A inquilina do rosto coberto

Arthur Conan Doyle

A inquilina do rosto coberto

Título original: The Veiled Lodger
Publicado pela primeira vez na Liberty,
Janeiro de 1927, com 4 ilustrações de Frederic Dorr Steele
e na Strand Magazine, em Abril de 1927,
com 5 ilustrações de Frank Wiles.

Sobre o texto em português:
Este texto digital reproduz a
tradução de The Veiled Lodger publicado em
As Aventuras de Sherlock Holmes, Volume VII,
editado pelo Círculo do Livro
e com tradução de Hamílcar de Garcia.

Quando se considera que o sr. Sherlock Holmes exerceu suas atividades de detetive durante vinte e três anos e que durante dezessete deles eu cooperei com ele, tomando nota de seus feitos, torna-se evidente que disponho de farto material. O problema sempre foi, não encontrar, mas escolher. Lá está a longa fila de agendas de cada ano, que enchem uma estante, lá estão as caixas pejadas de documentos, uma fonte inestimável para quem quiser estudar não só o crime, mas os escândalos sociais e oficiais dos fins da era vitoriana. Com referência a estes últimos, posso afirmar que aqueles que escrevem cartas aflitivas pedindo que seja poupada a honra de sua família e a fama de seus antepassados nada têm a temer. A discrição e o alto sentido de honra profissional que sempre distinguiram meu amigo presidem, hoje como ontem, à seleção dessas memórias, e jamais haverá abuso de confiança. Por isso é que contam com a minha mais decidida reprovação as tentativas que ultimamente têm sido feitas no sentido de, por qualquer processo, se lançar mão desses papéis e destruí-los. Sabe-se de onde provêm tais insinuações insultuosas, e, se elas se repetirem, estou autorizado pelo sr. Holmes a dizer que será levada a público toda a história referente ao político, ao farol e ao corvo marinho ensinado. Há pelo menos um leitor que entenderá do que se trata…

Não é razoável supor que cada um desses casos tenha dado a Holmes a oportunidade de mostrar aqueles curiosos dons de instinto e observação que me esforcei por tornar patentes nestas memórias. Algumas vezes, só a poder de muito trabalho é que ele conseguiu colher o fruto; outras, este veio lhe cair facilmente nas mãos. Mas muitas vezes as mais terríveis tragédias humanas estavam contidas em casos que lhe ofereceram pouquíssimas oportunidades pessoais, e é um desses que eu agora desejo registrar aqui. Narrando-o, fiz uma ligeira troca de nome e de lugar, mas, exceto isso, os fatos são a expressão da verdade.

Numa manhã dos fins de 1896, recebi um bilhete de Holmes, escrito às pressas, pedindo o meu comparecimento. Ao chegar, encontrei-o envolvido numa atmosfera impregnada de fumaça, e na cadeira defronte da sua estava sentada uma matrona idosa e rechonchuda com aspecto de estalajadeira.

— Esta é a sra. Merrilow, de South Brixton — disse o meu amigo, com um aceno de mão. — A sra. Merrilow não se importa com o tabaco, Watson, de modo que, se quiser, não faça cerimônia; pode se entregar aos seus hábitos pouco asseados de fumador. Ela tem uma interessante história para contar. É provável que essa história seja o prelúdio de acontecimentos nos quais sua presença seria útil.

— Tudo o que eu puder fazer…

— A senhora compreenderá, sra. Merrilow, que, se eu for visitar a sra, Ronder, preferiria levar uma testemunha. A senhora lhe dirá isto antes da nossa chegada.

— Benza-o Deus, sr. Holmes — disse a nossa visitante; — ela anda tão ansiosa por vê-lo que o senhor podia levar até a paróquia inteira.

— Pois então iremos depois do meio-dia. Agora é preciso que, antes de mais nada, tenhamos todos os fatos em perfeita ordem. Se os recapitularmos, o dr. Watson ficará plenamente inteirado da situação. A senhora me disse que a sra. Ronder é sua inquilina há sete anos e que só lhe viu o rosto uma vez.

