Os dançarinos

Arthur Conan Doyle

Os dançarinos

Título original: The Dancing Men
Publicado pela primeira vez na Collier’s Weekly,
em Dezembro de 1903,
com 6 ilustrações de Frederic Dorr Steele
e na Strand Magazine, em Dezembro de 1903,
com 7 ilustrações de Sidney Paget.

Sobre o texto em português:
Este texto digital reproduz a
tradução de The Dancing Men publicado em
As Aventuras de Sherlock Holmes, Volume IV,
editado pelo Círculo do Livro
e com tradução de Lígia Junqueiro.

Havia tempo que Holmes estava sentado, em silêncio, debruçado sobre um tubo de ensaio, investigando um produto malcheiroso. Assim, com a cabeça caída para o peito, lembrava um pássaro estranho, magro, de plumagem cinzenta, opaca, e penacho negro.

— Então, Watson, não vai comprar as ações sul-africanas? — perguntou ele.

Tive um sobressalto. Por mais habituado que estivesse às estranhas faculdades de Holmes, aquela súbita intrusão nos meus íntimos pensamentos era inexplicável.

— Como é que sabe disso? — perguntei.

Ele deu uma reviravolta na banqueta, com um tubo fumegante na mão e um brilho divertido no olhar fixo.

— Confesse, Watson, que está admirado — disse ele.

— Estou mesmo.

— Devia fazê-lo assinar uma declaração a esse respeito.

— Porquê?

— Porque daqui a cinco minutos vai dizer que é absurdamente simples.

— Tenho certeza de que não direi nada nesse estilo.

Largando o tubo e com um ar de professor que se dirige à classe, começou:

— Sabe, caro Watson, não é difícil fazer uma série de deduções, cada qual dependendo da sua antecedente e cada qual simples em si mesma. Feito isso, se a gente derrubar as deduções centrais e apresentar à audiência um ponto de partida e a conclusão, pode produzir um efeito assustador, embora possivelmente falso. Agora, não foi difícil, olhando o vão entre o seu indicador e o polegar da mão esquerda, perceber que você não pretende empregar seu pequeno capital em ações de mina de ouro.

— Não vejo a relação.

— Provavelmente não vê mesmo, mas posso lhe mostrar uma íntima ligação. Aqui estão os elos que faltam à simples cadeia, l. Você tinha giz entre o indicador e o polegar da mão esquerda, a noite passada, quando voltou do clube; 2. Costuma pôr giz ali, quando joga bilhar, para firmar o taco; 3. Nunca joga bilhar a não ser com Thurston; 4. Você me contou, há quatro semanas, que Thurston tinha a opção, por um mês, de uma propriedade na África do Sul, e que queria comprá-la em sociedade com você; 5. Seu talão de cheques está fechado na minha gaveta e você não me pediu a chave; 6. Portanto, não tenciona aplicar nesse negócio o seu dinheiro.

— Absurdamente simples! — exclamei.

— De fato! — disse Holmes, um pouco irritado. — Todos os problemas se tornam infantis, depois de explicados. Veja se resolve este aqui, amigo Watson.

Holmes me atirou uma folha de papel e voltou às suas experiências químicas. Olhei com espanto para os absurdos hieróglifos à minha frente.

— Mas, Holmes, isto é um desenho de criança! — exclamei.

— Oh, acha?

— Que mais poderia ser?

— É o que o sr. Hilton Cubitt, de Ridiing Thorpe, Norfolk, deseja saber. Essa charada me chegou pelo correio da manhã, e o sr. Cubitt me preveniu que ele próprio viria no trem seguinte. Estão tocando a campainha, Watson. Não me admiraria se fosse ele.

Ouviram-se passos pesados na escada. Momentos depois, entrou um homem alto, bem-barbeado, de olhos claros e rosto corado, indicando que morava bem longe da neblina da Baker Street. Pareceu trazer consigo uma golfada do ar puro e revígorante da costa leste. Depois de nos ter cumprimentado, ia sentar-se, quando seu olhar caiu sobre o estranho desenho que eu acabara de examinar e depositara em cima da mesa.

— Então, sr. Holmes, que me diz disso? — perguntou. — Disseram-me que o senhor gosta de mistérios, e não creio que possa encontrar um maior do que esse. Mandei o papel primeiro, para que tivesse tempo de estudá-lo, antes de eu chegar.

Sidney Paget, 1903

Sidney Paget, 1903

— Não há dúvida de que é estranho — disse Holmes.

— A princípio, pode parecer brincadeira, de criança. Consta de uma porção de absurdas figurinhas de dançarinos. Por que o senhor dá importância a uma coisa tão grotesca?

— Eu não daria, sr. Holmes. Mas minha mulher dá. Está muito amedrontada. Não diz nada, mas vejo o terror nos seus olhos. É por isso que quero investigar o caso.

Holmes levantou o papel, para que a luz do sol incidisse sobre ele. Era uma página arrancada de um caderno de apontamentos. As figuras eram desenhadas a lápis, do seguinte modo:dan_cod1

Holmes examinou o papel durante algum tempo e depois, dobrando-o cuidadosamente, colocou-o dentro do seu caderno de apontamentos.

— Promete ser um caso pouco comum e muito interessante — disse ele. — O senhor me deu alguns pormenores, na sua carta, sr. Hilton Cubitt, mas eu ficaria muito agradecido se contasse tudo de novo para meu amigo, o dr. Watson, ouvir.

— Não sou grande narrador de histórias — começou o nosso visitante, nervosamente, abrindo e fechando as mãos fortes. — Pecam-me explicações, quando eu não for muito claro. Vou começar pela época do meu casamento, o ano passado. Mas primeiro quero dizer que não sou rico, que a minha gente mora em Ridiing Thorpe há cinco séculos e que não há família mais conhecida em Norfolk. O ano passado vim a Londres para o Jubileu e hospedei-me numa pensão, na Russel Square, pois o vigário da nossa paróquia também estava lá. Travei conhecimento, na pensão, com uma jovem americana chamada Elsie Patrick. Tornamo-nos amigos, mas, antes que acabasse o meu mês de férias, vi que estava loucamente apaixonado por ela. Casamo-nos sem alarde, num cartório, e fomos para Norfolk. O senhor achará loucura, sr. Holmes, um homem de boa família casar-se dessa forma, sem nada saber a respeito de sua mulher ou da família dela. Mas, se a visse e a conhecesse, compreenderia melhor o que se passou.

