A ciclista solitária

Arthur Conan Doyle

A ciclista solitária

Título original: The Solitary Cyclist
Publicado pela primeira vez na Collier’s Weekly,
em Dezembro de 1903, com 5 ilustrações de Frederic Dorr Steele,
e na Strand Magazine, em Janeiro de 1904,
com 7 ilustrações de Sidney Paget.

Sobre o texto em português:
Este texto digital reproduz a
tradução de The Solitary Cyclist publicado em
As Aventuras de Sherlock Holmes, Volume IV,
editado pelo Círculo do Livro
e com tradução de Lígia Junqueiro.

No intervalo compreendido entre os anos de 1894 e 1901 inclusive, o sr. Sherlock Holmes andou muito ocupado. Pode-se afirmar que não houve nenhum caso público difícil em que ele não fosse consultado, nesses oito anos, e houve centenas de casos particulares, alguns complicados e extraordinários, nos quais representou papel importante. Inúmeros grandes sucessos e alguns fracassos inevitáveis encheram esse período de trabalho contínuo.

Como guardei notas completas sobre esses casos, e cheguei mesmo a tomar parte em alguns, devem compreenderque não me será fácil saber quais apresentar ao público. Ficarei, no entanto, fiel à minha antiga norma, que é dar preferência àqueles que apresentam interesse, não pela brutalidade do crime, mas pelo engenho e pela finalidade surpreendente da solução.

Por esse motivo, vou contar agora o caso da srta. Violet Smith, a ciclista solitária de Charlington, e a curiosa sequência de nossas investigações, que culminaram em inesperada tragédia. É verdade que as circunstâncias não permitiram nenhuma demonstração extraordinária dos dons que tornaram meu amigo famoso, mas há, no caso, pontos que o colocaram em destaque, em meio à coleção de crimes onde me inspiro para tais narrativas.

Consultando o meu caderno de 1895, vejo que foi num sábado, dia 23 de abril, que pela primeira vez ouvimos falar da srta. Violei Smith. Lembro-me de que sua visita desagradou a Holmes, que estava nessa altura interessado num problema relacionado com a estranha perseguição de que fora vítima John Vincent Harden, o conhecido rei do tabaco. Meu amigo, que acima de tudo gostava de precisão e de concentração, aborrecia-se com qualquer coisa que desviasse sua atenção do assunto em que se ocupava no momento. Mas, sem rudeza (estranha, aliás, ao seu temperamento), consentiu em ouvir a história daquela mulher jovem e bela, alta, graciosa e imponente, que se apresentou na Baker Street já muito tarde, implorando a assistência de Holmes e seus conselhos. Inútil dizer que ele estava sobrecarregado. A jovem viera disposta a contar sua história, e era evidente que nada, a não ser a força, faria com que dali saísse antes de realizar seu intento. Com ar de resignação e um sorriso cansado, Holmes convidou a bela intrusa a se sentar e nos contar o que a preocupava.

— Pelo menos, não é questão de saúde — disse ele, examinando-a com o olhar. — Uma ciclista tão entusiasta deve ter muita energia.

A jovem relanceou os olhos para os sapatos, e notei uma aspereza do lado da sola, causada pela fricção dos pedais.

— Sim, ando muito de bicicleta, sr. Holmes, e isso tem relação com minha visita de hoje.

Sidney Paget, 1903

Meu amigo segurou a mão da jovem e examinou-a com a grande atenção e o pouco sentimento que um cientista demonstra por um espécime.

— Peço-lhe que me desculpe. Faz parte do trabalho — disse ele, largando-lhe a mão. — Quase caí no erro de supor que era datilógrafa. Não há dúvida de que se dedica à música. Veja as pontas dos dedos, espatuladas, Watson, consequência de ambas as profissões. Há, no entanto, uma espiritualidade no rosto… — e virou de leve o rosto da jovem para a luz — que não se espera numa datilógrafa. Esta moça é uma artista.

— É verdade, sr. Holmes, sou professora de música.

— No campo, suponho eu, pelo seu tom de pele.

— Sim, senhor, perto de Farnham, nos limites de Surrey.

— Lindo lugar, cheio de interessantes recordações. Lembra-se, Watson, que foi lá que apanhamos Archie Stamford, o falsificador? Agora, srta. Violet, que foi que lhe aconteceu em Farnham?

Com grande clareza e calma, a jovem começou sua narrativa:

— Meu pai já morreu, sr. Holmes. Era James Smith, regente da orquestra do velho Teatro Imperial. Minha mãe e eu ficamos sem nenhum parente, a não ser um tio, Ralph Smith, que partira para a África vinte e cinco anos antes, e de quem jamais tivéramos notícias. Ficamos pobres, depois da morte de meu pai, mas um dia nos disseram que havia no Times um anúncio, indagando do nosso paradeiro. Pode calcular como ficamos excitadas, pois imaginamos que alguém nos deixara uma fortuna. Fomos imediatamente ao escritório do advogado, cujo nome viera no jornal. Ali conhecemos dois senhores, o sr. Carruthers e o sr. Woodiey, que tinham chegado da África do Sul. Disseram que eram amigos de meu tio, que ele morrera meses antes, pobre, em Johannesburg, e que lhes suplicara, à hora da morte, que nos procurassem e não permitissem que nos faltasse nada. Pareceu-nos estranho que o tio Ralph, que nunca se preocupara conosco em vida, se interessasse por nós na hora da morte, mas o sr. Carruthers explicou que meu tio acabara de ter notícia da morte de meu pai e que, portanto, se sentia responsável por nós.

