O solteirão nobre

Arthur Conan Doyle

O solteirão nobre

Título original: The Noble Bachelor
Publicado pela primeira vez na Strand Magazine,
em Abril de 1892 e com 8 ilustrações de Sidney Paget.

Sobre o texto em português:
Este texto digital reproduz a
tradução de The Noble Bachelor publicado em
As Aventuras de Sherlock Holmes, Volume II,
editado pelo Círculo do Livro
e com tradução de Hamílcar de Garcia.

O curioso fim do casamento de lorde St. Simon há muito perdeu o interesse para o elevado círculo que o infeliz noivo freqüentava. Outros escândalos o eclipsaram, e novos pormenores desviaram do caso os bisbilhoteiros durante os quatro anos que se passaram depois do drama. Julgo que tenho razão quando digo que todos os fatos nem chegarão a ser publicados, mas, como meu amigo Sherlock Holmes auxiliou muito no esclarecimento do caso, acho que nenhuma das suas memórias seria completa sem um pequeno esboço desse episódio admirável.

Faltavam apenas poucas semanas para o meu próprio casamento, e ainda estava alojado com Holmes na Baker Street, quando uma bela tarde, depois de ter dado um passeio, ele chegou e encontrou uma carta em cima da mesa, à sua espera. Eu não saíra de casa durante todo o dia, porque o tempo mudara de repente, chovia e soprava um vento forte de outono; e a bala de chumbo que trazia comigo numa das pernas, como relíquia da campanha do Afeganistão, latejava com persistência. Sentado numa poltrona com as pernas estendidas uma sobre a outra, rodeei-me de pilhas de jornais até que, finalmente, cansado das notícias do dia, sem ânimo, fiquei olhando o grande brasão e monograma impressos no envelope em cima da mesa e imaginando, preguiçosamente, quem seria esse nobre correspondente do meu amigo.

Sidney Paget, 1892

Sidney Paget, 1892

— Aqui está uma epístola da alta roda — observei quando ele entrou. — Suas cartas esta manhã, se bem me lembro, foram de um peixeiro e de um vigia marítimo.

— Sim, pelo menos minha correspondência tem variedade — disse ele, sorrindo —, e as mais humildes são geralmente as mais interessantes. Esta parece ser um daqueles desagradáveis convites sociais que nos obrigam a agüentar uma noitada enfadonha, ou então a mentir.

Partiu o lacre e passou a vista pelo conteúdo.

— Oh, veja, pode ser que seja de algum interesse, afinal de contas.

— Não é social, então?

— Não, claramente profissional.

— E de um cliente nobre?

— Um dos mais nobres da Inglaterra.

— Meu caro amigo, congratulo-me por você.

— Asseguro-lhe, Watson, que a posição do meu cliente tem menos interesse para mim do que o caso a tratar com ele. É possível, todavia, que sua posição não deixe de ter interesse nas investigações. Você tem lido os jornais com atenção estes dias, não é assim?

— Parece que sim — disse eu tristemente —, não posso fazer outra coisa.

— Foi bom, porque talvez possa dar-me informações. Pessoalmente, não tenho lido nada senão a seção policial. Mas, se você seguiu os últimos acontecimentos, deve ter lido a notícia do casamento de lorde St. Simon.

— Oh, sim, é de grande interesse.

— Está bem. Esta carta é de lorde St. Simon. Vou lê-la para você, e depois você me dará os jornais que tenham qualquer referência ao caso. Eis o que ele diz:

“Caro Sr. Sherlock Holmes:

Lorde Backwater disse-me que podia confiar francamente o meu caso ao seu julgamento e discrição. Resolvi, portanto, fazer-lhe uma visita a fim de consultá-lo com referência à dolorosa ocorrência relacionada com meu casamento. O sr. Lestrade, da Scotiand Yard, já está tratando do caso, mas assegura-me que não faz objeção alguma à sua cooperação e, pelo contrário, acha que será de grande auxílio. Irei a sua casa hoje às dezesseis horas; se tiver qualquer outro compromisso, desejaria que o adiasse, visto o assunto ser da máxima importância.

Sinceramente,

Robert St. Simon.”

— A carta traz o endereço de Grosvenor Mansions, foi escrita com pena de ganso, e o nobre lorde teve a infelicidade de sujar de tinta o lado de fora do seu dedinho direito — observou Holmes, ao dobrar a carta.

— A carta diz dezesseis horas. Agora são quinze. Daqui a uma hora deve chegar.

— Então tenho o tempo justo para, com seu auxílio, obter esclarecimentos acerca do assunto. Passe os olhos por aqueles jornais e ponha os recortes por ordem de datas enquanto eu procuro dados sobre o meu cliente.

Nisto tirou da estante um volume de capa vermelha.

— Aqui está — disse ele, sentando-se e abrindo o livro sobre os joelhos. — Lorde Robert Walsingham de Vere St. Simon, segundo filho do duque de Balmoral. Hum! Brasão azul, três ramos sobre uma faixa negra. Nasceu em 1846. Portanto, tem quarenta e um anos, idade madura para se casar. Foi vice-secretário das colônias numa das últimas administrações. O duque, seu pai, foi há tempos secretário do Exterior. São de sangue Plantageneta por descendência direta, e de sangue Tudor por descendência indireta. Ah! Bem, não há nada de muito instrutivo nisto tudo. Vou ater-me ao que você puder dizer, Watson, e assim, ter conhecimentos mais sólidos.

— Não me dá muito trabalho encontrar o que é preciso, pois os fatos são recentes e o caso chamou minha atenção. Receei falar-lhe no caso, porque você estava fazendo investigações importantes sobre outro assunto e não gosta de intromissões.

— Oh, refere-se ao pequeno problema do caminhão da Grosvenor Square? Aquilo tudo já estava esclarecido, desde o começo não havia grandes dúvidas. Dê-me o resultado dos recortes dos jornais.