“Elsie foi muito correia. Deu-me todas as oportunidades de desfazer o noivado, se eu ‘issim o desejasse. ‘Tenho passado por coisas muito desagradáveis na minha vida’, disse ela. ‘Se se casar comigo, Hilton, aceitará uma mulher que nada tem de que se envergonhar, mas terá de se contentar com a minha palavra e permitir que eu guarde silêncio a respeito de minha vida, até o momento em que o conheci. Se estas condições forem muito severas, volte para Norfolk e deixe-me continuar sozinha, como quando me conheceu.’ Respondi que aceitava as suas condições e cumpri a minha palavra.

“Estamos casados há um ano e temos sido muito felizes. Mas há um mês, em fins de junho, vi pela primeira vez sinais de complicações. Um dia, minha mulher recebeu uma carta da América. Vi o selo. Ela ficou mortalmente pálida, leu a carta e atirou-a ao fogo. Não fez qualquer alusão a isso, mais tarde, e não lhe perguntei coisa alguma, pois promessa é dívida, mas desde aquele momento ela nunca mais teve um instante de sossego. Há sempre uma expressão de medo em seu rosto: expressão de quem está à espera de alguma coisa. Seria melhor que ela confiasse em mim. Veria que sou seu melhor amigo. Mas, até que fale, nada posso fazer. Saiba que é uma mulher franca, sr. Holmes, e, seja qual for a complicação existente no seu passado, tenho certeza de que não foi por culpa dela. Sou apenas um proprietário rural, mas não há na Inglaterra homem que preze mais a honra da sua família do que eu. Ela sabe e sabia disso, antes de se casar comigo. Jamais faria com que meu nome ficasse manchado, tenho certeza.

“Chego agora à parte estranha da história. Há uma semana, terça-feira da semana passada, encontrei no peitoril da janela uma porção de figurinhas de dançarinos, semelhantes a estes aqui. Tinham sido desenhados com giz. Pensei que tivessem sido feitos pelo moço da estrebaria, mas o rapazinho jurou que nada sabia a esse respeito. Seja como for, foram feitos durante a noite. Mandei lavar o peitoril, e somente mais tarde contei isso a minha mulher. Vi, com surpresa, que ela levou o caso a sério. Suplicou-me que, se os desenhos voltassem a aparecer, eu a chamasse para vê-los. Nada aconteceu durante uma semana, mas ontem encontrei este papel no relógio de sol, no jardim. Mostrei-o a Elsie, e ela caiu desmaiada. Desde então, parece um fantasma, sempre com expressão aterrorizada no olhar. Foi por isso que lhe escrevi, mandando-lhe o desenho, sr. Holmes. Não era coisa que eu pudesse levar à polícia, pois teriam rido de mim, mas o senhor me dirá o que devo fazer. Não sou rico, mas se minha mulher estiver em perigo, estou pronto a gastar todo o meu dinheiro para protegê-la.”

O sr. Hilton Cubitt calou-se. Parecia um homem muito correio, simples, sincero e bom, com grandes olhos azuis num rosto largo e simpático. Seu amor pela esposa e a confiança que nela depositava estavam estampados em seu rosto. Holmes ouvira a história com grande atenção e ficou durante algum tempo pensativo e em silêncio. Finalmente, disse:

— Não acha, sr. Cubitt, que o melhor seria apelar diretamente para sua esposa e pedir-lhe que lhe confessasse seu segredo?

Hilton Cubitt sacudiu a cabeça.

— Promessa é dívida, sr. Holmes. Se quisesse me contar, Elsie teria me procurado. Já que não o fez, não quero forçá-la. Mas tenho o direito de agir a meu modo, e é o que farei.

— Então, estou pronto a ajudá-lo, de todo o coração. Em primeiro lugar, ouviu falar de algum estranho na vizinhança?

— Não.

— Com certeza é um lugar sossegado. Qualquer pessoa estranha que aparecesse provocaria comentários, não?

— Na vizinhança próxima, sim. Mas existem várias estâncias de águas, pequenas, não muito distantes de nós. E os fazendeiros aceitam pensionistas.

— Esses hieróglifos têm, evidentemente, um sentido. Se forem arbitrários, talvez nos seja impossível decifrá-los. Se, por outro lado, forem sistemáticos, tenho certeza de que acharemos uma solução. Mas esta amostra é tão curta que nada posso fazer; e os fatos que me contou são tão vagos que não tenho base para uma investigação. Sugiro que volte para Norfolk, fique alerta e tire uma cópia exata de quaisquer bailarinos que apareçam. É uma grande pena eu não poder ver a reprodução dos que foram desenhados com giz, na janela. Indague discretamente, também, a respeito de qualquer estranho que apareça na região. Depois de ter conseguido novas informações, torne a procurar-me. É o melhor conselho que lhe posso dar, sr. Cubitt. Se houver alguma novidade séria, sempre arranjarei tempo de dar um pulo até Norfolk.

A entrevista deixou Holmes muito pensativo. Durante os dias seguintes, vi-o muitas vezes tirar o papelzinho de dentro do caderno de apontamentos e examinar com atenção as figuras ali desenhadas. Mas não fez alusão alguma ao assunto, até quinze dias mais tarde. Eu ia sair, quando ele me chamou.

— É melhor ficar em casa, Watson.

— Por quê?

— Porque recebi hoje de manhã um telegrama de Milton Cubitt. Lembra-se dele e dos dançarinos? Ele deve chegar aqui a qualquer momento. Pelo telegrama, deduzi que há novidades.

Não tivemos muito que esperar, pois o homem de Norfolk veio diretamente da estação para nossa casa. Parecia aborrecido e deprimido, com olhos cansados e a testa enrugada.

— Este assunto está acabando com os meus nervos, sr. Holmes — disse ele, caindo, como que exausto, numa poltrona. — Já é mau estarmos cercados por pessoas invisíveis e desconhecidas, que têm más intenções a nosso respeito… Mas ver minha mulher definhar dia a dia é mais do que posso suportar. Ela pode acabar morrendo.

— Ainda não lhe contou nada?

— Não, sr. Holmes, nada. Há ocasiões em que a pobre parece querer falar, mas não tem coragem. Tenho tentado ajudá-la, mas com certeza fui desajeitado, pois nada consegui. Ela fala da minha família tradicionalista, da nossa reputação no condado, do orgulho que temos da nossa honra; sinto que pretende atingir um ponto, porém nunca chega lá.

— Mas o senhor, de seu lado, descobriu alguma coisa?

— Muita coisa, sr. Holmes. Trouxe vários dançarinos novos para o senhor examinar, e, o que é mais importante, vi o sujeito.