— Desculpe-me — interrompeu Holmes. — Quando teve lugar essa conversa?

— Em dezembro último, há quatro meses.

— Pode continuar.

— O sr. Woodley me pareceu uma criatura odiosa. Ficava sempre olhando para mim de maneira desagradável, e tinha um rosto grosseiro e balofo, um bigode ruivo e cabelos empastados de cada lado da testa. Achei-o detestável, e tive a certeza de que Cyril não gostaria que eu conhecesse aquele sujeito.

— Oh, ele se chama Cyril! — disse Holmes, sorrindo.

A jovem corou e riu.

— Sim, sr. Holmes! Cyril Morton, engenheiro eletrônico, e esperamos nos casar no fim do verão. Deus do céu, como é que fui falar nele? O que eu queria dizer é que o sr. Woodiey era profundamente antipático e que o sr. Carruthers, embora muito mais velho, me deixou melhor impressão. Homem moreno, pálido, bem-barbeado, silencioso, mas de boas maneiras e um sorriso simpático. Perguntou-nos como estávamos de finanças, e, ao saber que éramos muito pobres, sugeriu que eu desse lições de música a sua filha, de dez anos de idade. Respondi que não gostaria de deixar minha mãe, e ele disse que eu poderia ir passar com ela todos os fins de semana, e ofereceu-me cem libras por ano, o que achei ótima remuneração. Acabei por aceitar, e fui para Chiltern Grange, a dez quilómetros de Farnham. O sr. Carruthers disse que era viúvo, mas arranjara uma governanta, senhora muito respeitável, já de idade, a sra. Dixon, para tomar conta da casa. A menina era muito boazinha, e tudo corria bem. O sr. Carruthers era amável e apreciava bastante a música, de modo que passávamos noites agradáveis. Eu, todos os fins de semana, ia visitar minha mãe.

“O primeiro aborrecimento foi a chegada do sr. Woodley. Veio por uma semana, mas me pareceram três meses! Era muito antipático e queria mandar em todos, porém comigo foi pior ainda. Declarou-me amor de maneira odiosa, gabou-se da sua fortuna, disse que, se eu me casasse com ele, teria os mais belos brilhantes de Londres. Finalmente, certo dia, após o jantar, como eu não quisesse saber dele, agarrou-me com força, dizendo que não me largaria enquanto não o beijasse. O sr. Carruthers apareceu e afastou-o para longe de mim, mas o homem se virou contra ele e deu-lhe um murro, derrubando-o e ferindo-o no rosto. Foi o fim da visita, como o senhor deve calcular. O sr. Carruthers me pediu desculpas no dia seguinte, dizendo que eu nunca mais ficaria sujeita a tais insultos. Nunca mais vi o sr. Woodiey.

“E agora, sr. Holmes, chego ao acontecimento que me fez vir procurá-lo, para pedir conselho. Vou todos os sábados de bicicleta à estação de Farnham, para apanhar o trem de meio-dia e vinte e dois. A estrada é deserta e isolada, e há um trecho mais deserto ainda, de cerca de um quilómetro, que corre entre a charneca de Charlington, de um lado, e a mata que rodeia a Mansão Charlington, do outro. Não seria possível encontrar estrada mais solitária, e é raro se encontrar ali uma carroça, ou um camponês, até chegar à estrada real, perto de Crooksbury Hill. Há duas semanas, quando passava por lá, olhei por acaso para trás c vi um homem, também de bicicleta. Parecia de meia-idade, de barba curta e preta. Olhei de novo, antes de chegar a Farnham, porém o homem desaparecera, de modo que não pensei mais nisso. Mas o senhor vai ficar admirado, sr. Holmes, quando lhe contar que, ao voltar, na segunda-feira, vi o mesmo homem, no mesmo trecho da estrada. Meu espanto aumentou, quando isso se repetiu no sábado e na segunda-feira seguintes. Ele ficava sempre longe, não me incomodando de maneira alguma, mas o fato não deixava de ser estranho! Falei sobre isso com o sr. Carruthers, que pareceu interessado. Disse-me que encomendara uma charrete e um cavalo, para que, dali em diante, eu não passasse sozinha por aquele lugar.

“Tanto o cavalo como a charrete deviam ser entregues naquela semana, mas não chegaram, de modo que tive de ir de novo de bicicleta para a estação. Foi hoje de manhã. É claro que olhei para trás, quando cheguei àquele lugar; lá estava o homem, exatamente como duas semanas antes. Ficava sempre tão distante, que eu não podia ver seu rosto, mas tenho certeza de que não é pessoa que eu conheça. Sempre de escuro, com boné de pano. A única coisa que eu podia lhe distinguir no rosto era a barba preta. Hoje não fiquei alarmada, mas curiosa, decidida a ver quem era e o que queria. Diminuí a marcha, mas também ele diminuiu a sua. Parei, e ele parou. Preparei-lhe então uma armadilha. Há uma curva grande na estrada. Pedalei rapidamente até lá e parei, depois da curva, esperando vê-lo passar por mim, sem poder parar. Mas ele não apareceu. Voltei e olhei do outro lado da curva. Podia ver um quilómetro e meio de estrada, mas o homem sumira. O mais extraordinário é que não havia atalho por onde ele pudesse ter se metido.

