Pedro Negro

Arthur Conan Doyle

Pedro Negro

Título original: Black Peter
Publicado pela primeira vez na Collier’s Weekly,
em Fevereiro de 1904, com 6 ilustrações de Frederic Dorr Steele
e na Strand Magazine, em Março de 1904,
com 7 ilustrações de Sidney Paget.

Sobre o texto em português:
Este texto digital reproduz a
tradução de Black Peter publicado em
As Aventuras de Sherlock Holmes, Volume IV,
editado pelo Círculo do Livro
e com tradução de Lígia Junqueiro.

Nunca vi meu amigo Holmes mais em forma, tanto física como mentalmente, como naquele ano de 95. A fama lhe trouxera inúmeros clientes — e eu seria considerado indiscreto, se chegasse a aludir aos nomes ilustres daqueles que atravessaram o umbral da nossa porta na Baker Street.

Como todos os artistas, Holmes amava a arte pela arte, e, a não ser no caso do duque de Holdernesse, raras vezes o vi reclamar grande recompensa pêlos seus inestimáveis serviços. Tão desprendido — ou caprichoso — se mostrava, que muitas vezes se recusava a ajudar os ricos e poderosos, dedicando semanas aos interesses de um cliente humilde, que lhe trouxera um caso cheio de características curiosas e surpreendentes, que apelavam para a sua imaginação e lhe desafiavam a argúcia.

No memorável ano de 95, uma incongruente e curiosa sucessão de casos lhe prenderam a atenção, desde a famosa investigação do assassinato do cardeal Tosca (a pedido do próprio papa) até a prisão de Wilson, o famoso criador de canários, prisão que acabou com a praga que assolava a parte leste de Londres. Logo após esses dois famosos casos, veio a tragédia de Woodman’s Lee e as obscuras circunstâncias que rodearam a morte do capitão Peter Carey. Nenhum relatório dos feitos de Sherlock Holmes seria completo se não incluísse tão extraordinária história.

Na primeira semana de julho, meu amigo ausentou-se tantas vezes de casa, que senti que alguma coisa se passava. O fato de vários homens de má aparência terem vindo perguntar, nessa semana, pelo capitão Basil, fez-me compreender que Holmes estava trabalhando sob algum dos inúmeros disfarces e nomes falsos que lhe ocultavam a identidade.

Ele tinha pelo menos cinco refugiozinhos em Londres, onde poderia mudar de personalidade. Nada me dissera das suas atividades, e não era meu hábito forçar confidências. A primeira indicação que me deu do rumo que tomava sua investigação foi, de fato, extraordinária.

Ele saíra antes da refeição da manha, e eu me sentara para dar início à minha, quando o vi entrar na sala, de chapéu na cabeça e com um enorme arpão debaixo do braço, à guisa de guarda-chuva.

— Deus do céu, Holmes! Não me diga que andou por Londres carregando isso!

— Fui até o açougue e voltei.

— Açougue?

— E vim com ótimo apetite. Não há dúvida, caro Watson, quanto ao valor do exercício, antes do café da manhã. Mas garanto que não adivinha que tipo de exercício foi.

— Nem vou tentar adivinhar.

Holmes deu uma risadinha, servindo-se de café.

— Se tivesse ido até os fundos do açougue de Allardyce, teria visto um porco morto, pendurado num gancho do teto, e um senhor em mangas de camisa golpeando-o furiosamente com esta arma. Essa enérgica pessoa era eu, e certifiquei-me de que, por mais que me esforce, não posso trespassar o porco de um só golpe. Talvez você queira experimentar…

— Por nada deste mundo. Mas por que fez isso?

— Porque me parece que tem relação indireta com o mistério de Woodman’s Lee… Ah, Hopkins, recebi ontem seu telegrama e estava à sua espera. Venha nos fazer companhia.

Nosso visitante era um homem muito vivo, de trinta anos mais ou menos, com um terno de tweed, mas mantendo-se teso como quem está habituado a envergar uniforme. Reconheci-o imediatamente como sendo Staniey Hopkins, jovem inspetor da polícia. Holmes nutria grandes esperanças a seu respeito, e ele, por sua vez, tinha viva admiração pelos métodos científicos de meu amigo. Hopkins sentou-se, com ar sombrio, parecendo muito desanimado.

— Não, obrigado, tomei café antes de sair. Passei a noite aqui em Londres, pois cheguei ontem à noite, para fazer meu relatório.

— E como foi ele?

— Fracasso, absoluto fracasso.

— Não fez o menor progresso?

— Nenhum.

— Deus do céu, então preciso dar uma olhadela no caso.

— Não desejo outra coisa, sr. Holmes. É minha primeira grande oportunidade, e não sei o que fazer. Pelo amor de Deus, dê-me uma ajuda.

— Bom, bom… Acontece que já li, com toda a atenção, o que se passou no inquérito. Por falar nisso, que me diz da bolsa de tabaco que foi encontrada na cena do crime? Algum indício aí?

Hopkins pareceu admirado.

— Pertencia à própria vítima. As iniciais estavam dentro. A bolsa era de pele de foca, e ele era um velho pescador de focas.

— Mas não possuía cachimbo.

— Não, senhor, de fato não encontramos nenhum cachimbo. Sabe-se, mesmo, que fumava muito pouco. Mas podia ter tabaco em casa, para os amigos.

— Sem dúvida. Só falei nisso porque, se eu estivesse tratando do caso, seria esse meu ponto de partida na investigação. Mas meu amigo, o dr. Watson, nada sabe a respeito do assunto, e não lhe faria mal ficar sabendo dos acontecimentos. Dê-nos um resumo dos fatos essenciais.

