O pincenê dourado

Arthur Conan Doyle

O pincenê dourado

Título original: The Golden Pince-Nez
Publicado pela primeira vez na Strand Magazine, em Julho de 1904,
com 8 ilustrações de Sidney Paget
e na Collier´s Weekly, em Outubro de 1904,
com 6 ilustrações de Frederic Dorr Steele.

Sobre o texto em português:
Este texto digital reproduz a
tradução de The Golden Pince-Nez publicado em
As Aventuras de Sherlock Holmes, Volume V,
editado pelo Círculo do Livro
e com tradução de Álvaro Pinto de Aguiar.

Quando olho para os três maciços volumes onde estão registradas nossas atividades do ano de 1894, confesso que tenho dificuldade em escolher, entre tão rico material, os casos mais interessantes que ao mesmo tempo possam evidenciar as extraordinárias qualidades que tornaram famoso Sherlock Holmes. Ao virar as páginas, encontro minhas notas sobre a repulsiva história da sanguessuga vermelha e sobre a horrível morte do banqueiro Crosby. Vejo também a tragédia Addieton e a famosa herança de Smith-Mortimer, assim como a prisão de Huret, o assassino do bulevar — este último caso valeu a Holmes uma carta de agradecimento escrita pelo próprio punho do presidente da França, e a Legião de Honra.

Cada um desses casos daria uma história, mas, em minha opinião, nenhum deles reúne pontos tão singulares como o episódio de Yoxley Old Place, onde estão incluídos não somente a lamentável morte do jovem Willoughby Smith, como os acontecimentos seguintes, que fizeram luz sobre as causas do crime.

Era uma noite tempestuosa, em fins de novembro. Holmes e eu tínhamos ficado em silêncio durante toda a noite, ele decifrando com uma lente a inscrição original de um palimpsesto, e eu lendo um novo tratado sobre cirurgia. O vento ululava na Baker Street, e a chuva batia furiosamente nas janelas. Estranho que ali, no meio da cidade, cercados pêlos produtos do esforço humano num raio de quinze quilômetros, pudéssemos sentir a natureza e saber que, para a força dos elementos, Londres não era mais do que os moinhos de vento espalhados pêlos campos. Fui até a janela e olhei para a rua deserta. Vinha um único carro, do lado da Oxford Street.

— Ainda bem que não temos de sair hoje à noite, Watson — disse Holmes, largando a lente e o palimpsesto. — Já trabalhei bastante. É serviço que cansa os olhos. Pelo que parece, não há nada nele de muito interessante. Data da segunda metade do século XV, Ora, mas o que é isso?

Em meio aos gemidos do vento, ouvimos o ruído de patas de cavalo e de uma roda raspando a guia. O carro que eu vira parou à nossa porta.

— O que quererá ele? — perguntei, quando vi um homem descer.

— O que quer ele? Procura-nos — respondeu Holmes.

— E nós, caro Watson, queremos sobretudos, galochas e todas as coisas que os homens inventaram para lutar contra o tempo. Espere um pouco! O carro vai embora. Ainda há esperança. Ele o teria feito esperar se quisesse que o acompanhássemos. Vá abrir a porta, caro amigo, pois as pessoas virtuosas já estão na cama há muito tempo.

Quando a luz da lâmpada do vestíbulo caiu sobre o visitante, não tive dificuldade em reconhecê-lo. Era Stanley Hopkins, um detetive de futuro, por quem Holmes muito se interessava.

— Ele está? — perguntou-me o rapaz ansiosamente.

— Suba, caro senhor — disse Holmes lá de cima. — Espero que não tenha desígnios a nosso respeito, em noite tão tempestuosa.

O detetive subiu a escada, e a luz brilhou em seu impermeável molhado. Ajudei-o a despir-se, enquanto Holmes avivava o fogo na lareira.

— Agora, caro Hopkins, venha aquecer-se — disse Holmes. — Tome um charuto; o doutor tem uma receita de água quente e limão que é ótima para uma noite assim. Deve ser importante o assunto que o trouxe aqui, com esse tempo.

— É verdade, sr. Holmes. Tive uma tarde cheia, pode estar certo. Leu alguma coisa, nos jornais da tarde, sobre o caso Yoxley?

— Não passei do século XV, hoje — disse Holmes.

— Pois bem, saiu apenas um parágrafo e mesmo assim errado, de modo que não perdeu nada. O caso deu-se em Kent, a onze quilômetros de Chatham e a cinco da linha férrea. Recebi um telegrama às três e quinze, cheguei a Yoxley Old Place às cinco, fiz minhas investigações pelo último trem. Depois vim diretamente para cá.

— E isso quer dizer que não tem grande certeza quanto ao caso?

— Quer dizer que, para mim, ele não tem pé nem cabeça. A julgar pelas aparências, é o caso mais complicado que já tive, embora a princípio parecesse muito simples. Não existe motivo, sr. Holmes. É o que me aborrece. Não existe o menor motivo. Temos um homem morto… disso não há dúvida, mas, ao que parece, ninguém no mundo tinha razões para desejar sua morte.

Holmes acendeu o charuto e recostou-se na cadeira.

— Vamos ouvir a história — disse ele.