Sidney Paget, 1903

Holmes esfregou as mãos, estalando a língua.

— O caso tem as suas particularidades — disse ele. — Quanto tempo se passou entre o momento em que virou a curva e aquele em que voltou, para olhar a estrada?

— Dois ou três minutos.

— Então, ele não poderia ter desaparecido na estrada, já que a senhora diz que não há atalho, não?

— Nenhum.

— Com certeza entrou em alguma vereda, de um lado ou de outro.

— Não podia ser do lado das urzes, pois eu o teria visto.

— Então, por exclusão, chegamos à conclusão de que se dirigiu para a Mansão Charlington, que, pelo que me consta, fica no meio de um parque, de um lado da estrada. Mais alguma coisa?

— Nada mais, sr. Holmes, a não ser que fiquei tão perplexa, que não sosseguei enquanto não vim procurá-lo.

Holmes ficou em silêncio por algum tempo.

— Onde está seu noivo? — perguntou por fim.

— Trabalha na Midiand Electry Company, em Coventry.

— Não iria ele lhe fazer uma visi tinha de surpresa?

— Oh, sr. Holmes, como se eu não o conhecesse!

— Tem tido outros admiradores?

— Tive muitos, antes de conhecer Cyril.

— E depois?

— Há aquele odioso sr. Woodiey, se é que se pode chamar de admirador.

— Ninguém mais?

A nossa bela cliente pareceu confusa.

— Quem é ele? — perguntou Holmes.

— Oh, talvez seja imaginação minha, mas às vezes me parece que meu patrão, o sr. Carruthers, se interessa muito por mim. Estamos sempre juntos. Acompanho-o ao piano, à noite. Ele nunca disse coisa alguma. É um perfeito cavalheiro. Mas uma mulher sente essas coisas.

— Ah! — disse Holmes, gravemente. — Como ele ganha a vida?

— É rico.

— Tem cavalos, ou carruagens?

— Oh, não, em todo caso está bem de finanças. Mas vai à cidade duas ou três vezes por semana. Interessa-se bastante por ações de minas de ouro, da África do Sul.

— Ponha-me a par de qualquer novidade, srta. Smith. Estou muito ocupado atualmente, mas arranjarei tempo para investigar seu caso. De qualquer maneira, não aja sem me consultar. Adeus. Espero receber boas notícias a seu respeito.

A jovem saiu.

— É a coisa mais natural uma jovem como essa ter admiradores — disse Holmes, puxando o cachimbo, com ar pensativo. — Mas não namorados de bicicleta, em estradas desertas. Algum apaixonado secreto, com certeza. Mas há, nesse caso, pormenores curiosos e sugestivos, Watson.

— O homem aparecer só naquele lugar?

— Exatamente. Nosso primeiro passo será descobrir quem mora na Mansão Charlington. Depois, qual a relação entre Carruthers e Woodiey, já que parecem tipos tão diferentes. Por que estão ambos interessados em procurar a sobrinha de Ralph Smith? Mais uma coisa. Que espécie de casa é aquela onde se paga por uma governanta o dobro do preço habitual, mas onde não existe um cavalo, embora a casa fique a dez quilómetros da estação? Estranho, Watson, muito estranho.

— Vai até lá?

— Não, caro Watson, vá você. Talvez seja uma intrigazinha insignificante, e não posso largar casos mais sérios, assim na dúvida. Segunda-feira, você chegará cedo a Farnham; ficará escondido perto da charneca de Charlington; observará os fatos e agirá conforme achar acertado. Depois de ter indagado quais os moradores da mansão, voltará para me fazer seu relatório. E agora, caro Watson, nem mais uma palavra sobre o assunto até termos alguns pontos de apoio sólidos, com os quais possamos alcançar a verdade.

Tínhamos sabido, pela jovem, que ela costumava apanhar o trem que parte de Waterloo às nove e cinquenta, de modo que saí mais cedo e apanhei o das nove e treze. Ao chegar à estação de Farnham, não foi difícil saber onde ficava a charneca de Charlington. Era impossível me enganar quanto ao cenário descrito pela jovem, pois a estrada corre entre a charneca aberta, de um lado, e uma velha sebe de teixos, do outro, circundando um parque cheio de árvores magníficas. Havia um portão principal, de pedra coberta de líquen, com pilares sustentando os emblemas heráldicos, mas, além dessa entrada, notei diversos vãos na sebe, de onde saíam veredas. Não se via a casa, da estrada, mas tudo lembrava tristeza e decadência.

A charneca estava coberta por douradas manchas de urzes, brilhando à luz do sol primaveril. Tomei posição atrás de uma dessas moitas, de maneira a poder ver tanto o portão da mansão como um longo trecho de estrada de cada lado. Estava deserta, quando eu a deixei, mas então vi um ciclista se dirigindo para o lado de onde eu viera. Estava de roupa escura e tinha barba preta. Ao chegar ao fim dos terrenos da Mansão Charlington, desceu da bicicleta e se enfiou com ela por um dos vãos, na sebe, desaparecendo de minha vista.

