O polegar do engenheiro

Arthur Conan Doyle

O polegar do engenheiro

Título original: The Engineer’s Thumb
Publicado pela primeira vez na Strand Magazine,
em Março de 1892 e com 8 ilustrações de Sidney Paget.

Sobre o texto em português:
Este texto digital reproduz a
tradução de The Engineer’s Thumb publicado em
As Aventuras de Sherlock Holmes, Volume II,
editado pelo Círculo do Livro
e com tradução de Hamílcar de Garcia.

De todos os problemas que têm sido submetidos ao meu amigo Sherlock Holmes, durante os anos da nossa convivência, apenas em dois deles fui eu o intermediário que os levou ao seu conhecimento: o do polegar do Sr. Hatherley e o da loucura do coronel Warburton. Desses dois, pode ser que o último oferecesse campo de ação mais amplo para um observador astuto e original, mas o outro foi tão estranho na sua concepção e tão dramático nos seus pormenores que é mais digno de ser recordado, embora fornecesse menos oportunidade para os métodos dedutivos de raciocínio que meu amigo usa e devido aos quais consegue tão maravilhosos resultados. Creio que a história já foi contada mais de uma vez nos jornais, mas todas as narrativas perdem grande parte do seu interesse quando apresentadas em meia coluna de jornal, ao contrário do que sucede com um relato pormenorizado dos acontecimentos, que nos permite seguir cada nova pista e ver o mistério desvendar-se aos poucos. Naquele tempo as circunstâncias desse caso deixaram em mim profunda impressão, e, mesmo passados dois anos, seu efeito pouco enfraqueceu.

Foi no verão de 1889, logo depois que me casei, que ocorreram os fatos de que vou falar agora. Já havia deixado a vida militar e regressado à profissão civil, deixando Sherlock Holmes sozinho nos aposentos da Baker Street, embora freqüentemente o visitasse e ocasionalmente procurasse convencê-lo a deixar seus hábitos boêmios e a ir visitar-nos.

Minha clientela tinha aumentado bastante, e como eu morava perto da estação de Paddington, tinha alguns clientes entre os empregados da estrada de ferro. A um desses curei de uma doença dolorosa e longa, e ele nunca se cansou de fazer propaganda a meu favor, mandando-me todos os doentes que lhe apareciam e sobre os quais tivesse alguma influência.

Um dia, antes das sete da manhã, fui acordado pela empregada, que batia à minha porta dizendo que dois homens tinham chegado de Paddington e estavam à minha espera no consultório. Vesti-me apressadamente, porque sabia por experiência própria que casos vindos da estrada de ferro eram quase sempre urgentes. Desci às pressas e encontrei meu velho aliado, o guarda, que saiu da sala de espera e, fechando a porta atrás de si, me disse:

— Tenho-o ali — cochichou, apontando com o dedo por cima do meu ombro. — Ele está bem.

— O que há então? — perguntei, porque seus modos indicavam que havia uma criatura estranha fechada no meu consultório.

— É um cliente novo — respondeu —, achei melhor trazê-lo eu próprio; assim não podia escapulir. Lá está ele, são e salvo. Agora preciso ir, doutor, meus deveres estão à minha espera.

E lá se foi sem me dar a oportunidade de lhe agradecer. Entrei no consultório e encontrei um cavalheiro sentado perto da mesa. Estava discretamente vestido com um terno de casimira e colocara o boné sobre meus livros.

Era jovem, de uns vinte e cinco anos, rosto forte, mas estava muito pálido e deu-me a impressão de se encontrar sob grande agitação, precisando de todas as forças mentais para se controlar. Além disso, um lenço manchado de sangue envolvia-lhe uma das mãos.

— Sinto acordá-lo tão cedo, doutor, mas sofri um acidente muito grave esta noite. Vim de trem agora de manhã, e ao indagar, em Paddington, onde podia encontrar um médico, um camarada bondoso trouxe-me até aqui. Entreguei meu cartão à empregada, mas vejo que ela o deixou sobre a mesa.

Peguei-o e li: “Victor Hatherley, engenheiro hidráulico, Victoria Street, 16-A, 3.° andar”. Era o nome, a profissão e o endereço do meu cliente daquela manhã.

— Sinto tê-lo feito esperar — disse-lhe eu, sentando-me na cadeira da biblioteca. — Chegou de uma viagem noturna, e compreendo que é uma coisa muito monótona.

— Oh, minha noite não foi nada monótona — disse ele, rindo a valer.

Todo o meu instinto médico despertou com aquela risada.

— Pare com isso — exclamei. — Acalme-se.

E dei-lhe um pouco de água. Não adiantou, porque ele recaiu de novo no histerismo, dando provas de uma natureza forte que se liberta depois de grande tensão de espírito.

Daí a pouco voltou ao estado normal, muito cansado e envergonhado.

— Portei-me como um idiota — exclamou, ofegante.

— Nada disso. Beba.

Despejei um pouco de conhaque na água, e a cor começou a voltar ao rosto dele.

— Agora estou melhor, e talvez o doutor possa curar o meu dedo, ou melhor, o lugar onde estava o dedo.

Sidney Paget, 1892

Sidney Paget, 1892

Desatou o lenço, estendeu a mão, e, embora habituado a ver coisas dessa natureza, chocou-me os nervos olhá-la. Havia quatro dedos salientes e uma superfície medonha ao lado, como uma esponja vermelha, onde estivera o polegar que fora arrancado ou cortado na base.

— Céus! — exclamei. — É uma ferida horrível, deve ter perdido muito sangue.