— Os fatos são muito claros — explicou Stanley Hopkins. — Só o que quero saber é o que significam. A história é a seguinte: há anos, essa casa de campo, Yoxley Old Place, foi alugada por um homem de idade, que disse chamar-se professor Coram. É um inválido que passa a maior parte do tempo na cama, e o resto a andar pela casa com sua bengala, ou empurrado numa cadeira de rodas pelo jardineiro. Causou boa impressão aos poucos vizinhos que o visitaram, tendo a reputação de ser muito culto. Na casa há duas empregadas, a governanta, a sra. Marker, já de idade, e uma criadinha, Susan Tariton. Estão com ele desde que chegou, e parecem pessoas muito dignas. O professor está escrevendo um livro, e achou necessário, há um ano, empregar um secretário. Os dois primeiros que ele escolheu não serviram. Mas o terceiro, o sr. Willoughby Smith, um rapaz recém-saído da universidade, parece que agradou muito ao professor. Sua função era escrever, a manhã inteira, o que o professor lhe ditava, e geralmente passava a tarde à procura de passagens e referências que pudessem ser de interesse para o trabalho do dia seguinte. Esse Willoughby Smith era um bom sujeito, e nada encontramos em seu desabono, nem em criança, como aluno em Uppingham, nem como rapaz, em Cambridge. Sempre foi estudioso, sem nenhuma falha de caráter. E no entanto, foi esse rapaz que encontrou a morte hoje de manhã, no escritório do professor, em circunstâncias que indicam tratar-se de assassinato.

O vento gemia contra as janelas. Holmes e eu aproximamo-nos ainda mais do fogo, enquanto o detetive continuava sua singular narrativa.

— Se o senhor tivesse de procurar em toda a Inglaterra, não creio que pudesse encontrar lar mais calmo e livre de influências estranhas — continuou Hopkins. — Durante semanas, nenhuma das pessoas da casa ia além do portão do jardim. O professor ficava mergulhado no trabalho, e nada mais existia para ele. O secretário não conhecia ninguém na vizinhança, e levava a mesma vida do patrão. As duas mulheres também não saíam. Mortimer, o jardineiro, que é quem empurra a cadeira de rodas, é um velho soldado da Guerra da Criméia e ótimo sujeito. Não mora na casa, mas numa dependência na extremidade do jardim. São as únicas pessoas que o senhor encontrará em Yoxley Old Place. Por outro lado, o portão do jardim fica a cem metros da estrada que liga Londres a Chatham. Tem um trinco, e nada impediria que qualquer pessoa entrasse por ali.

“Vou agora contar-lhes as declarações de Susan Tariton, a única pessoa que pode dizer algo positivo. O fato deu-se entre as onze horas e o meio-dia. Ela estava ocupada colocando umas cortinas no quarto da frente, no andar de cima. O professor Coram ainda estava na cama, pois, com o mau tempo, raramente se levanta antes do meio-dia. A governanta estava trabalhando nos fundos da casa. Willoughby Smith estivera em seu quarto, que servia também de saleta, mas a criada ouvira-o passar pelo corredor e descer para o escritório, logo por baixo da sala onde ela se encontrava. A jovem não o viu, mas disse que não poderia enganar-se quanto aos passos firmes, rápidos. Não ouviu a porta do escritório fechar-se, mas dois ou três minutos depois ouviu um grito horrível, partindo de lá. Grito tão pavoroso, rouco e estranho, que tanto poderia ser de homem como de mulher. Logo em seguida, houve um ruído pesado, que sacudiu a casa, e depois silêncio. A criada ficou petrificada por um momento, mas depois, enchendo-se de coragem, correu para baixo. A porta do escritório estava fechada. A moça abriu-a. O secretário, Willoughby Smith, estava estendido no chão. A princípio, não percebeu que estava ferido e procurou erguê-lo, mas depois viu que o sangue lhe jorrava do pescoço. Havia ali um corte pequeno, mas profundo, que abrira a carótida. A arma do crime estava no tapete, ao lado do rapaz. Era uma dessas faquinhas usadas para lacrar cartas, que se encontra em todas as escrivaninhas antigas, de cabo de marfim e lâmina afiada. Fazia parte dos objetos da escrivaninha do professor Coram.

“A princípio, a criada pensou que o rapaz estivesse morto, mas depois, ao molhar-lhe a fronte com água da jarra, viu-o abrir os olhos por um instante. ‘O professor… foi ela’, murmurou o secretário. A criada está pronta a jurar que foram exatamente essas as palavras. Ele tentou desesperadamente dizer alguma coisa, com a mão direita erguida, mas logo em seguida caiu morto.

“Entretanto, a governanta também chegara, mas não a tempo de ouvir as últimas palavras do rapaz. Deixando Susan com o cadáver, correu para o quarto do professor. Encontrou-o sentado na cama, muito agitado, pois ouvira o suficiente para estar convencido de que algo terrível acontecera. A sra, Marker está pronta a jurar que o professor ainda estava com as roupas de dormir, e de fato é-lhe impossível vestir-se sem o auxílio de Mortimer, que tinha por obrigação subir ao meio-dia. O professor declara que ouviu o grito, mas nada mais pôde informar. Não sabe explicar as últimas palavras do rapaz, ‘O professor… foi ela’, mas imagina que tenham sido ditas inconscientemente. Em sua opinião, o secretário não tinha um inimigo sequer, e não pode atinar com um motivo para o crime. Seu primeiro cuidado foi mandar Mortimer, o jardineiro, avisar a polícia. O inspetor da localidade mandou logo chamar-me. Não tinham tocado em nada até eu chegar, e haviam sido dadas ordens peremptórias para que ninguém andasse na alameda que conduzia à casa. Teria sido ótima oportunidade para o senhor pôr em prática suas teorias, sr. Sherlock Holmes. Não faltava coisa alguma.”

— Com exceção de Sherlock Holmes! — disse meu amigo, com um sorriso um tanto amargo. — Pois bem, ouçamos o fim. Que fez você?

— Primeiro, quero que veja esta planta, meio rabiscada, que lhe dará uma idéia da posição dos quartos. Creio que isso o ajudará a acompanhar os passos que dei na investigação.

Hopkins abriu a planta e estendeu-a sobre os joelhos de Holmes. Levantei-me e fui postar-me ao lado de meu amigo.

