Os três estudantes

Arthur Conan Doyle

Os três estudantes

Título original: The Three Students
Publicado pela primeira vez na Strand Magazine,
em Junho de 1904 e com 7 ilustrações de Sidney Paget
e na Collier´s Weekly, em Setembro de 1904,
com 9 ilustrações de Frederic Dorr Steele.

Sobre o texto em português:
Este texto digital reproduz a
tradução de The Three Students publicado em
As Aventuras de Sherlock Holmes, Volume V,
editado pelo Círculo do Livro
e com tradução de Álvaro Pinto de Aguiar.

No ano de 1895, Sherlock Holmes e eu tivemos de passar uns dias numa de nossas cidades universitárias por motivo que não é necessário esclarecer. Foi nessa ocasião que nos aconteceu a aventurazinha que pretendo narrar. Não há dúvida de que serão excluídos os pormenores que poderiam fazer com que o leitor identificasse a faculdade ou o criminoso, pois isso seria supérfluo e ofensivo. Escândalo tão penoso deve ficar esquecido. Mas, com a devida reserva, o incidente em si pode ser narrado, pois serve para ilustrar, mais uma vez, as extraordinárias qualidades de meu amigo Holmes. Procurarei evitar os termos que possam limitar os acontecimentos a determinado lugar, ou dar uma indicação das pessoas envolvidas.

Estávamos, na ocasião, morando em quartos mobiliados, perto de uma biblioteca onde Sherlock Holmes fazia estudos sobre as antigas Constituições inglesas, busca que o levou a resultados tão extraordinários que talvez me sirvam de assunto para futuras narrativas. Foi ali que, certa noite, recebemos a visita de um conhecido, o sr. Hilton Soames, lente do College of St. Luke’s. O sr. Soames era um homem magro, alto, de temperamento nervoso e excitável. Sempre o conhecera como homem inquieto, mas naquele momento estava em tal estado de agitação, que demonstrava claramente que algo estranho acontecera.

— Espero, sr. Holmes, que possa dedicar-me algumas horas de seu precioso tempo. Tivemos um incidente desagradável no St. Luke’s, e, se não fosse a feliz coincidência de sua presença em nossa cidade, eu ficaria sem saber o que fazer.

— Estou muito ocupado atualmente, e não desejo desviar minha atenção do assunto que me prende — disse Holmes. — Preferiria que o senhor pedisse o auxílio da polícia.

— Não, não, caro senhor, isso é de todo impossível. Quando a lei é chamada, não pode depois ser afastada, e trata-se de um caso em que, pela honra da instituição, é necessário que se evite um escândalo. Sua discrição é tão afamada quanto sua competência, sr. Holmes, e o senhor é o único homem no mundo que poderá me ajudar. Suplico-lhe, pois, que faça o possível.

O humor de meu amigo não melhorara, desde que se vira privado da atmosfera familiar da Baker Street. Sem seus produtos químicos e sua desordem, era um homem infeliz. Encolheu os ombros, concordando de má vontade, e nosso visitante começou a contar sua história, com palavras apressadas e gestos nervosos.

— Preciso explicar-lhe, sr. Holmes, que amanhã é o primeiro dia do exame para a Bolsa de Estudos Fortescue. Sou um dos examinadores. Minha matéria é o grego, e um dos primeiros pontos é um grande trecho de tradução que os candidatos desconhecem. Esse trecho está impresso no papel do exame e, naturalmente, seria de grande vantagem para o aluno poder prepará-lo de antemão. Por esse motivo, são tomadas todas as providências para que o texto fique em segredo.

“Hoje, mais ou menos às três horas, os papéis chegaram da tipografia. O exercício consta de meio capítulo de Tucídides. Tive de relê-lo cuidadosamente, pois o texto tem de estar absolutamente correio. Às quatro e trinta, meu trabalho ainda não estava terminado. Eu prometera ir tomar chá nos aposentos de um amigo, de modo que deixei as provas sobre a escrivaninha. Fiquei ausente mais de uma hora. O senhor sabe, sr. Holmes, que as portas de nosso colégio são duplas, uma leve, por dentro, e outra de pesado carvalho, por fora. Quando me aproximei da porta externa, fiquei admirado por ver uma chave na fechadura. Por um momento julguei ter deixado ali a minha, mas, ao procurar no bolso, vi que tal não se dera. A única duplicata que existia, ao que me constava, pertencia a meu criado Bannister, que há dez anos cuida de meus aposentos e é de uma honestidade acima de qualquer suspeita. Verifiquei que a chave era sua, que ele entrara no quarto para saber se eu queria chá e que, descuidadamente, deixara a chave na fechadura ao sair. Sua ida ao meu quarto deve ter sido logo após minha saída. O esquecimento teria tido pouca importância noutra ocasião, mas neste dia teve as mais deploráveis conseqüências.

