O velho solar de Schoscombe

Arthur Conan Doyle

O velho solar de Schoscombe

Título original: The Adventure of Shoscombe Old Place
Publicado pela primeira vez na Liberty,
Março de 1927, com 7 ilustrações de Frederic Dorr Steele
e na Strand Magazine, em Abril de 1927,
com 5 ilustrações de Frank Wiles.

Sobre o texto em português:
Este texto digital reproduz a
tradução de The Adventure of Shoscombe Old Place publicado em
As Aventuras de Sherlock Holmes, Volume VII,
editado pelo Círculo do Livro
e com tradução de Hamílcar Garcia.

Sherlock Holmes estivera durante muito tempo inclinado sobre um microscópio de baixa potência. Depois endireitou-se e olhou triunfante para mim.

— É cola, Watson — disse ele. — Não há a menor dúvida. Dê uma olhadela neste material espalhado na lâmina!

Curvei-me sobre o aparelho e foquei-o para a minha visão.

— Aqueles pêlos são fios de um casaco de casimira. As massas irregulares cinzentas são pó. À esquerda, escamas epiteliais. Aquelas bolhas escuras, no centro, são certamente cola.

— Bem — sorri —, estou pronto a acreditar em sua palavra. Há alguma relação entre isso e o caso?

— Trata-se de uma ótima demonstração — respondeu ele. — No caso St. Pancras, você deve se lembrar que foi encontrado um gorro ao lado do policial morto. O acusado nega ser dele o gorro. Mas faz molduras para quadros, e portanto mexe habitualmente com cola.

— É um dos seus casos?

— Não. Meu amigo Merivale, da Yard, pediu-me que lhe desse uma ajuda. Desde que pus as mãos naquele moedeiro falso, por meio das limalhas de zinco e de cobre encontradas na costura do punho de sua camisa, eles começaram a perceber a importância do microscópio. — Consultou com impaciência o relógio. — Esperava a visita de um novo cliente, mas ele se atrasou. Por falar em cliente, Watson, você entende alguma coisa de corridas de cavalos?

— Devo entender. Contribuo para elas com metade da pensão que recebo por meu ferimento.

— Então ficará sendo o meu Manual prático do turfista. Que me diz de Sir Robert Norberton? Esse nome lhe lembra alguma coisa?

— Parece-me que sim. Mora no velho Solar de Shoscombe, lugar muito meu conhecido, porque antigamente eu passava lá o verão. Norberton uma vez quase caiu em sua rede.

— Como assim?

— É que uma ocasião ele chicoteou Sam Brewer, o conhecido agiota da Curzon Street, em Newmarket Heath. Quase matou o homem.

— Ele é dado a tais façanhas?

— Pelo menos tem fama de homem perigoso. É o cavaleiro mais temerário da Inglaterra, e ganhou há tempos o segundo lugar no Grande Prêmio Nacional. É um desses homens que se anteciparam à sua verdadeira geração. Devia ter sido um almofadinha na época da Regência: pugilista, atleta, grande apostador do turfe, galanteador de belas damas, e, segundo consta, embrenhou-se por vielas tão tortuosas que talvez jamais encontre o caminho de regresso.

— Magnífico, Watson! Um quadro pequeno mas completo. Parece-me até que já conheço o homem. E agora você é capaz de me dar uma idéia do velho Solar de Shoscombe?

— Sei somente que fica no centro do Shoscombe Park, e que lá está situada a famosa coudelaria e o não menos famoso campo de treinos.

— E o treinador-chefe — disse Holmes — é John Mason. Não precisa se mostrar surpreso com os meus conhecimentos, Watson, pois isto que estou desdobrando é uma carta dele. Mas vamos saber mais alguma coisa a respeito de Shoscombe. Parece-me que vim dar com um belo filão.

— Há ainda os perdigueiros de Shoscombe — disse eu. — Não há exposição canina em que não se fale neles. A criação mais excepcional da Inglaterra. Constituem o principal orgulho da dama do velho Solar de Shoscombe.

— A esposa de Sir Robert Norberton… presumo.

— Não. Sir Robert não é casado. Ainda bem, penso eu, considerando suas perspectivas. Mora com a irmã viúva, Lady Beatrice Falder.

— Você quer dizer que ela mora com ele, não é verdade?

— Não, senhor. A herdade pertencia a Sir James, o finado marido de Lady Beatrice. Norberton não pode reivindicar dali coisa alguma como sua. Trata-se apenas de usufruto, e reverterá para o irmão do marido dela. Entrementes, ela recebe todos os anos as rendas.

— E o irmão Robert, suponho eu, gasta-as!

— É mais ou menos isso. Aquilo é um homem dos diabos, que não lhe deve tornar a vida fácil. Apesar disso, ouvi dizer que ela lhe é dedicada. Mas o que há de especial em Shoscombe?

— É justamente isso o que quero saber. E aí está, como espero, o homem que nos pode dizer alguma coisa.

