mais bem sucedidas, ACD trouxe, “afora o lado esportivo“, “o sentimento estranhamente espiritual que as regiões árticas despertam”. Sete meses depois o Hope retornava para casa e ACD havia garantido cinqüenta libras ao minguado orçamento de sua mãe, além da firme convicção de que “para dar valor a uma mulher, é preciso ficar seis meses sem ver nenhuma“.

No ano seguinte, já terminada a faculdade, nova viajem como médico de bordo, agora no Mayumba, “um pequeno vapor de umas quatro mil toneladas – um gigante, depois de minha experiência no baleeiro de duzentas toneladas“. Em 22 de outubro de 1881 partem rumo a costa ocidental da África, com ACD ganhando “umas 12 libras por mês“.

Por volta de julho de 1882, ACD parte para Southsea, subúrbio de Portsmouth, com todos os seus bens e decidido a abrir consultório numa cidade onde não conhecia ninguém. Passa a primeira semana num quarto alugado e na busca de uma casa desocupada que servisse de lar e consultório. Encontra a casa por 40 libras anuais, de modo que foi “possível ajeitar para os pacientes uma sala com três cadeiras, uma mesa e um pedaço de tapete no meio. No andar de cima, havia uma espécie de cama e um colchão. (…) A esse altura, eu já havia enviado vários contos para a London Society, uma revista hoje defunta, e que então florescia sob a égide de um editor chamado Mr. Hogg. No exemplar de abril de 1882, publicaram um conto meu, hoje felizmente esquecido, intitulado Ossos (Bones). No natal anterior, haviam publicado outro, A Ravina de Bluemansdyke (The Gully of Bluemansdyke). Ambos tinham eco de Bret Hart. Esses, juntamente com os contos já mencionados, representam a minha única produção nessa época. Expliquei ao sr. Hogg a minha situação e, a seu pedido, escrevi um novo conto para o exemplar de Natal, intitulado Meu Amigo, o Assassino (My Friend the Murderer). Hogg se portou muito bem e me enviou 10 libras, que pus de lado para o aluguel do primeiro trimestre. Alguns anos mais tarde, porém, já não me agradou tanto, quando exigiu todos os direitos autorais sobre aqueles contos imaturos, publicando-os num único volume com o meu nome“.

Conan Doyle em 1893.

Conan Doyle em 1893.

A vida solitária em Southsea faz ACD escrever para a família pedindo a vinda de Innes, o irmão caçula, para morar com ele, o que representaria não só um alívio para sua mãe e também, além da companhia, uma ajuda para ACD e seu consultório médico. O consultório, que ficava em uma rua movimentada – entre um hotel e uma igreja- não garantiu mais que uma pequena e ocasional clientela, apesar de sua boa localização. “Ganhei 154 libras no primeiro ano e 250 no segundo, chegando ao poucos às 300 libras, que nunca superei em oito anos, no que se refere à clínica médica“. Em 1885 seu irmão parte para uma escola particular em Yorkshire e pouco depois, ao tratar de um doente de meningite cerebral, vem a conhecer a irmã desse paciente, Louise Hawkins, casando-se com ela em 6 de agosto de 1885.

No período anterior ao casamento ACD continuava escrevendo alguns contos afim de aumentar sua renda, publicando alguns na London Society, All the Year Round, Temple Bar, The Boy’s Own Paper e outras. “Com o casamento, porém, meu intelecto pareceu se aguçar, e tanto a minha imaginação quanto meus meios de expressão se ampliaram muito. a maioria dos contos que acabaram sendo publicados em O Capitão da Estrela do Norte (Captain of the Polestar) foram escritos naqueles anos, entre 1885 e 1890“. A Declaração de Habakuk Jephson (Habakuk Japhson’s Statement) é publicado na Cornhill – respeitável e influente revista que, entre suas páginas, já haviam figurado autores como Thackeray e R. L. Stevenson – de forma anônima, de acordo com a regra da revista, rendendo ao autor um cheque de 30 libras. A excelente recepção da crítica faz ACD publicar mais dois contos na Cornhill (também anonimamente): O Hiato de John Huxford ( John Huxford’s Hiatus) e O Anel de Toth (The Ring of Toth) e na escocesa Blackwood era publicado A Mulher do Fisiologista (The Physiologist’s Wife), “escrito enquanto eu sofria influência de Henry James“.