“No momento em que pus os olhos na escrivaninha, percebi que alguém andara remexendo meus papéis. As provas para o exame constavam de três longas folhas de papel. Eu as deixara todas juntas. Vi que uma delas estava no chão, outra na mesinha perto da janela e outra onde eu a deixara.”

Holmes moveu-se pela primeira vez.

— A primeira no chão, a segunda perto da janela e a terceira onde o senhor a deixara — disse ele.

— Espantoso, sr. Holmes. Como pôde saber a posição das folhas exatamente?

— Faça o favor de continuar sua interessante exposição.

— Por um momento, pensei que Bannister tivesse tomado a imperdoável liberdade de examinar meus papéis. Mas ele negou o fato com muita sinceridade, e fiquei convencido de que falava a verdade. A outra hipótese era de que alguém houvesse passado pela porta e, ao ver a chave, tivesse entrado para examinar os papéis. Uma grande quantia está em jogo, sr. Holmes, pois a bolsa de estudos é valiosa, e um homem sem escrúpulos poderia arriscar-se para ter vantagens sobre os outros concorrentes.

“Bannister ficou muito perturbado com o incidente. Quase desmaiou quando percebemos que tinham mexido nas provas. Dei-lhe um pouco do conhaque e deixei-o caído numa cadeira, enquanto examinava cuidadosamente o quarto. Logo verifiquei que o intruso deixara outros vestígios de sua presença, além de papéis em desordem. Na mesinha próxima à janela havia várias aparas da madeira de um lápis que fora apontado. Havia também um pedaço da ponta, quebrada. Evidentemente, o malandro copiou a prova às pressas, quebrou a ponta do lápis e apontou de novo.”

— Ótimo! — disse Holmes, a quem voltara o bom humor à medida que seu interesse aumentava. — O destino foi seu amigo.

— Não é só isso. Minha escrivaninha é nova, coberta de couro vermelho. Estou pronto a jurar, assim como Bannister, que a superfície era macia e sem manchas. Pois apresenta um corte de oito centímetros de comprimento! Não apenas um risco, mas um corte. Além disso, encontrei na mesa um torrãozinho de argila, com pontinhos que pareciam serragem. Tenho certeza de que esses vestígios foram deixados pelo homem que remexeu nos papéis. Não havia pegadas nem outros sinais de sua identidade. Fiquei sem saber o que fazer, mas, felizmente, lembrei-me de que o senhor estava na cidade, de modo que vim imediatamente procurá-lo. Por favor, ajude-me, sr. Holmes! Compreenda meu dilema. Tenho de encontrar o homem, ou o exame terá de ser adiado até que se preparem novas provas. Uma vez que isso não pode ser feito sem explicações, haverá um terrível escândalo, que atingirá não somente a faculdade, mas toda a universidade. Antes de mais nada, desejo que tudo seja feito discretamente.

— Terei muito prazer em investigar e auxiliá-lo no que puder — disse Holmes, erguendo-se e vestindo o sobretudo. — O caso não é destituído de interesse. Alguém visitou seus aposentos, depois que os papéis lhe foram entregues?

— Sim, Daulat, um estudante indiano que mora no mesmo andar e veio me pedir explicações sobre o exame.

— É um dos candidatos?

— É, sim, senhor.

— E os papéis estavam sobre a mesa?

— Pelo que me lembro, estavam enrolados.

— Mas ele poderia ter reconhecido as provas?

— É possível.

— Ninguém mais foi vê-lo?

— Não.

— Alguém sabia que as provas estariam lá?

— Pergunta se alguém, além do tipógrafo…?

— Bannister sabia? — perguntou Holmes.

— Não, claro que não. Ninguém sabia.

— Onde está Bannister, agora?

— Estava se sentindo muito mal, o coitado! Deixei-o caído numa cadeira. Eu estava ansioso por vir procurá-lo.

— Deixou a porta aberta?

— Primeiro fechei os papéis à chave.

— Então, chegamos a isto, sr. Soames: a não ser que o estudante indiano tenha reconhecido o rolo como sendo as provas, o homem que as examinou deu com elas por acaso, sem saber que estavam ali.

— É o que parece.

Holmes deu um sorriso enigmático.

— Muito bem, vamos até lá — disse ele.— Não é um caso para você, Watson — é mental, não físico. Muito bem, venha, se quiser. Agora, sr. Soames — às suas ordens!