— Aqui está o primeiro que encontrei. Está na coluna social do Morning Post e é de algumas semanas atrás.

“No caso de serem verdadeiros certos boatos em circulação, realizar-se-á em breve o casamento de lorde Robert St. Simon, segundo filho do duque de Balmoral, com a Srta. Hatty Doran, filha única de Aloysius Doran, Esq., de San Francisco, Califórnia, EUA.”

“É tudo.”

— Curto, mas preciso — observou Holmes, estendendo as pernas compridas e magras diante do fogo.

— Há um parágrafo que dá maiores detalhes do caso num dos jornais desta semana. Aqui está ele.

“Em breve haverá necessidade de uma medida de proteção no mercado dos casamentos, porque o atual princípio de intercâmbio parece prejudicar o que é nosso. Um a um, os governos das casas nobres da Grã-Bretanha começam a passar-se para as mãos das nossas primas bonitas do outro lado do Atlântico. Um acréscimo importante foi feito durante a semana passada à lista de prêmios que têm sido levados por essas invasoras. Lorde St. Simon, que se mostrou irredutível contra as flechas amorosas de Cupido durante os últimos vinte anos, anunciou definitivamente o seu casamento com a Srta. Hatty Doran, atraente filha de um milionário da Califórnia. Da Srta. Doran, cujo rosto bonito e figura esbelta atraíram muito as atenções nas festividades de Westbury House, diz-se que seu dote, como filha única, será considerável, ultrapassando seis algarismos, com esperanças de mais para o futuro. Como toda gente sabe, o duque de Balmoral precisou vender seus quadros nestes últimos anos, e como lorde St. Simon não possui propriedades, exceto a pequena herdade de Birchmoor, é óbvio que a rica herdeira da Califórnia não será a única a ganhar com a aliança que a habilitará, aliás, a fazer a transição fácil de senhorita republicana para fidalga britânica.”

— Que mais? — disse Holmes, bocejando.

— Oh, sim, há ainda bastante. No Morning Post há outra nota que diz que o casamento será muito simples e que a ele assistirão apenas pessoas da família de ambos. Realizar-se-á na Igreja de São Jorge, na Hanover Square, indo todos em seguida para a casa alugada e mobiliada, em Lancaster Gate, pelo Sr. Aloysius Doran. Dois dias depois, isto é, na quarta-feira última, saiu uma pequena notícia de que o casamento se realizou e que a lua-de-mel seria passada na herdade de lorde Backwater, perto de Petersfield. São apenas essas as notícias publicadas antes do desaparecimento da noiva.

— Antes do quê? — perguntou Holmes, dando um pulo.

— A noiva desapareceu.

— Quando foi isso?

— Por ocasião do almoço de casamento.

— Deveras! Esse é um caso muito interessante, mais do que parecia ser; muito dramático, até.

— Sim, parece fora do comum.

— Geralmente desaparecem antes da cerimônia, e às vezes durante a lua-de-mel; mas não me recordo de coisa tão rápida como essa. Conte-me os pormenores.

— Aviso-o de que são muito incompletos.

— Talvez nós os completemos.

— Os que há encontram-se num simples artigo de um jornal matutino de ontem; vou lê-lo. O cabeçalho é este:

“SINGULAR OCORRÊNCIA DURANTE UM

CASAMENTO ELEGANTE

A família de lorde Robert St. Simon foi lançada numa grande consternação pêlos estranhos e dolorosos episódios que ocorreram em relação ao seu casamento. A cerimônia, como foi anunciado nos jornais de ontem, realizara-se na manhã do dia anterior, porém só agora nos foi possível confirmar os rumores estranhos que nos rodeiam com tanta persistência. Apesar dos esforços de amigos e parentes para encobrir o incidente, a opinião pública está de tal forma interessada que não adianta abafar o que se tornou conhecido de todos.

Sidney Paget, 1892

Sidney Paget, 1892

A cerimônia, que se realizou na Igreja de São Jorge, na Hanover Square, foi de caráter íntimo; assistiram a ela apenas o pai da noiva, Sr. Aloysius Doran, a duquesa de Balmoral, lorde Backwater, lorde Eustace e lady Clara St. Simon (os irmãos mais novos do noivo), e lady Alice Whittington. Todos foram em seguida para a casa do Sr. Aloysius Doran, em Lancaster Gate, onde o almoço estava ppreparado. Houve um pequeno incidente pela manhã, causado por uma mulher cujo nome não se pôde descobrir, que se esforçou por penetrar na casa logo depois de terem entrado os participantes do casamento, alegando que tinha uma reclamação a fazer contra lorde St. Simon. Só depois de longa discussão é que o copeiro e o lacaio puderam pô-la na rua. A noiva, que felizmente havia entrado antes da desagradável interrupção, tinha ido sentar-se à mesa com outros, quando começou a queixar-se de uma forte dor de cabeça e se retirou para o seu quarto. Como sua prolongada ausência começava a provocar comentários, o pai foi procurá-la, mas soube pela aia que ela, mal subira ao quarto, logo descera apressadamente para o hall, depois de ter apanhado a capa e a touca. Um dos lacaios declarou que tinha visto uma moça sair de casa assim vestida, mas não quis acreditar que fosse sua patroa, julgando que ela estava ao lado dos convidados.

Ao saber que sua filha havia desaparecido, o Sr. Aloysius Doran, juntamente com o noivo, pôs-se em comunicação com a polícia, e estão em curso as mais apuradas investigações, as quais provavelmente resultarão num esclarecimento do caso. Ontem, até tarde, todavia, não se havia descoberto coisa alguma quanto ao lugar aonde a noiva tivesse ido. Há boatos de que houve um rapto, e diz-se que a polícia prendeu a mulher que causara escândalo, na suspeita de que, por ciúmes ou qualquer outro motivo, pudesse ter tomado parte na fuga da noiva.”