— É apenas um rabisco, para mostrar os pontos que julgo essenciais. O resto o senhor verá mais tarde por si mesmo. Agora, em primeiro lugar, presumindo-se que o assassino tenha entrado na casa, por onde entrou? Sem dúvida, pela alameda do jardim e pela porta do fundo, de onde se tem acesso direto ao escritório. Qualquer outra entrada teria sido muito complicada. A fuga deve ter-se dado também por aí, pois as duas outras saídas não serviam, visto que uma estava bloqueada por Susan, que descera correndo, e a outra conduz ao quarto do professor. Posto isso, dediquei toda a atenção à alameda do jardim, que estava molhada por chuva recente e onde certamente haveria pecadas.

“O exame mostrou-me que estava lidando com um criminoso cauteloso e sabido. Não havia pegadas. Mas alguém andara pela relva que margina a alameda, e essa pessoa agira assim para não deixar vestígios. Não encontrei impressões distintas, mas a relva estava pisada, indicando que alguém passara por ali. Só poderia ter sido o assassino, já que ninguém, nem mesmo o jardineiro, andara por ali naquela manhã, e a chuva caíra de noite.”

— Um momento — interrompeu Holmes. — Aonde conduz essa alameda?

— À estrada.

— Qual a distância?

— Uns cem metros, mais ou menos.

— Mas no trecho em que a alameda passa pelo portão, sem dúvida você poderia encontrar pegadas.

— Infelizmente, a alameda é calçada naquele ponto.

— E na estrada?

— Também não. A lama estava toda pisada.

— Mas as pegadas na relva… iam, ou vinham?

— Impossível dizer. Eram imprecisas.

— Pé grande ou pequeno?

—- Não dava para ver.

Holmes teve um gesto impaciente.

— Tem chovido e ventado desde então — disse ele.

— Agora, seria mais difícil ler o que está escrito ali do que neste palimpsesto. Paciência. Mas o que você fez, Hopkins, depois que se certificou de que não tinha se certificado de coisa alguma?

— Creio que me certifiquei de muita coisa, sr. Holmes. Sabia que alguém entrara na casa com cuidado. Examinei em seguida o corredor. Há ali um tapete de crina, de modo que não há qualquer espécie de marca. O corredor levou-me ao escritório, escassamente mobiliado. A peça principal é uma vasta escrivaninha; há também um arquivo. Este consta de uma dupla coluna de gavetas, com um armariozinho central entre elas. As gavetas estavam abertas, o armariozinho, fechado. Parece que as gavetas nunca são fechadas à chave, pois nada existe de valor dentro delas. No armariozinho havia alguns documentos importantes, mas não tinham sido tocados, e o professor garantiu-me que nada faltava. Não há dúvida de que não houve roubo.

“Chegamos agora ao cadáver. Foi encontrado no escritório perto da escrivaninha, um pouco à esquerda, como está marcado no mapa. O ferimento, no lado direito do pescoço, vem de trás para diante, de modo que é impossível tratar-se de suicídio.”

— A não ser que ele tenha caído em cima da faca — observou Holmes.

— Exatamente. Também pensei nisso. Mas a faca foi encontrada um pouco longe do corpo, de modo que essa hipótese pode ser afastada. Além disso, temos de levar em consideração as últimas palavras do rapaz. E, finalmente, temos esse indício importante, encontrado na mão fechada do rapaz.

Hopkins tirou um embrulhozinho do bolso. Abriu-o e mostrou-nos um pincenê dourado, do qual pendiam dois pedaços de cadarço de seda preta.

— Willoughby Smith tinha uma ótima vista — disse ele. — Não há dúvida de que o pincenê foi arrancado à pessoa que o matou.

Sherlock Holmes apanhou o pincenê e examinou-o com grande interesse. Colocou-o sobre o nariz, tentou ler com ele, foi até a janela e olhou a rua através das lentes, examinou-o sob a lâmpada da sala e finalmente, com um estalido da língua, sentou-se e escreveu qualquer coisa num papel, que entregou depois a Stanley Hopkins.

— É o máximo que posso fazer por você — disse ele. — Pode ser que adiante.

O atônito detetive leu em voz alta:

“Procura-se uma mulher bem-vestida. Nariz grosso, olhos muito juntos um do outro. Testa franzida, pálpebras contraídas e, provavelmente, ombros arredondados. É de se prever que tenha procurado um oculista pelo menos duas vezes nos últimos meses. Como as lentes são muito fortes e os oculistas não são numerosos, não haverá dificuldade em encontrar-lhe a pista”.

Holmes sorriu do espanto de Hopkins, que se refletia em meu rosto.

— Minhas deduções são muito simples — disse ele. — Não há melhor artigo do que um par de óculos para campo de deduções, e mais ainda quando são óculos extraordinários como estes aqui. Suponho que pertençam a uma mulher, por sua delicadeza, e também pelas últimas palavras da vítima. Quanto a ser pessoa de gosto e bem-vestida, você poderá deduzi-lo pelo pincenê de ouro maciço, e é inadmissível que uma pessoa que use tais óculos seja descuidada em outros pontos. Pode ver, Hopkins, que o cavalete do pincenê é largo demais para seu nariz, o que indica que o nariz da dama em questão é muito grosso. Esse tipo de nariz geralmente é curto e comum, mas há exceções, de modo que não quis ser dogmático e não insisti nesse ponto em minha descrição. Meu rosto é fino e, mesmo assim, não consigo focalizar o olhar no centro das lentes. Portanto, chego à conclusão de que os olhos da dama são muito próximos do nariz. Bem vê, Watson, que as lentes são côncavas e muito fortes. Uma pessoa que tenha tão grande deficiência visual deve ter as características dessa deficiência, de onde deduzi a testa franzida e os ombros arredondados.

— Sim, compreendo — respondi. — Mas confesso que não sei como você conseguiu chegar à conclusão das duas visitas ao oculista.

Holmes mostrou-me o pincenê.

— Veja que os dois suportes do cavalete são forrados de cortiça, para suavizar a pressão da mola sobre o nariz. Um deles está gasto, mas o outro, novo. Evidentemente, um caiu e foi substituído. Mas parece-me que o mais velho tem poucos meses de uso. Ambos são iguais, de modo que calculo que a mulher tenha voltado à mesma ótica.