— Sim. Perdi os sentidos quando isto se deu. Creio que fiquei desmaiado bastante tempo, e, quando voltei a mim e percebi que ainda estava perdendo sangue, amarrei o lenço bem apertado no pulso e apertei-o mais ainda com um pauzinho.

— Excelente! Você devia ter sido cirurgião.

— Faz parte da hidráulica, não é? Tive sorte de saber disso.

— Este corte foi feito com um instrumento muito pesado e cortante — sugeri, examinando o corte.

— Com uma machadinha.

— Foi acidente, suponho?

— Nada disso.

— Quê! Um ataque sanguinário?

— Exatamente.

— O senhor horroriza-me com isso.

Lavei, esterilizei e depois atei a ferida, cobrindo-a de algodão e gaze embebidas em ácido bórico. Ele não se mexeu, embora mordesse os lábios de vez em quando.

— E agora, está melhor? — perguntei, ao terminar.

— Excelente. Com o seu conhaque e seu curativo, sinto-me outro homem. Estava excessivamente fraco, sofri muito.

— Talvez seja melhor não falar sobre o assunto agora, pode ficar nervoso.

— Oh, não, agora não. Preciso contar minha história à polícia. Mas, cá entre nós, se não fosse a prova convincente deste ferimento, duvido que acreditassem na minha narrativa, porque é por demais extraordinária e não tenho quase nada para comprová-la. Mesmo que acreditem, as pistas que posso oferecer são tão vagas que é duvidoso que a justiça possa agir.

— Ah! — exclamei. — Se há qualquer problema que deseja ver resolvido, recomendo-lhe que vá ter com o meu amigo Sherlock Holmes antes de ir à polícia.

— Sim, já ouvi falar desse sujeito — respondeu o meu cliente. — Ficaria contente se ele tratasse do assunto, embora tenha que fazer minhas declarações oficialmente também. O senhor pode me apresentar a ele?

— Melhor, irei com o senhor.

— Ficar-lhe-ei imensamente agradecido.

— Vamos chamar uma carruagem, e eu estarei pronto daqui a um instante. Chegaremos à hora do café da manhã. Agüenta ir até lá?

— Sim. Não ficarei satisfeito enquanto não tiver contado este caso.

— Então meu criado chamará uma carruagem. Volto já.

Subi rapidamente para dizer à minha mulher aonde ia, e em cinco minutos estava com ele na carruagem, seguindo às pressas para o apartamento da Baker Street.

Sidney Paget, 1892

Sidney Paget, 1892

Sherlock Holmes estava, como eu previa, sentado na salinha, vestido com o roupão, lendo a coluna de crimes no Times e fumando o habitual cachimbo. Recebeu-nos com o seu modo calmo mas jovial, mandou trazer mais ovos e presunto frito e convidou-nos a partilhar com ele a refeição. Quanto terminamos, Holmes fez nosso amigo reclinar-se no sofá, colocando um travesseiro sob sua cabeça e um copo de água com conhaque a seu lado.

— Percebe-se que a sua experiência foi muito extraordinária, Sr. Hatherley — disse Holmes. — Tenha a bondade de se deitar ali e considere-se em sua própria casa. Conte-me o que puder, mas, se ficar cansado, pare e tome um estimulante.

— Muito obrigado — disse o meu cliente —, mas já me sinto outro homem depois que o doutor tratou da minha mão, e creio que seu desjejum completou a cura. Não quero ocupar muito do seu precioso tempo, e por isso contarei já o que me aconteceu.

Holmes estava sentado na sua poltrona, com uma expressão cansada, as pestanas caídas cobrindo o olhar naturalmente vivo. Sentei-me à sua frente, e ouvimos em silêncio a estranha história da qual nosso visitante narrou os pormenores.

— Devem saber que sou órfão e solteiro e moro sozinho num apartamento aqui em Londres. Minha profissão é a de engenheiro hidráulico, e adquiri muita experiência no meu trabalho durante os sete anos em que trabalhei na conhecida firma Werner & Matheson, de Greenwich. Há dois anos terminei a aprendizagem e, tendo herdado uma soma regular pela morte de meu querido pai, aluguei um escritório na Victoria Street. Suponho que todo mundo, quando começa a trabalhar por conta própria, encontre dificuldades, mas para mim foi excepcionalmente decepcionante. Durante dois anos atendi a três casos e prestei um pequeno serviço, e foi só isso o que minha profissão me trouxe, mais o vencimento de umas vinte e sete libras. Todos os dias, das nove às dezesseis horas, esperava no meu escritoriozinho, até que comecei a ficar desanimado e pensei que nunca arranjaria serviço.

“Ontem, todavia, à hora em que estava resolvido a sair, meu secretário entrou dizendo que havia um cavalheiro à espera para me falar sobre um negócio. Deu-me um cartão de visita: ‘Coronel Lysander Stark’. Logo a seguir entrou o próprio coronel, homem muito alto, mas excessivamente magro. Não me lembro de jamais ter visto homem tão magro. O rosto era apenas pele e osso. Parecia, no entanto, ser o seu estado normal e não doença, pois seus olhos brilhavam e o andar era ligeiro e firme. Vestia-se bem, embora de maneira simples. Julgo que deveria andar pêlos quarenta anos.

Sidney Paget, 1892

Sidney Paget, 1892

“— Sr. Hatherley? — perguntou com um sotaque alemão. — Foi-me recomendado como sendo pessoa não só eficiente na sua profissão, mas discreto e capaz de guardar um segredo.