— Quem? O homem que faz os desenhos?

— Sim, vi-o trabalhar. Mas vou lhe contar tudo por ordem. Ao voltar para casa, depois de tê-lo procurado, sr. Holmes, a primeira coisa que vi, no dia seguinte, foi uma nova série de dançarinos. Tinham sido desenhados com giz, na porta de madeira preta da casa das ferramentas, que fica ao lado do relvado, bem à vista das janelas da frente. Tirei uma cópia exata, e aqui a tem.

O sr. Cubitt desdobrou um papel e colocou-o sobre a mesa. Eis uma cópia exata dos hieróglifos:dan_cod2

— Ótimo! — exclamou Holmes. — Ótimo. Continue, por favor.

— Depois de fazer a cópia, apaguei o desenho, mas, dois dias mais tarde, havia nova inscrição. Aqui está a cópia:dan_cod3

Holmes esfregou as mãos de contente.

— Nosso material se acumula rapidamente — disse ele.

— Três dias mais tarde, uma mensagem foi escrita em papel e colocada sob uma pedra, no relógio de sol. Aqui está. Os caracteres são, como o senhor vê, exatamente iguais aos últimos. Depois disso, resolvi ficar à espreita. Peguei meu revólver e fiquei sentado no escritório, quedá para o jardim. Mais ou menos às duas da manhã, eu estava diante da janela — tudo escuro, apenas o luar, no jardim — quando ouvi passos atrás de mim. Era minha mulher, de roupão. Suplicou-me que fosse para a cama. Respondi, francamente, que queria ver quem é que fazia aqueles desenhos. Ela disse que devia ser uma brincadeira sem importância, a que eu não devia ligar.

Sidney Paget, 1903

Sidney Paget, 1903

“— Se isso o contraria realmente, Hilton, podemos ir viajar, para fugir a esse aborrecimento.

“— Oh, sermos expulsos da nossa própria casa por um gaiato? — repliquei. — O condado inteiro riria de nós!

“— Bom, venha para a cama, e discutiremos o assunto de manhã.

“De repente vi que o rosto de minha mulher se tornava mais pálido; sua mão se contraiu sobre meu ombro. Alguma coisa se movia nas sombras da casa das ferramentas. Vi um vulto escuro, arrastando-se pelo canto da casa e indo se agachar diante da porta. Agarrei meu revólver e ia correr para fora, quando minha mulher me segurou com toda a força. Procurei soltar-me, mas ela agarrava-se a mim, desesperadamente. Finalmente consegui me desvencilhar, mas, quando cheguei ao local, o homem já desaparecera. Porém, deixara um vestígio de sua presença, pois na porta estavam os desenhos. Aqui tenho a cópia. Não voltei a ver o sujeito, embora tivesse examinado todo o jardim. O mais estranho é que ele devia ter estado ali todo o tempo, pois, quando examinei a porta de manhã, vi que ele desenhara outras figuras sob a fileira que eu já vira.

— Trouxe esse novo desenho?

— Trouxe. É muito curto, mas copiei-o. Aqui está. Tirou um papel do bolso. Os novos dançarinos estavam na seguinte ordem:

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Vi, pelo olhar de Holmes, que ele estava muito excitado. Perguntou ao sr. Cubitt:

— Diga-me uma coisa: esses desenhos eram apenas um acréscimo aos outros, ou pareciam estar completamente separados?

— Estavam noutra parte da porta.

— Ótimo! É o mais importante para nós. Isso me dá esperanças. Agora, sr. Cubitt, faça o favor de continuar sua história tão interessante.

— Nada mais tenho a dizer, sr. Holmes, a não ser que fiquei zangado com minha mulher por ter me segurado, quando eu podia ter apanhado o miserável. Ela disse que tivera receio de que me acontecesse qualquer coisa. Por um momento, pensei que ela tivera medo de que acontecesse alguma coisa a ele, pois eu não duvidava que ela conhecesse aquele homem e soubesse o que ele queria dizer com tão estranhos sinais. Mas havia uma nota na voz de minha mulher, sr. Holmes, e uma expressão em seus olhos, que não permitiam dúvidas, e sei que foi realmente por mim que ela receou. Aí tem a história toda, e quero que me aconselhe quanto ao que devo fazer agora. Minha ideia seria colocar meia dúzia de empregados nas moitas, para que, se o sujeito aparecesse, lhe dessem tão grande surra que ele nunca mais se lembrasse de nos aborrecer.

— Acho que a causa é muito profunda para remédio tão simples — replicou Holmes. — Quanto tempo vai ficar em Londres?

— Tenho de voltar hoje. Não deixaria minha mulher sozinha à noite por nada deste mundo. Ela está muito nervosa e me suplicou que voltasse hoje.

— Acho que tem razão. Mas, se pudesse ficar, talvez eu voltasse com o senhor dentro de um dia ou dois. De qualquer maneira, deixe-me esses desenhos. É muito provável que eu lhe faça uma visita, e espero poder esclarecer o assunto.

Sherlock Holmes manteve sua calma profissional até o visitante sair, embora eu, que o conhecia tão bem, pudesse ver que estava profundamente excitado. No momento em que Cubitt desapareceu, meu amigo correu para a mesa, colocou à sua frente todos os dançarinos e começou a fazer cálculos complicados.

Vi-o durante duas horas encher folhas e folhas com figurinhas e letras, tão absorto na tarefa, que parecia ignorar minha presença. Às vezes, fazia progressos, e assobiava e cantarolava; outras, ficava perplexo, sentado durante muito tempo, de testa franzida e olhar vago. Finalmente, pulou da cadeira com um grito de satisfação e pôs-se a passear de um lado para outro da sala, esfregando as mãos. Depois, pegou uma fórmula telegráfica e escreveu uma longa mensagem.

— Se minha resposta a este problema estiver certa, como espero, Watson, você terá um caso muito importante para acrescentar à sua coleção — disse Holmes. — Acho que poderemos ir amanhã a Norfolk, levar ao nosso amigo notícias definidas sobre o mistério que tanto o apoquenta.

Confesso que estava intrigadíssimo, mas sabia que Holmes gostava de fazer revelações à sua maneira. Esperei, portanto, até que ele se dispusesse a me fazer confidências. Mas houve atraso na resposta ao telegrama. Seguiram-se dois dias de impaciência, durante os quais Holmes ficava em suspense todas as vezes que ouvia a campainha. Na tarde do segundo dia, chegou uma carta de Hilton Cubitt. Ia tudo bem em casa, a não ser uma nova série de dançarinos que aparecera naquela manhã, no pedestal do relógio de sol.