— Meu Deus, é admirável! — exclamou Hopkins. — Pensar que tive todos esses indícios nas mãos e não soube aproveitá-los! Mas eu pretendia procurar os oculistas de Londres.

— Claro que pretendia. Nesse meio tempo, tem mais alguma coisa a contar-nos?

— Nada, sr. Holmes. Creio que o senhor sabe tanto quanto eu, ou talvez mais. Mandei indagar a respeito de qualquer estranho nas redondezas ou nas estações de trem. Nada apuramos. O que me causa espanto é a ausência absoluta de motivos para o crime. Ninguém pode sugerir o menor que seja.

— Ah, nesse ponto não posso ajudá-lo. Mas tenho certeza de que deseja que o acompanhemos amanhã.

— Se não for pedir demais, sr. Holmes. Sai um trem para Chatham às seis da manhã, e chegaríamos a Yoxley Old Place entre as oito e as nove horas.

— Então, está combinado. O caso é interessante, e terei prazer em auxiliá-lo. Pois bem, é quase uma hora, e acho que devemos procurar dormir um pouco. Parece-me que você ficará bem aí no sofá, diante da lareira. Acenderei a espiriteira e dar-lhe-ei uma xícara de café antes de partirmos.

O vento cessara de soprar no dia seguinte, mas o tempo ainda continuava feio quando partimos. Vimos o frio sol de inverno sobre os pântanos que ladeiam o Tamisa, e que sempre me lembrarão os primeiros dias de nossa carreira. Após uma viagem cansativa, descemos numa estaçãozinha a alguns quilômetros de Chatham. Enquanto atrelavam um carro, fizemos uma refeição rápida na estalagem local, e, quando chegamos à casa do crime, estávamos prontos a iniciar nosso trabalho. Um policial recebeu-nos no jardim.

— Então, Wilson, há novidades?

— Não, senhor, nada.

— Nenhuma notícia a respeito de um estranho nas redondezas?

— Nada. Na estação todos têm certeza de que não chegou nem partiu nenhum estranho, ontem.

— Mandou saber nas estalagens e pensões?

— Mandei, senhor, e nada apuramos.

— Pois bem, não é muito grande a caminhada até Chatham. Qualquer pessoa poderia ter ficado lá, ou apanhado um trem, sem ser notada. Aqui está a alameda de que lhe falei, sr. Holmes. Posso garantir-lhe que nela não havia pegadas ontem.

— De que lado da relva estavam as marcas?

— Deste lado. Há uma pequena faixa de relva entre a alameda e o canteiro. Agora não as distingo, mas ontem podiam ser notadas.

— Sim, sim, alguém passou por aqui — disse Holmes, inclinando-se sobre a relva. — A mulher deve ter caminhado com cuidado, pois viu que, de um lado, deixaria pegadas na alameda e, do outro, no canteiro. Não é isso mesmo?

— Sim, senhor, deve ter usado de cautela.

Vi uma expressão de interesse no rosto de Holmes.

— Então você acha que ela voltou por aqui?

— Sim, senhor, não há outro caminho.

— Por esta faixa de relva?

— Sem dúvida, sr. Holmes.

— Hum… Feito extraordinário, sem a menor dúvida. Pois bem, acho que não há mais nada para se ver aqui. Vamos continuar. Esta porta para o jardim geralmente fica aberta, não é verdade? Então a visitante não teve dificuldade em entrar. A idéia do crime não estava em seu espírito, pois do contrário teria trazido uma arma, em vez de apanhar a faca na escrivaninha. Ela passou pelo corredor sem deixar marcas na passadeira. Depois, viu-se no escritório, Quanto tempo ficou ali? Não podemos saber.

— Apenas alguns minutos. Esqueci-me de dizer que a sra. Marker, a governanta, ali estivera pouco antes pondo as coisas em ordem. Um quarto de hora antes, pelo que ‘ela calcula.

— Bem, isso nos dá um limite. A mulher entra no escritório. Vai até a escrivaninha. Para quê? Não para remexer nas gavetas. Ela estava interessada no compartimento superior do móvel, que fica trancado. Esperem, que risco é este? Acenda um fósforo, Watson. Por que não me falou nisso, Hopkins?

A marca que ele examinava começava no metal, do lado direito da fechadura, e estendia-se por onze centímetros, invadindo o verniz da madeira.

— Eu tinha notado o risco, sr. Holmes. Mas a gente sempre encontra riscos perto de fechaduras.

— Este é recente, bem recente. Veja como o metal está brilhante, no ponto onde foi riscado. Um risco antigo teria a mesma cor da superfície. Examine-o com minha lente. Veja também o pó do verniz, de cada lado do sulco. A sra. Marker está aqui?

Dali a pouco surgiu uma senhora de idade, de aparência tristonha.

— A senhora limpou este móvel ontem? — perguntou Holmes.

— Sim, senhor.

— Notou este risco?

— Não, senhor.

— Tenho certeza de que não, pois o espanador teria tirado este pózinho de verniz. Quem guarda a chave deste móvel?

— O professor a leva na corrente do relógio.

— É uma chave simples?

— Não, senhor, é uma chave de cadeado.

— Muito bem. Pode se retirar, sra. Marker.

Holmes voltou-se para nós:

— Estamos fazendo alguns progressos. A mulher entra no escritório, avança para o arquivo e abre-o, ou tenta abri-lo. É surpreendida pelo secretário, Willoughby Smith. Na pressa de retirar a chave, risca a madeira. O rapaz segura-a, e ela, agarrando o primeiro objeto que encontra, e que acontece ser a faca, golpeia-o para que a solte. O ferimento é fatal. O rapaz cai e ela foge, com ou sem o objeto que veio procurar. Querem fazer o favor de chamar Susan, a criada?

Susan apareceu imediatamente, e Holmes perguntou-lhe:

— Alguém podia ter fugido por aquela porta depois de você ter ouvido o grito, Susan?