— É só isso?

— Há mais um pequeno pormenor noutro jornal matutino, o qual é bastante sugestivo.

— O que é?

— É que a Srta. Flora Miliar, a jovem que provocou o escândalo, já foi presa. Ela era, anteriormente, corista no Allegro Club, e parece que se deu com o noivo durante anos. Não há mais particularidades, e o caso agora está todo nas suas mãos, isto é, tudo quanto foi publicado.

— É um caso excessivamente interessante, e não o deixarei escapar. Mas alguém está tocando a campainha, Watson, e como o relógio marca dezesseis horas e alguns minutos, não duvido que seja o nosso nobre cliente. Não se retire, Watson, prefiro que seja testemunha desta entrevista e que a grave bem na memória.

— Lorde Robert St. Simon… — anunciou o nosso criado, abrindo a porta.

Sidney Paget, 1892

Sidney Paget, 1892

Entrou um cavalheiro de fisionomia agradável e demonstrando cultura; muito pálido, nariz alto e boca algo petulante. O olhar era o de um homem cuja sorte o tivesse colocado em posição de comando. Via-se que estava habituado a ser obedecido. Seus movimentos eram rápidos, embora a aparência geral desse a impressão de que era um tanto velho,s porque já estava um pouco arcado e dobrava os joelhos ao andar. Quando tirou o chapéu, vimos que o cabelo já começava a embranquecer. Quanto à roupa, vestia um casaco preto, impecável a ponto de ser pedante. Trazia colarinho alto, colete branco, luvas amarelas, sapatos de pelica com polainas claras. Entrou na sala vagarosamente, olhando de um lado para outro e agitando na mão direita uma corrente a que estava preso um pincenê de ouro.

— Bom dia, lorde St. Simon — disse Holmes, levantando-se e fazendo uma vênia. — Queira sentar-se na cadeira de verga. Este é o Dr. Watson, meu amigo e colega. Chegue-se mais para perto do fogo e assim conversaremos melhor sobre o assunto.

— Assunto muito doloroso para mim, como pode imaginar, Sr. Holmes. Fui profundamente ferido. Compreendo que o senhor já tratou de diversos casos delicados desta natureza, embora calcule que não eram do meio a que pertenço.

— Não, começo a descer.

— Perdão, o que foi que disse?

— Disse que meu último cliente foi um rei.

— Oh, verdade? Não fazia idéia. E que rei?

— O rei da Escandinávia.

— O que perdeu ele? A esposa?

— O senhor compreende — disse Holmes suavemente — que guardo a respeito dos problemas dos meus clientes o segredo que lhe prometo no que se refere ao seu.

— Naturalmente! Muito bem! Peço-lhe perdão. Quanto ao meu caso, estou pronto a dar-lhe qualquer informação que possa ajudá-lo.

— Obrigado. Sei de tudo o que saiu na imprensa, nada mais. Presumo que possa considerar exato este artigo, por exemplo, acerca do desaparecimento da noiva.

Lorde St. Simon passou a vista pelo recorte e disse:

— Sim, está correto.

— Mas necessito de mais informações antes de poder tirar uma conclusão. Suponho que chegarei mais depressa a uma decisão interrogando-o diretamente.

— Peço-lhe que o faça.

— Quando foi que o senhor viu a Srta. Hatty Doran pela primeira vez?

— Em San Francisco, há um ano.

— O senhor estava de visita aos Estados Unidos?

— Sim.

— Ficaram noivos naquela ocasião?

— Não. Achei-a interessante, e ela percebeu que eu gostava de estar a seu lado.

— O pai dela é muito rico?

— Dizem que é o homem mais rico daquele lado do Pacífico.

— Como foi que adquiriu sua fortuna?

— Em minas. Até há poucos anos não tinha nada, depois descobriu ouro, empregou o capital de modo lucrativo e enriqueceu de súbito.

— Diga-me agora: qual é sua impressão pessoal quanto ao caráter de sua jovem esposa?

O nobre agitava cada vez mais o pincenê e olhava para o fogo.

— Olhe, Sr. Holmes — disse ele —, minha esposa já havia feito vinte anos quando o pai se tornou rico. Durante esse tempo todo, levou uma vida livre nos campos onde ficavam as minas, vagueava pelas florestas e montanhas, de modo que sua educação veio apenas do seu encontro com a natureza, não do mestre-escola. Ela é o que aqui na Inglaterra chamamos uma jovem arrojada, livre de tradições. É impetuosa, vulcânica mesmo, era o que ia dizer. Sabe logo o que deve fazer, e é destemida ao levar avante suas resoluções. E eu não a deixaria usar o nome honroso que possuo — neste momento ele tossiu levemente —, se imaginasse que não era dona de um coração nobre. Creio que é capaz de se sacrificar heroicamente, e qualquer coisa desonrosa ser-lhe-ia repugnante.

— Tem uma fotografia dela?

— Trouxe esta comigo.

Abriu o medalhão e mostrou-nos o rosto de uma jovem muito linda. Não era uma fotografia, mas uma medalha de madrepérola, e o artista soubera salientar o cabelo preto lustroso, os olhos escuros, a boca perfeita. Holmes olhou o rosto por longo tempo, depois fechou o medalhão e entregou-o a lorde St. Simon.

— Então a jovem veio para Londres e o senhor reatou amizade com ela?

— Sim, o pai trouxe-a para passar este inverno em Londres. Encontrei-a, ficamos noivos e agora nos casamos.

— Ela trouxe, suponho, um grande dote.

— Uma boa herança. Mas não é mais do que o habitual na minha família.