O escritório de nosso cliente dava para o pátio coberto de líquen da velha faculdade, onde havia uma janela longa, baixa, gradeada. Uma porta gótica conduzia a uma gasta escada de pedra. No andar térreo ficavam os aposentos do professor. Em cima, moravam três estudantes, um em cada andar. Escurecia quando lá chegamos. Holmes parou e olhou atentamente para a janela. Depois, aproximou-se e, pondo-se nas pontas dos pés, de pescoço esticado para dentro do quarto.

— Ele deve ter entrado pela porta — observou nosso guia.

— Realmente? — exclamou Holmes, sorrindo singularmente e olhando de relance para nosso companheiro. — Bem, já que nada encontramos aqui, é melhor procurar lá fora.

O professor abriu a porta e fez-nos entrar em seus aposentos. Ficamos à entrada, enquanto Holmes examinava o tapete.

— Infelizmente, creio que não há marcas aqui — disse ele. — Não se poderia mesmo esperar por elas, em dia tão seco. Parece que seu empregado já está bem. O senhor diz que o deixou numa cadeira. Que cadeira?

— Perto da janela.

— Compreendo. Ao lado desta mesinha. Podem entrar, agora. Acabei com o tapete. Vamos examinar a mesinha. Não é difícil saber o que aconteceu. O homem entrou e apanhou as provas, folha por folha, na escrivaninha. Levou-as para a mesa próxima à janela, de onde veria o senhor atravessar o pátio, podendo então fugir.

— Para ser exato, não poderia — disse o professor. — Entrei pela porta do lado.

— Ah, ótimo! Mas, em todo caso, era essa a idéia dele. Deixe-me ver as folhas. Nada de impressões digitais. Pois bem, apanhou a primeira e copiou-a. Quanto tempo levaria, por mais esperto que fosse? Quinze minutos, nunca menos. Depois, deitou-a fora e apanhou outra. Estava no meio, quando sua chegada, sr. Soames, o obrigou a uma retirada apressada, muito apressada, uma vez que não teve tempo de guardar as provas no lugar certo, o que indicaria ao senhor que alguém estivera em seu quarto. Não ouviu passos apressados, na escada, quando passou pela porta exterior?

— Não, não ouvi.

— Pois bem, ele escrevia tão furiosamente que quebrou o lápis, tendo de apontá-lo novamente. Isso é interessante, Watson. O lápis não era do tipo comum. Era de tamanho invulgar, mole; a parte de fora, azul-escura, mostra o nome do fabricante em letras prateadas, e o pedaço que sobra é de apenas quatro centímetros. Procure esse lápis, sr. Soames, e terá seu homem. Quando eu acrescentar que ele possui uma faca afiada e grande, o senhor terá mais um indício.

O sr. Soames estava atônito com as informações.

— Posso compreender o resto — disse ele. — Mas, quanto ao comprimento do lápis…

Holmes ergueu uma das lascas, onde se viam as letras NN e um espaço de madeira livre depois delas.

— Vê? — perguntou.

— Nem mesmo assim…

Holmes explicou:

— Que poderia significar nn? É o final de uma palavra, Watson. Você sabe que Johann Faber é a marca mais comum de lápis. Não vê que o que sobra do lápis é exatamente a parte em que não está impresso o nome Johann?

— Holmes virou a mesinha de lado para a luz elétrica. — Tinha esperanças de que, se o papel onde ele escreveu fosse fino, ficasse qualquer marca na superfície polida da mesa. Mas nada vejo. Creio que nada mais podemos apurar aqui. Vamos ver a escrivaninha. Suponho que este torrão seja aquele a que o senhor se referiu. Triangular. Parece que há nele grãos de serragem. Interessante, não há dúvida. E o corte no couro é um rasgão, pelo que vejo. Começa com um risco e acaba num buraco. Fico-lhe muito grato por ter me chamado a atenção para este fato, sr. Soames. Para onde dá aquela porta?

— Para o meu quarto.

— Esteve lá após sua descoberta?

— Não, senhor, fui pedir seu auxílio imediatamente.

— Gostaria de vê-lo… Que quarto encantador, antigo! Peço-lhe que espere um minuto enquanto examino o soalho. Não, não descubro coisa alguma. E esta cortina! Ah, vejo que guarda as suas roupas atrás dela. Se alguém tivesse de se esconder no quarto, só poderia ser aqui, já que a cama é muito baixa, e o armário, muito estreito. Ninguém aqui, creio eu?

