A juba do leão

Arthur Conan Doyle

A juba do leão

Título original: The Lion’s Mane
Publicado pela primeira vez na Liberty,
Novembro de 1926, com 7 ilustrações de Frederic Dorr Steele
e na Strand Magazine, em Dezembro de 1926,
com 3 illustrações de Howard K. Elcock.

Sobre o texto em português:
Este texto digital reproduz a
tradução de  The Lion’s Mane publicado em
As Aventuras de Sherlock Holmes, Volume VII,
editado pelo Círculo do Livro
e com tradução de Hamílcar de Garcia.

É coisa verdadeiramente singular que um problema tão intrincado e insólito como nenhum outro dos que já se me depararam em minha longa carreira profissional tenha vindo parar em minhas mãos depois de eu ter-me afastado de minhas atividades, e que tenha sido trazido, por assim dizer, à minha porta. O fato ocorreu logo depois de eu me retirar para minha casinha de Sussex e quando estava inteiramente entregue àquela doce vida de natureza pela qual tantas vezes suspirara durante os longos anos passados em meio à melancolia londrina. Nessa época de minha vida, o bom Watson era-me quase completamente inacessível. Só uma vez ou outra eu o via, num fugaz fim de semana. Por isso, tenho de ser meu próprio historiador. Ah! Se ele tivesse estado junto a mim, o que não faria de um fato tão maravilhoso e de meu triunfo final contra todas as dificuldades! Mas, já que isso não é possível, tenho necessariamente de narrar a história à minha maneira comezinha, descrevendo cada passo que tive de dar no árduo caminho que se estendia à minha frente, enquanto deslindava o mistério da juba do leão.

Minha casa está situada na vertente sul dos Downs, descortinando-se de lá uma ampla vista do canal da Mancha. Nesse ponto, a linha do litoral é toda de penhascos de pedra, de onde só se pode descer por uma única trilha, longa e tortuosa, íngreme e escorregadia. Ao fundo da trilha há uns cem metros de seixos e calhaus, mesmo quando a maré está cheia. Aqui e ali, entretanto, vêem-se curvas e cavidades que formam esplêndidas piscinas cuja água é renovada com cada fluxo da corrente. Essa praia admirável estende-se por alguns quilômetros em várias direções, menos num ponto onde a pequena angra e a aldeia de Fulworth quebram a linha.

Minha casa é solitária. Eu, a velha governanta e minhas abelhas somos os donos absolutos daquelas terras. Todavia, a uns oitocentos metros dali fica a conhecida escola preparatória de Harold Stackhurst, denominada As Empenas, vasto prédio que abriga dezenas de jovens que se preparam para várias profissões, e que dispõe de um numeroso corpo docente. Stackhurst fora na juventude campeão de remo e consumado erudito. Ficamos amigos desde o dia em que cheguei à região, e ele era o único homem cujas relações comigo permitiam, a cada um de nós, ir de noite à casa do outro sem convite prévio.

Pelos fins de julho de 1907, um furacão violento açoitou a Mancha, acumulando água no sopé dos penhascos e formando uma lagoa com o baixar da maré. Na manhã de que falo, o vento amainara e toda a natureza se apresentava fresca e limpa. Era impossível trabalhar num dia tão esplêndido, e antes da refeição matinal fui espairecer para respirar aquele ar puríssimo. Eu descia pela trilha íngreme que ia em direção à praia, quando de repente ouvi um grito atrás de mim e vi Harold Stackhurst me acenando jovialmente.

— Que manhã, sr. Holmes! Logo vi que ia encontrá-lo fora de casa.

— Vejo que vai nadar.

— De novo com as velhas proezas, hein? — disse ele rindo e ao mesmo tempo levando a mão ao bolso bojudo.

— Sim. MacPherson foi mais cedo, e espero encontrá-lo lá.

Fitzroy MacPherson era o professor de ciências, belo jovem, muito ereto, cuja vida quase fora cortada por uma moléstia cardíaca que se seguiu a uma febre reumática. Era, não obstante, um atleta nato, e distinguia-se em qualquer esporte que não exigisse demasiado esforço. Nadava tanto no verão como no inverno, e, como também gosto de nadar, saíamos juntos muitas vezes.

Naquele momento, vimos o homem em pessoa. Sua cabeça surgiu acima da orla do penhasco onde a trilha acaba. Depois, todo o seu vulto apareceu no topo, cambaleando como um bêbado. Quase instantaneamente, ergueu as mãos para o alto e, com um berro terrível, caiu com o rosto no chão. Eu e Stackhurst corremos para acudi-lo (separavam-nos dele uns quarenta e poucos metros) e o viramos de costas. Era evidente que estava morrendo. Não podiam significar outra coisa aqueles olhos vidrados e fundos, e as faces de uma lividez extrema. Por um instante, veio-lhe ao rosto um clarão de vida, e ele pronunciou duas ou três palavras com um ansioso ar de advertência. Foram “a juba do leão”. Não podia haver coisa mais fora de propósito e ininteligível, mas não me foi possível distorcer o som para chegar a qualquer outro sentido. Em seguida, ele se soergueu do chão, lançou os braços para o ar e caiu para o lado. Estava morto.

Meu companheiro ficou transido de terror perante o fato, mas eu, como bem se pode imaginar, conservei os sentidos completamente despertos. E isso era necessário, pois logo se tornou patente que nos encontrávamos perante um caso extraordinário. O homem estava vestido apenas com seu sobretudo, as calças e sapatos de lona desamarrados. Ao tombar, o sobretudo, que apenas fora atirado sobre os ombros, deslizou, deixando-lhe o tronco exposto. Olhamos com assombro. As costas estavam cobertas de linhas vermelho-escuras, como se MacPherson tivesse sido terrivelmente açoitado com um chicote de arame fino. O instrumento com que esse castigo tinha sido infligido era visivelmente flexível, porquanto os longos vergões se curvavam, contornando-lhe os ombros e as costelas. Escorria-lhe sangue pelo queixo, pois ele mordera o lábio inferior no paroxismo da agonia. O rosto, estirado e disforme, mostrava como havia sido terrível seu derradeiro combate com a morte.