A porta abrira-se, e o criado introduziu um homem alto, escanhoado, com a expressão firme e austera que só se vê naqueles que têm a seu cargo disciplinar cavalos ou rapazes. O sr. John Mason tinha sob sua direção vários representantes dessas duas espécies, e parecia homem à altura da tarefa. Inclinou-se com certa frieza e sentou-se na cadeira que Holmes lhe indicara.

— Recebeu meu bilhete, sr. Holmes?

— Recebi, mas ele nada explica.

— Trata-se de assunto delicado demais para que os pormenores sejam postos no papel. Delicado e complicado. Só de viva voz eu poderia expô-lo.

— Pois estamos à sua disposição.

— Antes de mais nada, sr. Holmes, acho que meu patrão, Sir Robert, enlouqueceu.

Holmes ergueu o sobrolho.

— Isto aqui, sr. Mason, é a Baker Street, não a Harley Street — afirmou ele. — Mas por que diz isso?

— É que, quando um homem comete uma extravagância ou duas, vá lá, mas quando tudo o que faz é extravagante, a gente começa a estranhar. Creio que o Príncipe, o favorito de Shoscombe, e o Grande Prémio lhe deram cabo do juízo.

— Trata-se de um potro que o senhor está adestrando?

— O melhor da Inglaterra, sr. Holmes. E se eu o digo é porque sei. Agora vou ser franco, pois sei que os senhores são homens de bem e que isto ficará entre nós. Desta vez, Sir Robert tem de ganhar o Grande Prêmio. Ele está com a corda no pescoço e é esta sua última oportunidade. Tudo o que ele pôde levantar ou pedir emprestado está no cavalo, e com excelentes probabilidades. Hoje pode se obter cerca de quarenta, mas, quando ele começou a apostar no animal, não estava longe dos cem.

— Como se explica isso então, se o cavalo é tão bom?

— É que o público não sabe que ele é tão bom assim. Sir Robert é mais esperto que os curiosos. Para seus treinos, ele usa o meio irmão do Príncipe. Ninguém pode distinguir um do outro. Mas há uma diferença de dois corpos entre os dois, a cada duzentos metros, quando se trata de galope. Ele não pensa noutra coisa senão na corrida e no cavalo. Sua vida está concentrada nisso. Até aqui, tem conseguido se livrar dos judeus. Mas se o Príncipe lhe falha, está perdido.

— Parece que o jogo é realmente sério, mas onde se manifesta a loucura?

— Antes de mais nada, basta olhar para ele. Para mim, o homem não dorme. A qualquer hora do dia ou da noite, o senhor o encontra na estrebaria. Tem os olhos espavoridos. Tudo isso lhe tem atacado os nervos. Há depois seu procedimento em relação a Lady Beatrice.

— O que há a esse respeito?

— Sempre foram amigos. Tinham ambos os mesmos gostos, e ela gostava tanto dos cavalos como ele. Todos os dias, à mesma hora, ela saía de carro para vê-los. E acima de tudo gostava do Príncipe. Este, só de ouvir o barulho das rodas no cascalho, espetava as orelhas. Todas as manhãs, o animal trotava até a carruagem para ganhar seu torrão de açúcar. Pois tudo isso acabou.

— Por quê?

— A senhora parece ter perdido o interesse pêlos cavalos. Faz agora uma semana que ela passa rápido pela cavalariça, sem um bom-dia sequer!

— Acha que houve alguma discussão?

— Sim, e discussão séria, tremenda. Senão, por que teria ele se desembaraçado do perdigueiro que pertencia a ela, e que a senhora amava como se fosse seu filho? Sir Robert deu o cãozinho, há alguns dias, ao velho Barnes, dono do Dragão Verde, a cerca de quatro quilômetros de lá, em Crendall.

— Certamente tudo isso parece estranho.

— É claro que, doente do coração e hidrópica como é, ninguém esperava que Lady Beatrice fosse acompanhar o irmão em suas andanças, mas todas as tardes ele passava duas horas no quarto dela conversando. Ele podia ter feito o que quisesse, mas Lady Beatrice sempre foi de uma bondade extrema para com Sir Robert. Pois tudo isso também acabou. Ele não se aproxima dela. E isso faz sofrer a pobre senhora. Anda macambúzia, rabugenta, e deu para beber, sr. Holmes. Bebe como uma esponja.

— E antes dessa desavença, ela já bebia?

— Bem… Só de vez em quando, mas agora bebe freqüentemente uma garrafa inteira numa só noite. Foi o que me disse Stephens, o mordomo. Está tudo mudado, sr. Holmes, e há ali qualquer coisa que não está certa. E que dizer das idas noturnas do patrão à cripta da igreja? E quem é o homem que vai lá encontrar-se com ele?

Holmes esfregou as mãos.

— Prossiga, sr. Mason. Tudo isso é muito interessante.

— Foi o mordomo que o viu ir até lá. Era meia-noite e chovia muito. Então, na noite seguinte fiquei acordado, andando pela casa, e, sim senhor, lá saiu o patrão outra vez. Eu e Stephens fomos atrás dele, mas era perigoso, porque, se ele nos visse, o caldo entornava. É um homem terrível com os punhos que tem, e, quando o provocam, não respeita nada. Por isso nos abstivemos de chegar muito perto, mas marcamos bem o lugar aonde ele foi. Era a cripta mal-assombrada, e havia lá um homem, esperando-o.