“Fiz-lhe uma vênia, sentindo-me lisonjeado, como aconteceria com qualquer jovem que recebesse tal cumprimento.

“— Posso perguntar-lhe quem foi que lhe deu o meu nome?

“— Bem, talvez seja melhor não lhe dizer agora; a mesma pessoa, também, contou-me que é órfão, solteiro e mora sozinho em Londres.

“— Está certo — respondi —, mas o senhor há de me desculpar se lhe digo que não vejo no que isso tudo tem a ver com minhas qualidades profissionais, pois imagino que é sobre um assunto profissional que o senhor deseja falar comigo.

“— Sem dúvida. Mas verá que tudo quanto digo tem relação com esse ponto. Tenho um trabalho para o senhor, mas é essencial que se guarde sigilo absoluto; compreende que isso é mais fácil de se esperar de um homem só do que de um que vive no seio da família.

“— Se prometo guardar segredo, pode contar que o farei.

“Olhou-me severamente, e pareceu-me que nunca tinha visto olhar tão suspeito e interrogativo.

Sidney Paget, 1892

Sidney Paget, 1892

“— Então promete? — perguntou ele por fim.

“— Sim, prometo.

“— Silêncio completo e absoluto, antes, durante e depois? Nenhuma referência ao negócio, por palavra ou por escrito?

“— Já lhe dei a minha palavra.

“— Muito bem.

“Levantou-se de repente e, atravessando a sala como um relâmpago, abriu a porta. Não havia ninguém no corredor.

“— Está muito bem — disse ele —, sei que os secretários são às vezes muito curiosos quanto aos afazeres dos seus patrões. Agora podemos conversar com segurança.

“Puxou sua cadeira para perto da minha e começou a olhar-me de novo daquele modo inquisitorial e pensativo. “Um sentimento de repulsa e talvez de medo começou a crescer dentro de mim com os movimentos estranhos daquele magricela. Nem mesmo o receio de perder um cliente me impedia de mostrar minha impaciência.

“— Faça o favor de dizer qual é o trabalho, senhor — disse eu. — Tempo é dinheiro.

“Deus me perdoe por esta última sentença, mas as palavras brotaram espontaneamente.

“— Como seria se pudesse ganhar cinqüenta guinéus numa noite? Serviria?

“— Ótimo.

“— Digo no trabalho de uma noite, mas talvez não leve mais do que uma hora. Quero simplesmente sua opinião acerca de uma máquina de estamparia hidráulica que se avariou. Se o senhor nos mostrasse a causa da avaria, nós próprios a consertaríamos. Que pensa de um trabalho assim?

“— Parece ser leve, e o pagamento é bom.

“— Precisamente. Queremos que o senhor venha ter conosco hoje à noite, pelo último trem.

“— Onde?

“— Em Eyford, no Berkshire. É um lugarejo perto dos limites de Oxfordshire, a onze quilômetros de distância de Reading. Há um trem que sai de Paddington e chega lá às vinte e três e quinze.

“— Muito bem!

“— Estarei à sua espera numa carruagem.

“— Há necessidade de andar de carruagem então?

“— Sim, nosso lugarejo fica bastante longe, no campo. Onze quilômetros da estação de Eyford.

“— Então não poderemos chegar lá antes da meia-noite. Suponho que não haja trem de regresso. Serei obrigado a permanecer lá a noite toda.

“— Sim, mas podemos dar-lhe pousada.

“— É desagradável. Não poderia ir a uma hora mais conveniente?

“— Achamos melhor que o senhor venha tarde. É para recompensá-lo de qualquer inconveniente que lhe vamos pagar tanto, embora seja jovem, desconhecido e não tenha o mesmo valor dos profissionais mais experientes. Todavia, se não quiser aceitar o negócio, está a tempo de recusar.

“Lembrei-me de como me seria útil aquele dinheiro.

“— Nada disso — disse-lhe —, ficarei satisfeito em acomodar-me aos seus desejos. Somente gostaria de saber com mais clareza para o que precisam de mim.

“— Certamente. É natural que a promessa de guardar segredo atice a sua curiosidade. Não quero comprometê-lo sem primeiro contar-lhe tudo. Suponho que estejamos livres de bisbilhoteiros.

“— Absolutamente.

“— Então o negócio é o seguinte: provavelmente o senhor sabe que o pó de Fuller é um produto de grande valor, que se encontra em dois ou três lugares apenas na Inglaterra.

“— Já ouvi falar nisso.

“— Há tempos comprei um pequeno terreno, a uns dezesseis quilômetros de Reading, e senti-me feliz ao descobrir que há um depósito desse pó num dos meus campos. Ao examiná-lo, achei que esse depósito era comparativamente pequeno e formava junção com outros dois depósitos maiores, um à direita e outro à esquerda, ambos pertencentes aos vizinhos. Essa boa gente ignorava completamente que suas terras possuíam coisa tão valiosa quanto uma mina de ouro. Naturalmente, era do meu interesse comprar as terras deles antes que descobrissem o seu verdadeiro valor. Infelizmente, porém, não possuía capital suficiente. Contei meu segredo a alguns amigos, e eles sugeriram que trabalhássemos calados e secretamente no nosso próprio depósito, e desse modo ganhássemos o dinheiro que nos habilitaria a comprar os campos vizinhos.