Quando Holmes abriu a cortina, vi pela rigidez que estava preparado para qualquer emergência. Mas ali nada havia, além de três ou quatro ternos de homem. Holmes virou-se e de repente abaixou-se para examinar o chão.

— Oh, o que é isto?

Era um torrãozinho escuro, igual ao que víramos na escrivaninha. Holmes colocou-o na palma da mão e examinou-o.

— O visitante deixou vestígios em seu quarto, assim como no escritório, sr. Soames.

— O que ele poderia querer aqui?

— Parece-me simples. O senhor surgiu inesperadamente, e ele não o notou até o senhor chegar à porta. Que poderia fazer? Agarrou em tudo o que denunciasse sua presença e escondeu-se no quarto.

— Deus do céu, sr. Holmes, quer dizer que, enquanto eu falava com Bannister nesta sala, poderíamos ter apanhado o homem no quarto?

— É minha opinião.

— Mas ainda há outra possibilidade, sr. Holmes. Parece-me que o senhor não examinou a janela de meu quarto.

— Sim, examinei, e sei que daria passagem a um homem.

— Exatamente. E dá para um ângulo do pátio, de modo que fica parcialmente escondida. O homem poderia ter entrado por ali, deixando vestígios ao passar pelo quarto, e ter saído depois pela porta, ao encontrá-la aberta.

Holmes sacudiu a cabeça com impaciência.

— Sejamos práticos — disse ele. — Creio tê-lo ouvido dizer que três estudantes se servem desta escada e costumam passar diante de sua porta.

— Exatamente.

— E todos os três estão inscritos no exame de amanhã?

— Estão.

— Tem algum motivo para suspeitar de algum deles em especial?

Soames hesitou.

— É uma pergunta muito delicada — disse ele. — Ninguém gosta de lançar suspeitas sem provas.

— Ouçamos as suspeitas. Deixe as provas por minha conta.

— Falarei, então, sobre o caráter dos três rapazes. O do andar de baixo é Gilchrist, bom estudante e ótimo atleta; joga rúgbi e críquete pela faculdade. É um rapaz distinto, viril. Seu pai foi o célebre Sir Jabez Gilchrist, que se arruinou nas corridas de cavalos. O filho ficou muito pobre, mas é estudioso e aplicado. Fará um bom exame.

“No segundo andar mora Daulat Rãs, o indiano. É um rapaz quieto, reservado, como em geral todos os seus compatriotas. Está preparado, embora o grego seja seu ponto fraco. Rapaz firme e metódico.

“No andar de cima mora Miles McLaren. É brilhante, quando se lembra de estudar, uma das mais vivas inteligências da universidade, mas é desorganizado e sem grandes princípios. Quase foi expulso no primeiro ano por causa de um jogo de cartas. Vadiou durante todo o semestre, e creio que receia o exame de amanhã.”

— Então é dele que o senhor suspeita?

— Não irei tão longe. Mas, dos três, é o mais provável.

— Perfeitamente, sr. Soames. Agora, gostaria de falar com seu criado, Bannister.

Bannister era um homem pequeno, barbeado, de cabelos grisalhos, aparentando mais ou menos cinqüenta anos. Ainda parecia sofrer as conseqüências do fato que perturbara a calma rotina de sua vida. Seu rosto apresentava contrações nervosas, e as mãos tremiam-lhe.

— Estamos investigando o desagradável incidente, Bannister — disse-lhe o patrão.

— Sim, senhor.

— Pelo que entendi, deixou a chave na porta — interveio Holmes.

— Sim, senhor.

— Não é estranho que tenha feito isso justamente no dia em que as provas se encontravam no quarto?

— Foi uma infelicidade, senhor. Mas não é a primeira vez que acontece.

— Quando foi que entrou no quarto?

— Mais ou menos às quatro e meia. Era a hora do chá do sr. Soames.

— Quanto tempo ficou?

— Ao ver que ele não estava, saí imediatamente.

— Olhou os papéis que estavam na escrivaninha?

— Não, senhor, claro que não.

— Por que deixou a chave na porta?

— Estava com a bandeja de chá nas mãos. Pensei em voltar para levar a chave, mas esqueci-me de fazê-lo.

— A porta de fora tem fechadura com trinco?

— Não, senhor.

— Então ficou aberta todo o tempo?

— Sim, senhor.

— Qualquer pessoa que estivesse no quarto poderia sair?

— Sim, senhor.

— Quando o sr. Soames voltou e o chamou, ficou muito perturbado?

— Sim, senhor. Nunca aconteceu coisa igual, durante todos os anos que tenho estado aqui. Quase desmaiei.