— Não, senhor. Impossível. Antes de descer a escada, eu teria visto qualquer pessoa que estivesse no corredor. Além disso, a porta não foi aberta, pois do contrário eu teria ouvido o ruído.

— Então, esse meio de fuga está fora de cogitação. Não há dúvida de que a mulher saiu por onde entrou. Parece que este outro corredor conduz ao quarto do professor. Não há saída por este lado?

— Não, senhor.

— Vamos conhecer o professor. Ora, Hopkins, isso é importante, muito importante! O corredor do professor também tem passadeira de crina.

— É verdade, mas o que tem isso?

— Não vê a importância que tem no caso? Bem, bem, não insisto, então. Com certeza estou enganado. Mas parece-me sugestivo. Venha apresentar-nos ao dono da casa.

Passamos pelo corredor, que era do mesmo comprimento do outro que levava ao jardim. Nosso guia bateu, fazendo-nos depois entrar no quarto do professor. Era um quarto grande, com muitos livros. Como não cabiam todos nas prateleiras, havia pilhas nos cantos e no chão, na base das estantes. A cama estava no centro do quarto, e ali, recostado contra os travesseiros, encontramos o dono da casa. Nunca vi pessoa mais extraordinária. Rosto esquálido, aquilino, olhos negros, fundos “e penetrantes, sob grossas sobrancelhas. A barba e os cabelos eram brancos, mas a primeira estava amarelada à volta da boca. Um cigarro pendia em meio à barba, e a atmosfera do quarto era pesada devido ao cheiro de sarro. Quando ele estendeu a mão a Holmes, notei que tinha uma mancha amarela causada pela nicotina.

— Fuma, sr. Holmes? — perguntou ele, num inglês cuidado e um tanto pedante. — Aceite um cigarro. E o senhor?… Posso recomendar estes cigarros, pois foram preparados especialmente para mim por lonides, de Alexandria. Ele me manda mil de cada vez, e é com pesar que digo que faço uma encomenda de quinze em quinze dias. Mau, mau, senhor, mas um velho tem poucos prazeres na vida! O fumo e meu trabalho… é só o que me resta.

Holmes acendera um cigarro e lançava olhares rápidos por todo o quarto.

— O fumo e meu trabalho, mas agora somente o fumo — continuou o velho. — Ah, que triste interrupção! Quem poderia prever semelhante catástrofe? Um rapaz tão distinto! Posso dizer-lhe que, após alguns meses de experiência, era um ótimo auxiliar. Que pensa do caso, sr. Holmes?

— Ainda não tenho opinião formada.

— Ficar-lhe-ei muito grato se puder lançar um raio de luz num caso tão obscuro. Para um pobre inválido, amante de livros, como eu, é um golpe paralisante. Tenho a sensação de ter perdido a faculdade de pensar. Mas o senhor é um homem de ação. Isso faz parte da rotina de sua vida. O senhor conserva o sangue-frio, seja qual for a emergência. Temos sorte em contar com seu auxílio.

Holmes andava de um lado para outro do quarto, enquanto o professor falava. Notei que fumava com grande rapidez. Não havia dúvida de que gostava dos cigarros de Alexandria.

— Sim, senhor, foi um golpe terrível — continuou o velho. — Eis meu magnum opus, aquela pilha de papéis na mesinha, ali adiante. É minha análise dos documentos encontrados nos mosteiros cópticos da Síria e do Egito, um trabalho que abalará as raízes da religião revelada. Com minha pouca saúde, não sei se conseguirei terminar a obra, agora que meu assistente me foi roubado. Deus do céu, sr. Holmes, o senhor fuma ainda mais depressa do que eu.

Holmes sorriu.

— Sou um conhecedor — disse ele, tirando outro cigarro da caixa (o quarto) e acendendo-o com o toco daquele que acabara de fumar — Não vou aborrecê-lo com um interrogatório, professor Coram, já que me disseram que o senhor estava na cama no momento do crime, e nada poderia contar. Só uma pergunta. Que acha o senhor que o pobre rapaz queria dizer com: “O professor… foi ela”?

O professor sacudiu a cabeça.

— Susan é uma camponesa — disse ele. — O senhor conhece a ignorância dessa classe. Com certeza o pobre rapaz murmurou palavras incoerentes, e ela as interpretou dessa forma.

— Compreendo. O senhor não oferece nenhuma explicação para a tragédia?

— Talvez tenha sido acidente. Ou talvez (só ouso murmurá-lo aqui entre nós) suicídio. Os rapazes têm seus aborrecimentos secretos, talvez qualquer complicação amorosa de que não tivéssemos conhecimento. É mais provável do que assassinato.

— Mas, e o pincenê?

— Ah, sou apenas um estudioso, um sonhador. Não posso explicar as coisas práticas da vida. Mas sabemos que os penhores de amor são variados. Pois não, pode fumar outro cigarro. É um prazer encontrar alguém que os aprecie a esse ponto. Um leque, uma luva, um par de óculos, quem imaginará os objetos que podem ser guardados como lembrança e acariciados na hora em que um homem se lembra de pôr fim à vida?

“Esse senhor mencionou passos na relva, mas é fácil enganar-se nesse ponto. Quanto à faca, é possível que tenha saltado para longe quando o infeliz caiu. Pode ser que eu esteja dizendo tolices, mas parece-me que Willoughby Smith pôs fim à vida voluntariamente.”

Holmes pareceu impressionado com essa teoria, e continuou andando de um lado para outro durante algum tempo, perdido em seus pensamentos e fumando sem parar.

— Diga-me, professor Coram, o que há naquele compartimento trancado da escrivaninha?

— Nada que pudesse interessar a um ladrão. Documentos de família, cartas de minha pobre esposa, diplomas das universidades que me conferiram essa honra. Aqui está a chave. Pode vê-lo, se quiser.