“É o que estamos fazendo há já algum tempo, e, para facilitar nossas operações, montamos uma prensa hidráulica. Essa máquina, como já disse, avariou-se, e desejamos sua opinião a respeito dela. Temos guardado nosso segredo muito zelosamente, porque, uma vez descoberto, viriam os engenheiros hidráulicos à nossa casa, que logo atrairiam investigadores, e então, sabendo dos fatos, os vizinhos já não nos venderiam seus terrenos e teríamos que dizer adeus aos nossos planos. Por isso obriguei-o a prometer que guardaria segredo sobre sua viagem a Eyford hoje à noite. Espero ter explicado bem.

“— Entendi. O único ponto que não compreendi bem é por que precisam de uma prensa hidráulica para escavar esse pó, pois sempre ouvi dizer que é tirado com pá, como se tira areia da mina.

“— Ah, temos nosso processo particular. Comprimimos a terra em forma de tijolos para poder removê-los sem se saber o que contém. Depositei no senhor a minha confiança, Sr. Hatherley, e mostrei-lhe até onde levo essa confiança.

“Levantou-se e disse:

“— Estarei então em Eyford às vinte e três e quinze.

“— Muito bem, lá nos encontraremos.

“— E nem uma palavra a ninguém.

“Olhou-me outra vez, e então, apertando-me a mão na dele, que era fria e úmida, saiu apressadamente da sala.

“Bem, quando comecei a pensar calmamente sobre tudo isso, fiquei estonteado, como devem calcular, com essa missão que se me ofereceu tão repentinamente. Por outro lado, fiquei satisfeito porque o pagamento era, pelo menos, dez vezes maior do que o que eu pediria se me fosse dado fixar o preço, e talvez desse trabalho viessem outros. Contudo, a fisionomia e os modos do meu cliente deixaram-me uma impressão desagradável, e não achei que suas explicações sobre o pó fossem de molde a exigir minha ida lá à meia-noite, assim como não pude compreender sua extrema ansiedade para que eu não contasse o caso a ninguém.

“Todavia, lancei todos os meus temores aos ventos, ingeri uma boa ceia, fui a Paddington e embarquei, obedecendo ao pé da letra à imposição de não dizer a ninguém aonde ia.

“Em Reading tive de fazer uma baldeação, mas mesmo assim apanhei o último trem para Eyford, chegando à estaçãozinha mal-iluminada depois das vinte e três horas. Era o único passageiro, e na plataforma não havia ninguém senão um carregador sonolento com uma lanterna. Mas, quando passei pelo portãozinho, vi meu conhecido da manhã, esperando, à sombra, do outro lado. Sem uma palavra, pegou-me pelo braço e apressou-me a entrar na carruagem, cuja porta estava aberta. Fechou as janelas dos dois lados, deu uma pancada leve na madeira do veículo e lá fomos nós, tão depressa quanto o cavalo podia correr.”

— Só um cavalo? — perguntou Holmes.

— Sim, só um.

— Reparou na sua cor?

— Sim. Vi quando entrei na carruagem, pelas luzes laterais: era castanho.

— Parecia cansado ou não?

— Oh! Estava muito descansado.

— Obrigado. Sinto interromper. Peço que continue sua interessante narrativa.

— Andamos assim pelo menos uma hora. O coronel Lysander Stark havia dito que eram onze quilômetros de distância, mas acho que, de acordo com a marcha rápida a que fomos e o tempo que levamos, devem ter sido mais, cerca de vinte quilômetros. Guardou silêncio durante todo o tempo, e reparei que, quando eu olhava na sua direção, ele me olhava com grande interesse. A estrada por ali não parecia ser das melhores, porque nossa condução pulava e dava solavancos terríveis. Experimentei olhar pela janela para ver alguma coisa do lugar onde passávamos, mas eram vidros foscos, e só pude ver uma luz fraca de vez em quando. Uma vez ou outra aventurei alguns comentários sobre a monotonia da viagem, mas o coronel respondia-me com monossílabos e a conversa não foi para a frente.

“Finalmente, os solavancos foram substituídos por um trotar calmo sobre uma estrada de areia, e a carruagem parou. O coronel Lysander Stark pulou para fora e eu segui-o logo; nisto ele puxou-me depressa para dentro de um alpendre que estava à nossa frente. Entramos logo no vestíbulo, e não tive tempo de ver como eram as características da casa. No instante em que atravessei o limiar da porta, esta fechou-se com grande ruído e ouvi o rodar da carruagem, que partia.

“A casa estava completamente escura, e o coronel deu algumas voltas, à procura de fósforos e falando baixinho. De repente, uma porta na outra extremidade do corredor abriu-se, deixando cair sobre nós uma longa faixa de luz amarela. A claridade aumentou e uma senhora apareceu com um candeeiro na mão, que levantou acima da cabeça para nos olhar. Notei que era bonita, e o vestido que usava, pelo brilho da fazenda, devia ser de material rico. Disse algumas palavras em língua estrangeira em tom de pergunta, e, quando meu companheiro lhe respondeu de modo abrupto e por monossílabos, ela pulou, quase deixando cair o candeeiro, O coronel Stark chegou junto dela, cochichou qualquer coisa ao seu ouvido e então, empurrando-a para dentro do quarto de onde saíra, veio direto a mim com o candeeiro.

“— Tenha a bondade de esperar aqui uns minutos — disse ele, abrindo a porta.

“Era uma salinha sossegada, de mobiliário simples, mesa redonda ao centro, sobre a qual havia diversos livros em alemão. O coronel Stark colocou o candeeiro sobre um piano perto da porta.

“— Não me demoro — declarou. E sumiu-se na escuridão.