— E antes nunca o tivesse visto! — exclamou a sra. Merrilow.

— Estava, segundo entendi, terrivelmente mutilado.

— Sr. Holmes, com certeza teria dificuldade em dar àquilo o nome de rosto. É o que lhe digo. Nosso leiteiro viu-a de relance, uma vez, quando ela espiava da janela de cima, e deixou cair a lata, entornando todo o leite na calçada. É assim o rosto de que lhe falei. Quando eu a vi (cheguei de repente, apanhando-a desprevenida), ela cobriu-o depressa e disse: “Agora, sra. Merrilow, já sabe por que é que eu nunca tiro o meu véu”.

— Sabe alguma coisa de sua história?

— Absolutamente nada.

— Quando ela chegou, não trouxe referências?

— Não, senhor, mas trouxe muito dinheiro, e deu-me boa parte dele. Pagou três meses adiantadamente, sem discutir condições. Nos tempos que correm, uma pobre mulher como eu não pode perder uma oportunidade dessas.

— Apresentou alguma razão por ter escolhido sua casa?

— A casa fica bastante afastada da rua e quase não é visível. Ademais, só alugo um quarto e não tenho família. Calculo que ela tenha ido a outras e verificado que a minha lhe convinha mais. O que ela quer é isolamento, e paga para ficar sozinha.

— Diz a senhora que ela nunca mostrou o rosto, desde sua chegada até hoje, salvo uma única ocasião, acidentalmente. Isso é por certo um caso notável, e não me admiro de que a senhora deseje que o examinem.

— Eu não o desejo, sr. Holmes. Dou-me por satisfeita uma vez que receba o aluguel. Não seria possível arranjar um inquilino mais sossegado e que desse menos trabalho.

— Então, a que deve essa sua atual resolução?

— A causa, sr. Holmes, é a saúde de minha inquilina. Ela parece estar definhando. E tem qualquer coisa de terrível no espírito. “Assassinato!”, grita ela. “Crime de morte!” E uma vez ouvi-a dizer em voz alta: “Você é um monstro, uma fera!” Era de noite. A voz ressoou pela casa toda e causou-me arrepios. Então, de manhã, fui procurá-la. “Sra. Ronder”, disse eu, “se tem qualquer coisa que lhe pesa na consciência, posso mandar chamar um padre, ou avisar a polícia. Com um ou com outro, a senhora se sentirá aliviada.” “Por caridade, a polícia não!”, disse ela. “E o padre não pode modificar o que já se passou. E contudo”, acrescentou, “eu me sentiria bem mais tranqüila se alguém soubesse a verdade antes de minha morte.” “Bem”, respondi, “se quer uma sugestão, há esse detetive de que tanto falam os jornais… “, desculpe, sr. Holmes. E ela concordou imediatamente. “É esse o homem”, disse ela. “Não sei como é que ainda não tinha pensado nisso. Traga-o aqui, sra. Merrilow, e, se ele não quiser vir, diga-lhe que sou a mulher de Ronder, o dono do pavilhão de feras. Diga-lhe isso e dê-lhe o nome Abbas Parva.” Aqui está como ela o escreveu: Abbas Parva. “Isso o fará vir, se é o homem que penso.”

— E acertou — disse Holmes. — Muito bem, sra. Merrilow. Gostaria de ter uma pequena conversa com o dr. Watson. Estaremos entretidos até a hora do almoço. Lá pelas três horas, pode nos esperar em sua casa, em Brixton.

Nem bem a nossa visitante havia saído da sala, bamboleando-se (é este o verbo que melhor descreve o seu andar), Sherlock Holmes atirou-se avidamente a uma pilha de livros que estava a um canto. Por alguns minutos, só se ouvia o ruído do folhear de páginas. Finalmente, com um grunhido de satisfação, deu com o que procurava. Tão ansioso estava que nem se ergueu, mas sentou-se no chão qual um estranho Buda, de pernas cruzadas, rodeado de calhamaços, um deles aberto sobre os joelhos.