Holmes pegou a chave e examinou-a durante alguns instantes, devolvendo-a em seguida.

— Não, creio que de nada adiantaria — disse ele. — Prefiro ir passear pelo jardim e refletir sobre o caso. A teoria do suicídio não deixa de ser interessante. Devemos pedir-lhe desculpas por tê-lo incomodado, professor Coram, e prometo-lhe que só voltaremos depois do almoço. Às duas horas viremos dar-lhe notícias do que houvermos constatado.

Holmes estava muito pensativo, e passeamos em silêncio pelo jardim.

— Tem alguma pista? — perguntei finalmente.

— Depende daqueles cigarros que fumei — disse ele. — É possível que eu esteja enganado. Os cigarros dirão.

— Caro Holmes, como é possível?…

— Bem, bem, você verá por si próprio. E se nada acontecer, não haverá mal nenhum. É verdade que sempre temos o recurso do oculista, mas prefiro tomar um atalho quando o encontro. Ah, aqui está a boa sra. Marker. Vamos gozar de cinco minutos de conversa instrutiva com ela.

Creio que já disse que Holmes, quando o desejava, tinha um jeito especial para agradar às mulheres, conseguindo sem dificuldade que confiassem nele. Em poucos minutos, estava conversando com a governanta como se a conhecesse há muito tempo.

— Sim, sr. Holmes, tem razão. Ele fuma demais. O dia todo e às vezes a noite inteira. Tenho visto aquele quarto de manhã… pois bem, é como se a gente estivesse no meio da neblina de Londres. Pobre sr. Smith, também era fumante, mas não tanto quanto o professor. A saúde dele?… Pois bem, não sei se melhora ou piora com o fumo.

— Ah! — exclamou Holmes. — Mas tira o apetite.

— Oh, não sei, não o creio, senhor.

— Com certeza, o professor deve comer pouquíssimo.

— Bem, isso varia muito, não há dúvida.

— Garanto que não tomou a refeição da manha e não quererá saber do almoço, depois de todos aqueles cigarros que fumou.

— Nisso o senhor se engana, pois tomou um café bem farto hoje de manhã. Nunca o vi comer tão bem, e, além disso, encomendou um bom prato de costeletas para o almoço. Fiquei admirada, pois, desde que entrei no escritório e vi o pobre sr. Smith morto, não pude mais olhar para comida. Bem, há de tudo neste mundo, e o professor não deixou que isso lhe tirasse o apetite.

Passamos a manhã no jardim. Stanley Hopkins fora à vila averiguar a verdade de um boato sobre uma mulher desconhecida que fora vista na estrada de Chatham, na manhã anterior, por algumas crianças. Quanto a Holmes, parecia que sua habitual energia o abandonara; nunca o vira tratar de um caso com tão pouco interesse. Hopkins voltou, dizendo que as crianças tinham visto uma mulher com as características descritas por Holmes e que usava óculos, mas nem isso despertou o interesse de meu amigo. Ficou mais atento quando Susan, que nos servia o almoço, disse achar que o sr. Smith houvesse saído para um passeio a pé na manhã anterior, voltando apenas meia hora antes da tragédia. Eu não podia entender a importância desse incidente, mas vi que Holmes lhe dava valor. De repente, levantou- se, olhando o relógio.

— Duas horas, senhores. Vamos liquidar o caso com o professor.

O velho acabara de almoçar, e o prato vazio provava que eram verdadeiras as palavras da governanta sobre seu apetite. Era um tipo estranho, com sua juba branca e os olhos brilhantes, o eterno cigarro pendurado nos lábios. Estava vestido, e sentado numa poltrona diante do fogo.

— Então, sr. Holmes, solucionou o mistério? — perguntou, empurrando para meu amigo a caixa de cigarros que estava sobre a mesinha.

Holmes estendeu a mão ao mesmo tempo e, com isso, a caixa de estanho caiu ao chão. No momento seguinte, estávamos todos de joelhos para apanhar os cigarros. Quando nos levantamos, notei que os olhos de Holmes brilhavam e que ele estava com o rosto corado. Somente em momentos de crise lhe vira esses sinais de luta.

— Sim, solucionei-o — respondeu ele.

Stanley Hopkins e eu olhamos para Holmes, atônitos. No rosto do professor havia uma expressão de desprezo.

— Realmente! No jardim!

— Não. Aqui.

— Aqui? Quando?

— Neste instante.

— Deve estar brincando, sr. Holmes. O senhor obriga-me a dizer que o assunto é sério demais para ser tratado dessa forma.

— Experimentei todos os elos da corrente, professor Coram, e tenho certeza de que são fortes. Quais seus motivos e que parte representa o senhor em tudo isso é o que não sei dizer. Daqui a alguns minutos, provavelmente ouvirei a história de seus próprios lábios. Entretanto, vou reconstituir o caso, para que o senhor saiba quais as informações que ainda desejo obter.

Holmes fez uma pausa e continuou:

— Uma senhora entrou ontem em seu escritório. Veio com a intenção de se apossar de alguns documentos que estavam no arquivo. Tinha uma chave própria. Tive a oportunidade de examinar a sua, professor Coram, e não encontrei a leve descoloração que teria sido produzida pelo risco feito no verniz. O senhor não era, portanto, cúmplice, e, ao que parece, ela veio roubá-lo sem que o senhor soubesse disso.

O professor tirou uma baforada do cigarro.

— Muito interessante e muito instrutivo — disse ele. — Nada mais tem a acrescentar? Depois de ter ido tão longe com certeza deve saber o que aconteceu a essa senhora.