— Essa herança, certamente, irá para o senhor, assim que o casamento seja um fait accompli [1], não?

— Francamente, não me informei a respeito disso.

— Naturalmente que não. O senhor viu a Srta. Doran no dia anterior ao casamento?

— Sim.

— Estava de bom humor?

— Nunca esteve melhor. Falava continuamente sobre o que iríamos fazer no futuro.

— Deveras? É interessante. E na manhã do casamento?

— Estava muito alegre, isto é, antes da cerimônia.

— Observou alguma mudança?

— Bem, para dizer a verdade, foi então que notei os primeiros sinais de uma certa rispidez. O incidente, todavia, foi trivial demais para merecer atenção, e não pode ter relação com o que sucedeu.

— Mesmo assim, peco-lhe que nos conte.

Sidney Paget, 1892

Sidney Paget, 1892

— Oh! É mera criancice. Ela deixou cair o raminho quando fomos para a sacristia. Passávamos em frente do primeiro banco da igreja. O ramo caiu por cima do banco e ficou no chão. Houve apenas a demora de um instante, porém o cavalheiro que estava no banco apanhou-o e entregou-o a ela, não acontecendo mais nada; contudo, quando lhe falei no caso, respondeu-me abruptamente, e, no carro, de regresso para casa, parecia demasiado agitada com aquele incidente tão comum.

— Deveras! O senhor disse que havia um rapaz no banco. Então, também lá estavam pessoas do povo?

— Oh, sim. É impossível excluí-las quando as portas da igreja estão abertas.

— Esse senhor não era conhecido de sua esposa?

— Não, não; chamei-o cavalheiro por cortesia, mas era uma pessoa modesta. Mal reparei nele. Mas creio que estamos nos desviando do assunto.

— Lady St. Simon, então, voltou do casamento menos alegre do que na ida. O que fez ela ao chegar à casa do pai?

— Vi-a conversando com a aia.

— E quem é a aia dela?

— Seu nome é Alice. É americana, e veio da Califórnia com ela.

— É moça de confiança?

— Tanto quanto possível. Pareceu-me que a patroa lhe dava liberdade em demasia. Mas, por certo, na América, vêem essas coisas de outro modo.

— Por quanto tempo ficou conversando com essa Alice?

— Oh, pouco minutos, acho. Eu estava pensando noutras coisas.

— Então o senhor não ouviu o que disseram?

— Lady St. Simon falou a respeito de uma reivindicação. Costuma usar gíria. Não faço idéia do que queria dizer.

— A gíria americana é muito expressiva às vezes. O que fez sua esposa depois de conversar com a aia?

— Entrou na sala para o almoço.

— Pelo seu braço?

— Não, sozinha. É de espírito muito independente em coisas desse tipo. Depois que estávamos sentados uns dez minutos, levantou-se rapidamente, disse algumas palavras para pedir desculpas, saiu da sala e não voltou mais.

— Mas essa aia, Alice, segundo creio, disse que a patroa subiu ao quarto, cobriu seu vestido de noiva com uma capa, colocou a touca e saiu de casa.

— Exatamente, e foi vista mais tarde passeando no Hyde Park em companhia de Flora Miliar, a mulher que agora está presa, e que já provocara desordem pela manhã em casa do Sr. Doran.

— Ah, sim. Gostaria de saber algumas particularidades a respeito dessa moça e das suas relações com ela.

Lorde St. Simon encolheu os ombros e levantou as sobrancelhas.

— Conhecemo-nos há alguns anos e, posso afirmar, somos muito íntimos um do outro. Ela ia ao Allegro Club. Tratava-a generosamente e ela não podia queixar-se de mim, mas o senhor sabe como são as mulheres. Flora era boazinha, mas desmiolada, e gostava muito de mim. Escreveu-me cartas horríveis quando soube que ia me casar, e, para dizer a verdade, a razão por que desejei que tudo fosse feito sem convites foi pressentir que poderia haver escândalo na igreja. Ela foi à porta do Sr. Doran logo após o nosso regresso e esforçou-se por entrar, falando numa linguagem ofensiva a respeito de minha esposa e até ameaçando-a; porém, como eu previra a possibilidade de alguma coisa daquele gênero, havia dado instruções aos meus empregados, que imediatamente a expulsaram, de modo que ela, quando percebeu que não adiantava fazer barulho, acalmou-se e foi embora.

— Sua esposa ouviu tudo isso?

— Não, graças a Deus, não ouviu.

— Mas depois ambas foram vistas passeando juntas?

— Sim. Isso é de fato o que o Sr. Lestrade, da Scotland Yard, acha uma coisa muito séria. Pensa que Flora atraiu minha mulher e lhe preparou alguma armadilha.

— Bem, é uma suposição possível.

— O senhor também pensa assim?

— Eu não disse que é provável. E o senhor, acredita nisso?

— Acho que Flora não faria mal a uma mosca.

— Todavia, o ciúme transforma o caráter. Diga-me qual é a sua teoria a respeito do que aconteceu.

— Para falar a verdade, vim aqui à procura de uma teoria. Dei-lhe todos os fatos; contudo, já que me perguntou, digo-lhe que o que me ocorreu como possível foi que a excitação desse caso e a idéia de ter subido tanto na escala social possam ter causado uma perturbação mental em minha mulher.

— Isto é, ficou louca de repente?

— Bem, quando vejo que ela virou as costas, já não digo a mim, mas a tudo o que tantas outras têm desejado possuir sem conseguirem obter, não posso explicar a coisa de outro modo.

— Bem, certamente essa é também uma hipótese possível — disse Holmes, sorrindo. — Agora, lorde St. Simon, julgo que tenho todos os dados de que preciso. Posso perguntar-lhe se, quando o senhor estava sentado à mesa, podia ver fora da janela?

— Podia ver o outro lado da rua e o parque.