A conquista de espaço próprio vinha sendo conquistada paulatinamente e “eu agora sentia que era capaz de coisa mais original, mais interessante e mais profissional. Gabouriau me agradara bastante com o encadeamento bem urdido de suas tramas, e o detetive de Poe, A. Dupin, fora um dos heróis de minha infância. Mas, seria eu capaz de acrescentar algo de meu? Pensei no meu velho professor, Joe Bell, no seu rosto aquilino, seus modos esquisitos, seu talento impressionante para perceber detalhes. Fosse ele um detetive, decerto que transformaria essa atividade fascinante mas desorganizada em algo mais próximo a uma ciência exata. Eu tentaria obter esse efeito, se pudesse. Se era certamente possível na vida real, como não seria plausível na ficção? É muito fácil dizer que um homem é inteligente, mas o leitor deseja ver exemplos dessa inteligência – exemplos como os que Bell nos dava todos os dias, no ambulatório. A idéia me atraía. Que nome dar ao personagem? Ainda possuo a folha de caderno onde anotei várias alternativas. Rebelei-me contra o artifício de colocar nos nomes insinuações sobre o caráter, com personagens chamados Sharp (Agudo) ou Ferret (Furão). Primeiro, foi Sherringford Holmes; depois Sherlock Holmes. Ele não poderia contar as próprias proezas, de forma que era preciso dar-lhe um companheiro banal – um homem culto e ativo, capaz tanto de acompanhá-lo em suas aventuras, quanto narrá-las. Um nome simples e banal para esse homem modesto. Watson serviria. Foi assim que surgiram os meus fantoches e escrevi Um Estudo em Vermelho (A Study in Scarlet)“. ACD tinha então 28 anos e foi assim que surgiu aquela que, provavelmente, seja a mais conhecida personagem da literatura mundial – bem como o coadjuvante literário mais conhecido também, o amigo e auxiliar Dr. Watson, que serve de confidente a quem o protagonista se revela em conversas.

Os pequenos êxitos de seus contos anteriores deixaram ACD confiante que Um Estudo em Vermelho lhe poderia abrir caminhos. Entretanto, o manuscrito original começou a perambular de editora em editora e a recusa sistemática de publicação começou a preocupar e deixar o autor “magoado, pois tinha certeza de que ele merecia sorte melhor“. Assim corria 1886 até que a Ward, Lock & Co. respondeu:

Prezado Senhor,

Seu conto foi lido por nós e nos agradou. Não podemos publicá-lo este ano, uma vez que o mercado se encontra saturado de ficção barata, mas, se o senhor não fizer nenhuma objeção a que ele saia no próximo ano, podemos pagar £25 pelos direitos de autor.

Atenciosamente,
Ward, Lock & Co.

30 de out. de 1886.

 Não era uma proposta muito tentadora e, na minha penúria, até hesitei em aceitá-la. O problema não era só a pequena quantia que me ofereciam, mas a demora, pois aquele livro podia me abrir uns caminhos. Desgostoso com as sucessivas decepções, porém, achei que talvez fosse mais sábio garantir a publicação, mesmo que demorasse. Diante disso, aceitei, e o livro se tornou o Almanaque de Natal Beeton de 1887. Nunca, em qualquer momento posterior, recebi mais um tostão por ele“.

Mesmo que tenha passado relativamente despercebido na Inglaterra, Um Estudo em Vermelho obteve êxito maior nos EUA e como resultado um agente da Lippinscott procura ACD a fim de encomendar um livro. “Desnecessário dizer que dei um dia de folga para os meus pacientes e parti com entusiasmo para a entrevista“, ocorrida na mesa de um restaurante londrino. Stoddart, o agente americano, convidou mais duas pessoas para o jantar: Gill, “um parlamentar irlandês muito divertido” e também um “já então famoso apologista do esteticismo“: Oscar Wilde, que disse ter lido e se entusiasmado – para surpresa de ACD – com Micah Clarke. Quanto a Wilde, ACD disse: “Sua conversa deixou uma marca indelével na minha mente. Estava muito acima de nós e, no entanto, dominava a arte de demonstrar interesse por tudo o que dizíamos. Possuía sensibilidade de sentimentos e tato, pois o homem que monologa, por mais inteligente que seja, nunca é, no fundo, um cavalheiro. Sabia exigir e entregar em igual medida – e o que entregava era único. Tinha uma curiosa precisão verbal, um humor refinado e um jeito, tipicamente seu, de fazer pequenos gestos para ilustrar o que dizia. É impossível descrever o efeito que essa característica causava, mas lembro-me bem de como, quando discutíamos as guerras do futuro e ele observou: “De cada lado da fronteira, haverá um químico segurando um frasco”, a sua mão erguida e sua expressão evocaram uma cena vívida e grotesca“. O resultado da noitada foi que tanto ACD quanto Wilde se comprometeram em escrever para a Lippinscott: ACD escreveu o Signo dos Quatro (The Sign of Four) e Wilde escreveu O Retrato de Dorian Grey (The Picture of Dorian Grey). “Foi sem dúvida uma noite gloriosa para mim”.