Stanley Hopkins tirou um papel do bolso.

— Tenho aqui umas notas que farão com que conheçam a carreira do morto, capitão Peter Carey. Nasceu em 45: estava, portanto, com cinqüenta anos de idade. Foi um ousado e bem-sucedido pescador de focas e baleias. Em 1883, comandou o baleeiro Sea Unicorn, de Dundee. Fez várias viagens sucessivas, e no ano seguinte, 1884, aposentou-se. Depois disso, viajou durante alguns anos e, finalmente, comprou uma pequena propriedade chamada Woodman’s Lee, perto de Forest Row, em Sussex. Viveu ali durante seis anos e ali morreu há uma semana.

“Havia vários pontos curiosos a respeito do homem. Na vida comum, era um puritano, sujeito sombrio, silencioso. Tinha mulher e uma filha de vinte anos. Em casa, havia duas empregadas, mas eram constantemente substituídas, pois o lugar não era alegre e chegava às vezes a tornar-se insuportável. O homem de vez em quando embebedava-se, e, quando isso acontecia, parecia um demônio. Sabe-se que chegou a expulsar de casa a mulher e a filha, no meio da noite, chicoteando-as no parque, até elas acordarem toda a vila com seus gritos.”

Stanley Hopkins continuou:

— Certa vez, foi chamado à polícia por ter atacado o vigário, que fora procurá-lo para repreendê-lo e dar-lhe conselhos. Em suma, sr. Holmes, seria difícil encontrar homem mais perigoso do que Peter Carey, e ouvi dizer que, no tempo em que comandava seu navio, não era melhor. Chamavam-no Black Peter, e o nome lhe fora dado não pela tez escura, nem pela cor negra da enorme barba, mas sim pelas terríveis histórias que se contavam a seu respeito. Não preciso dizer que era odiado por todos os vizinhos e que não ouvi uma palavra de pesar por sua morte.

Stanley Hopkins fez uma pausa e continuou:

— O senhor deve ter lido, no processo, a descrição da cabana do homem, sr. Holmes, mas talvez seu amigo não a conheça. Ele construiu uma cabana de madeira, a cem metros da casa, e era ali que dormia todas as noites. Era uma cabana pequena, com um quarto só, de cinco metros por três. O homem guardava a chave no bolso, fazia a cama, cuidava ele próprio da limpeza e não permitia que pessoa alguma pusesse os pés ali. Há janelinhas de cada lado, cobertas por cortinas que nunca eram abertas. Uma dessas janelas dava para a auto-estrada, e, quando as luzes ali brilhavam de noite, o povo costumava apontá-la, imaginando o que estaria fazendo Black Peter. Foi essa janela, sr. Holmes, que nos forneceu um pequeno indício.

“O senhor deve se lembrar de que um pedreiro chamado Salter, que vinha de Forest Row à uma da madrugada, dois dias antes do crime, parou, ao passar por ali, e viu o quadrado de luz brilhando por entre as árvores. Jura que a sombra da cabeça de um homem era visível atrás da cortina, e que não era a cabeça de Peter Carey, que ele conhecia muito bem. Era a cabeça de um homem de barba, sim, mas de barba curta, espetada para a frente, de formato diferente da barba do capitão. É o que diz o pedreiro, mas devemos ter em conta que ele passara duas horas na taverna e que há certa distância entre a casa e a estrada. Além do mais, isso foi na segunda-feira, e o crime foi cometido na quarta.

“Na terça, Peter Carey estava num dos seus piores dias, completamente bêbado, e parecia um animal selvagem. Vagueou pela casa, e as mulheres fugiam todas as vezes que o viam aproximar-se. Já tarde da noite, foi para a cabana. Mais ou menos às duas da madrugada, sua filha — que dorme com a janela aberta — ouviu um grito medonho, vindo daquela direção, mas não era novidade ouvi-lo gritar quando estava bêbado, e ninguém deu importância ao fato. Às sete da manhã, uma das empregadas notou que a porta da cabana estava aberta, mas era tão grande o terror que o homem inspirava, que somente ao meio-dia alguém teve coragem de ir ver o que lhe acontecera. Espreitando pela porta aberta, viram um espetáculo que fez com que corressem, apavorados, para a vila. Uma hora depois, eu estava lá, pronto para investigar o caso.

“Pois bem, tenho nervos fortes, como o senhor sabe, sr. Holmes, mas garanto-lhe que fiquei trêmulo quando espreitei dentro da cabana. Zumbiam moscas e varejeiras, e as paredes e o chão lembravam os de um açougue. A cabana parecia um camarote de navio. Havia um catre, a um canto; uma arca, mapas e um retraio do Sea Unicorn, e também alguns diários de bordo, numa prateleira, exatamente o que a gente esperaria encontrar no camarote de um capitão de navio. E, no meio de tudo isso, vi o homem, com o rosto contorcido como o de uma criatura supliciada. Em seu peito, estava enfiado um arpão de aço, que se espetara na parede atrás dele. O homem estava preso como um escaravelho num papelão. Claro que estava morto, como morto estivera desde o momento em que soltara o último grito de dor.”

Hopkins continuou:

— Conheço seus métodos, sr. Holmes, e apliquei-os. Antes de permitir que mexessem em qualquer coisa, examinei cuidadosamente o terreno, no exterior, e também o chão da casa. Não havia pegadas.