— Muito bem. Então creio que não preciso detê-lo por mais tempo. Entrarei em contato com o senhor mais tarde.

— Se for feliz em resolver este problema… — disse o nosso cliente, levantando-se.

— Já resolvi.

— Ha? O que foi que o senhor disse?

— Digo que já resolvi o problema.

— Onde está minha mulher?

— Esse é um pormenor que depressa esclarecerei.

Lorde St. Simon abanou a cabeça.

— Receio precisar de cabeças mais sábias do que a sua e a minha — observou ele, e, curvando-se de maneira pomposa e antiquada, foi-se embora.

— Foi muita bondade da parte de lorde St. Simon honrar a minha cabeça, colocando-a no mesmo nível da sua — disse Sherlock Holmes, rindo. — Parece-me que será bom tomarmos um uísque com soda depois de tantas perguntas. Já tinha tirado as minhas conclusões do caso antes da chegada do nosso cliente.

— Holmes!

— Tenho anotações de diversos casos semelhantes, como já disse. O interrogatório todo apenas serviu para transformar minha conjectura em certeza. A prova circunstancial é às vezes muito convincente, como encontrar uma truta no leite, para citar o exemplo de Thoreau.

— Mas ouvi tudo o que você ouviu.

— Sem, todavia, ter o conhecimento dos casos anteriores que tanto me ajuda. Houve um idêntico em Aberdeen há alguns anos atrás, e outro parecido em Munique no ano após a guerra franco-alemã. É um daqueles casos… mas, viva, aqui está Lestrade. Boa tarde, Lestrade! Há outro copo em cima do bufe, e charutos na caixa.

O detetive oficial estava vestido com uma jaqueta e uma gravata que lhe davam uma aparência decididamente náutica, e trazia uma pasta na mão. Cumprimentando-nos laconicamente, sentou-se e acendeu o charuto que lhe havia sido oferecido.

— O que há então? — perguntou Holmes, piscando um olho. — Você parece não estar muito satisfeito.

— Não me sinto satisfeito. É esse caso infernal do casamento de St. Simon. Para mim, não tem pé nem cabeça.

— Deveras? Você me surpreende.

— Onde é que já se viu coisa tão confusa? Cada pista nos escapa. Tenho trabalhado nele o dia inteiro.

— E parece que ficou bem molhado — disse Holmes, pondo a mão sobre a manga da jaqueta do amigo.

— Sim, estive dragando o Serpentine.

— Céus, para quê?

— À procura do corpo de lady St. Simon.

Sherlock Holmes encostou-se para trás na poltrona e deu uma gargalhada.

— E você dragou o tanque da Trafalgar Square? — perguntou.

— Por quê? O que quer dizer com isso?

— Porque tanto pode encontrar essa senhora num lugar como noutro.

Lestrade olhou zangado para o meu companheiro.

— Bem, acabei agora de ouvir os fatos, mas já tenho a minha opinião.

— Oh, deveras? Então pensa que o Serpentine não tem nada a ver com o caso?

— Não é provável.

— Então saberá explicar-me por que encontramos isto no lago.

Sidney Paget, 1892

Sidney Paget, 1892

Abriu a pasta enquanto falava, e caíram no assoalho um vestido de noiva em seda lavrada, um par de sapatos de cetim branco e o véu com a grinalda, tudo molhado e descorado pela água.

— Aí está — disse ele, colocando uma aliança nova em cima das outras peças. — Eis uma pequena noz para você quebrar, mestre Holmes.

— Oh, deveras! — disse o meu amigo, lançando caracóis de fumaça para o ar. — Tirou-a do Serpentine?

— Não. Foram descobertos boiando perto da margem por um dos guardas do parque. Foram identificados como pertencentes a lady St. Simon, e pareceu-me que, se a roupa estava ali, o corpo não podia estar longe.

— De acordo com esse brilhante raciocínio, então o corpo de cada homem deve estar sempre perto do seu guarda-roupa? E, diga-me, que conclusão esperava tirar disto tudo?

— Qualquer pista implicando Flora Millar no desaparecimento.

— Creio que será difícil.

— Agora realmente é — disse Lestrade, com amargura. — Estou apreensivo, Holmes. Acho que você não foi eficiente nas suas deduções e conclusões. Cometeu dois erros em poucos minutos. Este vestido compromete Flora Millar.

— Mas como?

— O vestido tem um bolso. No bolso encontrei um cartão de visita. No cartão há uma anotação. E aqui está.

E colocou-o na mesa à sua frente, lendo em voz alta:

“Ver-me-á quando estiver tudo em ordem. Venha quanto antes.

F. H. M.”

— Ora, minha teoria é que lady St. Simon foi atraída por Flora Millar, e que esta, com o auxílio de outros, sem dúvida, é responsável pelo seu desaparecimento. Aqui, assinado com as suas iniciais, está o próprio bilhete que, com toda a certeza, lhe foi entregue à porta e a atraiu para junto deles.

— Muito bem, Lestrade — disse Holmes, rindo. — Você é maravilhoso. Deixe-me vê-lo.

Pegou o cartão negligentemente, mas sua atenção foi despertada e logo deu um grito de satisfação.

— Isto é deveras importante — disse ele.

— Ah! Acha que é?

— Muitíssimo. Dou-lhe os parabéns.

Lestrade levantou-se, triunfante, e baixou a cabeça para observá-lo.

— Mas você está lendo o cartão pelo verso — exclamou ele.

— Pelo contrário, este é que é o lado da frente.

— O lado da frente? Você está louco? Aqui está o recado, escrito a lápis deste lado.

— E do outro há o que parece ser parte de uma conta de hotel, que me interessa profundamente.