Mandou uma cópia, que vai aqui reproduzida:

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Holmes inclinou-se sobre a grotesca mensagem, examinando-a durante alguns segundos. Depois, levantou-se de um salto, com uma exclamação de surpresa e consternação. Estava pálido de angústia.

— Deixamos este caso ir longe demais — disse ele. — Há algum trem para Norfolk, hoje à noite?

Consultei o horário dos trens. O último devia ter acabado de partir.

— Então teremos de nos levantar cedo e tomar o primeiro trem amanhã — disse Holmes. — Nossa presença ali é absolutamente necessária. Ah, eis a resposta ao nosso telegrama. Um momento, sra. Hudson, pode ser que tenha resposta. Não, é exatamente o que eu esperava. O telegrama prova que ainda é mais urgente a nossa viagem. Não podemos perder uma hora para ir avisar Hilton Cubitt do que se passa, pois é singular e perigosa a teia que envolve nosso amigo.

E realmente assim era. Ao chegar à sombria conclusão da história, que a princípio me parecera apenas infantil e bizarra, experimento novamente o horror e a consternação que então senti. Gostaria de ter um fim mais alegre para comunicar aos meus leitores, mas registro aqui a crônica dos fatos, e sou obrigado a seguir, até o final, a cadeia dos acontecimentos que durante alguns dias fizeram com que a Mansão Ridiing Thorpe fosse comentada em toda a Inglaterra.

Sidney Paget, 1903

Sidney Paget, 1903

Mal tínhamos descido do trem, o chefe da estação correu para nós.

— Creio que são os detetives de Londres, não? — perguntou.

No rosto de Holmes vi uma expressão inquieta.

— Por que julga isso?

— Porque o inspetor Martin, de Norwich, acabou de passar por aqui. Mas talvez os senhores sejam os médicos. Ela não morreu… ou não tinha morrido, segundo as últimas notícias. É possível que os senhores tenham tempo de salvá-la… embora, talvez, para a forca.

Holmes estava muito preocupado.

— Vamos para a Mansão Ridiing Thorpe — declarou ele. — Mas nada sabemos do que lá se passou.

— Um caso terrível — disse o chefe da estação. — Tanto o sr. Cubitt como sua esposa estão feridos. Ela atirou nele e depois contra si mesma… pelo que dizem os criaos. Ele morreu, e parece que não há esperanças quanto a ela. Meu Deus, meu Deus, uma das mais antigas famílias, e das mais honradas!

Sem dizer palavra, Holmes correu para a carruagem, não abrindo a boca durante o trajeto de onze longos quilômetros. Raras vezes eu o vira tão deprimido. Estivera preocupado durante toda a viagem, e eu o vira examinar com atenção os jornais da manha, mas a realização dos seus receios tornava-o melancólico. Estava agora reclinado no banco, perdido em sombrias conjecturas. E, no entanto, havia muita coisa interessante para ser vista, pois atravessávamos uma região singular, onde algumas casas esparsas representavam a população de hoje, ao passo que igrejas enormes, de torres quadradas, ralavam da glória e da prosperidade da velha Inglaterra. Finalmente, vimos a verde faixa da costa de Norfolk e o cocheiro apontou com o chicote para dois campanários de tijolo que surgiam acima do arvoredo.

— Lá está a Mansão Ridling Thorpe — disse ele.

Quando nos dirigimos para o grande portão de entrada, vi, ao lado da quadra de ténis, a negra casa das ferramentas e o relógio de sol, de que tanto tínhamos ouvido falar. Um homenzinho vivo, de bigode aparado, acabara de descer de uma charrete. Apresentou-se como sendo o inspetor Martin, da polícia de Norfolk, e ficou muito admirado quando ouviu o nome de meu amigo.

— Mas, sr. Holmes, o crime foi cometido hoje às três horas da manhã! Como é que pôde saber disso em Londres e chegar aqui ao mesmo tempo que eu?

— Previ o crime. Vim na esperança de poder evitá-lo.

— Então o senhor deve ter provas que desconhecemos, pois ouvimos dizer que era um casal muito unido.

— Tenho apenas o indício dos dançarinos — disse Holmes. — Mais tarde eu lhe explicarei o caso. Entretanto, já que é tarde demais para impedir a tragédia, estou ansioso por utilizar o conhecimento que tenho do caso, para que seja feita justiça. Quer que o ajude na investigação, ou prefere que eu atue independentemente?

— Teria orgulho em vê-lo trabalhar comigo, sr. Holmes — disse o inspetor com sinceridade.

— Nesse caso, gostaria de ouvir o que se passou e ir examinar o local, sem mais delongas.

O inspetor Martin teve o bom senso de deixar que Holmes agisse à sua maneira, contentando-se em tomar notas, cuidadosamente. O médico da localidade, um velho de cabelos brancos, acabara de sair do quarto da dona da casa.

Disse que seu estado era grave, mas não desesperador. Como o ferimento era na cabeça, talvez levasse tempo a voltar a si. Não podia dizer por enquanto se fora ferida ou tentara se suicidar. Não havia dúvida de que a bala fora disparada de muito perto. Apenas um revólver fora encontrado no quarto, com falta de duas balas. O sr. Hilton Cubitt fora alvejado no coração. Tanto se podia julgar que ele a ferira, matando-se em seguida, como supor que era ela a criminosa, pois a arma fora encontrada entre ambos.

— Mudaram a posição do cadáver? — perguntou Holmes.

— Não tocamos em nada; apenas tiramos dali a sra.Cubitt, pois não podíamos deixá-la ferida no chão.

— Desde quando está aqui, doutor?

— Desde as quatro horas.

— Mais alguém?…

— Sim, um policial.

— E não tocaram em nada?

— Em nada.

— Agiram muito bem. Quem mandou chamá-lo?

— Saunders, a criada.

— Foi ela quem deu o alarme?

— Ela e a cozinheira, a sra. King.

— Onde estão agora?

— Na cozinha, creio eu.

— Então é melhor ouvirmos o que elas têm a dizer.

O velho vestíbulo, com lambris de carvalho e janelas altas, fora transformado em sala de interrogatório. Holmes estava sentado numa cadeira alta e antiga, com os olhos inexoráveis no rosto abatido. Eu lia neles a firme resolução de dedicar sua vida àquela investigação, até que o cliente que ele não conseguira salvar fosse, pelo menos, vingado. O alinhado inspetor Martin, o médico de província, um policial e eu completávamos o estranho grupo.