— Essa cripta mal-assombrada o que é?

— Ouça, sr. Holmes. Existe no parque uma antiga capela em ruínas. É tão antiga que ninguém sabe fixar a data de sua construção. E por baixo dela há uma cripta que tem má fama entre nós. De dia é um lugar ermo, escuro, úmido, e de noite há pouca gente em todo o condado que teria coragem de se aproximar de lá. Mas o patrão é destemido. Nunca teve medo de nada. Mas que andará fazendo por ali às horas mortas da noite?

— Espere um pouco — disse Holmes. — O senhor me disse que outro homem também vai lá. Deve ser um dos moços da cavalariça ou alguém da casa. Basta que o senhor se informe e os interrogue.

— Não é ninguém de meu conhecimento.

— Como pode dizer isso?

— Porque o vi, sr. Holmes. Foi naquela segunda noite. Sir Robert deu a volta e passou por nós… por mim e por Stephens, que estávamos agachados entre as moitas como dois coelhos trêmulos, pois havia um pouco de luar naquela noite. Mas percebemos que o outro homem andava por ali, um pouco atrás. Deste, não tínhamos medo. Por isso nos levantamos quando Sir Robert se afastou, e, fingindo dar um giro ao luar, forçamos um encontro com o desconhecido como se fosse a coisa mais natural do mundo. “Olá, chefe, quem é o senhor?”, disse eu. Desconfio que ele ainda não nos tivesse notado, de modo que olhou por cima do ombro com cara de quem viu o diabo saindo do inferno. Deu um berro e foi-se embora correndo tanto quanto lhe permitiu o escuro da noite. Como corria, o desgraçado! Num minuto, desapareceu de nossa vista, e não pudemos descobrir quem era.

— Mas o senhor distinguiu-lhe bem as feições à luz do luar, não é assim?

— Não há dúvida. Seu rosto era amarelo, um rosto comum, ouso dizer. Qual a relação que pode haver entre ele e Sir Robert é o que não sei.

Holmes pôs-se a refletir durante algum tempo.

— Quem faz companhia a Lady Beatrice Falder? — perguntou por fim.

— É sua criada, Carrie Evans. Está com ela há cinco anos.

— E com certeza lhe é dedicada, não é verdade?

O sr. Mason deteve-se um pouco, constrangido.

— Dedicada é, e bastante — respondeu afinal. — Mas não direi a quem.

— Ah! — fez Holmes.

— Não me fica bem andar por aí comentando.

— Percebo, sr. Mason. A situação é bastante clara. Pela descrição que o dr. Watson fez de Sir Robert, imagino que nenhuma mulher escape de sua cobiça. Não acha que a discussão entre o irmão e a irmã pode ter sido causada por isso?

— Bem. O escândalo existe já há algum tempo.

— Mas é possível que ela não tivesse notado nada antes disso. Suponhamos que ela tenha descoberto a coisa de repente. Quer ver-se livre da mulher. O irmão não consente nisso. A enferma, sofrendo do coração e incapaz de se mexer, não tem meios de impor sua vontade. A odiada serva acha-se ainda ligada a ela. A senhora recusa-se a falar, irrita-se, recorre à bebida. Enfurecido, Sir Robert priva-a do animal de estimação. Há algum absurdo nessas suposições?

— Bem. Até aqui, não.

— Diz bem, até aqui. Pois que relação podia ter tudo isso com as idas noturnas à cripta? Isso não se encaixa na nossa história.

— É claro. E há mais uma coisa que não consigo encaixar. Por que Sir Robert haveria de querer desenterrar um cadáver?

Holmes endireitou-se abruptamente na cadeira.

— Só descobrimos isso ontem, depois de eu lhe ter escrito. Ontem, Sir Robert tinha ido a Londres, e eu e Stephens descemos à cripta. Estava tudo em ordem, sr. Holmes, menos a um canto, onde se via parte de um corpo humano.

— Suponho que o senhor tenha avisado a polícia, não é verdade?

Nosso visitante sorriu, um tanto contrafeito.

— Creio, sr. Holmes, que é coisa que pouco interessaria à polícia. Era apenas a cabeça e alguns ossos de uma múmia. Deve contar uns mil anos. Mas não estava lá antes disso. Podemos jurar que não, eu e Stephens. Foi depositada num canto, e coberta com uma tábua, mas garanto que aquele canto esteve sempre vazio.

— Que fez o senhor do achado?

— Deixamos onde estava.

— Fez bem. O senhor disse que Sir Robert esteve ausente ontem. Já voltou?

— Esperamos que volte hoje.

— Quando foi que Sir Robert se desfe2 do cachorrinho pertencente à irmã?