Um quarto de hora depois, surgiu novo ciclista. Dessa vez era a jovem, que vinha da estação. Vi-a olhar em volta, quando chegou àquele ponto. Segundos depois, o homem saiu do esconderijo, pulou para a bicicleta e seguiu a jovem. No largo cenário, apenas as figuras se moviam, a jovem graciosa, muito ereta na bicicleta, e o homem, inclinado sobre o guidão, com ar furtivo. Ela olhou para trás e diminuiu a marcha. Também ele diminuiu a sua. Ela parou. Ele parou imediatamente, ficando a duzentos metros do ponto onde se encontrava a srta. Smith. O próximo movimento da jovem foi tão inesperado quanto enérgico. De repente, virou-se e pedalou com vigor para o lado dele. Mas o homem foi igualmente rápido, fugindo num ápice. Então ela retomou seu caminho, olhando para a frente, não se dignando preocupar-se mais com seu silencioso acompanhante. Ele também se virara, guardando a distância, até que a curva da estrada o escondeu da minha vista.

Fiquei no meu esconderijo. Ainda bem, pois o ciclista voltou lentamente dali a pouco. Ao chegar aos portões da mansão, desceu da bicicleta. Vi-o por alguns minutos, no meio das árvores. Erguera as mãos e parecia ajeitar a gravata. Depois subiu de novo na bicicleta e se afastou pela alameda, na direção da mansão. Corri pelas urzes e espiei por entre as árvores. Distingui, ao longe, a velha casa cinzenta, com suas chaminés, mas a alameda corria no meio de árvores cercadas, e não vi mais nosso homem.

Pareceu-me que meu trabalho da manhã fora rendoso, e voltei, satisfeito, para Farnham. O corretor de imóveis da localidade nada pôde me dizer sobre a Mansão Charlington e mandou-me procurar uma conhecida firma, em Pall Mall. Dirigi-me para ali, ao voltar a casa, e fui recebido com cortesia. Não, não podiam me alugar a Mansão Charlington durante o verão, pois acabara de ser alugada, um mês antes. Sr. Williamson, chamava-se o inquilino.. Era um senhor de idade, respeitável. Infelizmente nada mais podia informar, disse ele, pois a vida dos clientes não era assunto que pudesse discutir.

Sherlock Holmes ouviu com atenção o longo relatório que lhe apresentei naquela noite, mas não recebi a palavra de elogio que esperava e à qual teria dado tanto valor. Pelo contrário, seu rosto austero ainda mais severo se tornou, quando ele comentou as coisas que eu fizera e as que deixara de fazer.

— Seu esconderijo, caro Watson, deixou muito a desejar. Devia ter-se escondido atrás da sebe; dali, sim, teria podido ver de perto aquela interessante pessoa. Mas, ficando a centenas de metros de distância, pôde me contar menos ainda do que a srta. Smith. Ela julga que não conhece o homem; eu acho que ela o conhece. Do contrário, por que haveria ele de evitar a todo custo que a jovem se aproximasse e lhe visse as feições? Você diz que ele se inclinava sobre o guidão. Pois trabalhou inuito mal. Quando o homem voltou para casa, procurou saber quem ele era e, para isso, foi procurar uma firma de corretores de imóveis, em Londres!

— O que devia ter feito então? — perguntei acaloradamente.

— Devia ter ido à taverna mais próxima. É o centro dos falatórios. Lá lhe diriam os nomes de todos, desde o do patrão até o da criada. Williamson! Não me diz nada. Se for um senhor idoso, não pode ser o enérgico ciclista, que consegue escapar à atlética perseguição daquela jovem. Que ganhamos com nossa excursão? A certeza de que a história da jovem é verídica? Nunca duvidei dela. Que há uma relação entre o ciclista e a mansão? Também nunca duvidei disso. Que o atual morador da mansão se chama Williamson? Que adianta saber disso? Bom, bom, caro amigo, não fique tão deprimido. Pouco podemos fazer até o próximo sábado, e, nesse meio tempo, procurarei investigar, eu mesmo, um ou dois pontos.

Na manhã seguinte, recebemos um bilhete da srta. Smith, contando, brevemente e com exatidão, os incidentes por mim presenciados. Mas o mais importante estava no pós-escrito:

“Tenho certeza de que respeitará a minha confidência, sr. Holmes, quando lhe contar que minha posição aqui se tornou delicada, pelo fato de o meu patrão ter me pedido em casamento. Estou convencida de que seus sentimentos são sinceros e suas intenções, as mais dignas. Por outro lado, estou noiva. Ele aceitou a minha recusa com ar muito sério, mas delicadamente. O senhor deve, no entanto, compreender que a situação é constrangedora”.

— Nossa amiga parece estar navegando em águas profundas — observou Holmes, pensativo, ao terminar a carta. — O caso apresenta pontos interessantes e mais possibilidades de desenvolvimento do que a princípio me pareceu. Um dia tranquilo, mi campo, não me faria mal, e estou com vontade de ir até lá hoje ã tarde, para ‘experimentar uma ou duas teorias que elaborei.

O calmo dia de Holmes no campo teve um fim singular, pois ele chegou tarde à Baker Street, com um lábio cortado e um galo na testa, além de estar com tal aspecto que poderia ter sido objeto de investigação da Scotiand Yard. Estava muito animado com a aventura, e riu gostosamente ao contá-la.

— Faço tão pouco exercício que é sempre um prazer praticar um pouco — disse ele. — Você não ignora que sou perito no velho esporte inglês chamado boxe. De vez em quando, ajuda. Hoje, por exemplo, teria feito um triste papel e sofrido desagradáveis consequências, se não fosse o boxe.