“Olhei os livros que estavam sobre a mesa e, apesar de não entender alemão, compreendi que dois deles tratavam de ciência e os outros eram de poesia. Depois fui até a janela, desejoso de examinar alguma coisa do local, mas havia uma tábua de carvalho obstruindo de todo a visão. Era uma casa excessivamente silenciosa. Havia um relógio badalando muito alto no corredor, mas fora isso estava tudo calmo.

“Uma espécie de inquietação invadiu-me. Quem eram aqueles alemães e o que estavam fazendo naquele lugar? Achava-me a uns dezesseis quilômetros de Eyford, disso estava certo, mas se era para o norte, sul, leste, ou oeste, não tinha a menor idéia. Reading estava também naquele círculo, de modo que talvez o lugar fosse solitário como eu pensava. Andei de um lado para outro na sala, cantando baixinho para ganhar coragem, pensando nos cinqüenta guinéus que iria receber.

“Repentinamente, sem qualquer ruído, a porta da sala abriu-se vagarosamente. A senhora estava parada à porta, seu lindo rosto iluminado pela luz do candeeiro. Por trás dela, o corredor em completa escuridão. Percebi que estava amedrontada, e sua atitude gelou-me o coração. Ergueu um dedo trêmulo para indicar silêncio e cochichou umas palavras em inglês, olhando para trás como um animal espantado.

Sidney Paget, 1892

Sidney Paget, 1892

“— Deve ir embora — murmurou ela, querendo falar calmamente. — Deve ir embora, não fique aqui. Não há nada de bom para você fazer aqui.

“— Mas, minha senhora, ainda não fiz o serviço que vim fazer, não posso retirar-me sem ver a máquina.

“— Não vale a pena esperar — continuou ela —, pode passar pela porta, não há ninguém.

“E, então, vendo que eu sorria e sacudia a cabeça, de repente deixou-se de rodeios e deu um passo para a frente, torcendo as mãos.

“— Pelo amor de Deus — cochichou ela —, saia daqui antes que seja tarde demais.

“Eu, porém, sou por natureza teimoso e sinto-me mais disposto a entrar num empreendimento quando percebo algum obstáculo.

“Lembrei-me da recompensa prometida, do desconforto da noite de viagem. Tudo haveria de dar em nada? E por que havia de fugir sem fazer o trabalho e sem receber o dinheiro? Aquela jovem, pelo que via, podia ser uma pobre louca. Recuperei, portanto, a coragem, embora sua atitude me pusesse nervoso. Mas sacudi a cabeça e disse que ficaria. Ela ia repetir os seus rogos, quando se ouviu o fechar de uma porta no andar superior e os passos de alguém que descia a escada. Ela escutou por uns instantes, ergueu as mãos em atitude de desespero e sumiu silenciosamente, como aparecera.

“Os que chegavam eram o coronel Lysander Stark e um homem baixo e gordo, com barba no queixo, que me foi apresentado como o Sr. Ferguson.

“— Este é o meu secretário e agente — disse o coronel. — A propósito, pareceu-me que deixei esta porta fechada ainda agora. Lamento que esteja na corrente de ar.

“— Pelo contrário, abri-a porque achei que estava um pouco abafado.

“Lançou-me um olhar de suspeita.

“— Então é melhor que iniciemos o negócio já. O Sr. Ferguson e eu vamos subir juntos para lhe mostrar a máquina.

“— Suponho que deva pôr o meu chapéu.

“— Oh, não, ela está aqui em casa.

“— O quê! Então o senhor cava o pó de Fuller dentro de casa?

“— Não, não. Aqui ele é somente comprimido. A única coisa que queremos é que examine a máquina e diga-nos onde está a avaria.

“Subimos juntos, o coronel na frente com o candeeiro, o homem gordo depois, e eu atrás dele. A casa era um verdadeiro labirinto, com corredores, passagens estreitas e escadas em caracol, as portas baixas e os limiares gastos no centro pelas gerações que os haviam atravessado.

“Não havia tapetes, nem sinal de mobília, a não ser no andar térreo. O reboco caía das paredes e a umidade penetrava, formando manchas verdes e insalubres. Esforcei-me por mostrar uma indiferença que não sentia, pois não me esquecera do aviso da senhora, e mantive bem à vista meus dois companheiros. Ferguson parecia ser um homem calmo e melancólico, mas percebi pelo pouco que falou que pelo menos não era estrangeiro.

“O coronel Lysander Stark parou por fim diante de uma porta baixa, que abriu. Era um quarto pequeno e quadrado, onde mal caberíamos os três. Ferguson permaneceu fora e o coronel fez-me entrar.

“— Estamos neste momento dentro de uma prensa hidráulica, e seria uma grande infelicidade para nós se alguém se lembrasse de pô-la em movimento. O forro deste pequeno compartimento é o fundo do pistão, que desce com o peso de muitas toneladas sobre este piso de metal. Lá fora há pequenas colunas laterais de água, que recebem, transmitem e multiplicam a força, como o senhor com certeza compreende. A máquina trabalha bem, mas enguiçou e já perdeu um pouco da força. Talvez o senhor, examinando-a, possa dizer-nos como consertá-la.