— Faz hoje justamente uma semana. O bicho estava uivando junto da velha casa onde está a caixa-d’água, e naquela manhã Sir Robert teve um de seus ataques de fúria. Agarrou-o, e cheguei a pensar que ia matá-lo. Depois, deu-o a Sandy Bain, o jóquei, e disse-lhe que levasse o cão para o velho Barnes, do Dragão Verde, porque nunca mais queria ver o animalzinho.

Holmes pôs-se de novo a refletir. Tinha acendido o mais antigo e mais entupido de seus cachimbos.

— Ainda não estou bem certo sobre o que o senhor quer que eu faça a respeito desse assunto, sr. Mason.

— Talvez isto esclareça melhor o caso, sr. Holmes — declarou o visitante.

Tirou um papel do bolso, e, desdobrando-o cuidadosamente, exibiu um fragmento de osso carbonizado. Holmes examinou-o com interesse.

— Onde o obteve?

— Há um forno de aquecimento central no porão, debaixo do quarto de Lady Beatrice. Houve um tempo em que não funcionava, mas Sir Robert queixava-se de frio e mandou consertá-lo. O encarregado dele é Harvey, um dos meus rapazes. Precisamente hoje de manhã, ele me procurou e me entregou isto, que encontrou lá ao tirar a cinza com a pá. A coisa lhe pareceu esquisita.

— A mim também parece — disse Holmes. — Que diz a isso, Watson?

O fogo reduzira o osso a um pedaço de carvão, mas não podia haver dúvida quanto à sua função anatômica

— É a parte superior de um fêmur humano — respondi.

— Isso mesmo! — Holmes pusera-se muito sério. — Quando é que o rapaz mexe no forno?

— Arruma-o todas as noites.

— Então qualquer pessoa pode ir lá durante a noite?

— Pode.

— Pode-se entrar lá pelo lado de fora?

— Há uma porta do lado de fora. Há outra que abre para uma escada, que vai dar no corredor em que está situado o quarto de Lady Beatrice.

— O caso se complica, sr. Mason. Complica-se e vai tomando um aspecto grave. Diz o senhor que Sir Robert não estava em casa a noite passada, não é verdade?

— Não estava, não, senhor.

— Então não foi ele que queimou os ossos.

— É verdade, sr. Holmes.

— Como se chama a estalagem de que o senhor falou?

— Dragão Verde.

— Há um peixe naquela parte de Berkshire?

O honrado treinador deu claramente a entender, por sua fisionomia, que estava convencido de ter diante de si mais um lunático.

— Ouvi dizer que há truta no arroio do moinho e lúcio no lago de Hall.

— Pois muito bem. Eu e Watson somos pescadores famosos, não é verdade, Watson? Mais tarde, pode se dirigir a nós no Dragão Verde. Devemos estar lá hoje à noite. É escusado dizer que não queremos vê-lo, sr. Mason, mas pode fazer chegar até nós um bilhete seu, e sem dúvida posso encontrá-lo, se precisar do senhor. Quando nos enfronharmos um pouco mais no assunto, poderei transmitir-lhe uma opinião mais ponderada.

E foi assim que, numa clara noite de maio, Holmes e eu nos achamos sós num vagão de primeira classe, rumo à estaçãozinha de Shoscombe. A prateleira acima de nós estava repleta de cestos e de apetrechos de pesca. Tendo chegado ao nosso destino, um pequeno trajeto de carro levou-nos a uma taverna de aspecto antiquado, onde um taverneiro jovial, Josiah Barnes, aprovou calorosamente nosso plano de pescarias naquela região.

— Que me diz do lago de Hall? Haverá lúcio por lá? — indagou Holmes.

O estalajadeiro perdeu a aparência jovial.

— Aí não, cavalheiro. Pois seria muito possível que o senhor, antes de perceber, se encontrasse dentro da água.

— Mas por quê?

— Por causa de Sir Robert. Ele tem um ciúme terrível de suas trutas. Se dois estranhos como os senhores chegassem assim tão perto de seu campo de treinos, ele decerto os perseguiria. São favas contadas. Sir Robert não se expõe a riscos.

— Ouvi dizer que ele tem um cavalo que vai concorrer no Grande Prêmio.

— Tem, e que animal! Leva todo o nosso dinheiro para a corrida, e todo o dinheiro de Sir Robert, ainda por cima. Por falar nisso — o homem fitou-me com olhos pensativos —, suponho que os senhores não sejam do turfe.

— Não, senhor. Somos apenas dois londrinos cansados, em busca do ar sadio de Berkshire.

— Então acertaram em cheio. Mas lembrem-se do que eu lhes disse a respeito de Sir Robert. Ele é desses que primeiro ferem e depois é que falam. Conservem-se longe do parque.

— É claro, sr. Barnes. Faremos isso mesmo. A propósito, é muito bonitinho aquele perdigueiro que estava ali na entrada, choramingando.

— Também acho. É da pura raça de Shoscombe, Não há melhor na Inglaterra.

— Gosto muito de cães — disse Holmes. — Se me permite a pergunta, quanto vale um cão de raça como esse?