— Não vale nada. Já vi — disse Lestrade. — Diz apenas:

“4 de outubro: quarto, 8 xelins; café da manha, 2 xelins e 6 pence; coquetel, 1 xelim; lanche, 2 xelins e 6 pence; um copo de vinho do Porto, 8 pence”.

— Não vejo nada de interesse nisso — concluiu Lestrade.

— Talvez não. É da maior importância, mesmo assim. Quanto ao bilhete, é importante também, pelo menos as iniciais o são; por isso, dou-lhe parabéns outra vez.

— Já perdi muito tempo com isso — disse Lestrade, levantando-se. — Gosto de trabalhar a valer e não ficar sentado ao lado do fogo tecendo belas teorias. Até logo, Sr. Holmes, havemos de ver quem descobre tudo isto primeiro.

Juntou a roupa, pôs tudo na pasta e aproximava-se da porta quando Holmes disse:

— Tome esta sugestão a sério, Lestrade, e digo-lhe que é a verdadeira solução do caso. Lady St. Simon é um mito, não há e nunca houve tal pessoa.

Lestrade olhou tristemente para meu companheiro, depois para mim, bateu com a mão na testa três vezes, meneou a cabeça solenemente e foi-se embora às pressas.

Mal ele havia saído, Holmes levantou-se e vestiu o sobretudo.

— Há uma verdade no que disse aquele sujeito a respeito do trabalho fora de casa; por isso, Watson, vou deixá-lo com seus jornais durante algum tempo.

Já passava das dezessete horas quando Sherlock Holmes me deixou; não tive tempo para me sentir solitário, pois não se passara ainda uma hora quando chegou um empregado da confeitaria com uma enorme caixa plana. Desembrulhou-a e abriu-a com o auxílio de outro rapaz, e imediatamente, para surpresa minha, uma opípara ceia começou a encher a nossa mesa de mogno. Havia duas perdizes, um faisão, um pâte de foie gras e diversas garrafas. Tendo acabado de pôr tudo sobre a mesa, meus dois visitantes desapareceram, como o gênio das Mil e uma noites, sem dar uma explicação sequer, a não ser que estava pago e fora mandado para aquele endereço.

Pouco antes das vinte e uma horas Sherlock Holmes entrou apressado. Sua fisionomia estava grave, mas havia um brilho nos seus olhos que me fez pensar que não tinha ficado desapontado com suas conclusões.

— Puseram a mesa então? — disse ele, esfregando as mãos.

— Você parece que espera visitas, puseram mesa para cinco pessoas.

— Sim, é possível que venha alguém. Estou surpreso de que lorde St. Simon ainda não tenha chegado. Ah! Parece que é ele que vem subindo as escadas.

Era o nosso visitante da manhã, o qual entrou apressadamente, agitando o pincenê mais depressa do que nunca e com um ar perturbado na fisionomia aristocrática.

— Meu mensageiro conseguiu então falar-lhe? — perguntou Holmes.

— Sim, e confesso que seu recado me surpreendeu imensamente. O senhor tem autoridade sobre aquilo que diz?

— A melhor possível.

Lorde St. Simon caiu numa cadeira e passou a mão pela fronte.

— Que dirá o duque — murmurou ele — quando souber que um membro da família foi sujeito a tão grande humilhação?

— É o mais puro acidente. Não vejo aqui nenhuma humilhação.

— Ah! O senhor vê as coisas por outro prisma!

— Falta-me saber se alguém tem culpa. Não vejo outra coisa que a jovem pudesse fazer, embora tenha usado um método abrupto, mas, não tendo mãe, ela não tinha a quem recorrer para aconselhá-la numa crise destas.

— Foi uma desfeita, senhor, um insulto público — disse lorde St. Simon, batendo com as pontas dos dedos na mesa.

— Mas o senhor precisa ser complacente com a pobre moça colocada numa situação tão insólita.

— Não perdôo coisa alguma. Estou furioso e sinto que fui humilhado.

— Estão tocando — interrompi eu.

— Sim, ouço passos no vestíbulo; uma vez que não consigo persuadi-lo a ser menos severo, lorde St. Simon, trouxe um advogado que talvez seja mais bem-sucedido do que eu — disse Holmes.

Abriu a porta e deu entrada a uma senhora e a um cavalheiro.

— Lorde St. Simon — continuou —, permita-me que lhe apresente o Sr. e a Sra. Francis Hay Moulton. A senhora, calculo, já é sua conhecida.

Sidney Paget, 1892

Sidney Paget, 1892

À vista desses novos visitantes, nosso cliente pulou da cadeira e ficou ereto, mas cabisbaixo, com a mão enfiada no peito do casaco, uma perfeita figura de dignidade ofendida.

A senhora dera um passo à frente e estendera a mão a lorde St. Simon, que se recusou a levantar os olhos. Talvez fosse melhor, porque o rosto dela era o de quem pedia que não fizesse mau juízo a seu respeito, e era difícil de resistir a ele.

— Você está zangado, Robert — disse ela. — Bem, acho que tem razão.

— Rogo-lhe que não me peça desculpas — disse lorde St. Simon, amargo.

— Oh! Sei que o magoei e devia ter-lhe falado antes de ir embora, mas fiquei atordoada desde o momento em que vi Frank novamente, e não sabia o que fazer. Não sei como não desmaiei no altar.

— Talvez a Sra. Moulton queira que meu amigo e eu deixemos a sala enquanto se explicam…

— Se me permitem, darei minha opinião — observou o cavalheiro estranho. — Tem havido grande segredo em torno de todo este caso. Por mim, gostaria que toda a Europa e a América soubessem dos fatos.

Era um homem forte, queimado pelo sol e de olhar vivo.

— Então vou contar toda a história agora mesmo — disse a senhora.