“Peguei o candeeiro e examinei a máquina minuciosamente. Era deveras gigantesca, e capaz de exercer enorme pressão. Quando passei para o lado de fora e desci as alavancas que a controlavam, vi logo pelo som que havia um pequeno escoamento que permitia uma regurgitação de água por um dos cilindros laterais. Ao examiná-la melhor, vi que uma das fitas de borracha em redor da cabeça da barra propulsora havia encolhido tanto que já não servia de nada. Esta, sem dúvida, era a razão da perda de força, e expliquei isso aos meus companheiros, que me escutaram com toda a atenção e perguntaram diversas coisas quanto ao modo de proceder ao conserto. Depois disso entrei novamente na câmara principal e olhei-a bem para reafirmar minha curiosidade. Quanto à história do pó de Fuller, era mera fantasia, porque seria absurdo supor que uma poderosa máquina daquelas tivesse sido construída para um fim tão inadequado. As paredes eram de madeira, mas o assoalho parecia uma grande gamela de ferro. Baixei-me para ver exatamente o que era, quando ouvi uma exclamação em alemão e vi o rosto cadavérico do coronel olhando para mim.

“— O que está fazendo aí?

“Senti-me aborrecido por ter sido enganado por uma história tão bem elaborada.

“— Estava admirando o seu pó de Fuller — disse-lhe —, e penso que poderia aconselhá-lo melhor se soubesse o verdadeiro uso da máquina.

“Deu um salto para trás, fechou a porta e virou a chave na fechadura. Pulei para a porta e puxei a maçaneta, mas estava trancada e não cedeu, apesar dos meus pontapés e empurrões.

Sidney Paget, 1892

Sidney Paget, 1892

“— Ei! Coronel! Ei! — gritei. — Deixe-me sair!

“E então, subitamente, no silêncio que se fez, ouvi um som que me trouxe o coração à boca. Era o ruído das alavancas e o chiar do cilindro. Ele havia ligado o motor. O candeeiro ainda estava sobre o assoalho onde eu o havia colocado para melhor examinar a gamela.

“Devido à luz, vi que o forro preto vinha descendo sobre mim, vagarosamente, irregularmente, mas, como ninguém sabia melhor do que eu, com uma força que poderia, dentro de um minuto, moer-me e transformar-me numa polpa disforme.

“Lancei-me gritando contra a porta e quis arrancar a fechadura com as unhas, implorando ao coronel que me deixasse sair, mas o clangor cruel das alavancas cobriu meus gritos. O teto estava apenas uns sessenta centímetros acima da minha cabeça, e, com a mão estendida, pude sentir a superfície áspera. Então lembrei-me de que a dor da morte dependeria muito da posição em que estivesse e resolvi deitar-me de bruços; mas o peso cairia sobre a minha espinha, e estremeci ao pensar naquele horrível estalo. Talvez fosse melhor de outra maneira, portanto virei-me e olhei para cima, e vi aquela sombra fatal descendo sobre mim. Já não podia continuar em pé quando vi qualquer coisa que me trouxe um raio de esperança ao coração.

“Já lhes disse que o assoalho e o teto eram de ferro, e as paredes, de madeira. Quando lançava um último olhar em redor, vi uma tênue luz amarela entre duas tábuas, que aumentava enquanto um painel era puxado para trás. Por um instante não pude crer que havia ali uma porta que me livrasse da morte. Lancei-me através dela e caí desmaiado do outro lado. O painel foi fechado atrás de mim, mas o barulho da lanterna esmagada e o clamor das chapas de metal provaram por quão pouco eu escapara.

“Depressa me voltaram os sentidos, porque senti um violento puxão no pulso e vi que estava deitado sobre as lajes de um corredor estreito, enquanto uma mulher se curvava sobre mim e me puxava com a mão esquerda, tendo uma vela na direita. Era a mesma boa amiga cujo conselho eu havia rejeitado.

“— Venha! Venha! — disse ela, ofegante. — Eles chegarão daqui a pouco. Não perca tempo, venha!

“Desta vez não desprezei seu conselho. Levantei-me, cambaleante, corri com ela ao longo do corredor e descemos uma escada em caracol. A escada conduzia a uma passagem larga, e, justamente no momento em que ali chegamos, ouvimos o rumor de passos correndo e os gritos de duas vozes, uma respondendo à outra, uma no andar onde estávamos e a outra no andar inferior. Minha protetora parou e olhou em redor, como para saber o que fazer. Então abriu uma porta que dava entrada para um quarto, em cuja janela a lua brilhava.

“— É a única saída — disse ela —, é alto, mas talvez o senhor possa pular.

“Enquanto ela falava, surgiu uma luz ao fundo da passagem, e pude ver o corpo magro do coronel Lysander Stark pular para a frente com uma lanterna numa das mãos e uma arma, como se fosse um machado de açougueiro, na outra. Corri através do quarto, abri a janela e olhei para fora. Como parecia quieto, doce e saudável o jardim à luz da lua! Mas não quis saltar até ouvir o que se passaria entre minha salvadora e o bruto que me perseguia. Se a visse sendo maltratada, eu voltaria a todo custo para protegê-la. O pensamento mal passou pela minha mente antes que ele chegasse à porta e, empurrando-a, a atravessasse; porém, ela, rodeando-o com os braços, procurou segurá-lo.

“— Fritz! Fritz! — gritou em inglês. — Não se esqueça da sua promessa da última vez. Você me disse que não aconteceria nada. Ele não contará. Oh! Ele guardará segredo.

“— Você está louca, Elise? — exclamou ele, procurando livrar-se dela. — Você será a ruína de todos nós. Ele viu demais. Repito, deixe-me passar.

Sidney Paget, 1892

Sidney Paget, 1892

“Empurrou-a para um lado e, correndo até a janela, avançou para mim com sua arma. Quase me soltara do peitoril, mas continuava pendurado pêlos dedos quando ele desferiu a machadada. Senti uma dor mortal, perdi o apoio e caí no jardim.