— Na época, Watson, o caso não deixou de me preocupar. Prova do que digo são estas minhas notas à margem. Confesso que não pude decifrar o enigma. E todavia estava convencido de que o juiz errara. Você não se lembra da tragédia de Abbas Parva?

— Não, Holmes.

— No entanto, nessa época você estava comigo. Mas eu mesmo pouco me interessei pelo caso, pois nada havia nele que nos pudesse orientar, e nenhuma das partes contratou os meus serviços. Mas talvez queira ler os jornais.

— Não podia me dar os principais tópicos?

— Nada mais fácil. Provavelmente, enquanto eu falo, você se recordará do caso. Ronder era um nome que andava na boca de todos. Era o rival de Wombwell e de Sanger, um dos maiores donos de circo do seu tempo. Ficou provado, entretanto, que dera para beber, e na época da grande tragédia tanto ele como o circo estavam em decadência. A caravana pernoitava em Abbas Parva, aldeola de Berkshire, quando se deu o desastre. Dirigiam-se para Wimbledon, viajando pela estrada, e estavam simplesmente acampados, não em exibição, uma vez que o lugarejo é tão insignificante que não valia a pena dar nenhum espetáculo ali.

“Possuíam entre as atrações um belo leão do norte da África. Seu nome era Rei do Saara, e tanto Ronder como a mulher tinham por costume dar exibições dentro da própria jaula da fera. Aqui está uma fotografia do espetáculo. Por ela você verá que Ronder era um tipo corpulento, com qualquer coisa de bestial na aparência, e que a esposa era uma esplêndida mulher. Houve depoimentos, no inquérito, segundo os quais havia indícios de que o leão era perigoso, mas, como sempre acontece, a familiaridade gerou o desprezo, e não se deu atenção ao fato.

“Tanto Ronder como a mulher costumavam dar comida ao leão à noite. Ora ia um, ora ambos, mas jamais permitiam que qualquer outra pessoa o fizesse, porque acreditavam que, enquanto fossem eles que levassem o alimento, a fera os consideraria como benfeitores e nunca haveria de molestá-los. Naquela noite, há já sete anos, foram os dois, e aconteceu um fato medonho, cujos pormenores nunca ficaram esclarecidos.

“Parece que todo o acampamento foi acordado, cerca da meia-noite, pêlos rugidos do animal e os berros da mulher. Os diversos tratadores de animais e os outros empregados saíram correndo de suas tendas, trazendo lanternas, e, à claridade delas, deparou-se-lhes uma cena horrorosa. Ronder jazia por terra, com a parte posterior da cabeça esmagada e fundos sinais de garras no crânio. Isso se dera a pouco menos de dez metros da jaula, que estava aberta. Perto da porta da jaula estava a sra. Ronder, deitada de costas, com o animal agachado e rosnando em cima dela. O leão dilacerara-lhe de tal modo o rosto que ninguém pensou que pudesse escapar com vida. Vários homens do circo, chefiados por Leonardo, o campeão de peso, e Griggs, o palhaço, conseguiram afastar dali a fera e fizeram-na entrar de novo na jaula, que foi fechada imediatamente. Como o leão tinha conseguido evadir-se dali era um mistério. Conjeturou-se que o casal estava para penetrar na jaula, mas que, quando a porta foi aberta, o animal se atirou a eles. Não havia no depoimento nenhum outro ponto de interesse, a não ser que a mulher, delirando, gritava várias vezes ‘Covarde! Covarde!’, enquanto a transportavam para o grande veículo que lhes servia de morada. Somente seis meses depois é que ela pôde depor, mas deu-se por encerrado o inquérito, sendo proferida afinal a sentença de morte acidental.

— Que outra alternativa podia haver? — perguntei.

— É o que se dizia. No entanto, havia um ou dois pontos que preocupavam o jovem Edmunds, da delegacia de polícia de Berkshire. Belo rapaz aquele! Posteriormente, foi transferido para Allahabad. Foi aí que eu me enfronhei no assunto, porque ele me fez uma visita, e juntos demos nossas cachimbadas discutindo o caso.