— Mais do que eu posso pagar, cavalheiro. Foi o próprio Sir Robert que me deu o que está aí. É por isso que tenho de conservá-lo na trela. Se o deixasse solto, no mesmo instante ele partiria daqui em direção ao lago de Hall.

— Estão caindo algumas cartas em nossas mãos, Watson — continuou Holmes, quando o estalajadeiro nos deixou. — Não é jogo fácil, mas dentro de um ou dois dias haveremos de encontrar uma saída.

“Ouvi dizer que Sir Robert ainda se encontra em Londres. Talvez pudéssemos penetrar hoje à noite em seu sagrado domínio, sem receio de agressão física. Há um ou dois pontos a respeito dos quais eu queria me certificar.

— Já tem algum juízo formado, Holmes?

— Apenas isto, Watson, que há uma semana, mais ou menos, deve ter acontecido alguma coisa que alterou profundamente a fisionomia de velho Solar de Shoscombe. O que terá sido? Só podemos conjeturá-la por seus efeitos. Eles parecem ser de natureza curiosamente mista. Mas isso certamente nos ajudará. Só não há esperança quando o caso é incolor, destituído de episódios marcantes. Consideremos os dados que já possuímos. O irmão já não visita a amada irmã doente. Desfaz-se do cãozinho favorito dela. O cãozinho dela, Watson! Isso não lhe sugere nada?

— Nada, a não ser o despeito do irmão.

— Pode ser isso. Ou… bem, há uma alternativa. Agora, continuando a examinar a situação desde o tempo em que se deu a discussão, se é que houve discussão, a dama não sai do quarto, altera seus hábitos, não é vista a não ser quando sai de carruagem com a criada, não quer parar perto da cavalariça para saudar seu cavalo preferido, e aparentemente entrega-se à bebida. Isto abarca o caso todo, não é verdade?

— Falta a questão da cripta.

— Esse é outro curso de idéias. Esses cursos são dois, e peco-lhe que não os misture. O curso A, que diz respeito a Lady Beatrice, tem um sabor vagamente sinistro, não acha?

— Não entendo patavina disso.

— Bem, vejamos agora o curso B, que se refere a Sir Robert. Ele quer ganhar a corrida a qualquer preço. Acha-se nas mãos dos judeus, podendo suas magníficas cavalariças ser tomadas a qualquer momento pêlos credores. É um homem afoito e desesperado. Seus rendimentos são os que lhe dá a irmã. A criada desta é seu instrumento dócil. Até aqui parece-me que estou em terreno firme, é ou não é verdade?

— Mas, e a cripta?

— Ah, sim, a cripta! Suponhamos, Watson (é uma mera suposição, absurda quando se aventa uma hipótese apenas para argumentar), que Sir Robert tenha dado cabo da irmã…

— Meu caro Holmes, isso não pode ser objeto de cogitações.

— Muito provavelmente, Watson, pois Sir Robert pertence a uma linhagem de escol. Mas às vezes não se encontra um abutre sanguinário entre as águias altaneiras? Vamos discutir por um momento essa hipótese. Ele não podia fugir do país antes de fazer fortuna, e essa fortuna só podia ser feita mediante a proeza espetacular do Príncipe de Shoscombe. Portanto, ainda não pode arredar pé do lugar. Para isso, teria de se desembaraçar do corpo de sua vítima, e teria de encontrar um substituto que a representasse. Com a criada como sua confidente, isso não seria impossível. O corpo da mulher podia ser transportado para a cripta, lugar muito raramente visitado, e ser secretamente destruído à noite, no forno, deixando a prova que já é do nosso conhecimento. Que diz a isso, Watson?

— Uma vez admitida essa monstruosa suposição, tudo é possível.

— Penso que há uma pequena experiência que podemos tentar amanhã, Watson, a fim de lançar alguma luz sobre o assunto. Entretanto, se quisermos sustentar nossos papéis, proponho que convidemos nosso taverneiro a tomar conosco um copo de seu próprio vinho, e que mantenhamos uma conversa cerrada sobre enguias e trutas, o que parece ser o caminho certo para lhe granjear a simpatia. Pode ser que, em meio à palestra, saia casualmente alguma bisbilhotice local que nos seja útil.

Pela manhã, Holmes verificou que nos tínhamos esquecido de certo aparelho essencial para a pesca, o que nos impedia de pescar naquele dia. Por volta das onze horas, fomos dar um passeio, e ele obteve permissão para levar o perdigueiro preto.

— É este o lugar — disse ele, ao chegarmos a um portão enorme, encimado por dois grifos heráldicos. — Lá pelo meio-dia, segundo me informou o sr. Barnes, a velha dama sai para seu giro habitual, e a carruagem que a traz deve diminuir a marcha enquanto se abrem os portões. Quando o veículo estiver transpondo o portão, e antes que ganhe velocidade, preciso, Watson, que você detenha o cocheiro, fazendo-lhe uma pergunta qualquer. Não se importe comigo. Ficarei abrigado atrás deste azevinheiro e verei o que posso fazer.