Eu estava ajoelhado e Stackhurst de pé junto ao corpo quando uma sombra se atravessou entre nós, e vimos lan Murdoch ao nosso lado. Esse homem era o professor de matemática do estabelecimento. Alto, magro, moreno, era tão taciturno e solitário que, pode se dizer, não tinha um amigo. Parecia viver numa região elevada e abstraía, de números irracionais e de seções cônicas, que pouca coisa tinha a ver com a vida comum. Os estudantes o consideravam um esquisitão, e ele escapou de ser alvo das brincadeiras dos rapazes só por ter no sangue qualquer coisa de estranho, que se revelava não só nos olhos negros como carvão e no rosto moreno, mas também em acessos de fúria, aliás pouco freqüentes, dos quais apenas se podia dizer que eram ferozes. Em certa ocasião, como o atormentasse um cãozinho pertencente a MacPherson, agarrou no animal e atirou-o pela janela, gesto antipático em razão do qual Stackhurst decerto o teria demitido se ele não fosse um professor de incontestável valor. Tal era o homem singular e complexo que agora surgia ao nosso lado. Pareceu sinceramente abalado com a cena que via, embora o episódio do cão indicasse que não havia grande cordialidade entre ele e o morto.

— Coitado! Coitado! Que posso fazer? Em que posso ajudar?

— O senhor estava com ele? É capaz de nos dizer o que sucedeu?

— Não, não. Hoje eu me atrasei. Não fui à praia. Vim diretamente das Empenas. Que posso fazer?

— Pode ir a toda a pressa à delegacia de polícia de Fulworth relatar o que aconteceu.

Sem dizer uma palavra, ele partiu o mais depressa que pôde, e eu tratei de me incumbir do caso, enquanto Stackhurst, aturdido com a tragédia, permaneceu junto do corpo. A minha primeira tarefa foi, como é natural, observar quem estava na praia. Do alto da vereda podia-se enxergar a praia em toda a sua extensão, e ela estava completamente deserta. Viam-se apenas, muito longe, dois ou três vultos escuros dirigindo-se à aldeia de Fulworth. Dando-me por satisfeito quanto a esse ponto, fui descendo vagarosamente a trilha. Havia barro ou limo mole misturado com a pedra, e em todo lugar eu via as mesmas pegadas, tanto subindo como descendo. Nenhuma outra pessoa tinha descido à praia por aquele caminho durante a manhã. Em certo ponto observei a marca de uma mão aberta, com os dedos esticados para baixo. Isso só podia significar que o desditoso MacPherson caíra ao subir. Havia também depressões arredondadas, que sugeriam que ele tinha caído de joelhos mais de uma vez. No final da trilha ficava a considerável lagoa que a maré formava ao baixar. MacPherson tinha se despido, pois lá estava sua toalha, sobre uma rocha. Estava dobrada e enxuta, de modo que, segundo as aparências, ele nem chegara a entrar na água. Uma vez ou duas, enquanto eu pesquisava no meio dos seixos duros, notei pequenos trechos cobertos de areia onde se viam as marcas de seus sapatos de lona e até de seus pés descalços. Esta última circunstância provava que ele estivera pronto para o banho, porém a toalha indicava que não chegara a banhar-se.

E aí é que o problema se definia claramente — o problema mais estranho com que eu já me havia deparado. O homem estivera na praia por quinze minutos, no máximo. Stackhurst saíra das Empenas pouco depois dele, de forma que quanto a isso não havia dúvida. Ia tomar banho e chegara a tirar a roupa, como o provavam os sinais de seus pés descalços. E eis que, de súbito, tornara a enfiar apressadamente as roupas (elas estavam em desordem e desatadas) e voltara sem tomar banho, ou pelo menos sem se enxugar. E a razão dessa mudança de propósito era devida ao fato de ele ter sido vergastado de uma maneira selvagem e desumana, torturado até morder os lábios durante a agonia, tendo-lhe apenas restado forças para se arrastar um pouco e morrer. Quem praticara essa bárbara ação? Verdade é que havia pequenas grutas e cavernas na base dos rochedos, mas o sol, ainda baixo, brilhava diretamente sobre elas, não havendo portanto lugar para esconderijo. E os vultos distantes, na praia? Pareciam estar muito longe para terem qualquer relação com o crime. Além disso, a lagoa larga na qual MacPherson pretendia banhar-se ficava entre ele e os vultos, marulhando até os rochedos. Havia no mar, não muito distante, dois ou três barcos de pesca. Os ocupantes podiam ser examinados com toda a calma. Havia vários caminhos para investigação, mas nenhum deles levava a uma meta muito definida.

Quando por fim voltei para junto do corpo, vi que se formara ao redor dele um pequeno grupo de pessoas que por ali passavam. Stackhurst ainda estava ali, é claro, e lan Murdoch acabava de chegar com Anderson, o subdelegado da aldeia, um homem enorme, de bigode ruivo, da sólida cepa de Sussex — raça que, por sob um exterior silencioso e pesadão, abriga muito bom senso. Anderson ouviu o relato, tomou nota de tudo quanto dissemos e finalmente me puxou para um lado.

— Gostaria de ouvir sua opinião, sr. Holmes. Este assunto é sério demais para mim, e, se andar mal, Lewes vai me dizer o que não desejo ouvir.