— Um homem magro, de cabelo amarelo?

— Exatamente. Tenho certeza de que agora você pega o fio.

— Mas o que é que o preocupava?

— Ora, estávamos os dois preocupados. Era quase impossível reconstituir um caso como aquele. Consideremo-lo do ponto de vista do leão. O bicho vê-se livre. Que faz ele? Dá uns pulos e alcança Ronder. Este vai fugir (as marcas das garras estavam na parte posterior da cabeça), mas o leão o derruba. Depois, em vez de saltar e fugir, volta-se para a mulher, que estava perto da jaula, deita-a por terra e despedaça-lhe o rosto. Em seguida, aqueles gritos dela parecem dar a entender que o marido não lhe acudira. Que podia fazer o pobre-diabo para ajudá-la? Vê a dificuldade?

— Perfeitamente.

— E havia mais uma coisa. Vem-me agora outra vez à mente enquanto recapitulo os fatos. Foi dito durante os depoimentos que, justamente no momento em que o leão rugia e a mulher berrava, um homem começou a gritar, tomado de terror.

— Com certeza foi o tal Ronder.

— Mas se o homem tinha o crânio esfacelado, não estava mais em condições de gritar. Houve pelo menos duas testemunhas que falaram nos gritos de um homem que se misturavam com os de uma mulher.

— Quero crer que, numa conjuntura dessas, todo o acampamento andaria aos berros. Quanto aos demais pontos, penso que poderia propor uma solução.

— Gostaria de ouvi-la.

— Estavam os dois juntos, a uns dez metros da jaula, quando o leão saiu. O homem voltou-se e foi derrubado. A mulher teve a idéia de penetrar na jaula e fechar a porta. Era o seu único refúgio. Encaminhou-se para a jaula, e, justamente quando a alcançava, o animal saltou-lhe atrás e derrubou-a. Ela se irritou com o marido pelo fato de ele, ao voltar-se, ter incitado a raiva do animal. Se ambos o tivessem enfrentado, podiam tê-lo espavorido. Daí ela ter gritado: “Covarde!”

— Brilhante, Watson! Há apenas uma falha no seu argumento.

— Qual é, Holmes?

— Se estavam ambos a dez passos da jaula, como foi que a fera fugiu?

— Quem sabe eles tinham algum inimigo que soltou o animal!

— E por que é que este havia de atacá-los ferozmente se até costumava brincar com eles e executar, sob a sua direção, números de habilidades dentro da jaula?

— É possível que o mesmo inimigo tenha feito alguma coisa para enfurecer o bicho.

Holmes pareceu pensativo e permaneceu em silêncio durante alguns momentos.

— Olhe, Watson, há um ponto a favor de sua teoria. Ronder tinha muitos inimigos. Edmunds me disse que ele ficava horrível quando bebia. Era um homenzarrão corpulento, e batia e golpeava a torto e a direito. Quer-me parecer que aqueles gritos a respeito do monstro, de que nossa visitante falou, eram reminiscências noturnas do querido morto. Todavia, enquanto não soubermos dos fatos, todas as nossas especulações são vãs. Em cima do aparador, há uma perdiz fria, Watson, e uma garrafa de Montrachet. Renovemos nossas energias antes de lhes passarmos uma nova revista.

Quando o nosso carro nos deixou junto à casa da sra. Merrilow, encontramos a gorda matrona atravancando a porta aberta de sua humilde e afastada residência. Era bem patente que sua principal preocupação era não perder uma inquilina de valor, e rogou-nos, antes de nos fazer subir, que nada disséssemos ou fizéssemos que tivesse um resultado desastroso para ela. Depois de a havermos tranqüilizado, subimos a escada mal-atapetada e fomos introduzidos no aposento da misteriosa inquilina.