— Quer dizer que não viu nenhuma?

— Garanto que não havia nenhuma.

— Meu caro Hopkins, tenho investigado muitos crimes, mas até hoje não vi um único que tivesse sido cometido por uma criatura voadora. Enquanto o criminoso se firmar em duas pernas, deve haver alguma marca que possa ser notada pelo investigador científico. É incrível que esse quarto todo manchado de sangue não nos possa fornecer um indício. Pelo que li, parece-me que havia alguns objetos que você não deixou de notar, não?

O jovem inspetor contraiu-se, ante os irônicos comentários de meu amigo.

— Fui tolo em não o chamar na ocasião, sr. Holmes, mas agora já não há remédio. Sim, havia no quarto vários objetos que me chamaram a atenção. Um foi o arpão, instrumento do crime. Fora arrancado de uma prateleira na parede. Restavam dois, e havia o lugar vago do terceiro. No cabo estava gravado “S. S. Sea Unicorn, Dundee”. Isso parecia indicar que o crime fora cometido num momento de fúria, tendo o assassino agarrado a primeira arma que encontrara. O fato de o crime ter sido cometido às duas da manhã e de Peter Carey estar completamente vestido indica que ele tinha encontro marcado com o assassino — e isso parece confirmado pela presença de uma garrafa de rum e dois copos sobre a mesa.

— Sim, creio que podemos admitir as duas hipóteses — disse Holmes. — Havia outras bebidas, além de rum, no quarto?

— Sim, havia uma garrafa de conhaque e outra de uísque na arca. Mas isso não nos interessa, pois ambas as garrafas estavam cheias, e, portanto, ninguém se servira delas.

— Mesmo assim, a presença dessas garrafas é significativa — disse Holmes. — Mas ouçamos mais alguma coisa a respeito dos objetos que lhe pareceram importantes.

— Havia a bolsa de tabaco, em cima da mesa.

— Em que lugar da mesa?

— No centro. Era de pele de foca, comum, amarrada por uma tira de couro. Em cima, na parte interior, vimos as iniciais P. C. Havia dentro quinze gramas de tabaco forte.

— Ótimo! Que mais?

Stanley Hopkins tirou do bolso um caderno de apontamentos, já muito velho. Na primeira página estava escrito “J. H. N.” e a data: “1883”.

Holmes colocou o caderno sobre a mesa e examinou-o cuidadosamente, enquanto Hopkins e eu olhávamos por cima do seu ombro. Na segunda página estavam as letras “C. P. R.” e depois várias folhas de algarismos. Outras páginas tinham como títulos “Argentina”, “Costa Rica” e “São Paulo”, cada um deles seguido por páginas de sinais e algarismos.

— Que me diz disso? — perguntou Holmes.

— Parece que são listas de ações da Bolsa. Pensei que “J. H. N.” fossem as iniciais de um corretor e que “C. P. R.” talvez tivesse sido cliente.

— Experimente “Canadian Pacific Railway” — disse Sherlock Holmes.

Stanley blasfemou por entre os dentes e bateu na perna com a mão fechada.

— Que idiota fui! — exclamou. — Claro que é como o senhor diz. Portanto, as únicas iniciais que ainda temos que solucionar são “J. H. N.”. Já examinei as velhas listas da Bolsa e não encontrei, em 1883, nenhum corretor cujas iniciais correspondam a essas. Mas sinto que é o melhor indício que tenho, até agora. O senhor há de admitir, sr. Holmes, que há ossibilidade de estas iniciais serem as da pessoa que estava presente… por outras palavras, o assassino. Posso também afirmar que o aparecimento de um documento relacionado com grande número de ações nos dá, pela primeira vez, idéia do motivo do crime.

A expressão de Sherlock Holmes indicou que se surpreendia com a novidade.

— Admito os seus dois pontos de vista — disse ele.

— Confesso que o caderno de apontamentos, que não apareceu no inquérito, modifica qualquer hipótese que eu possa ter formado. Eu tinha uma teoria sobre o crime onde não há lugar para isso. Tentou investigar essas ações que mencionou?

— Estamos tratando disso, mas creio que o registro dos nomes dos donos das ações sul-americanas esteja na América do Sul, e que seja necessário algum tempo, até recebermos qualquer notícia.

Holmes examinava a capa do caderninho com uma lente.

— Não há dúvida de que há aqui uma descoloração — disse ele.

— Sim, senhor, é uma mancha de sangue. Eu lhe disse que o apanhei do chão.

— A mancha estava em cima ou embaixo?

— Embaixo, do lado virado para o chão.

— Isso prova, naturalmente, que o caderno caiu depois que o crime foi cometido.

— Exatamente, sr. Holmes. Concordo com esse ponto, e acho que o caderno foi jogado no chão pelo assassino, na sua fuga apressada. Estava perto da porta.

— Creio que nenhuma dessas ações foi encontrada no meio dos objetos do morto, não?

— Não, senhor.

— Tem algum motivo para suspeitar de roubo?

— Não. Parece que não tocaram em nada.

— Meu Deus, o caso é interessante. Mas havia uma faca, não havia?

— Sim, havia, ainda embainhada. Estava aos pés do morto. A sra. Carey identificou-a como sendo do marido.

Holmes ficou durante alguns momentos pensativo. Finalmente disse:

— Bom, creio que tenho de ir até lá, para dar uma olhadela.

Stanley Hopkins soltou uma exclamação de alegria.

— Muito obrigado. O senhor me tira um peso da consciência.

Holmes sacudiu o dedo para o inspetor.