Aconselhei-o a mandar chamar seu superior imediato e um médico, a não permitir que se mexesse em nada e a evitar que se imprimissem no chão novas pegadas, enquanto eles não chegassem. Entretanto, revistei os bolsos do morto. Encontrei um canivete grande, um lenço e uma pequena carteira. Desta saía um pedaço de papel, que desdobrei e entreguei ao subdelegado. Nele estava rabiscado o seguinte, numa caligrafia feminina: “Lá estarei, pode ficar certo. Maudie”. Aquilo cheirava a intriga amorosa, um encontro marcado, embora ninguém soubesse onde nem quando. O subdelegado tornou a pôr o bilhete na carteira e recolocou-a, e aos outros objetos, nos bolsos do sobretudo. Depois, como nada mais me ocorresse no momento, dirigi-me para casa a fim de tomar a refeição da manhã, tendo antes providenciado para que toda a costa dos penedos fosse cuidadosamente examinada.

Passadas duas horas, mais ou menos, Stackhurst procurou-me para me dizer que o corpo tinha sido transportado para as Empenas, onde se procederia ao inquérito. Trouxe também uma notícia séria e definida. Conforme eu esperava, nada foi encontrado nas pequenas cavernas situadas abaixo dos rochedos, mas ele examinara os papéis da escrivaninha de MacPherson, vários dos quais mostravam que existia uma correspondência íntima com uma certa srta. Maud Bellamy, de Fulworth. Tínhamos, pois, descoberto a identidade da autora do bilhete.

— As cartas estão na polícia — explicou ele. — Não pude trazê-las. Mas não há dúvida de que se trata de uma séria aventura de amor. Não vejo, entretanto, razão para relacionar essa intriga amorosa com o fato horrível que se deu, a não ser, é claro, que a jovem tivesse combinado um encontro com MacPherson.

— Dificilmente, porém, numa lagoa em que todos vocês tinham o hábito de tomar banho — observei.

— Foi por mero acaso — disse ele — que no momento não se encontrassem vários estudantes com MacPherson.

— Foi mesmo um mero acaso?

Stackhurst franziu as sobrancelhas, refletindo.

— lan Murdoch os reteve — disse ele. — Queria repetir algumas questões algébricas antes da refeição matinal. O pobre homem está profundamente acabrunhado com o que se passou.

— E contudo estou informado de que não eram amigos.

— Houve tempo em que não o foram. Mas, de um ano ou mais para cá, Murdoch se aproximara de MacPherson mais do que de qualquer outra pessoa. Ele não é, por natureza, dotado de uma índole muito simpática.

— Foi o que me disseram. Lembro-me vagamente de que você uma vez me falou numa briga por causa de um cão maltratado.

— Isso são águas passadas.

— Mas talvez tenha ficado algum ressentimento.

— Não, não. Tenho certeza de que eram amigos de verdade.

— Então devemos voltar nossa atenção para a garota. Você a conhece?

— Todo mundo a conhece. É a beldade destas redondezas. É realmente bonita, Holmes, e chamaria a atenção em qualquer lugar. Eu sabia que MacPherson se sentia atraído por ela, mas não fazia idéia de que a coisa tivesse chegado ao ponto que essas cartas parecem indicar.

— Mas quem é ela?

— É filha do velho Tom Bellamy, o dono de todos os botes e cabinas de banho de Fulworth. Começou como simples pescador, mas agora é homem de algumas posses. Ele e o filho, William, dirigem o negócio.

— Valerá a pena irmos a Fulworth visitá-los?

— Com que pretexto?

— Oh, isso é fácil de arranjar. Afinal, o pobre rapaz não iria flagelar a si próprio de maneira tão bárbara. Alguma mão estranha segurou o cabo do chicote, se é que foi um chicote o causador daqueles vergões. O círculo de relações que ele tinha neste lugar ermo não podia deixar de ser limitado. Sigamos esse círculo em todas as direções, e será quase impossível não darmos com o motivo, que por sua vez nos conduzirá ao criminoso.

O percurso através das colunas perfumadas com o cheiro do tomilho teria sido aprazível se não tivéssemos o espírito perturbado pela tragédia que presenciáramos. A aldeia de Fulworth fica na curva de um semicírculo em torno da baía. Atrás da povoação de aspecto antigo foram construídas várias casas modernas, na parte mais elevada. Stackhurst conduziu-me a uma delas.

— É aqui o Remanso, nome que Bellamy deu à sua vila. É aquela, de torre quadrada e telhado de ardósia. Nada má para um homem que não tinha um tostão, mas… ora essa, olhe ali!

O portão do jardim do Remanso fora aberto e um homem estava saindo. Não havia equívoco possível quanto àquela figura alta e angulosa. Era lan Murdoch, o matemático. Daí a pouco, estávamos defronte dele, na rua.

— Olá! — disse Stackhurst. O homem fez um sinal com a cabeça, olhou-nos de viés com seus estranhos olhos negros, e continuaria o caminho se o seu diretor não o detivesse.

— O que é que o senhor estava fazendo aí? — perguntou-lhe Stackhurst.

Murdoch enrubesceu.

— Sr. Stackhurst, sou seu subordinado apenas quando me encontro no colégio. Não me parece que lhe deva contas dos meus atos particulares.

Depois da tragédia a que assistira naquela manha, Stackhurst estava com os nervos abalados. Do contrário, talvez fosse menos precipitado. Perdeu inteiramente a calma.

— Nas atuais circunstâncias, sua resposta é uma impertinência, sr. Murdoch.

— À sua pergunta talvez se pudesse aplicar a mesma qualificação.

— Não é a primeira vez que faço vista grossa às suas maneiras insubordinadas. Mas será a última. É favor ir pensando em dar outro rumo à sua vida, e isso sem perda de tempo.