Sidney Paget, 1903

Pedi-lhe que me contasse o que acontecera.

— Encontrei a taberna de que lhe falei e ali fiz perguntas discretas. Fiquei ao balcão, e o dono da taverna, sujeito loquaz, deu-me todas as informações que eu queria. Williamson é um homem de barba branca e mora na mansão, com poucos empregados. Murmura-se que é ou foi padre, mas um ou dois pormenores de sua estada na mansão me pareceram pouco eclesiásticos. Já indaguei a esse respeito no lugar competente e fiquei sabendo que houve um padre com esse nome, cuja carreira foi singularmente negra. O dono da taverna me contou que o homem sempre recebe visitas nos fins de semana (gente do barulho, senhor, disse ele), principalmente um homem de bigode ruivo, chamado Woodiey, que nunca deixa de vir. Tínhamos chegado a esse ponto, quando entra na sala. . . imagine quem?… o próprio sujeito, que estivera bebendo cerveja na saleta e ouvira a conversa toda. Quem eu era? O que queria? Que significavam aquelas perguntas? Falava fluentemente, e seus adjetivos eram vigorosos. Acabou por me dar um soco, ao qual não pude me esquivar completamente. Os minutos seguintes foram deliciosos. Mandei-lhe um direto com a esquerda. Saí no estado que vê, mas o sr. Woodiey teve de ir para casa de carro. Acabou desse modo o meu dia no campo, e devo confessar que, por mais agradável que tenha sido, não foi muito mais proveitoso do que o seu.

Na quinta-feira, recebemos outra carta da srta. Smith:

“Vai ficar admirado, sr. Holmes, por saber que vou deixar a casa do sr. Carruthers. Nem mesmo o alto salário poderá compensar o constrangimento gerado pela situação. No sábado, irei para a cidade e não voltarei mais para cá. O sr. Carruthers tem agora uma charrete, de modo que o perigo na estrada, se é que houve perigo, deixou de existir. Quanto ao motivo que me leva a partir, não é tanto o pedido de casamento feito pelo sr. Carruthers, como o reaparecimento do odioso sr. Woodiev. Ele sempre foi detestável, mas agora está pior, pois parece que sofreu um acidente e está desfigurado. Vi-o pela janela, mas felizmente não nos encontramos. Ele teve uma longa conversa com o sr. Carruthers, e este depois me pareceu muito excitado. Woodiey deve estar hospedado nas redondezas, pois não ficou aqui. Apesar disso, vi-o de relance novamente, hoje de manhã, correndo furtivamente pelas moitas. Eu preferia ver um animal selvagem, solto por aí, a encontrar esse homem. Detesto-o e temo-o mais do que gostaria de confessar. Como é que o sr. Carruthers pode suportar tal criatura, por um momento que seja? Felizmente meus aborrecimentos terminarão no sábado.”

— Assim espero, Watson, assim espero — disse Holmes gravemente. — Há uma intriga em volta daquela jovem, e é nosso dever evitar que a incomodem nessa última viagem. Acho que devemos ir ambos para lá no sábado, para que esta curiosa investigação não tenha um fim desagradável.

Confesso que, até então, eu não levara o caso a sério, pois me parecera mais bizarro e grotesco do que perigoso. Que um homem espere uma bela donzela e a siga, não é novidade em parte alguma, mas o fato de nunca procurá-la e mesmo fugir à sua aproximação indicava que não era adversário muito perigoso. Quanto a Woodiey, o caso era diferente, mas, a não ser numa ocasião, não importunara a nossa cliente, e agora visitava Carruthers sem impor à jovem a sua presença. O homem de bicicleta era, sem dúvida, um dos membros das reuniões dos fins de semana de que falara o taverneiro. Mas é impossível saber quem era ou o que desejava. Somente a seriedade de Holmes e o fato de meter um revólver no bolso me indicaram que o caso poderia terminar em tragédia.

Uma noite de chuva fora seguida por uma bela manhã, e os campos de urzes pareciam ainda mais belos aos olhos de quem estava habituado aos tons cinzentos da velha Londres. Holmes e eu caminhamos pela estrada larga, respirando o ar fresco da manhã e ouvindo o chilrear dos pássaros. De uma elevação da estrada, vimos a mansão no meio de velhos carvalhos, os quais, por mais velhos que fossem, eram mais novos do que a casa que circundavam. Holmes mostrou-me a grande extensão da estrada. Ao longe, vimos uma mancha preta, parecendo um veículo que vinha na nossa direção. Holmes soltou uma exclamação de impaciência.

— Eu tinha dado uma margem de meia hora — disse ele. — Se for a charrete da jovem, é porque vai apanhar o trem mais cedo. Receio, caro Watson, que ela passe por Charlington antes que possamos apanhá-la.

Depois de termos passado a elevação, não vimos mais o veículo, mas caminhamos com tal rapidez, que comecei a notar os efeitos da minha vida sedentária e tive de ficar para trás. Mas Holmes estava sempre treinado e tinha uma reserva inesgotável de energia. Seu passo vivo não se abrandou. De repente, quando se encontrava cem metros à minha frente, parou, erguendo a mão num gesto de desespero. No mesmo momento, uma charrete vazia, com o cavalo a meio galope, de rédeas soltas, apareceu na curva, vindo na nossa direção.