Era um lugar fechado, abafado, de pouca ventilação, já que a moradora raramente o deixava. Por sempre ter conservado feras presas em jaulas, a mulher parecia, como prêmio que lhe reservara o destino, ter-se tornado ela mesma uma fera numa jaula. Estava sentada numa cadeira de braços, num canto escuro do quarto. Os longos anos de inação haviam estragado as linhas de seu corpo, mas num certo período de sua vida devia ter sido bela, e ainda era cheia e voluptuosa. Cobria-lhe o rosto um espesso véu preto, que descia até o lábio superior, deixando descoberta uma boca bem-feita e um queixo delicadamente arredondado.

Calculei que realmente devia ter sido uma mulher notável. Sua voz também mantinha uma modulação agradável.

— Meu nome não lhe é desconhecido, sr. Holmes — disse ela. — Pensei que isso seria razão suficiente para o senhor vir.

— É exato, senhora, embora eu não saiba como é que pôde descobrir que seu caso me interessava.

— Descobri-o quando me restabeleci e fui interrogada pelo sr. Edmunds, o detetive do condado. Receio ter-lhe mentido. Talvez tivesse sido mais prudente ter dito a verdade.

— Via de regra, é mais prudente falar a verdade. Mas por que é que lhe mentiu?

— Porque dessa mentira dependia a sorte de outra pessoa. Sei que essa pessoa se mostrou indigna, mas nem por isso queria que sua destruição pesasse na minha consciência. Tínhamos vivido em tamanha intimidade!

— E esse impedimento foi removido?

— Foi. A pessoa a que me refiro está morta.

— Então por que não conta à polícia tudo quanto sabe?

— Porque uma outra pessoa deve ser levada em consideração. Essa outra pessoa sou eu. Não podia suportar o escândalo e a publicidade que resultariam de um exame feito pela polícia. Não me resta muito que viver, mas desejo morrer sossegada. E, contudo, queria encontrar um homem de discernimento a quem pudesse contar minha terrível história, de modo que, quando me for desta vida, tudo possa ser bem compreendido.

— Obrigado pela parte que me toca. Mas sou uma pessoa com responsabilidades. Portanto, não lhe posso prometer que, depois de a senhora ter falado, não me julgue no dever de referir o caso à polícia.

— Pois eu não julgo assim, sr. Holmes. Conheço muito bem seu caráter e seus métodos, porquanto venho acompanhando seu trabalho há alguns anos. A leitura é o único prazer que o destino me deixou, e pouca coisa do que vai pelo mundo me escapa. Mas, em todo caso, não me importo com o uso que o senhor possa fazer de minha tragédia. Narrando-a, aliviarei minha consciência.

— Eu e meu amigo gostaríamos de ouvir a história completa.

A mulher levantou-se e tirou de uma gaveta o retrato de um homem. Via-se que era um acrobata profissional, um homem de físico magnífico, fotografado com os grossos braços cruzados sobre o peito cheio e com um sorriso despontando debaixo do bigode farto — o sorriso complacente do homem de muitas conquistas.

— Este é Leonardo — disse ela.

— Leonardo, o acrobata que prestou depoimento?

— Exatamente. E este… este é meu marido.

Era uma cara horrenda — um porco humano, ou melhor, um javali humano, pois era incrível sua bestialidade. Podia-se imaginar aquela boca abjeta mastigando e espumando de raiva, e aqueles olhos, pequenos e perigosos, dos quais brotava maldade enquanto contemplavam o mundo, Desordeiro, valentão, mau — tudo estava escrito naquele rosto repulsivo.

— Estas duas fotografias, cavalheiros, vão ajudá-los a entender a história. Eu era uma pobre menina de circo, criada sobre a serragem e passando por dentro do arco antes dos dez anos. Quando me tornei mulher, este homem me amou, se é que se pode dar à sua lascívia o nome de amor, e num mau momento tornei-me sua mulher. A partir desse dia, vivi num inferno, sendo ele o demônio que me atormentava. Não havia ninguém na troupe que ignorasse o tratamento que ele me dispensava. Ele me largava para correr atrás de outras, amarrava-me e açoitava-me com o chicote quando eu me queixava. Todos tinham pena de mim e nojo dele, mas que podiam fazer? Todos o temiam, pois era medonho a qualquer hora, e, quando bêbado, chegava a ser sanguinário. Repetidas vezes foi multado por assalto, e por crueldade com os animais, mas tinha muito dinheiro, e as multas nada significavam para ele. Todos os melhores elementos nos deixaram, e a companhia começou a decair. Somente Leonardo e eu a sustentávamos, com o pequeno Griggs, o palhaço. Este… pobrezinho!, não tinha muita graça, mas fazia o que podia para conservar as coisas nos eixos.