— Era o que eu já tencionava fazer. Perdi hoje a única pessoa que tornava o seu estabelecimento habitável.

Dizendo isso, afastou-se a passos rápidos, enquanto Stackhurst, enfurecido, foi seguindo-o de olhos arregalados.

— Não é mesmo um homem intolerável? — gritou.

O que maior impressão me causou foi o fato de o sr. Murdoch ter aproveitado a primeira oportunidade para escapulir da cena do crime. Uma suspeita vaga e nebulosa começava agora a se delinear em meu espírito. Talvez a ida à casa dos Bellamys pudesse lançar alguma luz sobre o assunto. Stackhurst recobrou a calma, e dirigimo-nos para a alegre vivenda.

O sr. Bellamy era um homem de meia-idade, com uma barba vermelha flamante. Parecia estar muito irritado, e seu rosto ficou logo tão vermelho como o cabelo e a barba.

— Não, senhor, não desejo entrar em pormenores. Meu filho aqui — disse, indicando um jovem robusto, com ar de poucos amigos, que estava a um canto da sala de visitas — concorda comigo em que as atenções do sr. MacPherson para com Maud eram insultuosas. Pois, cavalheiro, a palavra “casamento” jamais foi mencionada, e contudo havia cartas e encontros e muitas outras coisas que nenhum de nós podia aprovar. Ela não tem mãe, e somos seus únicos guardiões. Estamos resolvidos…

Nessa altura, o homem foi interrompido pela chegada da própria jovem. Não se podia negar que ela conquistaria a simpatia de qualquer assembléia do mundo. Quem seria capaz de imaginar que uma flor tão rara brotasse de tal raiz e em tal atmosfera? As mulheres raramente constituíram um atrativo para mim, porque meu cérebro sempre governou o coração, mas não pude olhar para aqueles traços tão perfeitos, com toda a suave frescura daquela região refletida em seu fino colorido, sem pensar que nenhum rapaz passaria por ela completamente indiferente. Era essa jovem que havia aberto a porta e agora estava de pé, com os olhos muito arregalados e atentos, diante de Harold Stackhürst.

— Já sei que Fitzroy morreu — disse ela. — Não tenha medo de me contar todos os pormenores.

— O outro cavalheiro que esteve aqui contou-nos tudo — explicou o pai.

— Não há motivo para envolver minha irmã no assunto — resmungou lá do seu canto o rapaz.

A jovem dirigiu-lhe um olhar de fogo.

— Isso é comigo, William. Deixe-me tratar do assunto a meu modo. Tudo leva a crer que foi cometido um crime. Se eu puder contribuir para provar quem o cometeu, é o mínimo que posso fazer por aquele que se foi.

A jovem ouviu a breve narrativa de meu companheiro com uma atenção tão concentrada que percebi que ela possuía, além de grande beleza, um caráter forte. Maud Bellamy sempre me ficará na memória como a imagem de uma mulher notável. Parece que ela já me conhecia de vista, porque no fim me dirigiu a palavra.

— Entregue-os à justiça, sr. Holmes. O senhor tem a minha simpatia e a minha ajuda, sejam eles quem forem.

Pareceu-me que, enquanto falava, relanceava os olhos para o pai e para o irmão num ar de desafio.

— Obrigado — respondi. — Aprecio muito o instinto feminino nestes assuntos. A senhora diz “eles”, no plural. Pensa que há mais de um envolvido no caso?

— Eu conhecia bastante bem o sr. MacPherson, e sei que ele era um homem valente e forte. Jamais uma pessoa sozinha seria capaz de lhe infligir um castigo tão cruel e ultrajante.

— Seria possível eu lhe dizer algumas palavras em particular?

— Digo-lhe, Maud, que não se meta nesse assunto — gritou o pai, explodindo de irritação.

Ela olhou para mim com um ar de súplica.

— Que posso fazer?

— Dentro em breve todo mundo ficará conhecendo os fatos, de modo que não haverá mal em que eu os discuta aqui — afirmei-lhe. — Gostaria de maior discrição, mas, se seu pai é de opinião diversa, tem de estar presente às deliberações. — Nesse momento, referi-me ao bilhete encontrado no bolso do morto.

— Esse bilhete certamente será exibido no inquérito. Posso lhe pedir esclarecimentos acerca dele?

— Não vejo razão para mistério — respondeu Maud.

— Estávamos noivos, e só guardávamos segredo a respeito desse assunto porque o tio de Fitzroy, que é muito velho e, segundo dizem, está para morrer, talvez o deserdasse se ele casasse contra a sua vontade. Não havia nenhuma outra razão.

— Você poderia ter-nos dito isso — grunhiu o sr. Bellamy.

— Eu o teria feito, pai, se encontrasse simpatia de sua parte.

— Oponho-me a que minha filha trave conhecimento com homens que não são da sua posição social.

— Foram seus preconceitos contra ele que nos impediram de lhe dizer tudo. Quanto ao encontro — enquanto falava, remexeu no bolso do vestido e tirou um pedacinho de papel amarrotado —, era uma resposta a isto.

“Querida, [dizia o recado] Terça-feira, no antigo lugar, na praia, logo depois do pôr-do-sol. É a única hora em que consigo escapar. F. M.”

— Terça-feira é hoje, e eu tencionava me encontrar com ele hoje à noite.

Virei o papel do outro lado.

— Isto não veio pelo correio. Como foi que chegou às suas mãos?

— Preferia não responder a essa pergunta. É que ela nada tem a ver com o caso que o senhor está investigando. Mas estarei pronta a responder a tudo o que se relaciona ao assunto.

Ela cumpriu a palavra, mas nada havia que pudesse auxiliar nossa investigação. A jovem não tinha razão para acreditar que o seu noivo tivesse algum inimigo oculto, mas confessou que ela mesma tinha tido vários admiradores calorosos.