“Estava atordoado, mas não machucado com a queda; portanto, levantei-me e corri até uns arbustos tão depressa quanto possível, porque compreendi que ainda não estava livre de perigo. De repente, enquanto corria, senti tonturas e náuseas. Olhei a mão que latejava dolorosamente e então vi que o polegar havia sido decepado e que o sangue jorrava da ferida. Esforcei-me por amarrar o lenço ao redor do dedo, mas senti um zumbido nos ouvidos, e, no momento seguinte, caí desfalecido entre as roseiras.

“Quanto tempo assim fiquei não posso dizer, mas deve ter sido bastante, porque a lua tinha desaparecido no horizonte e uma bela aurora surgia quando recuperei os sentidos. Minha roupa estava toda ensopada pelo orvalho, e a manga, molhada de sangue. O latejar me fez recordar tudo o que havia acontecido naquela noite e pus-me de pé, pensando que talvez ainda não estivesse livre do perigo dos meus perseguidores. Mas, para admiração minha, quando lancei a vista em redor, não pude ver nem casa, nem jardim. Estivera deitado num ângulo da sebe ao lado da estrada, e logo abaixo descobri que era a estação a que havia chegado na noite anterior.

“Se não fosse a mão ferida, tudo o que havia acontecido durante aquelas horas terríveis poderia ser interpretado como um sonho mau.

“Meio estonteado ainda, entrei na estação e indaguei a respeito do trem da manhã. Haveria um em menos de meia hora para Reading. Vi que era o mesmo guarda da noite anterior que ainda estava de serviço. Perguntei-lhe se ouvira falar do coronel Lysander Stark, mas o nome era-lhe estranho. Perguntei-lhe se havia notado uma carruagem que estava à minha espera na noite anterior; respondeu-me que não. Se havia um posto policial? Só a cinco quilômetros dali.

“Era demasiado longe. Tão fraco e doente me sentia que resolvi voltar para a cidade antes de procurar a polícia. Cheguei às seis e pouco, fui primeiro à casa do doutor, e ele teve a bondade de me trazer aqui. O caso está nas suas mãos, e farei exatamente o que o senhor me aconselhar.”

Ficamos os dois em silêncio por algum tempo, depois de ouvir a narrativa. Então, Sherlock Holmes tirou da prateleira um dos volumosos livros no qual guardava os seus recortes.

— Aqui está um anúncio que vai interessá-lo — disse ele. — Saiu em todos os jornais cerca de um ano atrás. Escutem:

“Desaparecido desde o dia 9 do corrente o Sr. Jeremias Hayling, de vinte e seis anos de idade, engenheiro hidráulico. Deixou sua casa às vinte e duas horas e nunca mais se soube dele. Estava vestido, etc., etc.. .”

“Isso significa que foi a última vez que o coronel precisou que sua máquina fosse consertada, suponho.”

— Céus! — exclamou o meu cliente. — Então isso explica o que a jovem disse.

— Sem dúvida. Está claro que o coronel é um homem insensível e desesperado, que estava resolvido a que nada o estorvasse, como os piratas que não deixam vivalma no navio capturado. Bem, cada momento agora é precioso. Portanto, se se sente com bastante força, iremos até a Scotland Yard antes de partirmos para Eyford.

Daí a umas três horas estávamos todos no trem, dirigindo-nos de Reading para a pequena aldeia de Berkshire.

Éramos ao todo cinco, Sherlock Holmes, o engenheiro, o inspetor Bradstreet da Scotland Yard, um detetive e eu. Bradstreet havia estendido um mapa utilizado pela artilharia sobre o banco e estava ocupado com o compasso, desenhando um círculo, tendo como centro Eyford.

— Aqui está — disse ele. — Aquele círculo cobre uma distância de dezesseis quilômetros da vila. O lugar que procuramos deve ficar perto daquela linha. Penso que o senhor disse dezesseis quilômetros, não?

— Levou uma hora para chegarmos lá.

— E o senhor acha que eles o carregaram por todo aquele caminho de regresso, enquanto estava desmaiado?

— Devem tê-lo feito. Tenho uma vaga idéia de me sentir levantado e carregado para qualquer lugar.

— O que não posso compreender — disse eu — é por que lhe pouparam a vida quando o encontraram no jardim. Talvez o malvado do homem tivesse cedido aos rogos da moça.

— Duvido. Nunca vi um rosto mais diabólico na minha vida.

— Oh, logo o saberemos — disse Bradstreet. — Bem, fiz o meu círculo, e só desejaria saber a que ponto dele devemos ir para encontrar as pessoas que procuramos.

— Penso que posso agarrá-las — disse Holmes.

— Francamente! — disse o inspetor. — Você já formou a sua opinião? Vamos então, e veremos quem concorda com o senhor. Eu digo que é para o sul, porque a região é menos povoada ali.

— Eu digo que é para leste — disse o meu cliente.

— Sou pelo oeste — disse o detetive —, porque é onde há muitas aldeias calmas.

— Digo para o norte — exclamei —, porque não há elevações e nosso amigo disse que não sentiu que a carruagem subisse.

— Vamos lá — disse o inspetor, rindo —, é uma grande diversidade de opiniões. Fechamos todo o círculo. Com qual de nós concorda o senhor?

— Estão todos errados.

— Todos não, é impossível.

— Estão, sim. Este é o meu ponto.

E colocou o dedo bem no centro do círculo.