— Teria sido muito mais fácil há uma semana — admoestou ele. — Mas, mesmo agora, talvez minha viagem não seja inútil. Watson, se dispuser de tempo, teria muito prazer em que me acompanhasse. Se chamar um carro, Hopkins, estaremos prontos para partir dentro de quinze minutos.

Descemos na estaçãozinha à beira da estrada e atravessamos quilômetros de uma região de matas esparsas, que antigamente tinham feito parte da grande floresta que, durante muito tempo, detivera os invasores saxões: a impenetrável floresta que durante sessenta anos foi o baluarte da Bretanha. Vastos trechos tinham sido devastados, pois ali fora o centro dos primeiros trabalhos em ferro, no país, e as árvores tinham sido derrubadas para se fundir o minério. Agora, os campos mais ricos do norte tinham absorvido essa indústria, e nada (a não ser aqueles pequenos bosques devastados e as grandes marcas na terra) indicava o trabalho do passado. Na parte limpa, na encosta de um morro, via-se uma casa de pedra baixa, à qual se chegava por um caminho curvo através dos campos. Perto da estrada, cercada em três dos lados por moitas, via-se uma cabana, com uma janela e uma porta para o nosso lado. Era a cena do crime.

Stanley Hopkins nos levou primeiro até a casa, onde nos apresentou a uma mulher esquálida, de cabelos grisalhos: a viúva da vítima. O rosto enrugado, de olhos aterrorizados, indicava os anos de sofrimento e maus-tratos a que ela se vira exposta. A seu lado estava a filha, jovem, pálida e loura, de olhos que tiveram um brilho de desafio quando nos contou que estava satisfeita com a morte do pai e que abençoava a mão que o abatera. Terrível, o lar que Peter Carey formara — e foi com prazer e alívio que nos vimos de novo fora, ao ar livre e ao sol, tomando o caminho que tantas vezes o morto utilizara.

A cabana era muito simples, com paredes de madeira, uma janela perto da porta e outra na extremidade oposta. Staniey Hopkins tirou a chave do bolso. Inclinara-se para abrir a porta, quando parou, com expressão atenta e admirada no rosto.

— Alguém andou mexendo aqui — disse ele.

Quanto a isso, não havia dúvida. A madeira estava lascada, e viam-se os frisos brancos sob a pintura, como se fosse coisa recentíssima. Holmes examinava a janela.

— Alguém tentou forçar isto aqui sem resultado. Deve ter sido um ladrão muito primário!

— É extraordinário — disse o inspetor. — Poderia jurar que estas marcas não estavam aqui ontem à noite.

— Talvez qualquer pessoa curiosa, da vila — sugeri.

— Pouco provável. Poucas pessoas ousariam pôr os pés aqui, e muito menos tentariam entrar à força na cabana.

Que diz a isso, sr. Holmes?

— Acho que o destino foi muito bom para nós.

— Quer dizer que a pessoa voltará?

— Provavelmente. Veio, esperando encontrar a porta aberta. Tentou entrar, servindo-se de um canivete pequeno. Não o conseguiu. Que faria, então?

— Voltaria na noite seguinte, com um instrumento mais útil.

— É o que penso. Será culpa nossa, se não estivermos aqui para recebê-lo. Nesse meio tempo, deixe-me ver o interior da cabana.

Tinham sido removidos os vestígios da tragédia, mas a mobília ainda continuava como estivera na noite do crime. Durante duas horas, com grande concentração, Holmes examinou todos os objetos, mas sua expressão indicava que não obtinha resultados. Somente uma vez parou, em sua paciente investigação.

— Tirou alguma coisa desta prateleira, Hopkins?

— Não, não mexi em nada.

— Alguma coisa foi tirada. Há menos pó, aqui, do que nas outras. Pode ter sido a marca de um livro, posto de lado. Ou de uma caixa. Bom, nada mais posso fazer aqui. Vamos passear por essas lindas matas, Watson, e dedicar nossa atenção aos pássaros e às flores. Nós o encontraremos mais tarde, Hopkins, para tentar ver mais de perto o cavalheiro que aqui veio fazer uma visita durante a noite.

Eram onze horas e pouco, quando preparamos nossa emboscada. Hopkins queria que deixássemos a porta aberta, mas Holmes achou que isso iria despertar as suspeitas do estranho. A fechadura era muito simples, e bastaria uma lâmina forte para empurrá-la. Holmes sugeriu também que esperássemos não dentro da cabana, mas do lado de fora, no meio das moitas que cresciam perto da janela da outra extremidade. Desse modo, poderíamos ver nosso homem, se ele acendesse uma luz, e descobrir qual o objetivo de sua visita noturna.

Foi uma vigília longa e melancólica, mas trouxe-nos a emoção do caçador que fica perto da poça de água, à espera do animal sedento. Que selvagem criatura apareceria diante de nós, saindo da escuridão? Seria um terrível tigre do crime, contra quem só se poderia lutar com garras afiadas, ou algum matreiro chacal, perigoso somente para os fracos e os desprevenidos? Em absoluto silêncio, ficamos acocorados no meio das moitas, esperando quem viesse. A princípio, os passos de alguns aldeões retardatários, ou o som de vozes da vila, perturbaram nossa vigília. Mas, uma a uma, essas interrupções foram desaparecendo. Rodeou-nos um silêncio profundo, quebrado de vez em quando pelo sino da igreja distante, que nos indicava o progresso da noite, e pelo murmúrio da chuva fina, caindo sobre a folhagem que nos cobria e envolvia.