Sidney Paget, 1903

Sidney Paget, 1903

As duas criadas contaram a história com suficiente clareza. Tinham acordado com o ruído de uma detonação, seguida quase que imediatamente por outra. Dormiam em quartos contíguos, e a sra. King correra a chamar Saunders. Juntas, tinham descido a escada. A porta do escritório estava aberta, e uma vela ardia sobre a mesa. O dono da casa estava caído, de bruços, no chão. Morto. Sua mulher estava agachada perto da janela, com a cabeça contra a parede. Estava gravemente ferida, e tinha a face rubra de sangue. Respirava ofegantemente, mas não pudera dizer coisa alguma. Tanto o escritório como o corredor estavam cheios de fumaça e cheiravam a pólvora.

A janela estava fechada e trancada por dentro. As duas mulheres afirmavam isso com segurança. Tinham mandado imediatamente chamar o médico e a polícia. Depois, com o auxílio de dois empregados, tinham levado a patroa para o quarto. Tanto ela como o marido já haviam ido se deitar. Ela estava de camisola e ele, de roupão sobre o pijama. As empregadas não tinham tocado em nada, na sala. Pelo que sabiam, nunca houvera discussão entre marido e mulher. Sempre os tinham achado muito unidos.

Eram estes os pontos principais das declarações das empregadas. A uma pergunta do inspetor Martin, responderam que tinham certeza de que todas as portas estavam fechadas por dentro e que ninguém poderia ter fugido de casa. A uma pergunta de Holmes, responderam que tinham sentido cheiro de pólvora desde o momento em que saíram do quarto, no andar de cima.

— Chamo a sua atenção para esse ponto — disse Holmes ao inspetor. — E, agora, creio que está na hora de examinarmos a sala.

O escritório era um aposento pequeno, com estantes em três paredes, e a escrivaninha de frente para uma janela comum, que dava para o jardim. Nossa atenção fixou-se no corpo do infeliz proprietário, estendido no chão. A desordem das roupas indicava que ele se levantara apressadamente. A bala fora disparada de frente e ficara alojada no coração. Sem dúvida a sua morte fora instantânea e sem dor. Não havia sinais de pólvora no roupão nem nas mãos do morto. Pelo que dissera o médico, a sra. Cubitt tinha marcas no rosto, mas nenhuma nas mãos.

— A ausência destas últimas marcas nada significa, embora sua presença pudesse significar muita coisa — disse Holmes. — A não ser que a pólvora de uma bala mal encaixada volte para trás, uma pessoa pode disparar várias vezes, sem que nela fique sinal. Sugiro que o corpo seja retirado agora. Creio que ainda não extraiu a bala do corpo da sra. Cubitt, não, doutor?

— Para isso é preciso uma operação delicada. Mas ainda há quatro balas no revólver. Duas foram disparadas e há dois ferimentos, de modo que estão explicadas as duas balas que faltam.

— Assim parece — disse Holmes. — E podem explicar também a bala que tão claramente bateu na janela?

Holmes virara-se repentinamente, e seu dedo longo, fino, apontava para um buraco que havia no caixilho da janela.

— Por Deus! — exclamou o inspetor. — Como é que o senhor viu essa marca?

— Porque estava à procura dela.

— Maravilhoso! — disse o médico. — Tem toda a razão, sr. Holmes. Então houve um terceiro tiro, e, portanto, uma terceira pessoa esteve presente. Mas quem poderia ter sido, e como poderia ter fugido?

— É esse o problema que estamos prestes a solucionar — disse Sherlock Holmes. — Está lembrado, inspetor Martin, de que as empregadas declararam que sentiram cheiro de pólvora no momento em que saíram do quarto, e que eu lhe disse que era um ponto importante?

— Lembro-me, mas confesso que não entendi.

— Na minha opinião, quando a primeira bala foi disparada, tanto a porta como a janela estavam abertas. Do contrário, o cheiro da pólvora não poderia ter se espalhado tão rapidamente pela casa. Para isso era preciso que houvesse corrente de ar. Mas tanto a porta como a janela estiveram abertas apenas alguns minutos.

— Como é que pode provar isso?

— Porque a vela não gotejou.

— Extraordinário! — exclamou o inspetor.

— Tenho certeza de que a janela estava aberta na ocasião da tragédia, e calculo que deve ter havido uma terceira pessoa, que atirou do lado de fora. Uma bala dirigida contra essa pessoa rasparia o caixilho. Investiguei, e lá estava a marca!

— O primeiro instinto da mulher seria fechar a janela. Epa! Que é isso?

Era uma bolsa de mulher sobre a escrivaninha: bolsinha bonita, de crocodilo e prata. Holmes abriu-a e espalhou sobre a mesa o conteúdo. Havia ali vinte e cinco libras, em notas presas por um elástico. Nada mais.

— Isto terá de figurar no julgamento — disse Holmes, entregando a bolsa e o conteúdo ao inspetor Martin. — Precisamos agora descobrir alguma coisa a respeito da terceira bala, que indubitavelmente foi disparada de dentro, como se deduz pelo estilhaço da madeira. Gostaria de ver novamente a sra. King, a cozinheira… A senhora disse, sra. King, que acordou com uma explosão forte. Quer dizer que lhe pareceu mais alta do que a segunda?

— Foi ela que me acordou, senhor, e, portanto, é difícil dizer. Mas me pareceu muito forte.

— Não acha que podem ter sido duas balas disparadas ao mesmo tempo?

— Infelizmente, não sei dizer.

— Creio que foi isso. Agora, inspetor Martin, creio que esta sala nada mais nos tem a contar. Se quiser fazer o favor de me acompanhar, poderemos ver o que o jardim nos vai oferecer.

Sidney Paget, 1903

Sidney Paget, 1903

Um canteiro vinha até a janela do escritório, e todos nós soltamos exclamações de espanto quando lá chegamos. As flores tinham sido pisadas, e a terra macia estava cheia de pegadas, feitas por pés de homem, grandes, com dedos estranhamente longos. Holmes procurou no meio das folhas e da relva como cão de caça atrás de uma ave abatida. Depois, com um grito de satisfação, inclinou-se e apanhou uma cápsula de latão.

— Foi o que pensei — disse ele. — O revólver tinha um extrator, aqui está a terceira cápsula. Creio que nosso caso está quase completo, inspetor Martin.

O inspetor mostrara grande espanto ao ver os rápidos progressos da magistral investigação de Holmes. A princípio dera mostras de querer se impor, mas agora estava possuído de admiração e pronto a seguir Holmes aonde este o quisesse levar.