— Posso perguntar se lan Murdoch era um deles?

Ela corou e pareceu atrapalhar-se.

— Houve um tempo em que pensei que fosse. Mas tudo se alterou quando Murdoch soube das minhas relações com Fitzroy.

Novamente me pareceu que a sombra que pairava em redor desse homem estranho tomava forma mais definida. Era necessário examinar-lhe os antecedentes. Seus aposentos deviam ser minuciosamente revistados. Stackhurst mostrou-se um colaborador espontâneo, pois também em seu espírito iam se formando vagas suspeitas. Voltamos de nossa visita ao Remanso com a esperança de já ter nas mãos um dos fios dessa complexa meada.

Passou-se uma semana. O inquérito não lograva esclarecer o caso, e tinha sido adiado até que aparecessem elementos mais positivos. Stackhurst fizera uma discreta investigação a respeito de seu subordinado, e fora dada uma busca superficial em seu quarto, mas sem resultado. Eu tinha procedido a novo exame em todo o terreno, tanto física como mentalmente, mas sem chegar a nenhuma conclusão nova. Em nenhuma de minhas histórias, o leitor poderá encontrar outro caso que me levasse de maneira tão completa até o limite máximo de meus poderes. Nem sequer minha imaginação era capaz de conceber uma solução para o mistério. E eis que veio à baila o episódio do cão.

Foi minha velha governanta quem primeiro soube disso por intermédio daquele estranho telégrafo sem fios que transmite às pessoas do campo as notícias da esfera em que vivem.

— É uma história triste, essa, sr. Holmes, a respeito do cão do sr. MacPherson — disse ela uma tarde.

Eu não estimulo tais conversas, mas as palavras da velha chamaram minha atenção.

— Que houve com o cão do sr. MacPherson?

— Morreu, sr. Holmes. Morreu de tristeza pela perda do dono.

— Quem lhe disse isso?

— Todo mundo comenta o caso. O animal ficou sentidíssimo e passou uma semana sem comer. E eis que hoje dois jovens estudantes das Empenas o encontraram morto; e onde, sr. Holmes? Na praia, no mesmo lugar em que o dono tombou sem vida.

“No mesmo lugar.” Essas palavras tomaram vulto em minha mente. Uma obscura percepção de que o assunto era importante surgiu em meu espírito. Que o cão morresse era próprio da clássica fidelidade canina. Mas “no mesmo lugar”? Por que lhe teria sido fatal aquela praia deserta? Seria possível que também ele tivesse sido sacrificado pelas malhas de um ódio implacável? Seria possível?… Sim, a percepção era obscura, mas alguma coisa já estava se formando em minha mente. Daí a alguns minutos, eu já me dirigia às Empenas, onde fui surpreender Stackhurst em seu gabinete de trabalho. A pedido meu, ele mandou chamar Sudbury e Blount, os dois estudantes que tinham encontrado o cão morto.

— Sim — disse um deles —, jazia à beira da lagoa. O animal deve ter seguido o rastro do dono morto.

Vi o fiel cãozinho, um airedale temer, que tinham posto sobre o capacho do vestíbulo. O corpo estava hirto e duro, com os olhos esbugalhados e os membros torcidos. Em cada linha daquele corpo estava estampada a agonia.

Saindo das Empenas, dirigi-me à lagoa. O sol baixara, e a sombra do grande penhasco recortava-se com todo o seu negror na água, que tinha um brilho fosco de chumbo. O lugar estava ermo, e não havia ali sinal de vida, a não ser duas aves marinhas que piavam e descreviam círculos no alto. Na luz mortiça, eu mal podia distinguir o vestígio deixado pelo cãozinho sobre a areia, em volta do mesmo rochedo sobre o qual tinha sido posta a toalha do dono. Durante longo tempo fiquei absorto em profundos pensamentos, enquanto as sombras se tornavam cada vez mais densas ao redor de mim. Minha cabeça estava povoada de pensamentos que iam e vinham.

O leitor deve se lembrar do que acontece quando, num pesadelo, sente a existência de uma coisa muito importante, que procura e que sabe que está ali, mas fora do seu alcance. Era exatamente o que eu sentia naquela tarde, ali sozinho, naquele lugar de morte. Então, por fim, voltei-me e vagarosamente dirigi meus passos para casa.

Havia atingido o alto da vereda quando a idéia me veio. Como um relâmpago, lembrei-me da coisa que eu queria tão avidamente agarrar e não conseguia. O leitor sabe, ou então Watson escreveu inutilmente, que possuo um vasto cabedal de conhecimentos esparsos, sem nenhuma sistematização científica, mas que me são de grande préstimo para as necessidades de meu ofício. Meu espírito parece um quarto atulhado de pacotes de toda espécie que ali foram guardados; são tantos, tantos, que eu apenas tenho uma vaga idéia do que lá existe. Sabia da existência de alguma coisa relacionada com o presente caso. Era uma coisa ainda muito nebulosa, mas pelo menos eu sabia o modo de torná-la clara. Era qualquer coisa de monstruoso, de incrível, mas não deixava de ser uma possibilidade. Precisava esclarecer aquilo integralmente.

Há em minha casinha um bom sótão repleto de livros. Foi ali que penetrei e procurei durante uma hora. Ao cabo desse tempo, saí de lá com um volumezinho cor de chocolate e prata. Avidamente, fui folheando-o até chegar ao capítulo do qual tinha uma obscura recordação. Sim, era realmente um assunto um tanto forçado e de remotas possibilidades, e contudo eu não me resignava a descansar enquanto não o pusesse em pratos limpos. Já era tarde quando me recolhi, com o espírito aguardando ansiosamente o trabalho do dia seguinte.