Ouvimos as duas badaladas que indicavam a hora mais escura que precede a madrugada, e, de repente, sobressaltamo-nos com um estalido seco, vindo do portão. Houve de novo um silêncio, e começávamos a pensar que se tratava de alarme falso, quando ouvimos passos furtivos do outro lado da cabana. Logo em seguida, um estalido metálico, indicando que alguém tentava forçar a porta. Dessa vez a habilidade foi maior, ou o instrumento mais adequado, pois de repente ouvimos o ranger de gonzos. Acenderam um fósforo, e no momento seguinte a luz de uma vela brilhou no interior da cabana. Através da cortina de gaze, nossos olhos procuraram divisar o que se passava lá dentro.

O visitante noturno era um rapaz jovem, magro e franzino, de bigode preto que lhe acentuava a palidez do rosto. Devia ter pouco mais de vinte anos. Nunca vi ser humano que parecesse mais amedrontado, pois seus dentes batiam e tremiam-lhe os membros. Estava vestido como um cavalheiro, de jaqueta Norfolk e calças de golfe; na cabeça, boné de pano. Olhou em volta, com ar amedrontado. Depois, colocou a vela na mesa e desapareceu da nossa vista, num dos cantos da sala. Voltou com um livro grande, um dos diários de bordo que estavam alinhados na prateleira. Encostando-se à mesa, virou rapidamente as páginas, até chegar ao ponto que procurava. Depois, com um gesto encolerizado, fechou o livro, tornou a colocá-lo na prateleira e apagou a luz. Mal se voltara para sair, a mão de Hopkins agarrou-o pela gola e ouvimos-lhe um grito de terror, quando compreendeu que fora apanhado. Acendemos de novo a luz e vimos o infeliz prisioneiro, trêmulo, nas mãos do detetive. Sentou-se pesadamente, olhando-nos com ar desamparado.

— Agora, caro senhor, diga quem é e o que faz aqui — ordenou Hopkins.

— São detetives, com certeza… E julgam que tenho alguma coisa a ver com a morte de Peter Carey? — perguntou o rapaz. — Garanto que estou inocente.

— Veremos — replicou Hopkins. — Em primeiro lugar, como se chama?

— John Hople Neligan.

Vi Holmes e o detetive trocarem um rápido olhar.

— Posso falar confidencialmente? — perguntou o rapaz.

— Claro que não.

— Então, por que haverei de contar-lhes?…

— Se não quiser falar, isso poderá prejudicá-lo no julgamento.

O rapaz contraiu-se.

— Pois bem, vou falar. E por que não? — disse ele. — Mesmo assim, tenho horror a ver ressuscitado o antigo escândalo. Ouviram falar de Dawson & Neligan?

Pela expressão de Hopkins, percebi que o nome nada lhe dizia, mas Holmes me pareceu vivamente interessado.

— Refere-se aos banqueiros — disse meu amigo. — Falência de um milhão. Arruinaram metade das famílias do condado de Cornwail, e Neligan desapareceu.

— Exatamente. Neligan era meu pai.

Finalmente, tínhamos algo de concreto, mas parecia haver muita distância entre um banqueiro falido e a morte do capitão Peter Carey, que fora espetado na parede com um dos seus próprios arpões. Ouvimos atentamente a história do rapaz.

— O verdadeiro implicado era meu pai, pois Dawson estava aposentado. Eu só tinha dez anos, naquela altura, mas era uma idade suficiente para sentir horror e vergonha… Sempre julgaram que meu pai roubara as ações e os títulos e fugira. Não é verdade. Ele acreditava que, se lhe dessem tempo, poderia resolver o caso e pagar a todos os credores. Partiu para a Noruega, no seu iate, antes que fosse expedido um mandado de prisão contra ele. Lembro-me da noite em que se despediu de minha mãe. Deixou-nos uma lista dos títulos que levava e jurou que voltaria com o nome limpo, e que nenhum dos que tinham confiado nele sofreria prejuízos. Nunca mais tivemos notícias dele. Tanto meu pai como o iate desapareceram. Minha mãe e eu acreditamos que ele e os títulos estavam no fundo do mar. Mas temos um amigo, homem de negócios, que descobriu que há algum tempo certos títulos que foram levados por meu pai tinham aparecido no mercado de Londres. Levei meses à procura de uma pista, e, depois de grandes dificuldades, descobri que haviam sido vendidos por um tal capitão Peter Carey, o dono desta cabana.

“Procurei, naturalmente, investigar a vida do homem. Descobri que comandara um baleeiro e que devia ter voltado do mar Ártico na mesma ocasião em que meu pai se dirigira para a Noruega. O tempo estivera tormentoso naquela época do ano, tendo havido grandes tufões. Era possível que o iate de meu pai tivesse sido levado para o norte e encontrado o navio do capitão Carey. Se fosse esse o caso, que fim levara meu pai? De qualquer maneira, eu poderia provar, por intermédio de Peter Carey, que meu pai não vendera tais ações e que não pretendera lucro quando as levara.

“Vim a Sussex com intenção de visitar o capitão, quando se deu a tragédia. Li no processo a descrição desta cabana e fiquei sabendo da existência dos diários de bordo. Pareceu-me que, se eu conseguisse saber o que acontecera no mês de agosto, no ano de 1883, a bordo do Sea Unicorn, descobriria qual fora a sorte de meu pai. Tentei entrar aqui a noite passada, mas não consegui abrir a porta. Consegui-o hoje, mas vi que as páginas referentes àquela época haviam sido arrancadas. Foi então que os senhores me pegaram.”