— De quem suspeita? — perguntou.

— Mais tarde trataremos disso. Há, neste problema, vários pontos que ainda não lhe pude explicar. Agora, que já fui tão longe, é melhor continuar à minha maneira e depois esclarecer tudo de uma vez.

— Como quiser, sr. Holmes, contanto que tenhamos o nosso homem.

— Não quero ser misterioso, mas é impossível, no momento de agir, entrar em longas e complexas explicações. Tenho o fio da meada na mão. Mesmo que a sra. Cubitt não se salve, poderemos reconstituir os fatos da noite passada e conseguir que se faça justiça. Em primeiro lugar, quero saber se há alguma hospedaria na vizinhança chamada Elrige’s. Perguntaram aos empregados, mas nenhum soube informar. O moço da estrebaria lembrou-se de que havia uma fazenda com esse nome, na direção de East Ruston.

— É uma fazenda isolada?

— Muito isolada, senhor.

— Talvez ainda não tenha chegado lá a notícia do que se passou aqui hoje à noite, não é verdade?

— Talvez não, senhor.

Holmes ficou pensativo por alguns momentos; depois, um sorriso iluminou-lhe o rosto.

— Sele um cavalo, rapaz — disse ele. — Quero que leve um bilhete à fazenda.

Tirou do bolso os papéis com os desenhos dos dançarinos, levou-os para a sua escrivaninha e ali ficou trabalhando durante algum tempo. Finalmente entregou o bilhete ao rapaz, recomendando que o entregasse à pessoa a quem era dirigido e que não respondesse a pergunta alguma que lhe fosse feita. Vi no envelope uma letra irregular, muito diferente da de Holmes. Estava endereçado ao sr. Abe Sianey, Fazenda Eirige, East Ruston, Norfolk.

— Creio que deve telegrafar, pedindo uma escolta — disse Holmes ao inspetor. — Se meus cálculos forem exatos, terá de levar um prisioneiro muito perigoso para a cadeia. O rapaz que for levar este bilhete poderá tratar do telegrama. Se houver um trem à tarde, Watson, creio que poderemos voltar para casa, pois tenho que fazer umas experiências químicas interessantes, e este caso está quase terminado.

Depois que o rapaz partiu com o bilhete, Holmes deu instruções aos criados. Se alguém viesse procurar a sra. Cubitt, não deviam de forma alguma falar do seu estado, mas sim introduzir o visitante imediatamente na sala de visitas. Insistiu nesse ponto. Finalmente, conduziu-nos para a sala dizendo que o caso agora estava nas nossas mãos e que devíamos procurar passar o tempo da melhor maneira possível, até ver o que ia acontecer. O médico tinha partido, e somente o inspetor e eu fazíamos companhia a Holmes.

— Creio que posso ajudá-los a passar o tempo de maneira interessante — disse meu amigo, puxando a cadeira para perto da mesa e ali espalhando os papéis onde estavam os dançarinos. A você, amigo Watson, tenho de pedir perdão, por ter permitido que a sua natural curiosidade ficasse insatisfeita durante tanto tempo. Ao senhor, inspetor Martin, o incidente poderá atrair como um magnífico estudo profissional. Primeiro tenho de lhe falar das interessantes circunstâncias que se relacionam com a consulta que me fez o sr. Hilton Cubitt em Londres.

Holmes contou ao inspetor os fatos que já foram narrados.

— Tenho à minha frente os desenhos, que poderiam provocar sorrisos, se não tivessem sido eles os arautos da tragédia. Conheço bem todos os códigos secretos, e sou mesmo autor de uma monografia sobre o assunto, onde analiso cento e sessenta códigos diferentes, mas confesso que este me deixou perplexo. A intenção da pessoa que inventou este sistema foi, naturalmente, dar a impressão de que se tratava de desenhos de criança.

Holmes fez uma pausa e continuou:

— Tendo-me convencido de que os símbolos substituíam letras e aplicando-lhes as regras que me guiaram no estudo de todas as fórmulas secretas, não me foi difícil encontrar a solução. A primeira mensagem era tão curta que só consegui descobrir o símbolo que substituía a letra E.

“Como sabem, a letra E é a mais comum na língua inglesa, e predomina de tal forma que, mesmo numa mensagem curta, é encontrada várias vezes. Dos quinze símbolos do primeiro bilhete, quatro eram iguais, de modo que os considerei como sendo a letra E. É verdade que em alguns casos o dançarino empunhava uma bandeira, e noutros, não, mas, pela maneira como eram distribuídos, achei que os da bandeira eram usados para terminar uma frase. Tomei isso como hipótese e considerei como E o símbolo

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“Chegamos ao ponto mais difícil. A ordem das letras mais comuns, depois do E, não é bem definida, e qualquer preponderância que se faça sentir numa folha impressa normal poderá desaparecer, quando se tratar de uma frase curta, tomada isoladamente. Falando por alto, as letras T, A, O, I, N, S, H, R, D e a letra L estão na ordem numérica em que mais aparecem; mas as letras T, A, O e I estão quase no mesmo plano, de modo que seria tarefa infindável tentar todas as combinações, até chegar a um resultado. Fiquei, portanto, à espera de novo material. Na minha segunda entrevista com o sr. Hilton Cubitt, ele me deu mais duas frases curtas e uma mensagem que me pareceu — já que não havia a bandeira — uma palavra só. Aqui estão os símbolos.

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“Agora, numa só palavra de cinco letras, encontrei dois EE, no primeiro e no quarto lugares. Poderia ser “sever” [1], ou “lever” [2], ou “never” [3]. Não há dúvida de que esta ultima é a mais provável, como resposta a um apelo — e as circunstâncias indicavam ser uma resposta escrita pela dona da casa. Aceitando isto como verdadeiro, podemos agora dizer que os símbolos

correspondem, respectivamente, a N, V, R.

“Mesmo assim, eu estava em posição difícil, mas uma ideia feliz me fez descobrir várias outras letras. Ocorreu-me que, se esses apelos viessem, como me parecia, de uma pessoa que fora antigamente íntima da sra. Cubitt, uma palavra que contivesse duas letras E, com três letras intercaladas, poderia significar “Elsie”. Examinando os papéis, vi que essa palavra terminava a mensagem que se repetia três vezes. Não havia dúvida de que era um apelo a Elsie. Assim, eu já conseguira as letras L, S e I, Mas, que apelo poderia ser? Havia apenas quatro letras na palavra que precedia “Elsie” e que terminava com E. Com toda a certeza devia ser “come”[4]. Tentei todas as outras palavras com a terminação E, mas não encontrei uma combinação que servisse. Portanto, eu estava de posse de C, O, M, e apto a atacar a primeira mensagem mais uma vez, dividindo-a em palavras e pondo pontinhos para cada símbolo ainda desconhecido. Consegui o seguinte:

.M .ERE ..E SL.NE.