— Foi o que me disseram. Onde estava, quando começou a se sentir mal?

— Onde estava, senhor? Bem… aqui, perto da porta.

— É estranho, pois foi sentar-se naquela cadeira, do outro lado. Por que passou por todas estas outras cadeiras?

— Não sei, senhor. Não me fazia diferença a cadeira onde me sentasse.

O professor interveio.

— Não creio que ele possa dizer muita coisa, sr. Holmes. Estava muito perturbado, branco como um lençol.

— Ficou aqui, depois que seu patrão saiu?

— Apenas um minuto ou dois. Depois fechei o quarto e fui para o meu.

— De quem você desconfia?

— Oh, eu não ousaria dizer, senhor. Não creio que haja um rapaz, nesta universidade, capaz de se beneficiar com tal ato. Não, senhor, não posso acreditar.

— Muito obrigado. É tudo — disse Holmes. — Oh, mais uma coisa. Não disse a nenhum dos três rapazes o que tinha acontecido?

— Não, senhor, nem uma palavra.

— Não viu nenhum deles?

— Não, senhor.

— Muito bem. Agora, sr. Soames, vamos dar uma volta pelo pátio.

Três quadrados amarelos de luz brilhavam acima de nossas cabeças quando nos vimos no pátio, no meio da tarde que caía.

— Seus três pássaros estão no ninho — disse Holmes, erguendo os olhos. — Ora, ora! Parece que um deles está muito agitado.

Era o indiano, cuja negra silhueta se desenhara de repente na cortina. Andava de um lado para outro do quarto.

— Gostaria de dar uma olhada em cada um deles — disse Holmes. — Seria possível?

— Sem a menor dúvida — disse o professor. — Esses quartos são os mais velhos da faculdade, e não é raro virem visitá-los. Vamos, eu o apresentarei.

— Nada de nomes, por favor! — pediu Holmes, quando chegamos à porta de Gilchrist.

Fomos recebidos por um rapaz alto, magro, de cabelos claros, que nos acolheu cordialmente, quando soube a que vínhamos. A arquitetura medieval era de fato atraente. Holmes estava tão interessado que insistiu em copiar alguns desenhos em seu caderno de apontamentos, mas quebrou o lápis e teve de pedir um emprestado ao dono do quarto, acabando por pedir uma faca para apontá-lo. A mesma coisa aconteceu no quarto do indiano, um rapaz quieto, de nariz adunco, que nos olhou sem amabilidade e ficou satisfeito quando Holmes acabou com seus estudos arquitetônicos. Não achei que Holmes tivesse obtido resultado em nenhum dos casos. Somente no terceiro é que nossa visita não surtiu efeito. Quando batemos, não somente não nos abriram a porta, como ainda ouvimos impropérios.

— Não me importa quem sejam! — gritou o sujeito. — Podem ir para o inferno! O exame é amanhã e não quero que me perturbem.

— Sujeito grosseiro — disse o professor, vermelho de cólera, quando nos afastamos. — Claro que não sabia que era eu quem estava batendo, mas, de qualquer maneira, foi muito pouco amável, e convenhamos que sua atitude é suspeita, dadas as circunstâncias.

A reação de Holmes foi curiosa.

— Pode dizer-me qual a altura do rapaz? — perguntou.

— Francamente, sr. Holmes, não posso dizer ao certo. É mais alto do que o indiano, não tanto como Gilchrist. Creio que tem um metro e sessenta e cinco, aproximadamente.

— Isso é muito importante — disse Holmes. — E agora, boa noite, sr. Soames.

O professor pareceu consternado.

— Deus do céu, sr. Holmes, o senhor vai abandonar-me assim tão bruscamente? Não parece compreender a situação. O exame é amanhã. Preciso tomar sérias providências hoje à noite. Não posso permitir que o exame se realize, uma vez que houve tão grande irregularidade. Temos de enfrentar a situação.

— Deixe as coisas como estão. Virei aqui amanhã cedo e conversaremos sobre o caso. É possível que então possa lhe indicar uma maneira de agir. Neste meio tempo, não faça nada. Nada.

— Muito bem, sr. Holmes.

— Pode ficar tranqüilo, pois encontraremos uma saída. Levarei comigo o torrão de argila, assim como as aparas do lápis. Até amanhã.

Quando nos vimos na escuridão do pátio, erguemos de novo os olhos para as janelas. O indiano ainda passeava para lá e para cá. Os outros estavam invisíveis.