A espera não foi longa. Quinze minutos depois, vimos o grande landau amarelo, aberto, que vinha pela alameda afora, puxado por dois esplêndidos cavalos de tiro, cinzentos, de passo largo. Holmes agachou-se atrás do seu azevinho com o cão. Eu fiquei de pé, parado no caminho, rodando despreocupadamente uma bengala. Um couteiro veio correndo abrir os portões.

A carruagem vinha agora quase a passo, e pude ver perfeitamente quem estava dentro. Uma mulher jovem, corada, de cabelo louro-claro e olhos maliciosos, estava sentada à esquerda. À sua direita achava-se uma pessoa idosa, de costas arqueadas e com uma porção de xales em volta do rosto e caindo-lhe pêlos ombros: era a enferma. Quando os cavalos ganharam a estrada real, ergui a mão com gesto imperioso e, tendo o cocheiro detido a carruagem, indaguei se Sir Robert estava no velho Solar de Shoscombe.

No mesmo instante, Holmes saiu e soltou o perdigueiro. Com um latido de alegria, o animalzinho correu para a carruagem e pulou no estribo. Mas no mesmo momento seu latido de alvoroço converteu-se em raiva incontida, e o bicho fez menção de abocanhar a saia preta que ia no veículo.

— Toque para a frente! Toque! — gritou uma voz áspera. O cocheiro fustigou a parelha, e nós ficamos de pé, parados no meio do caminho.

— Que tal, Watson? Não é decisivo? — perguntou Holmes, ao mesmo tempo em que punha a trela no pescoço do nervoso cãozinho. — Ele pensou que fosse a dona e viu que era uma pessoa estranha. Os cães não cometem equívocos.

— Mas a voz era de homem! — gritei.

— Exatamente! Temos mais uma carta na mão, Watson, mas nem por isso o jogo deixou de ser arriscado.

Meu companheiro parecia não ter nenhum outro projeto para aquele dia, e, sendo assim, tratamos de nos servir dos apetrechos de que dispúnhamos e fomos pescar no arroio do moinho. O resultado foi termos à ceia um bom prato de truta. Somente depois desse repasto é que Holmes apresentou sinais de renovada atividade. Uma vez mais nos achamos na mesma estrada da manhã, que nos levou ao portão do parque. Lá nos aguardava um vulto alto e negro, que verificamos ser o nosso conhecido de Londres, o sr. John Mason, o treinador.

— Boa noite, senhores — saudou ele. — Recebi seu bilhete, sr. Holmes. Sir Robert ainda não voltou, mas ouvi dizer que é esperado esta noite.

— Qual a distância da casa à cripta? — perguntou Holmes.

— Cerca de meio quilômetro.

— Então penso que não precisamos nos preocupar com ele.

— Eu já não posso dizer o mesmo, sr. Holmes. No momento em que chegar, desejará ver-me para ter as últimas notícias do Príncipe de Shoscombe.

— Compreendo. Nesse caso, vamos trabalhar sem o senhor, sr. Mason. Basta que nos mostre a cripta, e pode regressar.

A noite estava escura e sem luar, mas Mason guiou-nos pelo prado até que surgiu à nossa frente uma massa escura, que, conforme logo se verificou, era a vetusta capela. Entramos pela brecha quebrada que fora outrora o pórtico, e nosso guia, tropeçando entre os montes de alvenaria solta e de caliça, foi se encaminhando para a esquina do edifício, onde uma escada descia até a cripta. Riscando um fósforo, Holmes iluminou aquele lugar melancólico, sinistro e cheirando a mofo, com velhas paredes talhadas de pedra tosca, a esboroar-se, e com pilhas de esquifes, uns de chumbo, outros de pedra, estendendo-se para um lado até atingir o telhado de arcada, que se perdia nas sombras acima de nossas cabeças. Holmes acendera sua lanterna, que espargiu um feixezinho de intensa luz amarela sobre aquele ambiente macabro. Seus raios batiam nas chapas dos ataúdes, muitos dos quais adornados com o grifo e a pequena coroa daquela antiga família que levava suas insígnias até a morada das sombras.

— O senhor falou nuns ossos, sr. Mason. Podia mostrá-los antes de ir embora?

— Estão aqui neste canto. — O treinador caminhou para o lado que ele mesmo indicara e aí parou, tomado de surpresa, enquanto nossa luz era dirigida para o local. — Já não estão aqui — murmurou ele.

— Era o que eu esperava — disse Holmes, esboçando um sorriso. — Imagino até que suas cinzas possam agora encontrar-se naquele forno, que já consumiu uma parte.

— Mas por que cargas-d’água havia alguém de queimar os ossos de um homem que morreu há mil anos? — perguntou John Mason.

— Para descobrir isso é que nos encontramos aqui — replicou Holmes. — A coisa pode exigir uma longa busca, e não queremos detê-lo. Creio que teremos a solução do problema antes do amanhecer.