A vida em Southsea já era nessa época “agradável, graças ao sucesso literário cada vez maior“, sem que, entretanto, permitisse ACD abandonar a atividade médica. Foi numa conversa com um amigo, Malcolm Morris, que uma nova perspectiva surgiu. Morris insistiu para que ACD desistisse de clinicar naquela província e que seria melhor trocá-la por Londres. A incerteza quanto ao sucesso literário e a idéia de que abandonar uma profissão que tantos esforços custaram à sua mãe o faziam ficar. Morris perguntou-lhe se não havia alguma especialidade na qual pudesse se concentrar, de forma a abandonar a clínica geral. Ao saber do interesse de ACD em oftalmologia, Morris sugeriu: “Por que não se especializa em oftalmologia? Vá para Viena, trabalhe durante seis meses, depois volte para para se estabelecer em Londres. Dessa forma, terá uma vida boa e despreocupada, com bastante tempo livre para sua literatura“. A idéia surtiu efeito e como Mary Louise, sua primeira filha, nascida em 1889, “já tinha idade para ficar com a avó, não havia mais nenhum obstáculo no meu caminho. Não tive dificuldade em fechar a clínica, pois sua clientela era tão pequena e nosso relacionamento tão pessoal que não podia passá-la para outro, e ela teve de ser dissolvida“.

Antes da partida, a Sociedade Literária e Científica de Portsmouth – da qual ACD fora secretário por vários anos – ofereceu um banquete de despedida para o casal Doyle e então, “em fins de 1890, a sorte foi lançada, e pela última vez fechamos atrás de nós as portas da Villa Bush. Os oito longos anos passados em Portsmouth tinham visto dias de penúria e dias de sucesso crescente. Agora, era com um sentimento de esplendorosa liberdade e eufórica intrepidez que nos dispúnhamos a enfrentar uma nova fase de nossa vida“.

A temporada em Viena se dividiu entre o “cursos de oftalmologia no Krankenhaus” [hospital, em alemão], a descoberta da “alegre sociedade vienense“, algum contato com Brinsley Richards, correspondente do Times, bem como “ótimos momentos patinando no gelo. Também escrevi um pequeno livro, As peripécias de Raffles Haw (The Doings of Raffles Waw), empreendimento não muito notável, com o qual pude pagar as minhas despesas imediatas sem lançar mão da poucas centenas de libras que constituíam todas as minhas posses“.

A chegada da primavera anuncia o fim da temporada de estudos em Viena, “se é que podemos dizer que um dia começaram” e o casal Doyle parte de volta à Ilha, passando, antes, por Paris, onde passam alguns dias com Landolt, um ocultista francês. Chegando em Londres, um apartamento na Montague Place é alugado e em seguida ACD passa a procurar um consultório onde pudesse começar sua atividade de oculista. “Após uma peregrinação pelos consultórios acabei encontrando um lugar adequado no número 2 da Devonshire Place, situada no final da Wimpole Street e perto da clássica Harley Street. Por 120 libras ao ano, garanti o direito de ocupar uma sala de frente e dividir uma sala de espera. em breve descobriria que ambos os aposentos seriam salas de espera – e hoje vejo que foi melhor assim.

Toda manhã, eu saía a pé de minha moradia na Montague Place, chegava ao consultório às dez, e lá ficava até as três ou quatro, sem que um único toque da campainha viesse perturbar minha tranqüilidade. Podem existir melhores condições para se refletir e trabalhar? Era o ideal; e, enquanto eu continuasse totalmente mal-sucedido na minha pretensão profissional, teria todas as oportunidades de melhorar minhas perspectivas literárias. Assim, ao voltar para casa, à hora do chá, levava comigo minhas modestas laudas, os primeiros frutos de uma farta colheita“.

Um bom número de revistas mensais circulava em Londres por essa época, entre as quais se destacava a The Strand, dirigida por Greenhough Smith. “Examinando aqueles diversos periódicos, com suas histórias desconexas, ocorreu-me que um folhetim centrado num mesmo personagem poderia prender o leitor à revista – desde que prendesse antes a sua atenção“. Nascia aqui a parceria entre ACD e a The Strand, onde a imensa maioria dos contos sobre Sherlock Holmes vieram a ser originalmente publicados.