“Frank e eu conhecemo-nos em 1881, no acampamento de McQuire, perto das Rochosas, onde meu pai possuía uma propriedade. Ficamos noivos, mas um dia meu pai encontrou um rico veio de ouro e ganhou muito dinheiro, enquanto o infeliz Frank perdeu até mesmo sua propriedade. Enquanto meu pai enriquecia, Frank empobrecia; finalmente meu pai não quis saber mais do nosso casamento e levou-me para San Francisco. Frank não desistiu e seguiu-me até lá, vendo-me sem que meu pai soubesse, pois ele se enfurecia; por isso nos encontrávamos às escondidas. Só isso chegaria para deixá-lo furioso, e portanto resolvemos tudo a nosso respeito. Frank disse que voltaria para fazer fortuna e não viria me buscar até que estivesse tão rico quanto meu pai. Assim sendo, prometi não me casar com outro e esperá-lo quanto tempo fosse preciso. Mas ele me perguntou:

“— Por que não nos casamos agora mesmo? Dessa forma eu me sentiria mais seguro; mas não a levarei comigo.

“Consideramos muito o caso, e ele planejou tudo, até o próprio padre estava à espera; casamo-nos ali mesmo, naquele momento; e então Frank foi embora para fazer fortuna e eu voltei para junto de meu pai.

“A primeira notícia que ouvi a respeito dele foi de que estava em Montana; em seguida, que fora explorar minas no Arizona, e depois no Novo México. Por fim, li uma longa notícia num jornal sobre um acampamento de mineiros que havia sido atacado pêlos índios apaches, e o nome do meu Frank estava na lista dos mortos. Desmaiei e fiquei doente durante alguns meses. Meu pai julgou que eu houvesse contraído tuberculose e levou-me para consultar os melhores médicos de San Francisco.

“Durante mais de um ano não soube nada de Frank, e por isso não duvidei de que ele estivesse mesmo morto.

“Foi então que apareceu lorde St. Simon em San Francisco. Viemos para Londres e arranjou-se o casamento, ficando meu pai satisfeito; mas eu sentia, durante todo esse tempo, que nenhum outro homem tomaria no meu coração o lugar que eu havia dado ao meu pobre Frank. Contudo, se tivesse me casado com lorde St. Simon, teria cumprido o meu dever. Não se pode obrigar o amor, só podemos guiar-nos pelas nossas ações. Fui para o altar com a intenção de ser boa esposa. Mas devem calcular meus sentimentos quando, ao chegar à grade do altar, me voltei e vi Frank em pé, no primeiro banco, olhando-me; pensei que fosse um fantasma, mas, olhando de novo, lá estava ele ainda, como que perguntando com o olhar se eu estava alegre ou triste por vê-lo ali. Não sei como não caí. Sei que tive uma tontura, e as palavras que o padre pronunciava pareciam o zumbido de uma abelha aos meus ouvidos. Não sabia o que fazer. Devia suspender a cerimônia e fazer um escândalo na igreja? Olhei-o novamente, e ele pareceu adivinhar o que eu estava pensando, porque ergueu a mão e colocou o dedo nos lábios, fazendo sinal para que me calasse. Vi que rabiscou qualquer coisa num papel. Era um bilhete. Quando passei perto do banco onde ele estava, deixei cair o ramo, e ele pôs o bilhete nas minhas mãos quando me entregou as flores. Era somente uma linha, pedindo-me para ir ter com ele logo que me fizesse um sinal. Está visto que percebi que meu primeiro dever agora era para com ele, e resolvi fazer aquilo que me sugeria.

“Ao chegar a casa contei tudo à minha empregada pessoal, que o conhecia da Califórnia. Ordenei-lhe que não dissesse nada, mas que preparasse um pacote de roupas e tivesse a minha capa à mão. Sei que devia ter falado com lorde St. Simon, mas era muito difícil, perante a mãe dele e toda aquela gente importante. Resolvi fugir e contar tudo depois. Não havia ainda dez minutos que estava à mesa quando vi Frank pela janela, do outro lado da rua, acenando-me para que fosse ter com ele, dirigindo-se depois ao parque.

Sidney Paget, 1892

Sidney Paget, 1892

“Saí da sala, vesti a capa e fui atrás dele. Uma mulher que eu não conheço veio dizer-me qualquer coisa a respeito de lorde St. Simon; pareceu-me, pelo pouco que ouvi, que também ele tivera um segredo quando solteiro, mas consegui fugir dela e seguir Frank. Tomamos um trem e fomos para uma casa que ele alugara na Gordon Square, e aquele foi o meu verdadeiro casamento depois de tantos anos de espera.

“Frank ficara prisioneiro dos apaches, mas escapara; voltando a San Francisco, soube que eu o julgara morto e tinha ido para a Inglaterra. Seguiu-me e encontrou-me enfim na hora do meu segundo casamento.”

— Li o anúncio no jornal — explicou o americano; — dava o nome da igreja, mas não dava o endereço da noiva.

— Conversamos muito a respeito do que se devia fazer. Frank desejava que tudo fosse posto às claras, mas eu me sentia tão envergonhada de tudo, que desejava desaparecer e nunca mais ver nenhum deles; talvez mandasse umas linhas dando explicações a meu pai, para que ele soubesse que estava viva. Era horrível lembrar-me de todos aqueles nobres ao redor da mesa, à espera do meu regresso. Por isso, Frank pegou minha roupa de casamento, fez um embrulho e atirou-o num lugar onde ninguém o pudesse encontrar. Talvez seguíssemos para Paris amanhã, se não fosse este cavalheiro, Sr. Holmes, que foi ter conosco esta tarde. Como nos descobriu, não posso imaginar; contudo, fez-nos ver que eu estava errada e Frank tinha razão; que sofreríamos alguns vexames se guardássemos segredo sobre o assunto. Depois ofereceu-se para arranjar um encontro com lorde St. Simon a sós, e por isso viemos diretamente para o seu apartamento. Agora, Robert, que já ouviu tudo, sinto se lhe causei alguma aflição e espero que não pense mal de mim.