— Já chego lá. Em primeiro lugar, a mulher foi surpreendida por seu secretário e golpeou-o, para se livrar dele. Considero a morte do sr. Smith como um acidente infeliz, pois estou convencido de que ela não pretendia matá-lo. O assassino vem sempre armado. Horrorizada com o que fizera, ela fugiu da cena do crime. Infelizmente perdera os óculos na luta e, como era muito míope, quase nada via sem eles. Correu por um corredor, que imaginou ser o mesmo por onde entrara (ambos têm passadeira de crina), e somente quando era tarde demais compreendeu que enveredara por outro lado e não mais poderia escapar. Que fazer? Não podia voltar. Continuou. Subiu uma escada, abriu uma porta e viu-se em seu quarto, professor Coram.

O velho olhava para Holmes de boca aberta. Em seu rosto via-se estupefação e medo. Fez um esforço para dominar-se, encolheu os ombros e soltou uma risada falsa.

— Muito interessante, sr. Holmes. Mas há uma pequena falha em tão magnífica teoria. Eu estava no quarto, e dele não saí durante toda a tarde.

— Sei disso, professor Coram.

— E seria possível que, deitado em minha cama, eu não notasse a entrada de uma mulher em meu próprio quarto?

— Eu não disse isso. O senhor notou-a. Falou com ela. Ajudou-a.

O professor riu nervosamente. Erguera-se, e seus olhos luziam como brasas.

— Está louco! —exclamou. — Ajudei-a a fugir? Onde estará ela agora?

— Está aqui — disse Holmes, apontando para uma estante alta, a um canto do quarto.

O velho ergueu os braços para o ar, de rosto convulso, e caiu na cadeira. No mesmo momento, a estante que Holmes indicara moveu-se, e uma mulher surgiu no quarto.

— Tem razão — disse uma voz estrangeira. — Tem razão. Estou aqui.

Estava cheia de pó e de teias de aranha, ao sair do esconderijo. Também o rosto estava sujo, e nem mesmo em seus melhores dias poderia ter sido bonita, pois tinha as características adivinhadas por Holmes e, além disso, um queixo longo e teimoso. Devido à sua miopia e à mudança da escuridão para a luz, parecia atordoada, piscando para ver melhor. Mas, apesar de todas essas desvantagens, havia nela nobreza, uma coragem no queixo provocante e na cabeça erguida que merecia respeito e admiração. Stanley Hopkins pôs a mão no braço da desconhecida e declarou-a sua prisioneira, mas a mulher afastou-o com uma dignidade que impunha obediência. O velho continuava caído na cadeira, muito perturbado.

— Sim, senhor, sou sua prisioneira. De meu esconderijo ouvi tudo o que disseram, e sei que conhecem a verdade. Matei o rapaz. Mas o senhor tem razão, quando disse que foi acidente. Eu nem mesmo sabia que era uma faca o que tinha na mão, pois agarrei-a num momento de desespero e dei um golpe no rapaz para que me soltasse. É esta a verdade.

— Minha senhora, tenho certeza disso — declarou Holmes. — Creio que a senhora não se sente bem.

Ela ficara mortalmente pálida, e por isso sentara-se na beira da cama.

— Tenho pouco tempo de vida — disse. — Mas quero que saibam toda a verdade. Sou a esposa deste homem. Ele não é inglês. É russo. Seu nome, não direi qual é.

O velho moveu-se pela primeira vez.

— Deus a abençoe, Anna! — exclamou. — Deus a abençoe!

A mulher lançou-lhe um olhar de profundo desdém.

— Por que se apega tanto a esta vida miserável, Sergius? — disse ela. — Causou mal a muitos, e bem a ninguém… nem mesmo a você. Em todo caso, não me compete romper o frágil fio de vida antes que seja esta a vontade de Deus. Tenho um grande peso na consciência desde que atravessei o umbral desta casa amaldiçoada. Mas preciso falar, senão depois será tarde demais.

Houve um minuto de silêncio.

— Já lhes disse, senhores, que sou a esposa deste homem — continuou a mulher. — Ele tinha cinqüenta anos e eu era uma jovem desmiolada de dezoito, quando nos casamos. Foi numa cidade da Rússia, numa universidade… não direi qual.

— Deus a abençoe, Anna! — repetiu o velho.

— Éramos reformadores, revolucionários, niilistas, os senhores compreendem. Ele, eu e muitos outros. Depois, veio uma época infeliz. Um policial foi morto, houve prisões, e as autoridades precisavam de provas. E, para salvar a vida e ganhar uma grande recompensa, meu marido atraiçoou a própria esposa e seus companheiros. Sim, fomos todos presos por sua causa. Alguns foram executados, outros, mandados para a Sibéria. Eu estava entre estes últimos, mas não fui condenada à prisão perpétua. Meu marido veio para a Inglaterra com o dinheiro ganho tão miseravelmente, e vinha levando uma vida retirada, pois sabia que se a Irmandade descobrisse onde se encontrava, não passaria uma semana sem que se fizesse justiça.

O homem estendeu a mão trêmula e pegou um cigarro.

— Estou em suas mãos, Anna — disse ele. — Você sempre foi boa para mim.

— Ainda não lhes contei o máximo de sua vilania — continuou a mulher. — Entre nossos camaradas da Ordem, havia um que era meu amigo do coração. Nobre, desprendido, carinhoso… tinha todas as qualidades que faltavam a meu marido. Detestava a violência. Todos nós éramos culpados, mas não ele. Escreveu-me muitas vezes procurando dissuadir-me. Aquelas cartas tê-lo-iam salvo. E também meu diário, onde eu registrará meus sentimentos por ele e o modo de pensar de cada um de nós. Meu marido encontrou as cartas e o diário, e apossou-se deles. Escondeu-os e fez tudo para que o rapaz perdesse a vida. Não o conseguiu, mas Alexis foi mandado para a Sibéria e agora trabalha numa mina de sal. Pense nisso, miserável, pense nisso! Atualmente, Alexis, cujo nome você não é digno de pronunciar, trabalha numa mina como escravo, e eu tenho sua vida nas mãos e não o denuncio!

— Você sempre foi uma mulher nobre, Anna — disse o velho, fumando.

Ela erguera-se, mas caiu com um grito de dor.