— É aqui que vamos encontrá-los.

— Mas e a viagem de vinte quilômetros? — perguntou Hatherley.

— Dez para lá e dez para cá. Nada mais simples. O senhor mesmo disse que o cavalo estava descansado e limpo quando entrou na carruagem. Como poderia estar assim se tivesse caminhado vinte quilômetros por caminhos ruins?

— Deveras, é um ardil astucioso e muito provável — observou Bradstreet, pensativo. — Não pode haver dúvida quanto à natureza desses gângsteres.

— Nenhuma — disse Holmes. — São fabricantes de moedas, em grande escala, e usam a máquina para formar a amálgama que utilizam em lugar da prata.

— Já nos avisaram de que há alguém fazendo isso — disse o inspetor. — Fabricam meias-coroas aos milhares. Já seguimos a pista deles até Reading, mas só até lá, porque encobriram o rastro. Agora, porém, com esta extraordinária coincidência, creio que os apanharemos finalmente.

Sidney Paget, 1892

Sidney Paget, 1892

Mas o inspetor enganou-se, pois aqueles criminosos não estavam destinados a cair nas mãos da justiça. Quando o trem entrou na estação de Eyford, vimos uma gigantesca coluna de fumaça que subia por trás de um renque de árvores, na vizinhança, e que pairava como uma enorme pluma de avestruz sobre a paisagem.

— Um incêndio? — perguntou Bradstreet.

— Sim, senhor — respondeu o chefe da estação.

— Quando foi que começou?

— Ouvi dizer que foi durante a noite, mas aumentou, e o local está todo em chamas.

— De quem é a casa?

— Do Dr. Becker.

— Diga-me — interrogou o engenheiro. — O Dr. Becker é um alemão, alto e magro, de nariz fino?

O chefe riu-se a valer:

— Não, senhor, o Dr. Becker é inglês, e não há homem nesta paróquia que tenha os bolsos tão forrados de dinheiro. Mas com ele mora um cavalheiro, um cliente, creio, que é estrangeiro, e a ele é que fariam bem alguns bons bifes de Berkshire.

O chefe ainda não havia acabado de falar e já estávamos a caminho, em direção ao incêndio. A estrada subia uma colina baixa, e ali, à nossa frente, encontrava-se um grande edifício, deitando fogo por todas as janelas e aberturas. Havia três carros de bombeiros no jardim, que se esforçavam em vão por extinguir as chamas.

— É ali! — exclamou Hatherley muito nervoso. — Lá está a estrada de areia, e lá estão as roseiras onde caí. Aquela segunda janela foi de onde pulei.

— Bem, pelo menos você vingou-se deles. Não pode haver dúvida de que o candeeiro de querosene, quando esmagado pela prensa, ateou fogo às paredes de madeira. Mas estavam tão empenhados na sua perseguição que não perceberam isso. Agora, observe bem para ver se seus amigos de ontem estão no meio desta multidão, embora eu pense que já se encontram a cento e cinqüenta quilômetros daqui.

Os cálculos de Holmes foram confirmados, porque desde aquele dia até hoje nunca se ouviu falar do alemão, nem da linda jovem, nem do inglês melancólico. Pela manhã daquele mesmo dia, um camponês encontrara uma carroça conduzindo diversas pessoas e alguns baús grandes, que corria veloz em direção a Reading, mas dali em diante desapareceram todos os sinais deles; até Holmes, com toda a sua engenhosidade, nunca pôde encontrar uma pista.

Os bombeiros acharam muito esquisitas algumas das particularidades da casa, e ainda mais o fato de encontrarem um polegar humano sobre o peitoril de uma janela do segundo andar. À tardinha, seus esforços foram recompensados, e subjugaram as chamas, mas o telhado já havia caído e o lugar fora reduzido a uma completa ruína; exceto alguns cilindros retorcidos e canos de ferro, nada mais ficou da maquinaria. Grandes massas de níquel e lata foram encontradas num alpendre, mas nem sinal de moedas, pois, sem dúvida, tinham-nas levado nos baús a que se referira o camponês.

A maneira como nosso engenheiro fora levado do jardim para o lugar onde se encontrava ao recuperar os sentidos continuaria um mistério, se não fosse o que a terra mole nos contou. Fora transportado por duas pessoas, uma das quais tinha pés pequenos, e a outra, pés excepcionalmente grandes.

— É possível que o inglês calmo, sendo menos atrevido e menos sanguinário do que seu companheiro, tenha auxiliado a jovem a levar o rapaz inconsciente para fora do perigo.

— Bem! — disse o nosso engenheiro tristemente, enquanto nos sentávamos no trem, de regresso a Londres. — Foi um negócio muito mau para mim! Perdi o polegar, perdi cinqüenta guinéus, e que foi que ganhei?

— Experiência — disse Holmes, rindo. — Indiretamente pode ser de muito valor; só precisa colocá-la em palavras para ganhar fama de ser um excelente companheiro para o resto da vida!

1892
As aventuras de Sherlock Holmes

1. Um escândalo na Boêmia § 2. A liga dos cabeças vermelhas
3. Um caso de identidade § 4. O mistério do vale Boscombe
5. As cinco sementes de laranja § 6. O homem da boca torta
7. O carbúnculo azul § 8. A faixa malhada
9. O polegar do engenheiro § 10. O solteirão nobre
11. A coroa de berilos § 12. As faias cor de cobre

Ilustrações: Sidney Paget, cortesia Camden House
Transcrição: Mundo Sherlock

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