Sidney Paget, 1903— Tarde demais, Watson, tarde demais! — disse Holmes, enquanto eu corria, ofegante, para o seu lado. — Idiota que fui, em não ter pensado num trem mais cedo! Houve um rapto! Assassinato, Deus sabe o quê! Bloqueie a estrada, pare o cavalo! Isso mesmo. Agora pule, e vamos ver se consigo reparar o meu erro.

Pulamos para a charrete. Depois de fazer o cavalo virar, Holmes chicoteou-o, e continuamos pela estrada. Quando fizemos a curva, vimos à nossa frente a vasta extensão de estrada entre a mansão e a charneca. Segurei o braço de Holmes.

— Lá está o homem! — exclamei.

Um ciclista solitário vinha na nossa direção. Estava de cabeça baixa, com os ombros para a frente, pondo nos pedais toda a força que possuía. Voava como um corredor. De repente, ergueu o rosto de barba cerrada e parou, saltando da bicicleta. A barba negra contrastava singularmente com a palidez do rosto, e os olhos brilhavam como se tivesse febre.

— Ei, parem! — gritou, obstruindo a estrada com a bicicleta. — Onde arranjaram essa charrete? Pare, homem! — berrou, tirando um revólver do bolso. — Pare, ou, por Deus, meto uma bala no cavalo!

Holmes atirou-me as rédeas e desceu.

— Você é o homem que desejamos ver. Onde está a srta. Violet Smith? — perguntou, com sua voz clara, incisiva.

— É o que lhe pergunto. Estão na charrete dela. Devem saber onde ela está.

— Encontramos a charrete na estrada, vazia. Estava tentando salvá-la.

— Deus do céu, Deus do céu! Que fazer? — exclamou o homem, desesperado. — Agarraram-na. O miserável Woodiey e o pseudo padre. Venha, venha, se realmente é amigo dela. Fique comigo, e nós a salvaremos, mesmo que meu cadáver fique no parque de Charlington.

Correu como um desesperado, de revólver em punho. Holmes seguiu-o. Deixando o cavalo pastando do lado da estrada, acompanhei meu amigo.

— Foi por aqui que entraram — disse ele, mostrando as pegadas no caminho enlameado. — Ei! Pare um minuto. Que é isto aqui na moita?

Vimos um rapaz de polainas, de dezessete anos, mais ou menos. Estava de costas, com os joelhos para cima, com um ferimento na cabeça. Inconsciente, mas vivo. Ao examinar o corte, vi que o osso não fora atingido.

— É Peter, o empregado — disse o desconhecido. — Era quem guiava a charrete. Os miseráveis o puxaram para fora, ferindo-o. Vamos deixá-lo aqui. Por enquanto, nada podemos fazer por ele, mas talvez tenhamos tempo de salvá-la da pior sorte que pode ter uma mulher!

Corremos desesperadamente pela vereda, que se insinuava por entre as árvores. Chegamos às moitas que circundavam a casa. Holmes parou.

— Não foram para casa. Aqui estão as marcas, à esquerda, ao lado dos loureiros. Ah, eu bem disse!

Nisso ouvimos um agudo grito de mulher, grito horrorizado, saindo da moita à nossa frente. Mas cessou subitamente, como se a pessoa se engasgasse.

— Por aqui, por aqui!… Estão na clareira — disse o desconhecido, metendo-se pelas moitas. — Ah, os covardes! Sigam-me, senhores. Tarde demais, tarde demais, por todos os deuses!

Entramos de repente num belo gramado, cercado por árvores velhas. Na extremidade, à sombra de um grande carvalho, havia um singular grupo de três pessoas. Uma mulher, a nossa cliente, pálida e a ponto de desmaiar, amordaçada. Â sua frente, um rapaz de aparência selvagem, bigode ruivo, pernas entreabertas, um braço erguido, segurando um chicote com a outra mão, numa atitude de triunfante desafio. Entre eles, um homem idoso, de barba grisalha, com uma sobrepeliz sobre um terno leve de casimira, acabara evidentemente de celebrar um casamento, pois enfiava no bolso o livro de orações quando surgimos, e bateu nas costas do sinistro noivo, felicitando-o jovialmente.

— Estão casados! — murmurei.

— Venham — disse nosso guia. — Venham!

Sidney Paget, 1903     Correu pelo gramado, com Holmes e eu no seu encalço. Quando nos aproximamos, a jovem cambaleou, procurando apoiar-se no tronco da árvore. Williamson, o ex-padre, inclinou-se diante de nós com irónica cortesia, e o brutal Woodiey avançou com um grito de selvagem alegria.

— Pode tirar a barba, Bob — disse ele, — Reconheço-o muito bem. Você e seus amigos chegaram a tempo de me permitir que os apresente à sra. Woodiey.

A resposta de nosso guia foi singular. Arrancou a barba que lhe servira de disfarce e atirou-a ao chão, deixando-nos ver um rosto comprido, pálido e bem-barbeado. Ergueu o revólver, apontando-o para o miserável Woodiey, que avançava agitando o perigoso chicote.

— Sim, sou Bob Carruthers e farei com que esta mulher obtenha justiça, nem que eu vá para a forca. Eu lhe disse o que faria se a incomodasse, e, por Deus, cumprirei minha palavra.

— Chegou tarde demais. Ela é minha esposa!

— Não, é sua viúva.