— Então, Watson, o que me diz? — perguntou Holmes quando chegamos à rua. — Jogo de salão, hein? O truque das três cartas. Lá estão seus três homens. Escolha um. Qual deles?

— O sujeito malcriado, do andar de cima. É o que tem a pior ficha. Mas o indiano também pareceu um sujeito dissimulado. Por que haveria de andar de um lado para outro, o tempo todo?

— Isso não quer dizer nada. Muitas pessoas gostam de andar, quando estão decorando qualquer coisa.

— Ele olhou-nos de maneira estranha.

— Você faria o mesmo se um bando de desconhecidos lhe caísse em cima, na véspera do exame, quando cada minuto tem importância. Não, nada vejo aí. Lápis e facas, tudo em ordem. Mas aquele sujeito deixa-me perplexo.

— Quem?

— Bannister, o criado. Qual será seu jogo?

— Pareceu-me um homem honesto.

— A mim também. Isso é que me deixa perplexo. Por que haveria um homem honesto de… bem, ali está uma papelaria. Começaremos nossa busca por aqui. Havia apenas quatro papelarias de alguma importância na cidade. Em todas elas, Holmes mostrou as aparas de lápis e pediu um lápis da mesma marca. Todos disseram que poderiam encomendar, mas que não eram de tamanho comum, e que nunca tinham tido daquele tipo em estoque.

Holmes não pareceu aborrecido com o fracasso. Encolheu os ombros, resignado.

— Não adianta, Watson. Era nossa melhor pista, e deu em nada! Mas creio que o caso se manterá de pé, mesmo sem isso. Deus meu! São quase nove horas, e a senhoria falou em servir ervilhas às sete e meia. Com sua mania de fumar, Watson, e sua falta de pontualidade às refeições, creio que logo receberá o bilhete azul, e terei de lhe fazer companhia. Mas nunca antes de termos resolvido o problema do professor nervoso, do criado descuidado e dos três estudantes audaciosos.

Holmes não fez mais alusão ao caso, embora tivesse ficado pensativo durante muito tempo, após nosso tardio jantar.

No dia seguinte, às oito da manhã, entrou em meu quarto, justamente quando eu acabava de me vestir.

— Bem, Watson, está na hora de irmos para a universidade. Pode passar sem seu café?

— Claro que sim.

— Soames deve estar sobre brasas, à espera de que eu lhe diga algo positivo.

— E tem alguma coisa de positivo para lhe dizer?

— Creio que sim.

— Chegou a uma conclusão?

— Sim, caro Watson. Resolvi o mistério.

— Mas que novos indícios conseguiu?

— Ah!… Não foi à toa que saí da cama a hora tão imprópria: seis da manhã! Trabalhei duramente, e caminhei pelo menos oito quilômetros. Mas o resultado valeu a pena. Olhe para isto aqui!

Holmes abriu a mão, e nela vi três torrõezinhos de terra escura.

— Mas, Holmes, ontem você só tinha dois!

— E mais um hoje de manhã. Creio que tenho um bom argumento: de onde veio o número 3, vieram também os números 1 e 2. Então, Watson?… Vamos tranqüilizar o amigo Soames.

O infeliz professor estava em um deplorável estado de agitação, quando o visitamos em seus aposentos. Dali a poucas horas começaria o exame, e ele ainda se encontrava num dilema, sem saber se cancelaria a prova, tornando o fato público, ou se permitiria ao culpado que concorresse à bolsa de estudos. Mal podia manter-se de pé, tal a sua agitação, e correu para Holmes de mãos estendidas, assim que o viu aparecer.

— Graças a Deus, chegou! Receei que tivesse desistido por não ter esperanças. Que devo fazer? Permitir que o exame se realize?

— Sem a menor dúvida.

— Mas… e o malandro?

— Esse não concorrerá.

— O senhor sabe quem é?

— Creio que sim. Para que o caso não se torne público, temos de nos atribuir certos poderes e organizar uma pequena corte marcial. Fique ali, Soames. Watson, você aqui! Ficarei na poltrona do centro. Creio que estamos suficientemente imponentes para lançar o terror numa alma culpada. Faça o favor de tocar a campainha.

Bannister apareceu, mas recuou, surpreso e amedrontado, ante nossa aparência de juízes.

— Faça o favor de fechar a porta — disse Holmes. — Agora, Bannister, quer ter a bondade de contar a verdade sobre o incidente de ontem?

O homem empalideceu.

— Contei tudo, senhor.

— Nada tem a acrescentar?

— Nada, senhor.

— Então, vou fazer algumas sugestões. Quando você se sentou naquela cadeira, ontem, não o fez para esconder um objeto que teria denunciado quem estivesse no quarto?