Mas esse trabalho sofreu uma enfadonha interrupção. Mal acabara de tomar minha xícara de chá matinal e saía para a praia quando recebi um chamado do inspetor Bardie, do posto policial de Sussex — homem sólido, pachorrento, de olhos cismadores, que olhou para mim visivelmente embaraçado.

— Conheço sua imensa experiência, sr. Holmes — disse ele. — Minha visita é extra-oficial, naturalmente, e não há necessidade de que dela transpire qualquer coisa lá fora. É que, nesse caso MacPherson, estou com uma dúvida cruel. Devo ou não efetuar uma prisão?

— Refere-se ao sr. lan Murdoch?

— Exatamente. Não há possibilidade de se pensar em mais ninguém. Eis a vantagem desta solidão. Ela nos permite circunscrever bastante o nosso exame. Se não foi ele, quem foi então?

— Que tem contra o sr, Murdoch?

O policial colhera informações aqui e ali; as mesmas informações que eu. Havia a índole estranha de Murdoch e o mistério que parecia envolvê-lo. Ali estavam os tremendos assomos de seu gênio, de que era exemplo o antigo episódio do cão. Havia o fato de sua velha briga com MacPherson, existindo também razão para se supor que ele não via com bons olhos as atenções de MacPherson à srta. Bellamy. Tudo o que ele colhera era já do meu conhecimento. O inspetor só acrescentou que, conforme lhe parecia, Murdoch se preparava para se mudar.

— Com que cara ficarei se o deixar fugir, já que há indícios contra ele?

O corpulento e fleumático oficial via-se seriamente atrapalhado.

— Considere — disse eu — todas as falhas essenciais do seu caso. Na manhã do crime, o homem pôde perfeitamente apresentar um álibi. Estivera com os alunos até o último instante, e, alguns minutos depois do aparecimento de MacPherson, ele topa conosco, vindo de trás. Além disso, não perca de vista a absoluta impossibilidade de ele poder, completamente só, infligir aquele tremendo castigo a um homem tão robusto como ele mesmo. Finalmente, há a questão do instrumento com que foram feitos os vergões.

— Não pode ter sido outro senão uma vergasta ou algum chicote flexível.

— O senhor examinou as marcas? — perguntei.

— Vi-as, sim, senhor. Também o médico as viu.

— Mas eu as examinei muito cuidadosamente, com uma lente. Têm certas particularidades.

— Quais são, sr. Holmes?

Fui até minha escrivaninha e trouxe uma fotografia ampliada.

— É este o meu método em casos semelhantes — expliquei.

— O senhor faz as coisas de uma maneira perfeita, sr. Holmes.

— Dificilmente seria o que sou se assim não procedesse. Consideremos agora este vergão, que atravessa o ombro direito. Não observa nada de especial?

— Francamente, não vejo nada.

— Pois é evidente que é desigual na intensidade. Há aqui um ponto indicando extravasamento de sangue, e outro aqui. Há indicações semelhantes neste outro vergão, aqui embaixo. Que pode significar isso?

— Não faço a mínima idéia. E o senhor?

— Talvez sim, talvez não. É possível que em breve possa dizer mais alguma coisa. Se pudermos ter uma idéia nítida daquilo que produziu esta marca, estaremos a poucos passos do criminoso.

— Talvez esta minha idéia seja absurda — disse o policial —, mas se uma rede de fios de arame em brasa tivesse atravessado as costas aqui, estes pontos mais salientes representariam o lugar onde as malhas ou fios se entrecruzaram.

— Comparação bastante engenhosa. Ou não seria melhor dizer que se trata de um chicote de nove tiras muito sólido, munido de pequenos nós duros?

— Caramba, sr, Holmes, penso que o senhor chegou ao ponto!

— Pode ser também alguma outra coisa bem diferente, sr. Bardie. Mas o que me parece é que seu caso é fraco demais para autorizar uma prisão. Além disso, temos aquelas últimas palavras: “juba de leão”.

— Estive pensando se lan…

— Sim, também já pensei nisso. Se a segunda palavra tivesse qualquer semelhança com Murdoch… mas não tem. Ele proferiu-as quase num grito. Tenho certeza de que a primeira foi “juba”.

— O senhor não tem outra alternativa?

— É provável que tenha. Mas não me apraz discuti-la enquanto não dispuser de elementos mais firmes.

— E isso quando ocorrerá?

— Dentro de uma hora… talvez menos.

O inspetor coçou o queixo e olhou para mim com ar incrédulo.

— Gostaria de descobrir o que lhe vai no espírito, sr. Holmes. Não serão aqueles barcos de pesca?

— Não, não; estavam muito ao largo.

— Não será então Bellamy, com o colosso do filho? Eles não morriam de amores pelo sr. MacPherson. Não teriam eles feito aquela maldade?

— Não, não. De mim o senhor não arranca coisa alguma. Só quando estiver pronto — retorqui com um sorriso.

— Escute, inspetor, cada um de nós tem seu trabalho para fazer. Não seria possível o senhor se encontrar comigo ao meio-dia?

Tínhamos chegado a esse ponto quando se deu a tremenda interrupção que foi o começo do fim. A porta de fora de minha casa abriu-se com estrondo, ouviram-se no corredor uns passos cambaleantes, e lan Murdoch entrou agitadamente na sala, pálido, desgrenhado, com as roupas no maior desalinho, agarrando-se com as mãos ossudas aos móveis para se manter de pé. “Aguardente! Aguardente!” — disse com voz rouca, e caiu sobre o sofá, gemendo.

Murdoch não estava só. Atrás dele vinha Stackhurst, sem chapéu e ofegante, quase tão aflito como o companheiro.