— Só isso? — perguntou Hopkins.

— Sim, só isso — respondeu o rapaz, desviando os olhos.

— Nada mais tem a dizer?

Ele hesitou.

— Não, nada mais.

— Não esteve aqui na noite de anteontem?

— Não.

— Como explica isto aqui? — perguntou Hopkins, mostrando o caderno de apontamentos, com a mancha de sangue e as iniciais do prisioneiro na capa.

— Onde o encontraram? — gemeu o rapaz. — Eu não sabia. Pensei que o tivesse perdido no hotel.

— Basta — disse Hopkins. — Seja o que for que tiver para dizer, será dito no julgamento. Agora, vamos para o posto da polícia. Muito bem, sr. Holmes, agradeço-lhe, e a seu amigo, o auxílio que me prestaram. Da forma como as coisas correram, a presença dos senhores era desnecessária, e eu teria resolvido o caso sozinho, mas, mesmo assim, fico-lhes grato. Reservei quartos para os senhores no Brambletye Hotel, e podemos ir juntos até a vila.

— Então, Watson, que me diz? — perguntou-me Holmes no dia seguinte, quando viajávamos para Londres.

— Vejo que não está satisfeito.

— Oh, estou, sim, perfeitamente satisfeito, caro Watson. Mas, ao mesmo tempo, não aprecio os métodos de Hopkins. Depositava nele maiores esperanças. Decepcionou-me. Devemos sempre prever duas hipóteses e tomar precauções contra elas. É a primeira regra, numa investigação.

— Qual é, então, a segunda hipótese?

— O rumo que eu próprio tomei. Pode ser que dê em nada, mas quero ir até o fim.

Várias cartas esperavam por Holmes, na Baker Street. Ele pegou uma, abriu-a e soltou uma gargalhada triunfante.

— Ótimo, caro Watson. A hipótese se desenvolve. Tem aí alguns impressos de telegrama? Faça o favor de escrever: “Agência de Navegação Summer, Ratcliff Highway. Mandem três homens aqui amanhã, às dez horas da manhã. Basil”.

Holmes explicou-me:

— Basil é o nome que adotei lá. Mande outro telegrama: “Inspetor Staniey Hopkins, Lord Street, 46, Brixton. Venha tomar café conosco amanhã, às nove e meia. Importante. Telegrafe, se não puder vir. Sherlock Holmes”. Pois bem, Watson, vou afastar agora do meu pensamento este maldito caso, que há dez dias anda me atormentando. Espero que amanhã seja o fim.

Hopkins apareceu pontualmente à hora marcada. Sentamo-nos para apreciar a excelente refeição da manhã, preparada pela sra. Hudson. O jovem detetive estava satisfeito com seu sucesso.

— Acha realmente que a solução é essa? — perguntou Holmes.

— Não creio que possa haver caso mais completo.

— Pois não me parece satisfatório.

— O senhor me surpreende, sr. Holmes. Que mais se poderia esperar?

— Acha que sua explicação resolve todos os pontos?

— Sem dúvida — respondeu Hopkins. — Descobri que o jovem Neligan chegou ao Brambletye Hotel no dia do crime, sob o pretexto de ir jogar golfe, O quarto dele ficava no andar térreo, e portanto ele poderia sair quando bem entendesse. Nessa mesma noite, foi a Woodman’s Lee, visitou o capitão Carey na sua cabana, brigaram, e Neligan matou-o com o arpão. Depois fugiu, horrorizado, deixando cair o caderno de apontamentos, que levara para mostrar a Carey e indagar a respeito das ações desaparecidas. O senhor bem sabe que algumas estavam marcadas — a maioria — e as outras, não. As marcadas são as que apareceram no mercado, mas as outras com certeza ainda estavam em poder do capitão. Pelo que Neligan nos disse, ele estava aflito por recuperá-las, para cumprir o desejo do pai. Depois do crime, durante algum tempo não teve coragem de voltar à cabana, mas finalmente criou coragem para procurar obter as informações desejadas. Não acha que é simples e óbvio?

Holmes sorriu e sacudiu a cabeça.

— Parece-me que há um obstáculo, Hopkins: é intrinsecamente impossível. Já tentou varar um corpo com um arpão? Não?…Ora, caro senhor, precisa dar atenção a esses pormenores. Meu amigo Watson poderá lhe dizer que dediquei uma manhã inteira a esse exercício… Não é fácil, e exige um braço forte e experiente. Mas o golpe foi dado com tal violência que o arpão entrou na parede. Acha aquele anêmico garoto capaz de tal feito? Será ele o homem que se encheu de rum com água, em companhia de Peter Carey, no meio da noite? Era seu, o perfil que foi visto na janela? Não, não, Hopkins, devemos procurar outra pessoa, muito mais forte e decidida.

A expressão do detetive fora se tornando cada vez mais sombria, à medida que Holmes falava. Esperanças e ambições caíam por terra. Mas não abandonaria sem luta a sua posição.

— Não pode negar que Neligan tenha estado presente na noite do crime, sr. Holmes. O caderno de apontamentos serve de confirmação. Creio que temos provas suficientes para apresentá-lo ao júri; já agarrei o meu homem. Quanto a essa terrível pessoa a que se refere, onde está ela?

— Parece-me que vem subindo a escada — respondeu Holmes, serenamente. — Creio, Watson, que seria bom guardar o revólver automático onde possa pegá-lo com facilidade.

Holmes ergueu-se e estendeu na mesa um papel escrito.