Entretanto, outros projetos ocupavam a mente de ACD. “Finalmente, após ter escrito duas séries, percebi que corria o risco de forçar a mão e ser para sempre identificado com algo que a meu ver representava o nível mais baixo da criação literária. Conseqüentemente, como prova da minha determinação, resolvi pôr fim à vida de meu herói. A idéia já me ocorrera durante umas curtas férias na Suíça, quando conheci as maravilhosas cataratas de Reichenbach, um lugar terrível, e que se me afigurou um túmulo digno do pobre Sherlock, ainda que com ele eu enterrasse a minha conta bancária. Portanto, foi onde o atirei, firmemente decidida a deixá-lo lá – como de fato o deixei, durante alguns anos. Fiquei atônito com o desgosto que os leitores manifestaram. Dizem que os homens só são devidamente apreciados depois da morte, e o alardio geral contra a execução sumária de Holmes me ensinou quantos e quão delicados eram os meus amigos. “Seu bruto!” começava a carta de censura que me enviou um senhora, e creio que ela não falava apenas em seu nome. Soube que muitos choraram. Lamento dizer que pessoalmente mostrei-me totalmente insensível e até satisfeito com a oportunidade de investigar novos campos da imaginação, pois a tentação de pagamentos elevados vinha tornando difícil deixar Holmes de lado“.

Em 1893, The Strand publica O Problema Final onde, numa luta, Sherlock Holmes e seu maior antagonista, o professor Moriarty, despencam nas cataratas de Reichenbach. Durante dez anos Holmes permaneceu morto até que, em outubro de 1903, surge a aventura d’A Casa Vazia, onde o detetive reaparece, revelando que não caíra no precipício, mas conseguira escalar o outro lado do paredão.

Conan Doyle e seu filho, Adrian, em 1930

Conan Doyle e seu filho, Adrian, em 1930

Apesar da hostilidade do criador pela criatura, Holmes tornava-se sempre mais popular, em livros, adaptações para o teatro e, mais tarde, para o cinema. Existem espalhados pelo mundo diversos clubes com o nome Sherlock Holmes e os correios londrinos recebem até hoje cartas endereçadas a 221-B Baker Street – endereço do escritório do detetive – e dirigidas a Sherlock Holmes, tamanho o poder de convencimento do escritor.

Embora a literatura já ocupasse ACD integralmente, foi voluntário para a Guerra do Bôeres (guerra entre os bôeres, colonizadores de origem holandesa da África do Sul, e os ingleses que desejavam apossar-se da região, onde haviam sido descobertos diamantes e ouro. A luta se estendeu de 1899 a 1902, quando, vencidos, os bôeres assinaram a paz de Vereeniging), onde exerceu sua profissão no hospital de Langman Field.

Em seus últimos anos, converteu-se ao espiritismo, a cuja causa se entregaria até o fim da vida. Conan Doyle morreu em 1930, aos 71 anos, em Cowborough, Grã-Bretanha.

Entrevista de Sir Arthur

Bibliografia:
DOYLE, Conan. Memórias e Aventuras. São Paulo: Marco Zero, 1993.

 

9 respostas para Arthur Conan Doyle

  1. Edecildo disse:

    Um verdadeiro contraste, que o criador da mente mais lúcida e lógica da literatura mundial, termine sua vida envolvido com as nebulosidades fantasmagóricas do espiritismo. Obviamente sua mente já não era mais a mesma, pois caiu na famosa farsa conhecida com “As Fadas de Cottingley”, quando umas meninas colaram recortes com fadas em plantas e fotografaram, impressionando incautos, entre eles, o velho e bom ACD… Holmes se contorceu em seu túmulo literário, obviamente…

    • mundosherlock disse:

      Olá Edecildo!

      Realmente, um contraste – a despeito de perdas familiares que certamente contribuíram para ACD trilhar esse caminho. Mas também não deixa de ser interessante e louvável o fato de que ACD nunca incutiu essa dimensão nas histórias de Holmes (no sentido de propaganda). Ao mesmo tempo, também é possível que existisse um certo interesse ‘científico’ por parte de ACD em suas pesquisas espiritualistas. Obrigado pela visita!

  2. Raul Costa disse:

    Olá amigo,parabéns pelo site,excelente conteúdo disponibilizado nele;é fascinate saber detalhes da vida do criador do personagem mais memoravel dos livros :)

  3. Erick Cordeiro disse:

    Arthur,juntamente de Poe e Shakespeare,foi a maior mente que a literatura presenciou!Sherlock Holmes continuará um clássico para todo o sempre,pois foi concedido por um eterno gênio!Fico feliz que Arthur nunca tenha imposto religiões,ateísmo ou espiritismo sobre Sherlock Holmes ou Watson,pois seria desmistificaria um pouco….No mais,acho que é puro PRÉ-conceito e burrice julgar o kardecismo apenas como nebulosidades fantasmagóricas etc.Não ê justo julgar algo sem antes analisa-lo.

  4. Pingback: O legado de Sherlock Holmes – Maiêuticar

  5. Augusto disse:

    Meus parabéns pelo site.Bem realizado e fascinante. Louvável a iniciativa – em meio ao caos de mídias que nos atropela atualmente – de se manter viva e vívida a memória desse grande autor e seu fabuloso personagem.

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