“Foi aí que Leonardo começou a influir decisivamente em minha vida. O senhor vê como ele era. Sei agora que espírito fraco se escondia naquele esplêndido corpo, mas, comparado ao meu marido, parecia um anjo. Teve pena de mim e ajudou-me, até que por fim nossa intimidade se converteu em amor… amor profundo, apaixonado, o amor com que eu havia sonhado mas que não tinha esperanças de sentir jamais. Meu marido desconfiou, mas creio que era tão covarde como valentão, e que Leonardo era o homem de quem ele tinha medo. Vingou-se a seu modo, torturando-me mais do que nunca. Uma noite, meus gritos atraíram Leonardo à porta do nosso veículo. Naquela noite, estivemos a dois passos da tragédia, e logo eu e meu amante compreendemos que um desfecho trágico era inevitável. Meu marido não podia continuar a viver. Planejamos tirar-lhe a vida.

“Leonardo tinha um cérebro engenhoso e inventivo. Foi ele quem planejou a coisa. Não digo isso para me eximir de responsabilidades, pois estava disposta a ir com ele até o fim, sem recuar um milímetro. Mas nunca teria imaginação para idealizar um plano assim. Fizemos uma clava (Leonardo a construiu), e na cabeça de chumbo dessa clava ele fixou cinco longos pregos de aço, com as pontas para fora e apresentando o mesmo formato da pata do leão. Isso se destinava a dar a meu marido o golpe mortal, deixando ao mesmo tempo a prova de que o causador de sua morte fora o leão que íamos soltar.

“Aquela noite estava escura como breu. Meu marido e eu, como era nosso costume, fomos dar comida à fera. Levávamos carne crua num balde de zinco. Leonardo esperava no canto do enorme carro pelo qual tínhamos de passar antes de chegarmos à jaula. Atrasou-se um pouco e não teve tempo de desferir o golpe quando passamos por ele, mas seguiu-nos na ponta dos pés e ouvi a pancada da clava esmigalhando o crânio de meu marido. Quando escutei aquele som, meu coração pulou de alegria. Dei um salto à frente e soltei o cadeado que prendia a porta da grande jaula do leão.

“E foi então que aconteceu a coisa medonha. O senhor deve ter ouvido dizer que esses animais farejam depressa o sangue humano e que isso os excita. Algum estranho instinto revelou no mesmo instante à fera que um ser humano tinha sido trucidado. Quando abri a porta de ferro da jaula, o animal pulou para fora e num instante caiu sobre mim. Leonardo podia ter-me salvo. Se ele se atirasse para a frente e batesse na fera com sua clava, tê-la-ia atemorizado. Mas o homem perdeu a calma. Ouvi-o gritar, tomado de terror, depois vi-o voltar-se e fugir. No mesmo instante, os dentes do leão cravaram-se no meu rosto. Seu bafo quente e pestilento já me havia envenenado, e eu mal tinha consciência da dor. Com as palmas das mãos, procurei afastar de mim as enormes mandíbulas fumegantes e sangrentas e gritei por socorro. Percebi que o acampamento se movia e lembro-me indistintamente de um grupo de homens, Leonardo, Griggs e outros, que me arrastavam de sob as patas do animal. Foi essa, sr. Holmes, a última cena de que guardei recordação durante muitos meses de sofrimento. Quando voltei a mim e me olhei ao espelho, amaldiçoei aquele leão… oh, como o amaldiçoei!, não por, na sua fúria, ter me privado da beleza, mas por não ter me privado da vida. Só um desejo eu tinha, sr. Holmes, e possuía bastante dinheiro para satisfazê-lo. Era cobrir-me de tal forma que meu pobre rosto não fosse visto por ninguém, e morar num lugar onde não fosse procurada por ninguém que tivesse me conhecido. Era a única coisa que me restava a fazer, e foi o que fiz. Um pobre animal ferido arrastou-se até seu covil para morrer: eis o triste fim de Eugenia Ronder.