Bannister estava simplesmente lívido.

— Não, senhor, claro que não.

— É apenas uma sugestão — disse Holmes suavemente. — Confesso que nada poderia provar. Mas parece plausível, já que, assim que o sr. Soames virou as costas, você libertou o homem que estava no outro quarto.

Bannister molhou os lábios secos.

— Não havia homem nenhum, senhor.

— É uma pena, Bannister. Até aqui, você falou a verdade, mas agora sei que mentiu.

O criado tinha um ar de sombrio desafio.

— Não havia homem nenhum, senhor.

— Vamos, Bannister.

— Não, senhor, não havia ninguém.

— Nesse caso, não pode dar-nos nenhuma informação. Quer fazer o favor de ficar nesta sala? Agora, Soames, gostaria que fosse até o quarto do estudante Gilchrist, para pedir-lhe que venha até aqui.

Dali a momentos, o professor voltou com o aluno. Era um rapaz simpático, alto, ágil, de andar vivo e rosto franco. Os olhos azuis viram-nos de relance, parecendo perturbados, e finalmente detiveram-se, com expressão consternada, em Bannister, que estava a um canto.

— Feche a porta — disse Holmes. — Agora, sr. Gilchrist, estamos sós, e ninguém jamais precisará saber o que se passou aqui entre nós. Podemos falar com absoluta franqueza. Queremos saber, sr. Gilchrist, como o senhor, um homem honrado, chegou a cometer um ato como o de ontem.

O infeliz rapaz cambaleou, olhando para Bannister com horror e censura.

— Não, não, sr. Gilchrist, não disse uma palavra, nem uma palavra! — gritou o criado.

— Não; mas disse agora — declarou Holmes. — Vamos, rapaz, pode ver pelas palavras de Bannister que sua situação é melindrosa, e que sua única esperança está numa confissão franca.

De mão erguida, Gilchrist tentou, durante alguns segundos, dominar-se. Depois, atirou-se de joelhos ao chão, ao lado da escrivaninha, escondeu o rosto nas mãos e rompeu em soluços,

— Vamos, vamos — disse Holmes bondosamente. — Errar é humano, e pelo menos ninguém pode acusá-lo de ser reincidente. Talvez ache melhor que eu conte ao sr. Soames o que aconteceu. Poderá corrigir-me, se eu estiver enganado. Posso começar? Bem, não precisa responder. Ouça, e verá que não sou injusto.

Holmes dirigiu-se ao professor.

— No momento em que me disse que ninguém, nem mesmo Bannister, poderia saber que as provas se encontravam em seu quarto, sr. Soames, o caso começou a definir-se em minha mente. Quanto ao tipógrafo, claro que devia ser afastado. Ele poderia ter examinado as provas na oficina. Também não pensei no indiano. Se as provas estavam enroladas, ele não poderia tê-las reconhecido, quando veio a seu quarto. Por outro lado, parecia uma incrível coincidência que um rapaz ousasse entrar em seu quarto e que por acaso encontrasse ali as provas nesse dia. Afastei essa idéia. Mas, então, como poderia ele ter sabido?

“Quando me aproximei de seu quarto, examinei a janela. O senhor divertiu-me, supondo que eu admitia a hipótese de alguém ter ousado penetrar aqui em pleno dia, à vista dos outros quartos. A idéia era absurda. Mas na verdade eu estava tentando verificar de que altura precisaria ser um homem para poder enxergar, ao passar pela janela, as provas que se encontravam sobre a escrivaninha. Tenho um metro e oitenta de altura, e só o consegui com dificuldade. Nenhum homem mais baixo poderia espreitar para dentro do quarto. Achei, portanto, que se um de seus estudantes fosse muito alto, era sobre ele que deveriam recair nossas suspeitas. Entrei em seu quarto, sr. Soames, e ao descrever-me os estudantes o senhor disse que Gilchrist era atleta, saltador. Vi imediatamente como tudo se dera. Precisava apenas obter provas, o que não me foi difícil.

“Eis o que aconteceu. O rapaz passara a tarde no campo de atletismo, exercitando-se em salto. Voltou, calçando os sapatos de atletismo, os quais, como o senhor sabe, têm solas com travas. Ao passar por sua janela, viu, por ser muito alto, que as provas estavam sobre a escrivaninha. Nada de mau teria acontecido se ele não tivesse visto, ao passar pela porta, a chave que o criado ali esquecera. Teve a súbita tentação de entrar, para ver se realmente eram as provas. Não era muito arriscado, pois sempre poderia dizer que entrara para fazer uma pergunta.