— Sim, sim, aguardente! — gritou ele. — O homem está nas últimas. A única coisa que pude fazer foi trazê-lo aqui. Desmaiou duas vezes no caminho.

Meio copo da forte bebida operou uma mudança maravilhosa. Com esforço, ele se ergueu um pouco, firmando-se num braço, e arrancou metade do casaco, descobrindo os ombros.

— Pelo amor de Deus! Azeite, ópio, morfina! — gritou. — Qualquer coisa que alivie esta agonia infernal!

Eu e o inspetor demos um grito ao vermos o que se passava. Formando ziguezagues sobre o ombro nu do homem, havia o mesmo estranho desenho de linhas vermelhas e inflamadas que tinham sido a marca da morte no corpo de Fitzroy MacPherson.

Evidentemene, a dor era terrível, e não era apenas local, porque a respiração do paciente parava durante algum tempo, seu rosto enegrecia, e logo, soltando fortes arquejos, ele batia com a mão no peito, enquanto da testa o suor lhe gotejava em grossas bagas. O pobre homem podia morrer a qualquer momento. Mais e mais aguardente ia sendo entornada por sua goela abaixo, e cada dose fresca do líquido trazia-o de novo à vida. Chumaços de algodão embebidos em azeite de cozinha pareciam aliviar extraordinariamente a dor das estranhas feridas. Por fim, a cabeça pendeu-lhe pesadamente sobre a almofada. A natureza, exausta, refugiara-se em seu derradeiro repositório de vitalidade. Era metade sono e metade desmaio, mas pelo menos era libertação do sofrimento.

Interrogá-lo seria impossível, mas, assim que nos tranqüilizamos um pouco a respeito do seu estado, Stackhurst voltou-se para mim.

— Deus meu! — gritou ele. — Que é isto, Holmes? Que é isto?

— Onde você o encontrou?

— Na praia. Exatamente no local onde o pobre MacPherson perdeu a vida. Se este homem tivesse o coração fraco como o de MacPherson, não estaria aqui agora. Mais de uma vez, enquanto o trazia, pensei que fosse o fim. Era longe demais das Empenas, por isso me dirigi para cá.

— Viu-o na praia?

— Eu estava andando pêlos rochedos quando ouvi o grito dele. Estava na beira da água, cambaleando como um bêbado. Desci, correndo, atirei-lhe alguma roupa por cima do corpo e trouxe-o para o alto. Por favor, Holmes, ponha em campo todos os seus poderes e não poupe esforços para levantar a maldição que pesa sobre este lugar, tornando-o inabitável. Não poderá, com toda a sua fama, que é mundial, fazer algo por nós?

— Creio que posso, Stackhurst. Agora venha comigo! Venha também, inspetor! Veremos se podemos ou não entregar esse assassino à polícia.

Deixando o homem inconsciente entregue aos cuidados de minha governanta, descemos os três até a lagoa mortífera. Sobre os calhaus, estavam empilhadas toalhas e roupas, deixadas pelo homem agredido. Fui andando vagarosamente pela beira da água, enquanto os meus companheiros me seguiam um atrás do outro. Grande parte da lagoa era bem rasa, mas, abaixo do penedo onde a praia formava um recôncavo, a profundidade atingia mais de um metro e meio. Era para esse lado, naturalmente, que os nadadores se dirigiam, porque a água formava ali um lindo e translúcido poço verde, límpido como cristal. Uma série de rochas alinhava-se acima dele, na raiz do penedo, e ao longo deste fui abrindo caminho, olhando ansiosamente para as profundezas que via a meus pés. Quando cheguei ao poço mais fundo e tranqüilo, meus olhos deram com aquilo que procuravam, e soltei um grito de triunfo.

— Cyanea! — exclamei. — Cyanea! Contemplem a juba do leão.

O estranho objeto que eu indicava com o dedo parecia realmente uma massa emaranhada que tivesse sido arrancada da juba de um leão. Ali estava, sobre uma prateleira de rocha, mais ou menos um metro dentro da água, um ser curioso, ondeante, vibrátil, cabeludo, com as tranças amarelas salpicadas de prata. Percebia-se que pulsava com uma dilatação e uma contração lenta e pesada.

— Já fez demasiado mal. Sua época acabou! — gritei.

— Ajude-me, Stackhurst! Vamos acabar com o assassino definitivamente.

Havia uma grande pedra logo acima da borda, e nós a empurramos até que ela caiu com tremendo fragor na água. Terminado o redemoinho, vimos que a pedra havia parado sobre a borda inferior. Uma ponta solta da membrana amarela mostrava que nossa vítima estava debaixo da pedra. Uma espuma grossa e oleosa ressumava de sob a pedra e manchava a água ao redor, subindo lentamente à superfície.

— Sim, senhor, estou pasmado! — gritou o inspetor. — Que acontece, sr. Holmes? Sou nascido e criado nesta terra, mas nunca vi coisa semelhante. Isso não é de Sussex.

— Mas veio para Sussex — observei. — Pode ter sido trazido pela ventania do sudoeste. Venham comigo até minha casa e eu lhes apresentarei a medonha experiência de alguém que tem boas razões para se lembrar de seu encontro com esse tenebroso ente dos mares.

Quando chegamos ao meu quarto de trabalho, verificamos que Murdoch melhorara tanto que podia se sentar. Sentia-se atordoado e de vez em quando era agitado por uma dor aguda. Em palavras entrecortadas, explicou que não tinha idéia do que lhe ocorrera. Somente recordava que de repente se sentira varado de dores atrozes e que lhe custara um supremo esforço alcançar a margem.