— Preciso terminar — disse. — Cumprida a minha pena, resolvi procurar o diário e as cartas, a fim de mandá-los ao governo russo para que meu amigo fosse libertado. Sabia que meu marido viera para a Inglaterra. Após meses de busca, descobri onde se encontrava. Sabia que ainda tinha o diário em seu poder, pois, quando eu estava na Sibéria, recebi uma carta dele censurando-me e citando trechos do diário. Mas não ignorava que, com seu gênio vingativo, jamais o entregaria de livre vontade. Era preciso que eu própria o recuperasse. Com esse objetivo arranjei um detetive particular, que aqui se empregou como secretário, seu segundo secretário, Sergius, aquele que saiu em pouco tempo. Ele descobriu que no armariozinho do arquivo estavam guardados alguns documentos, e tirou um molde da fechadura. Não quis fazer mais do que isso. Deu-me a planta da casa e disse-me que, ao meio-dia, o escritório estava sempre vazio, pois o secretário trabalhava aqui com você. Criei coragem e vim à procura dos papéis. Obtive resultado, mas a que preço!

A mulher fez uma pequena pausa.

— Eu acabara de fechar o armário quando o rapaz me agarrou. Já o vira de manhã, na estrada, e perguntara-lhe onde morava o professor Coram, sem saber que era seu secretário.

— Exatamente! Exatamente! — exclamou Holmes. — O secretário voltou e falou ao professor na mulher que encontrara. E então, ao morrer, procurou mandar uma mensagem ao professor — “foi ela” —, isto é, a mulher de quem tinham acabado de falar.

— Deixem-me continuar — interveio a mulher, em tom imperativo, o rosto contraído pela dor. — Depois que ele caiu, saí correndo da sala, passei pela porta errada e vime no quarto de meu marido. Ele falou em entregar-me à polícia. Respondi que, se o fizesse, sua vida estaria em minhas mãos. Se ele me entregasse à polícia, eu o entregaria à Irmandade. Não que eu tivesse amor à vida, mas queria cumprir o que prometera a mim própria. Ele viu que eu faria o que disse, que sua vida dependia da minha. Por esse motivo, e por nenhum outro, protegeu-me. Enfiou-me naquele esconderijo escuro, relíquia dos tempos antigos, que só ele conhecia. Tomava as refeições no quarto, de modo que dividia a comida comigo. Ficou combinado que, depois que a polícia saísse definitivamente daqui, eu fugiria no meio da noite para nunca mais voltar. Mas o senhor adivinhou o que aconteceu.

A mulher tirou do seio um pacotinho.

— São estas as minhas últimas recomendações — disse a Holmes. — Estas cartas salvarão Alexis. Confio-as à sua honra e senso de justiça. O senhor as entregará ao embaixador da Rússia. Agora que cumpri meu dever…

— Não a deixem fazer isso! — gritou Holmes, dando um salto para o lado dela e tornando-lhe um frasco da mão.

— Tarde demais — disse a mulher, caindo na cama. — Tarde demais! Tomei o veneno antes de sair do esconderijo. Sinto a cabeça girando! Estou morrendo! Senhor, recomendo-lhe que não se esqueça do pacote.

— Um caso simples, mas de certo modo instrutivo — disse-nos Holmes quando voltamos para Londres. — Desde o princípio, dependia do pincenê. Se por azar o rapaz não houvesse agarrado o pincenê antes de morrer, não sei se conseguiríamos desvendar o caso. Pelas lentes, vi que o dono devia ser quase cego, e que ficaria inutilizado, se privado dos óculos. Quando você me disse, Hopkins, que ela andara pela relva sem dar um passo em falso, observei, como deve estar lembrado, que isso era um fato extraordinário. No íntimo, achava um fato impossível, a não ser que ela tivesse outro par de óculos. Por isso, passei a considerar seriamente a hipótese de ela ter continuado na casa. Ao notar a semelhança entre os dois corredores, ocorreu-me que ela poderia ter-se enganado e, nesse caso, entrado no quarto do professor. Fiquei portanto alerta, à espera de alguma coisa que confirmasse essa suposição. Examinei o quarto à procura de um esconderijo. O tapete estava firmemente pregado no chão, de modo que afastei a hipótese de um alçapão. Podia haver um nicho atrás das estantes. Bem sabe que isso era comum nas bibliotecas antigas. Notei que havia livros no chão por toda parte, menos diante de uma determinada estante. Então, a porta devia ser ali. Não vi marcas, mas o tapete tinha uma cor parda, que se presta muito a exame. Fumei, portanto, grande número daqueles ótimos cigarros, deixando a cinza cair diante da estante suspeita. Foi um truque simples, mas de grande efeito. Descemos, e na sua frente, Watson, embora você não se apercebesse disso, fiz perguntas a respeito do consumo de comida do professor Coram, e fiquei sabendo que aumentara, o que é natural quando se está alimentando outra pessoa. Subimos de novo ao quarto e, ao deixar cair a caixa de cigarros, pude examinar perfeitamente o chão. Vi, pelas marcas na cinza dos cigarros, que em nossa ausência a prisioneira saíra do esconderijo. Bem, Hopkins, cá está Charing Cross, e dou-lhe os parabéns por ter concluído com sucesso seu caso. Com certeza vai para a Scotland Yard. Quanto a nós, Watson, creio que nosso destino é a embaixada russa…

1905
A volta de Sherlock Holmes

1. A casa vazia § 2. O construtor de Norwood
3. Os dançarinos § 4. A ciclista solitária
5. A escola do priorado § 6. Pedro Negro
7. Charles Augustus Milverton § 8. Os seis bustos de Napoleão
9. Os três estudantes § 10. O pincenê dourado
11. O atleta desaparecido § 12. Abbey Grange § 13. A segunda mancha

Ilustrações: Frederic Dorr Steele e Sidney Paget, cortesia The Camden House
Transcrição: Mundo Sherlock