O revólver estalou, e vi sair sangue do peito de Woodley, que soltou um grito, deu uma reviravolta e caiu de costas, com o rosto terrivelmente pálido. O velho, ainda de sobrepeliz, rompeu numa torrente de maldições como jamais ouvi, e puxou um revólver. Mas, antes que pudesse erguê-lo, viu o revólver de Holmes apontado para ele.

Sidney Paget, 1903— Basta! — disse Holmes. — Largue essa arma! Watson, apanhe-a! Aponte-a para a cabeça do sujeito. Você, Carruthers, dê-me esse revólver. Basta de violência. Vamos, dê-me!…

— Quem é o senhor, então?

— Chamo-me Sherlock Holmes.

— Deus de piedade!

— Vejo que me conhece de nome. Representarei a polícia oficial, até que ela chegue. Aqui, você! — gritou para o assustado empregado que aparecia à beira do gramado. — Leve este bilhete o mais depressa possível a Farnham.

Holmes rabiscou umas palavras no caderno de notas.

— Entregue isto ao superintendente, na delegacia. Até que ele venha, vejo-me obrigado a mante-los presos.

A personalidade forte de Holmes dominava a trágica cena. Éramos todos como bonecos nas suas mãos. Williamson e Carruthers levaram para dentro de casa o ferido, e eu dei o braço à assustada jovem. O ferido foi colocado na cama. A pedido de Holmes, examinei-o. Fui depois contar a meu amigo o resultado, na velha sala de jantar cheia de tapeçarias, onde o encontrei com os dois prisioneiros à sua frente.

— O homem viverá — disse eu.

— O quê! — exclamou Carruthers, pulando da cadeira. — Vou lá em cima acabar com ele. Quer dizer que aquela jovem, aquele anjo, vai ficar amarrada ao turbulento Jack Woodiey para o resto da vida?

— Não precisa se preocupar com isso — disse Holmes. — Há duas razões que a impedem de ser esposa daquele miserável. Em primeiro lugar, creio que podemos contestar o direito do sr. Williamson de celebrar o casamento.

— Recebi ordens sacras — disse o canalha.

— E foi, depois, expulso — declarou Holmes.

— Uma vez padre, continua-se padre.

— Creio que não. E que me diz da licença?

— Tínhamos tirado uma licença de casamento. Está aqui no meu bolso.

— Então, conseguiu-a por fraude. De qualquer maneira, um casamento onde houve coação não é válido: é, sim, um crime sério, como você não tardará em descobrir. Terá tempo de refletir sobre isso nos próximos dez anos, se não me engano. Quanto a você, Carruthers, teria sido melhor se tivesse conservado o revólver no bolso.

— Começo a achar que tem razão, sr. Holmes, mas, quando pensei no cuidado que tivera para proteger a jovem (pois eu a amava, sr. Holmes, e pela primeira vez soube o que era amor), fiquei louco, lembrando-me de que ela estava à mercê do maior bruto e canalha da África do Sul, homem cujo nome inspira terror de Kimberley a Johannesburg. O senhor talvez não acredite, sr. Holmes, mas desde que a jovem veio trabalhar em minha casa, nunca a deixei passar por aqui, onde sabia que esses bandidos a espreitavam, sem a seguir na minha bicicleta, para protegê-la. Usando barba postiça, ficava longe, para que não me reconhecesse, pois ela é uma moça decidida e não teria ficado no emprego se soubesse que eu a seguia pelas estradas.

— Por que não lhe falou do perigo?

— Porque ela me abandonaria, e eu não podia suportar tal ideia. Mesmo que não me amasse, era-me um prazer ver aquela figurinha bonita pela casa e ouvir o som de sua voz.

— Pois bem, o senhor chama a isso amor, mas eu o considero egoísmo, sr. Carruthers — observei.

— Talvez as duas coisas. De qualquer maneira, não pude deixá-la partir. Além do mais, com esses homens por aqui, era preciso que alguém velasse por ela. Depois, quando chegou o cabograma, tive certeza de que agiriam.

— Que cabograma?

Carruthers tirou um papel do bolso.

— Aqui está! O velho morreu.

— Hum!… — disse Holmes. — Creio que agora vejo claramente a situação, e compreendo que essa mensagem tenha feito com que agissem, como você disse. Mas, enquanto esperamos, pode me contar o que sucedeu.

O velho de sobrepeliz rompeu de novo numa torrente de palavras.

— Com os diabos, Carruthers, se nos acusar, farei com você o que você fez a Woodiey! Pode se babar pela moça à vontade, isso é lá com você, mas, se acusar seus companheiros, fará a maior asneira de sua vida.

— Vossa Reverendíssima não precisa ficar excitado — disse Holmes, acendendo um cigarro. — O caso é claro, e só peço explicações para satisfazer a minha curiosidade. Em todo caso, se não quiserem me contar, fica o discurso por minha conta, e verão que probabilidades tê.m de me ocultar os seus segredos. Em primeiro lugar, os três chegaram da África: você, Williamson; você, Carruthers; e Woodiey.

— Primeira mentira — vociferou o velho. — Eu não conhecia esses sujeitos, há dois meses, e nunca estive na África, de modo que pode engolir essa, seu intrometido!

— Ele está dizendo a verdade — declarou Carruthers.

— Bom, bom, então vieram só dois. O reverendo é artigo nacional. Vocês tinham conhecido Ralph Smith na África. Sabiam que não viveria muito. Descobriram que sua sobrinha lhe herdaria a fortuna. Que tal, hein?…

Carruthers inclinou afirmativamente a cabeça, e o velho blasfemou.