“Agora, a primeira letra só pode ser A, o que é uma útil descoberta, já que ocorre três vezes nesta frase curta, e aparentemente existe o H, na segunda palavra. Sendo assim, temos:

AM HERE A. E SLANE.

“E, completando o nome próprio, temos:

AM HERE ABE SLANEY [5]

“Eu estava de posse de tantas letras, que agora podia seguramente atacar a segunda mensagem. Consegui: A. ELRI.ES.

“Aqui, só podia conseguir um sentido pondo T ou G onde faltavam letras, supondo que fosse o nome de alguma casa ou hospedaria onde estivesse alojada a pessoa que escrevia.”

O inspetor Martin e eu tínhamos ouvido com a maior atenção o sistema que permitira ao meu amigo conseguir os resultados que lhe tinham dado o comando da situação.

— Que fez então, sr. Holmes? — perguntou o inspetor.

— Eu tinha todas as razões para acreditar que esse Abe Sianey era americano, pois Abe é o diminutivo americano de Abel, e também porque uma carta chegada da América fora o início de toda a complicação. Tinha também razões para acreditar que havia algum segredo criminoso no caso. A alusão feita pela dama ao seu passado, a recusa em fazer confidências ao marido, tudo apontava nessa direção. Portanto, telegrafei ao meu amigo Wilson Hargreave, da polícia de Nova York, que mais de uma vez tem recorrido aos meus conhecimentos do mundo do crime de Londres. Perguntei-lhe se o nome de Abe Sianey era conhecido dele. Eis a resposta:

“O mais perigoso bandido de Chicago”. Na tarde em que recebi essa resposta, Hilton Cubitt me mandou a última mensagem de Sianey. Servindo-me das letras que já conhecia, cheguei a este resultado: ELSIE .RE .ARE TO MEET THY GO.

“Acrescentando P e D, tive a mensagem completa: ELSIE PREPARE TO MEET THY GOD [6], e fiquei sabendo que o miserável tinha passado da persuasão à ameaça. Pelo que conhecia dos criminosos de Chicago, achei que ele agiria sem demora. Vim imediatamente para Norfolk com meu amigo e colega, dr. Watson, mas infelizmente vi que já se dera a tragédia.

— É um privilégio trabalhar com o senhor — disse o inspetor com entusiasmo. — Mas, desculpe-me falar-lhe com franqueza. O senhor não tem de prestar contas a ninguém, mas eu tenho de responder aos meus superiores. Se esse Abe Slaney, que está em Elrige’s, é de fato o assassino, e se conseguir fugir, eu me verei em maus lençóis.

— Não se preocupe. Ele não tentará fugir.

— Como é que sabe?

— A fuga seria confissão de culpa.

— Então vamos prendê-lo.

— Espero vê-lo chegar aqui a qualquer minuto.

— Mas por que haveria de vir aqui? — perguntou o inspetor.

— Porque lhe escrevi, convidando-o.

— Mas isso é incrível, sr. Holmes! Por que haveria de vir, a seu convite? Tal pedido não iria antes despertar-lhe as suspeitas e incitá-lo a fugir?

— Creio que eu soube redigir o bilhete — disse Holmes. — E, se não me engano, lá vem o cavalheiro, subindo a alameda.

Um homem vinha pelo caminho que conduzia à porta. Era um sujeito alto, bonito, moreno, de barba preta, nariz grande e agressivo; vestia um terno de flanela cinzenta, usava chapéu panamá e trazia uma bengala, que balançava ao andar. Dirigiu-se para a porta de entrada como se a casa fosse sua. Ouvimos um toque firme de campainha.

— Creio, senhores, que será melhor tomarmos posição atrás da porta — disse Holmes. — Todas as precauções são poucas, quando se lida com gente dessa espécie. Vai precisar das suas algemas, inspetor. Deixe a conversa por minha conta.

Sidney Paget, 1903

Sidney Paget, 1903

Esperamos em silêncio por um minuto — e foi um minuto que jamais esqueceremos. A porta se abriu e o homem entrou. Imediatamente, Holmes apontou o revólver para sua cabeça e Martin colocou-lhe logo as algemas. Foi tudo feito tão rapidamente que o homem não pôde esboçar um gesto de defesa. Fulminou-nos com o olhar, depois rompeu numa gargalhada.

— Muito bem, senhores, desta vez me apanharam. Parece que bati com a cabeça na parede. Mas vim aqui em resposta a uma carta da sra. Hilton Cubitt. Não me digam que ela está metida nisso! Será que os ajudou a me preparar esta armadilha?

— A sra. Cubitt foi gravemente ferida e está às portas da morte.

O homem soltou um grito de dor.

— Está louco! — exclamou ferozmente. — Ele é que foi ferido, não ela. Quem iria fazer mal a Elsie? Posso tê-la ameaçado, que Deus me perdoe, mas nunca teria tocado num cabelo da sua linda cabeça. Desminta isso já, senhor! Diga-me que ela não está ferida!

— Foi encontrada mortalmente ferida, ao lado do cadáver do marido.

Sidney Paget, 1903

Sidney Paget, 1903

O homem caiu com um gemido na cadeira e escondeu o rosto nas mãos algemadas. Assim ficou durante alguns minutos, em silêncio. Depois ergueu de novo o rosto e falou com a calma do desespero:

— Nada tenho a lhes ocultar, senhores — disse. — Se atirei contra o homem, ele atirou primeiro contra mim, e não posso ser considerado assassino. Mas, se acham que eu seria capaz de fazer algum mal àquela mulher, é porque não me conhecem nem a ela. Garanto-lhes que nunca homem algum amou mais uma mulher do que eu a amo. Tinha direito a ela. Estávamos comprometidos havia muitos anos. Por que havia esse inglês de se colocar entre nós? Digo-lhes que tinha direito de primazia, e que estava apenas reclamando o que era meu.