Assim que John Mason saiu, Holmes pôs-se a trabalhar febrilmente, examinando com toda a diligência cada sepultura, partindo de uma muito antiga, que parecia ser de um saxão, ao centro, através de uma longa linha de Hugos e de Odos normandos, até chegar ao Sir William e ao Sir Denis Falder do século XVIII. Esse exame já consumira uma hora ou mais quando Holmes topou com um ataúde de chumbo que estava em pé, voltado para a entrada da abóbada. Ouvi seu grito de satisfação e percebi, nos seus movimentos rápidos mas definidos, que alcançara a meta. Com sua lente, estava examinando avidamente as bordas da pesada tampa. Em seguida, tirou do bolso um pequeno pé-de-cabra, que introduziu numa fenda, levantando toda a frente, que parecia estar segura apenas por dois ganchos. Quando a tampa cedeu, ouviu-se o som de alguma coisa que se rasga ou se arranca; porém, mal ela fora erguida, deixando parcialmente à mostra o conteúdo, ocorreu uma interrupção imprevista.

Alguém andava na capela, em cima. Era o passo firme de uma pessoa que vinha com um propósito claro e conhecia bem o terreno que pisava. Uma luz jorrou pela escada abaixo, e daí a um instante o homem que a trazia apareceu na abertura abobadada em estilo gótico. Era uma figura terrível, de estatura descomunal e maneiras ferozes. A luz de uma lanterna grande, que ele segurava à sua frente, reverberava num rosto robusto, de fartos bigodes e de olhos irados, que giravam para todos os recantos da abóbada, fixando-se finalmente, com expressão medonha, em meu companheiro e em mim.

— Quem diabo é o senhor? — perguntou, com voz trovejante. — E que está fazendo em minha propriedade?

Então, como Holmes não desse resposta, deu dois passos à frente e levantou um pesado bordão que trazia.

— Está me ouvindo? — gritou. — Quem é você? Que está fazendo aqui? — E, ao dizer isto, agitou o bastão no ar.

— Também tenho uma pergunta a lhe fazer, Sir Robert — respondeu Holmes em tom muito severo. — Quem é este? E o que é que isto está fazendo aqui?

Virou-se e arrancou, de um golpe, a tampa do ataúde que estava atrás dele. À luz da lanterna, vi um corpo envolto numa mortalha da cabeça aos pés, de feições hediondas, feições de bruxa, onde só se via nariz e queixo, sobressaindo, numa das extremidades, os olhos, velados e vidrados, num rosto descolorido e desfeito.

O baronete, dando um grito, recuara, cambaleando, e amparou-se a um sarcófago de pedra.

— Como veio a saber disso? — vociferou. E logo, novamente à sua maneira truculenta: — Acha que isso é da sua conta?

— Meu nome é Sherlock Holmes — disse meu companheiro. — É provável que esse nome lhe seja familiar. Seja como for, é da minha conta, como o é de qualquer cidadão que se preze, lutar pela lei. Parece-me que o senhor tem muita responsabilidade neste assunto.

Os olhos de fogo de Sir Robert reacenderam-se por um momento, mas a voz tranqüila de Holmes e seu tom frio e firme produziram efeito.

— Diante de Deus, sr. Holmes, nenhum crime foi praticado aqui. As aparências estão contra mim, confesso, mas não pude proceder de outra forma.

— Gostaria de pensar assim, mas temo que suas explicações tenham de ser dadas perante a polícia.

Sir Robert encolheu os largos ombros.

— Bem, se tem que ser, que seja. Venha comigo a casa, e poderá julgar por si mesmo em que pé está este assunto.

Quinze minutos mais tarde, encontrávamo-nos num aposento que, pela série de canos polidos, guardados em armários de vidro, julguei ser a sala de armas do velho solar. Era confortavelmente mobiliado, e Sir Robert deixou-nos ali por alguns momentos. Ao voltar, trazia consigo duas pessoas: uma, a mulher jovem que tínhamos visto na carruagem; a outra, um homenzinho com cara de rato e com um jeito furtivo, que desagradava. Tanto ela como ele traziam estampados na fisionomia o maior assombro, sinal de que o baronete ainda não tinha tido tempo de lhes explicar o rumo que os acontecimentos haviam tomado.

— Aqui estão — disse Sir Robert, com um aceno de mão —, sr. e sra. Norlett. Esta, com seu nome de solteira, que é Evans, foi durante alguns anos a criada de confiança de minha irmã. Eu os trouxe aqui porque vejo que o melhor expediente é explicar-lhe a situação verdadeira, e eles são as duas únicas pessoas que podem confirmar o que vou dizer.

— Isso é necessário, Sir Robert? O senhor já pensou no que está fazendo? — gritou a mulher.

— Declaro-me livre de qualquer responsabilidade — disse o marido.

Sir Robert lançou-lhe um olhar de desprezo.

— Eu assumirei toda a responsabilidade — disse ele.

— E agora, sr. Holmes, escute a simples exposição dos fatos apesar de ser evidente que está bastante inteirado de meus negócios. Se assim não fosse, eu não o encontraria onde o encontrei. Portanto, já deve saber que inscrevi um cavalo preto para o Grande Prêmio, e que tudo depende de meu triunfo. Se eu ganhar, tudo será fácil. Se perder… bem, nem é bom pensar nisso!