Lorde St. Simon continuou na mesma atitude rígida, mas ficara com a testa franzida e os lábios apertados durante toda a narrativa.

— Desculpe-me — disse ele —, mas não é meu costume discutir meus assuntos particulares publicamente.

— Então não me perdoa nem me dá a mão antes de eu partir?

— Oh, certamente, se é que isso lhe causa prazer.

Estendeu a mão e pegou friamente na mão dela.

— Esperava que nos desse o prazer de cear amigavelmente conosco — sugeriu Holmes.

— Creio que o senhor está pedindo demais — respondeu lorde St. Simon. — Suponho que sou obrigado a aceitar os recentes acontecimentos, mas não devem esperar que me regozije com eles. Com sua licença, desejo-lhes, a todos, boa noite.

Sidney Paget, 1892

Sidney Paget, 1892

Incluiu-nos também a nós, e, com uma profunda reverência, saiu pomposamente.

— Então espero, pelo menos, que o senhor me honre com a sua companhia — disse Holmes. — É sempre um prazer para mim, Sr. Moulton, encontrar um americano, porque sou um daqueles que crêem que a doidice de um monarca e os erros de um ministro em tempos idos não impedirão que nossos filhos algum dia se tornem cidadãos do mesmo país universal sob uma bandeira que será dividida entre a Union Jack da Inglaterra e as Stars and Stripes da América.

— Este caso é muito interessante — observou Holmes, depois da partida dos nossos visitantes. — Serve para demonstrar claramente como pode ser simples a explicação de uma coisa que antes parecia inexplicável. Nada poderia ser mais natural do que a seqüência dos acontecimentos narrados pela jovem, e nada mais estranho do que o resultado, quando visto, por exemplo, pelo sr. Lestrade, da Scotland Yard.

— Você então não se enganou?

— Desde o princípio dois fatos eram óbvios para mim: um, que a jovem havia consentido na cerimônia do casamento, e o outro, que se arrependera poucos minutos depois de chegar a casa. Era evidente que qualquer coisa acontecera naquela manhã para fazê-la mudar de opinião. O que podia ser? Ela não falou com ninguém quando saiu da igreja, porque estava junto do noivo. Teria ela visto alguém da América? Pois estivera tão pouco tempo na Inglaterra que aqui não poderia haver quem tivesse tão grande influência sobre ela a ponto de, com seu simples aparecimento, induzi-la a mudar completamente os planos. Chegamos, como você vê, pelo processo da exclusão, à idéia de que poderia ter visto um americano. Então quem seria esse americano, e por que exercia tanta influência sobre ela? Podia ser um namorado; podia ser um marido. Eu já sabia que ela passara a infância em lugares meio selvagens, sob condições estranhas e vendo cenas inconvenientes. Essas deduções eu já havia feito, antes de ouvir a narrativa de lorde St. Simon. Mas, quando ele nos contou do homem no banco da igreja e do procedimento estranho da noiva depois, da engenhosa invenção de deixar cair o ramo para a recepção de um bilhete, de ter confiado na ama e de sua alusão a uma “reivindicação”, que quer dizer, em linguagem de mineiros, tomar posse daquilo a que antes se tinha direito, a situação tornou-se clara. Ela fugira com outro homem, namorado ou marido, e era mais provável que fosse este último.

— E como foi que você o descobriu?

— Podia ter sido mais difícil, mas, sem o saber, o amigo Lestrade tinha nas mãos uma informação de grande valor. As iniciais eram da maior importância, porém mais importante ainda era saber que o jovem, esta semana, havia pago uma conta num dos hotéis mais seletos de Londres.

— Como deduziu que era seleto?

— Pêlos preços, também seletos! Oito xelins por uma cama e oito pence por um copo de vinho do Porto provavam ser um dos hotéis mais caros. Poucos têm esse preço. No segundo que visitei, na Northumberland Avenue, fiquei ciente de que um tal Sr. Francis H. Moulton, cavalheiro americano, havia deixado o hotel no dia anterior e, ao examinar o seu registro, vi justamente as despesas que havia lido naquela conta; suas cartas deveriam ser remetidas para a Gordon Square, 226. Fui até lá e tive sorte, porque encontrei o casalzinho em casa. Aconselhei-os paternalmente e disse-lhes que, de todas as maneiras, seria melhor esclarecer os acontecimentos, tanto para o público como para lorde St. Simon, particularmente. Convidei-os a virem encontrá-lo aqui e, como viu, obriguei-o também a vir.

— E com resultados excelentes — observei —, mas a conduta dele não foi nada delicada.

— Ah, Watson — disse Holmes, sorrindo —, talvez você não fosse muito delicado se, depois de tanto esforço em cortejar e casar-se, fosse em tão curto espaço de tempo despojado tanto da mulher como da sua fortuna; penso que devemos desculpar lorde St. Simon e pedir a Deus que nos livre de uma situação igual. Chegue a cadeira para perto do fogo e dê-me o meu violino, porque agora nosso único problema é saber a melhor maneira de passar estas frias noites outonais.

[1] “Fato consumado.” Em francês no original. (N. do E.)

1892
As aventuras de Sherlock Holmes

1. Um escândalo na Boêmia § 2. A liga dos cabeças vermelhas
3. Um caso de identidade § 4. O mistério do vale Boscombe
5. As cinco sementes de laranja § 6. O homem da boca torta
7. O carbúnculo azul § 8. A faixa malhada
9. O polegar do engenheiro § 10. O solteirão nobre
11. A coroa de berilos § 12. As faias cor de cobre

Ilustrações: Sidney Paget, cortesia Camden House
Transcrição: Mundo Sherlock

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