— Ela fugiu à sua influência, quando descobriu que espécie de homem você era — disse Holmes severamente. — Fugiu da América para evitá-lo e se casou com um honrado cavalheiro inglês. Você a perseguiu e a atormentou, procurando induzi-la a abandonar o marido, que ela amava e respeitava, para fugir com você, que ela temia e odiava. Você provocou a morte de um homem nobre e levou sua mulher a tentar o suicídio. É essa a sua parte de responsabilidade, sr. Abe Sianey, e terá de prestar contas à lei.

— Se Elsie morrer, nada mais terá valor para mim — disse o americano, abrindo a mão e olhando para o bilhete amarrotado. Com um brilho de suspeita no olhar, exclamou:

— Olhe, cavalheiro, não estará pretendendo me assustar? Se Elsie está ferida, como disse, quem então escreveu este bilhete?

— Eu, para atraí-lo aqui.

— O senhor? Não havia ninguém no mundo, além do bando, que conhecesse o segredo dos dançarinos. Como é que pôde escrever o bilhete?

— O que um homem pôde inventar, outro pode descobrir — replicou Holmes, — Daqui a pouco deve chegar um carro para conduzi-lo a Norwich, sr. Sianey. Nesse meio tempo, pode procurar reparar, até certo ponto, o mal que fez. Sabe que a sra. Cubitt esteve sob suspeita de ter assassinado o marido e que somente a minha presença aqui e o conhecimento que eu tinha do caso a salvaram da acusação? O mínimo que o senhor deve fazer é declarar que ela não teve, direta ou indiretamente, responsabilidade na tragédia.

— Não desejo outra coisa — disse o americano. — Creio que, mesmo para mim, o melhor é contar a verdade.

— É meu dever preveni-lo de que tudo o que disser será usado contra o senhor — disse o inspetor, com a magnífica lealdade prevista pela lei inglesa.

Sianey encolheu os ombros.

— Estou disposto a me arriscar. Em primeiro lugar, senhores, quero lhes dizer que conheço essa senhora desde garota. Éramos sete, num bando em Chicago, e o pai de Elsie era o nosso chefe. Homem inteligente, o velho Patrick. Foi quem inventou o código que devia passar por brincadeira de crianças, a não ser para quem conhecesse a chave. Pois bem, Elsie sabia do que se passava, mas não concordava com aquilo, e fugiu para Londres, com um dinheirinho que tinha ganho honestamente. Estávamos noivos, e tenho certeza de que ela teria se casado comigo, se eu tivesse abraçado outra profissão, pois ela não queria saber de negócios escusos. Somente depois de seu casamento com esse inglês é que descobri seu paradeiro. Escrevi-lhe, mas não obtive resposta. Depois, vim para cá, e, como as cartas de nada servissem, pus as mensagens onde ela pudesse vê-las.

“Pois bem, há um mês que estou aqui. Hospedei-me naquela fazenda. Meu quarto era no rés-do-chão, e eu podia sair e voltar sem que o notassem. Fiz tudo para persuadir Elsie a fugir comigo. Sei que lia as mensagens, pois uma vez respondeu a uma delas, deixando-a por baixo da outra. Depois, perdi a paciência e comecei a ameaçá-la. Ela me mandou então uma carta, implorando-me que partisse, dizendo que morreria se algum escândalo manchasse o nome do marido. Disse que desceria às três da manhã, quando o marido estivesse dormindo, e que falaria comigo pela janela, se eu prometesse nunca mais importuná-la. Desceu, trazendo dinheiro para me comprar. Isso me enfureceu, e tentei puxá-la pela janela. Nesse momento, surgiu o marido, de revólver em punho. Elsie caíra no chão, e estávamos os dois frente a frente. Ergui o revólver, para assustá-lo e poder fugir. Ele atirou e errou. Atirei quase no mesmo momento, e ele caiu. Fugi pelo jardim e ouvi fecharem a janela, atrás de mim. É a pura verdade, senhores, palavra por palavra, e não ouvi falar mais nisso até o rapazinho me entregar o bilhete que me fez vir até aqui, e cair nas suas mãos.”

Chegara um carro, enquanto o americano falava. Dois policiais estavam sentados dentro dele. O inspetor Martin ergueu-se e tocou no ombro do prisioneiro.

— Está na hora.

— Posso vê-la, primeiro?

— Não; ela está inconsciente. Sr. Sherlock Holmes, só desejo que, se eu alguma vez tiver novamente que resolver um caso importante, o senhor esteja a meu lado. Ficamos na janela, vendo o carro se afastar. Ao me voltar, vi a bola de papel que o prisioneiro atirara para cima da mesa. Era o bilhete com que Holmes o atraíra à armadilha.

— Veja se entende, Watson — disse -ele, com um sorriso.

Não havia nenhuma palavra escrita. Apenas uma fileira de dançarinos.

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— Se se servir do código que lhe expliquei, poderá entender o bilhete — disse Molmes. — Verá que está escrito: “Venha aqui imediatamente” [7]. Eu estava certo de que ele não recusaria tal convite, já que nunca imaginaria que pudesse vir de outra pessoa além da sra. Cubitt. E assim, caro Watson, fizemos com que os dançarinos servissem para alguma coisa boa, embora tivessem sido tantas vezes agentes do mal, e penso ter cumprido minha promessa de lhe oferecer algo de interessante para publicar no seu livro. Nosso trem sai às três e quarenta, e creio que chegaremos à Baker Street a tempo para o jantar.

Uma palavrinha, como epílogo:

O americano Abe Sianey, foi condenado à morte, em Norwich, mas a pena foi comutada para prisão perpétua, devido às circunstâncias atenuantes e à certeza de que Hilton Cubitt atirara em primeiro lugar.

Da sra. Cubitt, só sei que ficou completamente boa e que continua viúva, dedicando sua vida aos pobres e cuidando da propriedade que herdou do marido.

[1] “Separar.” (N. do T.)
[2] “Alavanca.” (N. do T.)
[3] “Nunca.” (N. do T.)
[4] “Venha.” (N. do T.)
[5] “Aqui estou Abe Slaney.” (N. do T.)
[6] “Elsie, prepare-se para encontrar seu Deus.” (N. do T.)
[7] “Come here at once” (N. do E.)

1905
A volta de Sherlock Holmes

1. A casa vazia § 2. O construtor de Norwood
3. Os dançarinos § 4. A ciclista solitária
5. A escola do priorado § 6. Pedro Negro
7. Charles Augustus Milverton § 8. Os seis bustos de Napoleão
9. Os três estudantes § 10. O pincenê dourado
11. O atleta desaparecido § 12. Abbey Grange § 13. A segunda mancha

Ilustrações: Sidney Paget, cortesia Camden House
Transcrição: Mundo Sherlock