— Conheço a situação — disse Holmes.

— Dependo de minha irmã, Lady Beatrice, em tudo e por tudo. Mas é sabido que o interesse dela na herdade dura apenas enquanto lhe durar a vida. Quanto a mim, estou inteiramente nas mãos dos credores. Sempre foi do meu conhecimento que, uma vez morta minha irmã, estes credores cairiam sobre a herdade como um bando de abutres. Tudo seria levado; minhas estrebarias, meus cavalos, tudo. Pois bem, sr. Holmes, minha irmã morreu há justamente uma semana.

— E o senhor não disse nada a ninguém!

— Que podia eu fazer? Achava-me em completa ruína. Se pudesse protelar os acontecimentos por três semanas, tudo iria bem. O marido da criada dela… este homem aqui, é um ator. Tivemos a idéia, tive a idéia, de que ele podia, durante esse curto período, substituir minha irmã. Era só questão de aparecer diariamente na carruagem, pois ninguém precisava entrar no quarto dela a não ser a criada. Não foi difícil preparar a farsa. Minha irmã morreu de hidropisia, que a vinha afligindo há muito tempo.

— Isso caberá à decisão de um júri.

— O médico dela certificará que há meses seus sintomas se agravavam, ameaçando tal desfecho.

— Que fez então o senhor?

— O corpo não podia ficar aqui. Na primeira noite, eu e Norlett o transportamos para a velha casa onde está a caixa-d’água, agora completamente desabitada. Fomos, entretanto, seguidos pelo perdigueiro de estimação, que não cessava de ganir junto da porta. Vi que era preciso pensar num lugar mais seguro. Desembaracei-me do perdigueiro, e carregamos o corpo para a cripta da igreja. Não houve nenhuma indignidade ou baixeza, sr. Holmes. Não vejo em que possa ter faltado ao respeito à morta.

— Seu procedimento, Sir Robert, parece-me injustificável.

O baronete abanou a cabeça com impaciência.

— Moralizar é muito fácil — disse ele. — Talvez, se o senhor estivesse na minha situação, pensasse de outro modo. Não é possível uma pessoa ver, no último momento, frustradas todas as suas esperanças e malogrados todos os seus planos, e não fazer um esforço para salvá-los. Achei que não cometeria nenhuma indignidade colocando-a provisoriamente num dos ataúdes dos antepassados de seu marido, que jazem ainda em chão sagrado. Abrimos um desses ataúdes, retiramos dele o conteúdo e a colocamos onde o senhor viu. Não podíamos, evidentemente, deixar no chão da cripta o conteúdo por nós retirado. Eu e Norlett o transladamos dali, e ele o queimou à noite, no forno central. É essa a minha história, sr. Holmes. Agora, como o senhor me encostou à parede, obrigando-me a contá-la, é para mim um mistério.

Holmes ficou algum tempo em silêncio, refletindo.

— Há uma falha em sua narrativa, Sir Robert — disse ele, por fim. — Suas apostas na corrida, e portanto suas esperanças no futuro, estariam de pé, mesmo que seus credores tocassem na sua herdade.

— O cavalo faz parte da herdade. Que se importam eles com minhas apostas? É mais que provável que não o deixassem correr. Meu principal credor é, infelizmente, meu inimigo mais ferrenho, um grande malandro, Sam Brewer, em quem uma vez fui obrigado a usar o meu chicote, em Newmarket Heath. Acha que ele iria procurar me salvar?

— Bem, Sir Robert — redargüiu Holmes, levantando-se —, este caso tem, por força, de ser levado ao conhecimento da polícia. Minha obrigação era esclarecer os fatos, e aí ela pára. Quanto à moralidade ou decência de seu procedimento, não me compete emitir opinião. É quase meia-noite, Watson, e creio que podemos pensar em regressar à nossa humilde morada.

Agora é do domínio público que este singular episódio teve um final mais feliz do que o mereciam os atos de Sir Robert. O Príncipe de Shoscombe ganhou o Grande Prêmio, o proprietário apurou oitenta mil libras em apostas, os credores entenderam por bem aguardar até o termo da corrida, tendo sido então integralmente pagos, e sobrou ainda bastante para que Sir Robert pudesse levar uma vida decente. Tanto a polícia como o júri consideraram com benignidade a transação, e exceto uma branda censura pela demora em notificar o falecimento da dama, o ditoso proprietário escapou ileso deste estranho incidente, numa carreira que já sobreviveu às suas sombras e promete finalizar em honrada velhice.

1927
Histórias de Sherlock Holmes

1. A pedra Mazarino § 2. A ponte de Thor
3. O homem que andava de rastos § 4. O vampiro de Sussex
5. Os três Garridebs § 6. O cliente ilustre
7. As três empenas § 8. O rosto lívido
9. A juba do leão § 10. Josiah Amberley
11. A inquilina do rosto coberto § 12. O velho solar de Shoscombe

Ilustrações: Frank Wiles, cortesia The Camden House
Transcrição: Mundo Sherlock