Depois que a desditosa mulher acabou de narrar sua história, guardamos silêncio durante algum tempo. Em seguida, Holmes estendeu seu comprido braço e afagou-lhe a mão com tal prova de simpatia como eu raramente o tinha visto exibir.

— Pobre senhora! — disse ele. — Pobre senhora! Misteriosos são os caminhos do destino! Se depois desta vida não houver uma compensação, então o mundo é um gracejo cruel. Mas que foi feito desse tal Leonardo?

— Nunca mais o vi nem ouvi falar nele. Talvez eu não tenha razão em me queixar amargamente dele. É provável que em seguida tenha logo amado uma dessas garotas que levávamos conosco através do país, como antes amara esta coisa que o leão deixou. Mas o amor de uma mulher não é coisa que se abandone assim com tamanha facilidade. Ele me abandonou sob as garras da fera, desamparou-me no momento de maior necessidade, e contudo não tive coragem de mandá-lo para a forca. Quanto a mim, pouco me importei com aquilo a que fiquei reduzida. O que podia ser mais horrível do que minha vida atual? Mas fiquei entre Leonardo e seu destino.

— E ele morreu?

— Afogou-se o mês passado, quando tomava banho perto de Margate, Vi no jornal a notícia de sua morte.

— E que fez ele da tal clava de cinco garras, que é a parte mais singular e mais engenhosa de toda a sua história?

— Não sei dizer, sr. Holmes, Havia uma pedreira, perto do acampamento, com um poço profundo. Talvez nas profundezas desse poço…

— Bem, basta. Isso agora pouca importância tem. O caso está encerrado.

— Sim — repetiu a mulher —, o caso está encerrado.

Tínhamo-nos levantado para sair, mas alguma coisa na voz daquela mulher reteve a atenção de Holmes. Ele se virou rapidamente para ela.

— Sua vida não lhe pertence — murmurou ele.

— Que utilidade pode ela ter para alguém?

— Quem sabe? O exemplo do sofrimento levado com paciência já é em si a mais preciosa das lições para um mundo impaciente.

A resposta da mulher foi terrível. Levantou o véu e deu um passo para a claridade.

— Eu queria saber se o senhor suportaria isso — disse ela.

Era horrível. Não há palavras que possam descrever a configuração de um rosto quando o próprio rosto não existe. Dois bonitos olhos castanhos, muito vivos, olhando tristemente daquela horrenda ruína, tornavam ainda mais atroz o espetáculo.

Holmes levantou a mão num gesto de piedade e de protesto, e saímos juntos do aposento.

Dois dias depois, ao visitar meu amigo, ele me indicou com certo orgulho uma garrafinha azul em cima do balcão da lareira. Peguei-a. Via-se nela um rótulo vermelho que indicava veneno. Ao destapá-la, exalou um agradável cheiro de amêndoas.

— Acido prússico? — inquiri.

— Exatamente. Chegou pelo correio. “Aí lhe mando minha tentação. Seguirei seu conselho.” Foi esse o recado. Creio, Watson, que podemos adivinhar facilmente o nome da corajosa mulher que o enviou.

1927
Histórias de Sherlock Holmes

1. A pedra Mazarino § 2. A ponte de Thor
3. O homem que andava de rastos § 4. O vampiro de Sussex
5. Os três Garridebs § 6. O cliente ilustre
7. As três empenas § 8. O rosto lívido
9. A juba do leão § 10. Josiah Amberley
11. A inquilina do rosto coberto § 12. O velho solar de Shoscombe

Ilustrações: Frank Willes, cortesia The Camden House
Transcrição: Mundo Sherlock