— Ela era o parente mais próximo, e vocês sabiam que ele não faria testamento — continuou Holmes.

— Não sabia ler nem escrever — informou Carruthers.

— Então, vocês dois vieram para cá e procuraram a jovem. Â ideia era que um de vocês casasse com ela e o outro teria parte do dinheiro. Por um motivo qualquer, Woodiey foi escolhido para noivo. Que tal?

— Isso mesmo. Jogamos a bordo, e ele ganhou.

— Compreendo. Você tomou a jovem á seu serviço, e Woodiey devia cortejá-la em sua casa. A srta. Smith viu que bêbado brutal ele era, e não quis saber de nada. Nesse meio tempo, seus planos foram por água abaixo, pelo fato de você se apaixonar por ela. Não lhe foi mais possível suportar a ideia de vê-la nas mãos daquele canalha.

— Por todos os santos, foi isso mesmo!

— Brigaram. Ele saiu, furioso, e fez seus próprios planos.

— Parece-me, Williamson, que não temos muito que contar a esse cavalheiro — disse Carruthers, com um riso amargo. — Sim, brigamos, e ele me derrubou. Estamos quites, nesse ponto. Depois, perdi-o de vista. Foi quando ele se ligou a esse padre decaído. Descobri que moravam juntos nesta casa, na estrada por onde ela devia passar para ir para a estação. Comecei a zelar pela jovem, pois sabia que eles preparavam algum ato diabólico. Visitava-os de vez em quando, pois estava ansioso por saber quais eram seus planos. Há dois dias, Woodiey me apareceu em casa com este cabograma, onde se lia que Ralph Smith falecera. Quis saber se eu estava disposto a continuar com o nosso antigo plano.

Respondi que não. Perguntou-me se eu queria me casar com a jovem e dar-lhe uma parte do dinheiro. Respondi que o faria com prazer, mas que ela não me aceitaria. Ele replicou:

“Vamos fazer com que se case primeiro, e, depois de uma semana, ela verá as coisas sob outro prisma”. Respondi que não queria saber de violências. Ele saiu blasfemando, como homem sem moral que é, jurando que a possuiria. A srta. Smith ia me deixar esta semana definitivamente. Eu tinha uma charrete para levá-la à estação, mas estava tão preocupado que a acompanhei de bicicleta. Contudo, a jovem saíra mais cedo, e, antes que eu pudesse alcançá-la, o mal estava feito. O primeiro aviso foi ver os senhores aparecerem na charrete.

Sidney Paget, 1903

Holmes ergueu-se, atirando a ponta do cigarro na lareira.

— Fui muito obtuso, Watson — disse ele. — Quando você me disse que viu o ciclista arrumar a gravata, ao entrar na moita, só esse pormenor devia ter-me esclarecido tudo. De qualquer maneira, devemos nos congratular por este caso curioso e, sob certos aspectos, único. Vejo três policiais na alameda, e estou satisfeito por ver que o rapazinho consegue acompanhar-lhes o passo, de modo que parece que nem ele nem o suposto noivo ficarão permanentemente prejudicados pela aventura desta manhã. Creio que, como médico, Watson, você poderá procurar a srta. Smith e dizer-lhe que, se se sentir bem, estamos prontos a levá-la para a casa de sua mãe. Se achar que ela não está bem, poderá lhe dizer que pretendemos telegrafar para certo engenheiro eletrônico nas Middiands, e isso provavelmente completará a sua cura. Quanto ao senhor, sr. Carruthers, creio que fez o possível para se reabilitar de sua participação num plano diabólico. Aqui está o meu cartão, cavalheiro, e, se meu depoimento puder ajudá-lo, no tribunal, estarei à sua disposição.

No torvelinho das nossas atividades, muitas vezes tem sido difícil para mim, como o leitor provavelmente já observou, terminar minhas narrativas e apresentar os pormenores finais que os curiosos poderiam desejar. Cada caso tem sido o prelúdio de outro, e, uma vez passada a crise, os atores desaparecem para sempre da nossa vida. Apesar disso, encontro uma pequena anotação, no fim do manuscrito deste caso, onde leio que a srta. Violet Smith herdou uma grande fortuna e é agora esposa de Cyril Morton, o maior sócio da firma Morton and Kennedy, famosos eletricistas. Williamson e Woodiey foram julgados por rapto e assalto, o primeiro tendo sido condenado a sete anos e o último, a dez.

Quanto ao destino do sr. Carruthers, nada sei, mas tenho certeza de que a sua participação no caso não foi vista com grande severidade pelo tribunal, uma vez que Woodiey tinha a reputação de ser um perigoso bandido. Creio que alguns meses bastaram para satisfazer a justiça.

1905
A volta de Sherlock Holmes

1. A casa vazia § 2. O construtor de Norwood
3. Os dançarinos § 4. A ciclista solitária
5. A escola do priorado § 6. Pedro Negro
7. Charles Augustus Milverton § 8. Os seis bustos de Napoleão
9. Os três estudantes § 10. O pincenê dourado
11. O atleta desaparecido § 12. Abbey Grange § 13. A segunda mancha

Ilustrações: Frederic Dorr Steele & Sidney Paget, cortesia The Camden House
Transcrição: Mundo Sherlock