— Aqui está um livro — disse eu, pegando o livrinho que foi o primeiro a lançar um pouco de luz num caso que poderia ficar para sempre envolto em trevas. — Intitula-se Out of doors e é do famoso observador J. G. Wood. O próprio autor, que esteve prestes a perecer ao contato desse terrível animal, escreve com pleno conhecimento de causa. O nome completo do malvado é Cyanea capillata, e pode ser tão perigoso para a vida e muito mais doloroso do que a mordida de uma serpente. Permita-me que apresente sucintamente um extraio.

“Se o banhista vir uma massa solta, arredondada, de membranas e fibras fulvas, algo parecido com uma juba de leão e papel de seda, acautele-se, pois é o terrível picador Cyanea capillata. Poderia haver descrição mais fiel do nosso sinistro conhecido?

“O autor prossegue narrando seu encontro com um espécime quando nadava junto da costa de Kent. Verificou que o animal estendia uma rede de filamentos quase invisíveis numa distância de quinze metros, e que qualquer pessoa que estivesse nesse raio mortífero correria perigo de vida. Mesmo à distância o efeito sobre Wood foi quase fatal. Os numerosos fios produziram linhas leves de cor escarlate sobre a pele, que, a um exame mais detido, revelaram-se diminutos pontos ou pústulas, sendo cada um desses pontinhos munido, por assim dizer, de uma agulha em brasa que vai penetrando nos nervos.’ A dor local era, como ele explica, a parte mínima do indizível tormento. ‘Horríveis agulhadas atravessavam-me o peito, fazendo-me cair como se tivesse sido atingido por uma bala. A pulsação cessava, e logo o coração dava seis ou sete pulos, como se quisesse abrir caminho através do peito.’

“O animal quase o matou, embora ele tenha ficado exposto ao seu contato no oceano agitado e não nas águas tranqüilas de uma estreita piscina. Diz que depois mal pôde se reconhecer, de tão branco e encarquilhado que ficou seu rosto. Bebeu muita aguardente, uma garrafa inteira, e parece que foi isso o que lhe salvou a vida. Aí está o livro, inspetor. Deixo-o com o senhor, e creio que encontrará nele cabal explicação para a tragédia que vitimou o pobre MacPherson.”

— E de passagem retira de mim qualquer suspeita — obtemperou lan Murdoch, com um sorriso contrafeito. — Não o censuro, inspetor, nem ao senhor, sr. Holmes, porque suas suspeitas eram naturais. A verdade é que, justamente na véspera da minha prisão, absolvi a mim mesmo sofrendo o destino do meu pobre amigo.

— Não, sr. Murdoch. Eu já estava na verdadeira pista, e, se tivesse saído de casa à hora em que tencionava sair, poderia tê-lo livrado dessa horrenda experiência.

— Mas como sabia, sr. Holmes?

— É que sou um leitor único, dotado de uma memória estupenda para reter certas coisas. Aquelas palavras, “juba do leão”, não me saíam da cabeça. Eu sabia que já as encontrara antes em algum texto lido. O senhor viu que esse texto descreve o animal. Não tenho dúvidas de que ele estava boiando sobre a água quando MacPherson o viu, e que essas palavras foram as únicas que ele pôde empregar para nos transmitir uma advertência relativa ao animal que lhe causou a morte.

— Então eu, pelo menos, estou livre — disse Murdoch, pondo-se vagarosamente de pé. — Cabe-me dizer algumas palavras de explicação… pois sei o rumo que tinham tomado as investigações, com relação a mim. É verdade que amei aquela jovem, mas, desde o dia em que ela escolheu meu amigo MacPherson, meu único desejo foi contribuir para a felicidade dela. Contentei-me em ficar à margem e agir como intermediário entre os dois. Freqüentemente era eu o portador de seus recados escritos, e justamente porque gozava da confiança dos dois, e porque ela me era tão cara, é que me apressei em pô-los ao corrente do triste fim do meu amigo, antes que outra pessoa se antecipasse a mim e lhe dissesse a verdade de uma maneira brutal. Ela não quis lhe revelar nossas verdadeiras relações, sr. Stackhurst, com receio’de que o senhor as desaprovasse e eu viesse a sofrer com isso. Mas peço licença para tentar regressar às Empenas, porque estou ansioso para me estender na cama.

Stackhurst estendeu-lhe a mão.

— Nossos nervos foram postos às mais rudes provas — disse ele. — Desculpe o que aconteceu, Murdoch. No futuro, haveremos de nos entender melhor.

Saíram os dois juntos, de braço dado, como bons amigos. O inspetor ficou, fitando-me em silêncio com seus olhos de boi.

— Bem, ao senhor é que se deve tudo! — exclamou por fim. — Eu tinha lido a seu respeito, mas não acreditava. É extraordinário! Fui forçado a abanar a cabeça. Aceitar um elogio assim seria diminuir-me no meu próprio conceito.

— Fui lento de início, culposamente lento. Se o corpo tivesse sido encontrado na água, eu dificilmente me enganaria. Foi a toalha que me desorientou. O pobre não pensou em se enxugar, e eu por minha vez fui levado a crer que ele não estivera dentro da água. Como, pois, seria possível eu imaginar que se tratava do ataque de um animal marinho? Daí partiu meu erro. Bem, bem, inspetor. Muitas vezes me atrevi a troçar dos respeitáveis homens da polícia, mas a Cyanea capillata quase vingou a Scotland Yard.

1927
Histórias de Sherlock Holmes

1. A pedra Mazarino § 2. A ponte de Thor
3. O homem que andava de rastos § 4. O vampiro de Sussex
5. Os três Garridebs § 6. O cliente ilustre
7. As três empenas § 8. O rosto lívido
9. A juba do leão § 10. Josiah Amberley
11. A inquilina do rosto coberto § 12. O velho solar de Shoscombe

Ilustrações: Frederic Dorr Steele e Howard K. Elcock, cortesia The Camden House
Transcrição: Mundo Sherlock