— Estamos prontos — acrescentou.

A porta abriu-se e a sra. Hudson veio avisar que três homens perguntavam pelo capitão Basil.

— Mande-os entrar, um de cada vez — disse Holmes.

O primeiro era um homem franzino, de rosto corado e suíças grisalhas. Holmes tirara uma carta do bolso.

— Nome? — perguntou.

— James Lancaster.

— Sinto muito, Lancaster, mas já não há vaga. Tome meio soberano, pelo incômodo. Faça o favor de entrar naquela sala e esperar um pouco.

O segundo era um homem alto e seco, de cabelos ralos e rosto pálido. Chamava-se Hugh Pattins. Também ele foi despachado, com meio soberano e a ordem de ficar esperando.

O terceiro era um sujeito de extraordinária aparência. Rosto feroz, de buldogue, no meio de uma barba e uma cabeleira emaranhada, dois olhos escuros e ousados brilhando sob sobrancelhas grossas e negras. Saudou à moda dos marinheiros e ficou revirando o boné nas mãos.

— Nome? — perguntou Holmes.

— Patrick Cairns.

— Arpoador?

— Sim, senhor. Vinte e seis viagens.

— Dundee, creio eu?

— Sim, senhor.

— Pronto a partir nesta viagem de exploração?

— Sim, senhor.

— Quanto quer ganhar?

— Oito libras por mês.

— Pode partir imediatamente?

— Assim que for buscar minhas coisas.

— Tem documentos?

— Sim, senhor — respondeu ele, tirando do bolso uns papéis ensebados.

Holmes examinou-os e devolveu-os ao sujeito.

— É justamente o homem de quem preciso. Aqui está o contrato. Basta assinar e está tudo resolvido.

O marinheiro aproximou-se da mesa e apanhou a pena.

— Devo assinar aqui? — perguntou, inclinando-se.

Holmes dobrou-se sobre o sujeito, passando-lhe as duas mãos por cima dos ombros.

— Pronto — disse ele.

Ouvi o ruído de algemas que se fechavam e um berro de touro enfurecido. No momento seguinte, Holmes e o marinheiro rolavam no chão. Era um homem de tão grande força que, mesmo algemado, teria vencido meu amigo, se Hopkins e eu não nos apressássemos em ir em seu auxílio. Só quando encostei o metal frio do revólver na testa do homem é que ele compreendeu que qualquer resistência seria inútil. Amarramos os tornozelos do gigante e erguemo-nos, ofegantes.

— Devo pedir-lhe desculpas, Hopkins — disse Holmes. — Parece-me que os ovos mexidos esfriaram. Mas creio que apreciará o resto da refeição ainda mais, sabendo que levou o caso a um brilhante resultado.

Hopkins estava mudo de espanto.

— Não sei o que dizer, sr. Holmes — exclamou afinal, todo vermelho. — Parece-me que fiz papel de tolo desde o princípio. Compreendo agora o que nunca deveria ter esquecido: que sou o aluno e o senhor, o mestre. Vejo o que o senhor fez, mas não sei como o fez, nem o que tudo isso significa.

— Bom, bom, todos nós aprendemos com a experiência — disse Holmes, bem-humorado. — E a lição, neste caso, é que nunca devemos nos esquecer da alternativa. Você estava tão obcecado por Neligan, que não pensou em Patrick Cairns, o verdadeiro assassino.

A voz rouca do marinheiro interrompeu a conversa.

— Escute aqui, cavalheiro, não me queixo de ter sido tratado desta forma, mas gostaria que chamasse as coisas pêlos seus verdadeiros nomes. O senhor disse que assassinei Peter Carey, mas eu digo que matei Peter Carey, e aí é que está toda a diferença. Talvez não acredite em mim. Talvez pense que estou dizendo besteira.

— De maneira nenhuma — disse Holmes. — Ouçamos o que tem a dizer.

— Quanto mais cedo, melhor, e, por Deus, juro que é tudo verdade. Conhecia muito bem Peter Carey, e, quando ele puxou a faca, agarrei o arpão, pois sabia que um de nós tinha de desaparecer. Foi assim que ele morreu. Pode chamar a isto assassinato. De qualquer maneira, prefiro morrer com uma corda no pescoço a morrer com a faca de Peter Carey enfiada no coração.

— Como apareceu por lá? — perguntou Holmes.

— Vou contar do princípio. Deixe-me sentar, para descansar um pouco. Foi em agosto de 83. Peter Carey era capitão do Sea Unicorn, e eu, um dos arpoadores. Íamos saindo do meio dos gelos flutuantes, ao voltar para casa, com um vento forte, quando demos com uma embarcação que fora empurrada para o norte. Havia nela apenas um homem — que não era marinheiro. A tripulação pensara que o barco ia naufragar e fugira para a costa da Noruega, no bote salva-vidas. Creio que todos se afogaram. Pois bem, recolhemos o homem, e ele e o capitão tiveram longas conversas. Ao que me consta, nunca se soube o nome do homem; na segunda noite ele desapareceu, como se nunca tivesse existido. Disseram que se atirara ao mar, ou caíra, devido ao vento forte que soprava. Somente um homem sabia o que lhe acontecera, pois vi com os meus próprios olhos o capitão atirá-lo ao mar, naquela noite escura.