“Pois bem, quando viu que eram realmente as provas, sucumbiu à tentação. Pôs os sapatos na escrivaninha.” Holmes dirigiu-se ao rapaz: — Que foi que pôs na cadeira perto da janela?

— As luvas — respondeu Gilchrist.

Holmes olhou para Bannister com ar de triunfo.

— Pôs as luvas na cadeira e levou as provas, uma a uma, para copiá-las perto da janela. Calculou que o professor voltaria pelo portão principal e que dali poderia vê-lo chegar. Mas, como sabemos, o sr. Soames entrou pelo portão lateral. De repente, o rapaz ouviu-o à porta. Não podia fugir. Esqueceu as luvas, mas agarrou os sapatos e escondeu-se no quarto de dormir. Podem ver que o rasgo da escrivaninha é leve de um lado, mas que se aprofunda na direção do quarto. Isso basta para nos provar que foi esse o rumo que o culpado tomou. A terra à volta de uma trava ficou na escrivaninha, e um segundo torrão caiu no quarto. Participo-lhes que fui a pé até o campo de atletismo, hoje de manhã, vi a argila escura que existe no campo de treino de saltos e trouxe uma amostra, salpicada da serragem que usam para que os atletas não escorreguem. Disse a verdade, sr. Gilchrist?

O estudante erguera-se.

— Sim, senhor, é a verdade.

— Deus do céu, nada mais tem a dizer? — exclamou Soames.

— Sim, senhor, tenho, mas o choque deixou-me perturbado. Tenho aqui uma carta, sr. Soames, que lhe escrevi no meio de uma noite inquieta. Foi escrita antes de saber que meu crime fora descoberto. Aqui está. O senhor verá o que escrevi: “Resolvi não fazer o exame. Ofereceram-me um lugar na polícia da Rodésia, e sigo imediatamente para a África do Sul”.

— Fico satisfeito por ver que não pretendia aproveitar-se da vantagem que obteve — disse Soames. — Mas por que mudou de idéia?

Gilchrist indicou Bannister.

— Ali está o homem que me pôs no bom caminho — disse ele.

— Vamos lá, Bannister — disse Holmes. — Pelo que eu disse, bem vê que a única pessoa que poderia libertar o rapaz seria você mesmo, já que ficou aqui no quarto e fechou a porta depois de sair. Quanto à hipótese de ele ter saltado pela janela, é inadmissível. Não quer esclarecer esse último ponto do mistério e explicar a razão de seu ato?

— Era muito simples, mas há um fato que, apesar de toda a sua inteligência, o senhor não poderia saber. Durante um certo tempo fui mordomo de Sir Jabez Gilchrist, pai do rapaz. Quando ele perdeu a fortuna, vim ser criado aqui na universidade, mas não me esqueci de meu patrão, pelo fato de estar por baixo na vida. Cuidei do filho dele como pude, por amor aos velhos tempos. Pois bem, senhor, quando ontem vim até aqui, depois do incidente, a primeira coisa que vi foram as luvas do sr. Gilchrist naquela cadeira. Conhecia as luvas e sabia o que sua presença significava. Se o sr. Soames as visse, estaria tudo perdido. Caí na cadeira e ninguém dali me tiraria, até o sr. Soames sair à sua procura. Depois, meu patrãozinho saiu do quarto, ele que eu carregara ao colo, e confessou-me tudo. Não era natural que eu o salvasse, e não era também natural que eu lhe falasse como seu velho pai teria feito, se fosse vivo? Procurei fazer com que compreendesse que não poderia aproveitar-se do que fizera. O senhor censurar-me-ia?

— Não, nunca! — exclamou Holmes, erguendo-se. — Pois bem, Soames, desvendamos o mistério, e o café está à nossa espera. Venha, Watson. Quanto ao senhor, sr. Gilchrist, espero que tenha um brilhante futuro na Rodésia. Por uma vez, deixou-se cair; vejamos a que altura poderá elevar-se no futuro.

1905
A volta de Sherlock Holmes

1. A casa vazia § 2. O construtor de Norwood
3. Os dançarinos § 4. A ciclista solitária
5. A escola do priorado § 6. Pedro Negro
7. Charles Augustus Milverton § 8. Os seis bustos de Napoleão
9. Os três estudantes § 10. O pincenê dourado
11. O atleta desaparecido § 12. Abbey Grange § 13. A segunda mancha

Ilustrações: Frederic Dorr Steele e Sidney Paget, cortesia The Camden House
Transcrição: Mundo Sherlock

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