“Pois bem, guardei o que sabia só para mim, esperando ver no que dariam as coisas. Quando voltamos para a Escócia, o caso foi abafado, e ninguém fez muitas perguntas. Um estranho morrera, por acidente, e isso a ninguém interessava. Logo depois, Peter Carey abandonou o mar, e levei tempo até descobrir onde morava. Julguei que tivesse feito aquilo pelo que havia na caixa de estanho, e que podia dar-me, portanto, para eu ficar de bico calado, uma boa quantia.

“Descobri onde morava por intermédio de outro marinheiro, que o encontrara em Londres, e fui até lá, para sondar o terreno. Na primeira noite, mostrou-se cordato, dizendo estar disposto a me dar uma quantia que me permitiria deixar o mar para o resto da vida. Combinamos que resolveríamos tudo duas noites mais tarde. Quando fui lá, encontrei-o bêbado e de péssimo humor. Bebemos e conversamos sobre os velhos tempos, mas, quanto mais ele bebia, menos eu gostava da expressão do seu rosto. Vi o arpão na parede e pensei que talvez viesse a precisar dele, antes que acabasse a noite. Finalmente, Peter Carey não se conteve e começou a me ameaçar, com olhar assassino e a mão na faca. Não chegou a tirá-la da bainha, pois eu já o varara com o arpão. Céus, que berro soltou! Só de me lembrar, perco o sono. Ali fiquei, com todo aquele sangue à minha volta, esperando. Mas, como não ouvi ruído algum, criei coragem. Vi a caixa de estanho. Tinha tanto direito a ela como Peter Carey. Agarrei-a e saí da cabana. Como idiota que sou, deixei a bolsa de tabaco em cima da mesa.

“Vou agora contar a parte mais estranha da história. Mal saíra, ouvi chegar alguém. Escondi-me no meio das moitas. Um homem entrou furtivamente, soltou um grito e saiu correndo, como se o Diabo o perseguisse. Quanto a mim, caminhei dezesseis quilômetros, apanhei um trem em Tunbridge Wells e cheguei a Londres sem que desconfiassem de coisa alguma.

“Quando examinei a caixa, vi que não continha dinheiro; apenas títulos, que eu não tinha coragem de vender. Perdera o domínio sobre Peter Carey e estava em Londres sem um níquel. Restava a minha profissão. Vi o anúncio sobre arpoadores e o ordenado alto que ofereciam, de modo que procurei a companhia de navegação e de lá me mandaram aqui. É tudo o que sei, e repito que, se matei Peter Carey, a lei deve me agradecer, pois poupei ao país o dinheiro da corda que o enforcaria”.

— Exposição muito clara — disse Holmes, erguendo-se e acendendo o cachimbo. — Acho, Hopkins, que não deve perder tempo em mandar seu prisioneiro para um lugar seguro. Esta sala não serve de cela, e o sr. Patrick Cairns ocupa muito espaço.

— Não sei como lhe agradecer, sr. Holmes — disse Hopkins. — Mas ainda não percebi como chegou a esse resultado.

— Simplesmente por ter tido a sorte de seguir a pista certa desde o início. É possível que, se soubesse da existência do caderno de apontamentos, me afastasse do caminho certo, como você. Mas tudo o que eu vira apontava numa direção. A força extraordinária, a habilidade no manejo do arpão, o rum com água, a bolsa de tabaco de couro de foca, tudo isso indicava um marinheiro que trabalhara num baleeiro. Eu estava convencido de que as iniciais P. C. na bolsa de tabaco eram uma coincidência, e não as iniciais de Peter Carey, pois ele raramente fumava, e não se encontrou nenhum cachimbo na cabana. Lembra-se de que lhe perguntei se tinham encontrado uísque e conhaque na cabana? Você respondeu que sim. Quantos homens, entre os que vivem em terra, beberiam rum podendo beber outra coisa? Sim, eu estava certo de que se tratava de um marinheiro.

— E como o encontrou?

— Caro amigo, o problema se tornava muito simples. Se fosse marinheiro, só poderia ser um marinheiro que estivera com Peter Carey no Sea Unicorn. Ao que me constava, ele não viajara noutro navio. Levei três dias mandando telegramas para Dundee, e fiquei sabendo quais os tripulantes do Sea Unicorn em 1883. Quando vi o nome de Patrick Cairns entre os arpoadores, percebi que chegava ao fim. Calculei que estivesse em Londres e que, naturalmente, quereria fugir o mais depressa possível. Passei alguns dias em East End, inventei uma expedição ao Ártico, publiquei anúncios tentadores para os arpoadores que quisessem partir com o capitão Basil… e veja o resultado.

— Maravilhoso! — exclamou Hopkins. — Maravilhoso!

— Precisa mandar soltar Neligan o mais depressa possível — disse Holmes. — Confesso que acho que você lhe deve desculpas. A caixa de metal tem que lhe ser devolvida, é claro, mas as ações vendidas por Peter Carey nunca mais serão recuperadas. Chegou o carro, Hopkins; pode levar seu homem. Se precisar de mim ou de Watson para o julgamento, nosso endereço será… um lugar qualquer, na Noruega. Depois mandarei explicações.

1905
A volta de Sherlock Holmes

1. A casa vazia § 2. O construtor de Norwood
3. Os dançarinos § 4. A ciclista solitária
5. A escola do priorado § 6. Pedro Negro
7. Charles Augustus Milverton § 8. Os seis bustos de Napoleão
9. Os três estudantes § 10. O pincenê dourado
11. O atleta desaparecido § 12. Abbey Grange § 13. A segunda mancha

Ilustrações: Frederic Dorr Steele e Sidney Paget, cortesia The Camden House
Transcrição: Mundo Sherlock